{"id":803,"date":"2012-02-07T18:25:15","date_gmt":"2012-02-07T18:25:15","guid":{"rendered":"http:\/\/pequenabiografiadedesejos.com.br\/?page_id=803"},"modified":"2023-11-24T21:10:44","modified_gmt":"2023-11-24T21:10:44","slug":"excertos","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/cezartridapalli.com.br\/?page_id=803","title":{"rendered":"Outras leituras"},"content":{"rendered":"<div class=\"figure aligncenter\" style=\"width:1240px;\"><a href=\"http:\/\/pequenabiografiadedesejos.com.br\/?attachment_id=1099\" rel=\"attachment wp-att-1099\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" title=\"\u00a9 Paulo Henrique Camargo Todos os direitos reservados \/ All rights reserved\" src=\"https:\/\/cezartridapalli.com.br\/wp-content\/uploads\/2012\/02\/DUO_9865-pb.jpg\" alt=\"\u00a9 Paulo Henrique Camargo Todos os direitos reservados \/ All rights reserved\" width=\"1240\" height=\"825\" \/><\/a><div>\u00a9 Paulo Henrique Camargo<br \/>Todos os direitos reservados \/ All rights reserved<\/div><\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #ffffff;\">.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #ffffff;\">.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Ao longo das leituras, algumas passagens sempre deixam marcas, importantes no momento e que continuam a reverberar. N\u00e3o s\u00e3o li\u00e7\u00f5es de vida, nada disso. Sequer concordo com todas elas. S\u00e3o trechos de alguns livros lidos e que fazem pensar usando a beleza, o racioc\u00ednio refinado, e provocam aquela pausa admirativa. Se &#8220;ler&#8221; tem rela\u00e7\u00e3o com &#8220;escolher&#8221; e &#8220;colher&#8221;, uma se\u00e7\u00e3o de excertos parece fazer sentido.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">***<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">1.\u00a0\u201cA cidade se embebe como uma esponja dessa onda que reflui das recorda\u00e7\u00f5es e se dilata\u201d (Italo Calvino, em <em>As cidades invis\u00edveis<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>2. \u201cO olhar percorre as ruas como se fossem p\u00e1ginas escritas\u201d (Italo Calvino, em\u00a0<em>As cidades invis\u00edveis<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>3. \u201cAssumo a minha fraqueza como assumo as minhas tripas\u201d (Virg\u00edlio Ferreira, em <em>Apari\u00e7\u00e3o<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>4. \u201cO sonho, o alarme, o mist\u00e9rio, a presen\u00e7a de n\u00f3s a n\u00f3s pr\u00f3prios, a interroga\u00e7\u00e3o, o mundo submerso da nossa intimidade &#8211; tudo era da vida real, da mat\u00e9ria de que eram feitas as pedras e os cardos\u201d (Virg\u00edlio Ferreira, em\u00a0<em>Apari\u00e7\u00e3o<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>5. \u201cEu, por\u00e9m, n\u00e3o sabia se o entendia bem, porque era poss\u00edvel que eu entendesse nele s\u00f3 o que sabia de mim\u201d (Virg\u00edlio Ferreira, em\u00a0<em>Apari\u00e7\u00e3o<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>6. \u201cPregava-te a vida, mas a vida iluminada at\u00e9 as suas \u00faltimas ra\u00edzes. Ver n\u00e3o era um erro. O que aconteceu \u00e9 que nem todos os olhos aguentam: a cegueira que a\u00ed nasce vem dos olhos, n\u00e3o da verdade\u201d (Virg\u00edlio Ferreira, em\u00a0<em>Apari\u00e7\u00e3o<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>7. \u201cTu julgas que o velho Deus e a viol\u00eancia est\u00fapida da morte e o milagre da vida nunca entraram nas minhas contas. Entraram. Mas agora s\u00e3o como animais familiares. Durmo bem no meio deles\u201d (Virg\u00edlio Ferreira, em\u00a0<em>Apari\u00e7\u00e3o<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>8. \u201cMas, se atrav\u00e9s dos tempos o homem pensasse apenas na utilidade pr\u00e1tica, hoje n\u00e3o seria um homem, seria um parafuso. De resto, os utilit\u00e1rios est\u00e3o lutando contra si: conquistada a base pr\u00e1tica, liquidados, em hip\u00f3tese, os problemas de bem-estar, for\u00e7ada toda a az\u00e1fama ao sil\u00eancio, eis que as flores da solid\u00e3o, da asfixia, brotar\u00e3o com a sua virul\u00eancia clandestina da mis\u00e9ria do homem: a vida estar\u00e1 ent\u00e3o toda ela por conquistar, desde o limiar das origens\u201d (Virg\u00edlio Ferreira, em\u00a0<em>Apari\u00e7\u00e3o<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>9. \u201cAbandonarei o mar, o mar, para vir me afogar dessa maneira no p\u00e2ntano da vida comum\u201d (Luigi Pirandello, em <em>Vestir os nus<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>10. \u201cServir&#8230; obedecer&#8230; n\u00e3o poder ser nada&#8230; Um uniforme de trabalho, j\u00e1 gasto, que todas as noites se pendura num prego na parede. Deus, que coisa angustiante, sentir que ningu\u00e9m no mundo pensa em n\u00f3s\u201d (Luigi Pirandello, em\u00a0<em>Vestir os nus<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>11. \u201cAinda muito jovem, compreendo que os homens se fortalecem pela capacidade de n\u00e3o ver. N\u00e3o ver, n\u00e3o sentir, n\u00e3o pensar: isso \u00e9 a for\u00e7a\u201d (Jos\u00e9 Castello, em <em>Ribamar<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>12. \u201cEsse homem diz coisas maravilhosas, mas n\u00e3o sabe o que diz\u201d (Kafka a Max Brod, sobre um sujeito chamado Fanta Bentrano, em <em>Ribamar<\/em>, de Jos\u00e9 Castello)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>13. \u201cJos\u00e9, o apagado. \u00c9 o padroeiro dos artistas. Faz sentido. O artista \u00e9 aquele que se esquiva para ceder lugar a outro. Anula-se para ser\u201d (Jos\u00e9 Castello, em\u00a0<em>Ribamar<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>14. \u201cLiteratura. \u00danico reduto da linguagem em que errar \u00e9 acertar\u201d (Jos\u00e9 Castello, em\u00a0<em>Ribamar<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>15. \u201cAlgumas pessoas t\u00eam sorte, outros n\u00e3o. Toda a biografia \u00e9 uma quest\u00e3o de chance e, a partir do momento da concep\u00e7\u00e3o, a sorte &#8211; a tirania da conting\u00eancia &#8211; comanda tudo. Acredito que era a isso que o Sr. Cantor se referia ao condenar o que chamava de Deus\u201d (Philip Roth, em <em>N\u00eamesis<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>16. \u201cQueremos apenas ajud\u00e1-los &#8211; diz o velho. &#8211; Por que isso seria humilhante? Nada \u00e9 humilhante, se n\u00e3o quiserem que seja\u201d (Marie Ndiaye, em <em>Cora\u00e7\u00e3o apertado<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>17. \u201cO que h\u00e1 ent\u00e3o que n\u00e3o devo ver de jeito nenhum? (&#8230;) N\u00e3o sabe que sempre quis saber o m\u00ednimo poss\u00edvel do que me assusta?\u201d (Marie Ndiaye, em\u00a0<em>Cora\u00e7\u00e3o apertado<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>18. \u201cTodo esfor\u00e7o de amizade ou de paz com o inimigo \u00e9 interpretado como uma fraqueza\u201d (Marie Ndiaye, em\u00a0<em>Cora\u00e7\u00e3o apertado<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>19. \u201cMas tudo se ajeita amanh\u00e3. Amanh\u00e3 o sol vai ser prop\u00edcio, vai dar vontade de trabalhar. Por\u00e9m, \u00e9 hoje que o tempo passa (&#8230;), amanh\u00e3 ainda n\u00e3o passou\u201d (Dino Buzzati, em <em>Barnabo das montanhas<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>20. \u201cTodo o lar em que as paix\u00f5es atacaram os homens com viol\u00eancia enche-se dessa subst\u00e2ncia tenebrosa\u201d (S\u00e1ndor M\u00e1rai, em <em>As brasas<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>21. \u201cEra como se todas as coisas velhas e mofadas, enterradas h\u00e1 tempos nos cora\u00e7\u00f5es humanos, recome\u00e7assem a viver, como se no cora\u00e7\u00e3o de cada criatura se aninhasse um ritmo mortal que, em dado momento da vida, poderia come\u00e7ar a pulsar com viol\u00eancia implac\u00e1vel\u201d (S\u00e1ndor M\u00e1rai, em\u00a0<em>As brasas<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>22. \u201cEm toda rela\u00e7\u00e3o de poder sempre existe um leve, quase impercept\u00edvel desprezo por quem dominamos. S\u00f3 somos capazes de dominar totalmente o outro se conseguimos conhecer, entender e desprezar com grande tato aquele que ter\u00e1 de se dobrar a n\u00f3s\u201d (S\u00e1ndor M\u00e1rai, em\u00a0<em>As brasas<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>23. \u201cEra como se de repente os objetos tivessem adquirido um sentido, como se quisessem demonstrar que cada coisa no mundo s\u00f3 possui um significado em rela\u00e7\u00e3o aos homens, e s\u00f3 quando se torna parte integrante do destino deles, e de suas a\u00e7\u00f5es\u201d (S\u00e1ndor M\u00e1rai, em\u00a0<em>As brasas<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>24. \u201c\u00c0s perguntas mais importantes sempre terminamos respondendo com nossa vida. O que dizemos nesse meio tempo n\u00e3o tem import\u00e2ncia, nem os termos e argumentos com que nos defendemos. No final de tudo, \u00e9 com os fatos de nossa vida que respondemos \u00e0s indaga\u00e7\u00f5es que o mundo nos faz com tanta insist\u00eancia\u201d (S\u00e1ndor M\u00e1rai, em\u00a0<em>As brasas<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>25. \u201c&#8230; o significado sagrado e simb\u00f3lico do ato de matar, e inclusive seu significado er\u00f3tico oculto\u201d (S\u00e1ndor M\u00e1rai, em\u00a0<em>As brasas<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>26. \u201cN\u00f3s tamb\u00e9m assassinamos, mas de maneira mais complicada, segundo as normas prescritas ou autorizadas pela lei. Matamos em defesa de ideais sublimes e de bens humanos preciosos, matamos para proteger as regras da conviv\u00eancia humana (S\u00e1ndor M\u00e1rai, em\u00a0<em>As brasas<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>27. \u201cMas sangue \u00e9 sujeira?&#8230; N\u00e3o creio. \u00c9 a mat\u00e9ria mais nobre que existe no mundo: toda vez que o homem sentiu necessidade de comunicar ao seu deus algo de grandioso, inef\u00e1vel, sempre o fez oferecendo-lhe um sacrif\u00edcio de sangue\u201d (S\u00e1ndor M\u00e1rai, em\u00a0<em>As brasas<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>28. \u201cPois o cora\u00e7\u00e3o humano tamb\u00e9m tem a sua noite, cheia de emo\u00e7\u00f5es n\u00e3o menos selvagens que o instinto de ca\u00e7a que atormenta o cora\u00e7\u00e3o do cervo macho ou do lobo\u201d (S\u00e1ndor M\u00e1rai, em\u00a0<em>As brasas<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>29. \u201cMas no fundo da alma ocultava um impulso espasm\u00f3dico: o desejo de ser diferente do que era. \u00c9 o tormento mais cruel que o destino pode reservar ao homem. Ser diferente do que somos, de tudo o que somos, \u00e9 o desejo mais nefasto que pode queimar num cora\u00e7\u00e3o humano. Pois a \u00fanica maneira de suportar a vida \u00e9 se conformar em ser o que somos aos nossos olhos e aos do outro (&#8230;). Devemos suportar a trai\u00e7\u00e3o e a infidelidade, e sobretudo a coisa que nos parece mais intoler\u00e1vel: a superioridade intelectual e moral do outro\u201d (S\u00e1ndor M\u00e1rai, em\u00a0<em>As brasas<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>30. \u201cS\u00f3 mais tarde compreendi que quem se refugia com tanta veem\u00eancia na sinceridade \u00e9 porque tem medo: medo de se encontrar um dia com a vida carregada de segredos inconfess\u00e1veis\u201d (S\u00e1ndor M\u00e1rai, em\u00a0<em>As brasas<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>31. \u201cno fundo dessa felicidade tamb\u00e9m percebo uma esp\u00e9cie de ang\u00fastia. Tudo \u00e9 belo demais, sem nenhuma rachadura, perfeito. Uma felicidade t\u00e3o conforme a todas as regras sempre d\u00e1 medo\u201d (S\u00e1ndor M\u00e1rai, em\u00a0<em>As brasas<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>32. \u201cOs homens contribuem para o pr\u00f3prio destino, determinam certos fatos que v\u00e3o acontecer com eles. Chamam o destino, apertam-no contra si e n\u00e3o se separam mais dele. Agem desse modo mesmo sabendo desde o in\u00edcio que esses atos ter\u00e3o resultados nefastos. O homem e seu destino se realizam reciprocamente, moldando-se um no outro\u201d (S\u00e1ndor M\u00e1rai, em\u00a0<em>As brasas<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>33. \u201cPor isso tenho horror \u00e0 m\u00fasica (&#8230;). Odeio essa linguagem melodiosa e incompreens\u00edvel que permite a certas pessoas comunicarem com desenvoltura coisas vagas, ins\u00f3litas\u201d (S\u00e1ndor M\u00e1rai, em\u00a0<em>As brasas<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>34. \u201cUm dia voc\u00ea acorda e esfrega os olhos e n\u00e3o sabe mais por que acordou\u201d (S\u00e1ndor M\u00e1rai, em\u00a0<em>As brasas<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>35. \u201cO homem compreende o mundo um pouco de cada vez, e depois morre\u201d (S\u00e1ndor M\u00e1rai, em\u00a0<em>As brasas<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>36. \u201cSim, teria sido mais decente, mais humano, que uma bala resolvesse o que o tempo n\u00e3o soube resolver\u201d (S\u00e1ndor M\u00e1rai, em\u00a0<em>As brasas<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>37. \u201cE isso porque cinquenta anos s\u00e3o mais do que suficientes, pensei. N\u00f3s nos tornamos vis quando ultrapassamos os cinquenta e continuamos vivendo, existindo. Somos covardes atravessadores de fronteiras, pensei, que nos fazemos duplamente deplor\u00e1veis quando passamos dos cinquenta. Agora sou o desavergonhado, pensei. Senti inveja dos mortos. Por um momento, odiei-os por sua superioridade\u201d (Thomas Bernhard, em <em>O n\u00e1ufrago<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>38. \u201cOs pais sabem muito bem que em seus filhos d\u00e3o continuidade \u00e0 desgra\u00e7a que eles pr\u00f3prios s\u00e3o; agem com crueldade ao fazer os filhos e lan\u00e7\u00e1-los na m\u00e1quina da exist\u00eancia\u201d (Thomas Bernhard, em\u00a0<em>O n\u00e1ufrago<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>39. \u201cMeu desejo era ficar sentado na igreja at\u00e9 cair morto, disse. Mas n\u00e3o consegui, nem mesmo me concentrando totalmente no meu desejo\u201d (Thomas Bernhard, em\u00a0<em>O n\u00e1ufrago<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>40. \u201cMas as pessoas simples n\u00e3o entendem as complicadas\u201d (Thomas Bernhard, em\u00a0<em>O n\u00e1ufrago<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>41. \u201cEra a infelicidade humana que o fascinava; n\u00e3o eram os homens em si que o atra\u00edam, mas sua infelicidade, e esta podia ser encontrada onde quer que existissem seres humanos\u201d (Thomas Bernhard, em\u00a0<em>O n\u00e1ufrago<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>42. \u201cNa teoria, n\u00f3s entendemos as pessoas, mas na pr\u00e1tica n\u00e3o as suportamos, pensei; na maioria das vezes, nos relacionamos com elas apenas a contragosto e as tratamos sempre do nosso ponto de vista\u201d (Thomas Bernhard, em\u00a0<em>O n\u00e1ufrago<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>43. \u201cO trato com os livros exige certo sedentarismo, certo n\u00edvel indispens\u00e1vel de aburguesamento\u201d (Roberto Bola\u00f1o, em <em>Estrela distante<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>44. Era \u201ccomo se por tr\u00e1s dos olhos existisse um outro par de olhos\u201d (Roberto Bola\u00f1o, em\u00a0<em>Estrela distante<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>45. \u201cEsta \u00e9 a minha \u00faltima transmiss\u00e3o a partir do planeta dos monstros. N\u00e3o mergulharei nunca mais no mar de merda da literatura. De agora em diante, escreverei meus poemas com humildade e trabalharei para n\u00e3o morrer de fome e n\u00e3o tentarei publicar nada\u201d (Roberto Bola\u00f1o, em\u00a0<em>Estrela distante<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>46. \u201cQuem sonha sempre acorda antes do seu desenlace, como se o impulso on\u00edrico se esgotasse na representa\u00e7\u00e3o dos pormenores e se desinteressasse pelo resultado, como se a atividade de sonhar fosse a \u00fanica ainda ideal e sem objetivo\u201d (Javier Mar\u00edas, em <em>O homem sentimental<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>47. Sobre o casamento: \u201cn\u00e3o consangu\u00edneos que se atrevem a se ver diariamente\u201d (Javier Mar\u00edas, em\u00a0<em>O homem sentimental<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>48. \u201cVai se sentar num caixote virado. Ver\u00e1 a silhueta das montanhas. Estrelas. A luz bruxuleante das janelas. Um est\u00fapido sinal de tr\u00e2nsito mais e mais uma vez a amarelecer avermelhar esverdear ali sem qualquer finalidade. Long\u00ednquos latidos de c\u00e3es e um leve cheiro de esgoto. Por que escrever sobre todas essas coisas? Elas existem e continuar\u00e3o a existir quer voc\u00ea escreva sobre elas quer n\u00e3o, quer voc\u00ea esteja aqui quer n\u00e3o esteja\u201d (Am\u00f3s Oz, em <em>Rimas da vida e da morte<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>49. \u201cUma das miss\u00f5es da literatura era \u00e0s vezes destilar da mis\u00e9ria e do sofrimento ao menos uma pitada de consolo ou um pequeno lampejo de benevol\u00eancia\u201d (Am\u00f3s Oz, em\u00a0<em>Rimas da vida e da morte<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>50. A ideia de que o universo tem um prop\u00f3sito pode ser perigosa: \u201c\u2018Prop\u00f3sito\u2019 invoca imagens de fanatismo. Uma vez que as pessoas se convencem de que foram postas na Terra para servir como instrumento em algum plano divino, parece n\u00e3o haver limite para as monstruosidades que elas est\u00e3o dispostas a cometer para executar esse plano\u201d (Robert L. Parker, em <em>Supersti\u00e7\u00e3o <\/em>&#8211; cren\u00e7as na era da ci\u00eancia)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>51. \u201cQuanto mais o universo parece compreens\u00edvel, mais ele parece n\u00e3o ter sentido\u201d (Steven Weinberg, apud.\u00a0Robert L. Parker, em\u00a0<em>Supersti\u00e7\u00e3o <\/em>&#8211; cren\u00e7as na era da ci\u00eancia)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>52. D\u00favidas sobre o poder da ora\u00e7\u00e3o: \u201cSaber quem \u00e9 essa divindade importa? Importa se a ora\u00e7\u00e3o \u00e9 feita de joelhos? Ser\u00e1 que a prece dirigida a um cavalo, no hip\u00f3dromo, obt\u00e9m a mesma aten\u00e7\u00e3o divina de uma ora\u00e7\u00e3o pela paz mundial?\u201d (Robert L. Parker, em\u00a0<em>Supersti\u00e7\u00e3o <\/em>&#8211; cren\u00e7as na era da ci\u00eancia)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>53. \u201cO impulso sexual humano foi moldado pela evolu\u00e7\u00e3o para assegurar a procria\u00e7\u00e3o, e isso funciona extraordinariamente bem. Com os desencadeadores corretos, praticamente todo o mundo, incluindo os presidentes dos Estados Unidos e proeminentes l\u00edderes religiosos arriscar\u00e1 tudo por um encontro sexual proibido\u201d (Robert L. Parker, em\u00a0<em>Supersti\u00e7\u00e3o <\/em>&#8211; cren\u00e7as na era da ci\u00eancia)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>54. \u201cFa\u00e7a essa pergunta a voc\u00ea mesmo. N\u00f3s temos que ser humanos pra sempre? A consci\u00eancia se esgotou. Agora \u00e9 voltar pra mat\u00e9ria inorg\u00e2nica. \u00c9 isso que n\u00f3s queremos. Queremos ser pedras num campo\u201d (Don Delillo, em <em>Ponto \u00d4mega<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>55. \u201cSeu olhar parecia encurtado, n\u00e3o chegava at\u00e9 a parede ou a janela. Olhar para ela me perturbava, por saber que ela n\u00e3o se sentia observada. Onde estaria ela? N\u00e3o estava imersa em pensamentos nem lembran\u00e7as, n\u00e3o estava planejando a pr\u00f3xima hora nem o pr\u00f3ximo minuto. Estava ausente, tensamente imobilizada por dentro\u201d (Don Delillo, em\u00a0<em>Ponto \u00d4mega<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>56. \u201cTodo o momento perdido \u00e9 a vida\u201d (Don Delillo, em\u00a0<em>Ponto \u00d4mega<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>57. \u201cVoc\u00ea entende, n\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o de estrat\u00e9gia. N\u00e3o estou falando em segredos, em mentiras. Estou falando em ser voc\u00ea mesmo. Se voc\u00ea revela tudo, cada sentimento, pedindo compreens\u00e3o, voc\u00ea perde uma coisa crucial pra sua autoconsci\u00eancia. Voc\u00ea tem que saber coisas que os outros n\u00e3o sabem. \u00c9 o que ningu\u00e9m sabe sobre voc\u00ea que permite que voc\u00ea se conhe\u00e7a\u201d (Don Delillo, em\u00a0<em>Ponto \u00d4mega<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>58. \u201cEram pessoas normais at\u00e9 o ponto em que se pode ser normal sem deixar de ser normal\u201d (Don Delillo, em\u00a0<em>Ponto \u00d4mega<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>59. \u201cN\u00e3o era o tipo de crian\u00e7a que precisava de um amigo imagin\u00e1rio. Ela mesma era imagin\u00e1ria para si pr\u00f3pria\u201d (Don Delillo, em\u00a0<em>Ponto \u00d4mega<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>60. \u201cQuantos come\u00e7os at\u00e9 que voc\u00ea veja a mentira que h\u00e1 no seu entusiasmo? (&#8230;) Estaremos aqui tal como est\u00e3o as moscas e os ratos, localizados, sem ver e sem saber nada sen\u00e3o aquilo que a nossa natureza acanhada permite\u201d (Don Delillo, em\u00a0<em>Ponto \u00d4mega<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>61. \u201cSe meus pais descobriam que algum membro do seu c\u00edrculo social nutria sentimentos religiosos clandestinos, eles passavam a destinar-lhe o tipo de piedade normalmente reservada \u00e0queles diagnosticados com uma doen\u00e7a degenerativa e nunca mais seriam persuadidos a considerar aquela pessoa seriamente\u201d (Alain de Botton, em <em>Religi\u00e3o para ateus<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>62. \u201cEstamos fartos de ser deixados \u00e0 vontade para fazer o que quisermos sem dispor de sabedoria suficiente para explorar nossa liberdade\u201d (Alain de Botton, em\u00a0<em>Religi\u00e3o para ateus<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>63. \u201cSe tendemos a pensar com tanta frequ\u00eancia em desinfetantes com fragr\u00e2ncia de lim\u00e3o ou batatinhas onduladas, mas dedicamos pouco tempo \u00e0 toler\u00e2ncia ou \u00e0 justi\u00e7a, a culpa n\u00e3o \u00e9 somente nossa. \u00c9 porque, em geral, essas duas virtudes cardinais n\u00e3o se encontram em posi\u00e7\u00e3o de se tornar clientes da ag\u00eancia de publicidade Young &amp; Rubicom\u201d (Alain de Botton, em\u00a0<em>Religi\u00e3o para ateus<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>64. \u201cN\u00f3s nos sentimos culpados por tudo o que ainda n\u00e3o lemos, mas deixamos de notar que j\u00e1 lemos muito mais que Agostinho ou Dante, ignorando, desse modo, que o problema est\u00e1 sem d\u00favida em nossa maneira de assimilar, n\u00e3o na extens\u00e3o de nosso consumo\u201d (Alain de Botton, em\u00a0<em>Religi\u00e3o para ateus<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>65. \u201cA conten\u00e7\u00e3o como base para a imers\u00e3o\u201d (Alain de Botton, em\u00a0<em>Religi\u00e3o para ateus<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>66. \u201cO ponto apropriado n\u00e3o \u00e9 se a Virgem existe, mas o que nos diz sobre a natureza humana o fato de tantos crist\u00e3os, ao longo de dois mil anos, sentirem vontade de invent\u00e1-la\u201d (Alain de Botton, em\u00a0<em>Religi\u00e3o para ateus<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>67. \u201cEm contraste com a religi\u00e3o, o ate\u00edsmo \u00e9 propenso a parecer friamente impaciente com a nossa car\u00eancia\u201d (Alain de Botton, em\u00a0<em>Religi\u00e3o para ateus<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>68. \u201cNo fervor de atacar crentes cujas fragilidades os levaram a abra\u00e7ar o sobrenatural, os ateus podem negar a fragilidade, que \u00e9 uma caracter\u00edstica inevit\u00e1vel da nossa vida. Podem rotular como infantis necessidades particulares que, na verdade, deveriam ser enaltecidas como humanas, pois n\u00e3o existe maturidade sem uma negocia\u00e7\u00e3o adequada com o infantil e tampouco um adulto que, regularmente, n\u00e3o anseie ser confortado como uma crian\u00e7a\u201d (Alain de Botton, em\u00a0<em>Religi\u00e3o para ateus<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>69. \u201cSomos jogados na tristeza n\u00e3o tanto pela negatividade, mas pela esperan\u00e7a. \u00c9 a esperan\u00e7a &#8211; em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 carreira, \u00e0 vida amorosa, aos filhos, aos pol\u00edticos, ao planeta &#8211; que deve ser primariamente culpada por nos enfurecer e amargar\u201d (Alain de Botton, em\u00a0<em>Religi\u00e3o para ateus<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>70. \u201cEssa n\u00e3o \u00e9 uma posi\u00e7\u00e3o pela qual o mundo moderno revela muita solidariedade, pois uma das caracter\u00edsticas dominantes do mundo, e certamente seu maior defeito, \u00e9 o otimismo\u201d (Alain de Botton, em\u00a0<em>Religi\u00e3o para ateus<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>71. \u201cUma vis\u00e3o de mundo pessimista n\u00e3o precisa envolver uma vida desprovida de alegria. Os pessimistas podem ter uma capacidade muito maior de aprecia\u00e7\u00e3o que os otimistas, porque nunca esperam que as coisas deem certo e, assim, podem se surpreender pelo modesto sucesso que ocasionalmente cruza seus horizontes sombrios. Os otimistas seculares contempor\u00e2neos, por outro lado, com seu senso de prerrogativas bem desenvolvido, em geral n\u00e3o conseguem saborear nenhuma epifania da vida cotidiana enquanto se ocupam da constru\u00e7\u00e3o do para\u00edso terreno\u00a0(Alain de Botton, em\u00a0<em>Religi\u00e3o para ateus<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>72. \u201cEm vez de tentar corrigir as humilha\u00e7\u00f5es insistindo na nossa import\u00e2ncia equivocada, dever\u00edamos tentar aprender e apreciar nossa insignific\u00e2ncia essencial\u201d (Alain de Botton, em\u00a0<em>Religi\u00e3o para ateus<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>73. \u201cAs avalia\u00e7\u00f5es pouco solid\u00e1rias que fazemos de outras pessoas em geral s\u00e3o resultado de nada mais que o h\u00e1bito sinistro de olhar para eles de maneira errada, atrav\u00e9s das lentes emba\u00e7adas pela distra\u00e7\u00e3o, pela exaust\u00e3o e pelo medo, o que nos cega para o fato de que s\u00e3o, na verdade e apesar de mil diferen\u00e7as, apenas vers\u00f5es alteradas de n\u00f3s mesmos: seres fr\u00e1geis, inseguros e imperfeitos que tamb\u00e9m desejam amor e t\u00eam uma necessidade urgente de perd\u00e3o\u201d (Alain de Botton, em\u00a0<em>Religi\u00e3o para ateus<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>74. \u201cIndependente do que as democracias modernas possam dizer a si mesmas sobre seu compromisso com a liberdade de express\u00e3o e com a diversidade de opini\u00f5es, os valores de uma sociedade corresponder\u00e3o \u00e0queles das organiza\u00e7\u00f5es que podem pagar por an\u00fancios de trinta segundos durante os telejornais noturnos\u201d (Alain de Botton, em\u00a0<em>Religi\u00e3o para ateus<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>75. \u201cAqueles de n\u00f3s que n\u00e3o t\u00eam religi\u00e3o nem cren\u00e7as sobrenaturais ainda precisam de encontros regulares e ritualizados com conceitos como amizade, comunidade, gratid\u00e3o e transcend\u00eancia. N\u00e3o podemos depender de nossa capacidade de chegar a eles sozinhos\u201d (Alain de Botton, em\u00a0<em>Religi\u00e3o para ateus<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>76. \u201cAlguns mil\u00eanios fazem maravilhas para dar credibilidade a uma ideia extravagante\u201d (Alain de Botton, em\u00a0<em>Religi\u00e3o para ateus<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>77. \u201cAs religi\u00f5es s\u00e3o intermitentemente \u00fateis, eficazes e inteligentes demais para ser deixadas somente para os religiosos\u201d (Alain de Botton, em\u00a0<em>Religi\u00e3o para ateus<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>78. \u201cNuma sala branca silenciosa com piso de concreto polido quase qualquer coisa pode parecer arte\u201d (Michael Cunningham, em <em>Ao anoitecer<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>79. \u201cO \u00fanico destino pior do que continuar juntos seria cada um deles tentar viver sozinho\u201d (Michael Cunningham, em\u00a0<em>Ao anoitecer<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>80. \u201cAh, homenzinho, voc\u00ea derrubou a casa n\u00e3o por paix\u00e3o, mas por neglig\u00eancia. Voc\u00ea, que ousou pensar em si mesmo como algu\u00e9m perigoso. Voc\u00ea \u00e9 culpado n\u00e3o da \u00e9pica transgress\u00e3o, mas de crimes min\u00fasculos. Voc\u00ea fracassou do jeito mais baixo e humano: voc\u00ea n\u00e3o imaginou a vida dos outros\u201d (Michael Cunningham, em\u00a0<em>Ao anoitecer<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>81. \u201cN\u00e3o h\u00e1 ningu\u00e9m l\u00e1 para ver isso. O mundo est\u00e1 fazendo o que sempre faz, demonstrando-se para si mesmo. O mundo n\u00e3o tem nenhum interesse em pequenas figuras que v\u00e3o e v\u00eam, os fantasmas que se preocupam e veneram, que rastelam os caminhos de cascalho e constroem um fortuito jardim de rochas, o menino-homem de bronze, a ta\u00e7a marchetada em cujo interior a neve vai cair\u201d (Michael Cunningham, em\u00a0<em>Ao anoitecer<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>82. \u201cComo eu seria feliz se fosse feliz\u201d (Woddy Allen)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>83. \u201cS\u00f3 se espera o que n\u00e3o se tem. Quando algu\u00e9m espera ser feliz \u00e9 que a felicidade est\u00e1 ausente. Quando ela est\u00e1 presente, ao contr\u00e1rio, o que lhe resta esperar?\u201d Para que ter esperan\u00e7a? Melhor ser um desesperado feliz! \u201cA felicidade? Seria ter o que desejamos. Mas como, se o desejo \u00e9 car\u00eancia? Se s\u00f3 desejamos o que n\u00e3o temos, nunca temos o que desejamos. Eis-nos separados da felicidade pela pr\u00f3pria esperan\u00e7a que a persegue\u201d. Enfim, como diz o <em>Samkhya Sutra<\/em>, \u201csomente o desesperado \u00e9 feliz porque a esperan\u00e7a \u00e9 a maior tortura, e o desespero a maior felicidade\u201d (Andr\u00e9 Comte-Sponville, em <em>O esp\u00edrito do ate\u00edsmo<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>84. \u201cO homem n\u00e3o \u00e9 entranhadamente mau. Ele \u00e9 entranhadamente med\u00edocre, mas n\u00e3o tem culpa disso. Ele faz o que pode com o que tem ou o que \u00e9, e ele n\u00e3o \u00e9 grande coisa, e n\u00e3o pode muito\u201d (Andr\u00e9 Comte-Sponville, em\u00a0<em>O esp\u00edrito do ate\u00edsmo<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>85. \u201cComo animais produzidos pela natureza, n\u00e3o somos de todo desprovidos de qualidades e de m\u00e9ritos. Partimos de t\u00e3o baixo! Quem poderia adivinhar, cem mil anos atr\u00e1s, que aquelas esp\u00e9cies de grandes s\u00edmios iriam \u00e0 Lua, gerariam Michelangelo e Mozart, Shakespeare e Einstein, que inventariam os direitos humanos e at\u00e9 os direitos dos animais? N\u00f3s lutamos, por exemplo, para proteger as baleias e os elefantes. Temos raz\u00e3o. Mas imaginem que a humanidade se torne, isso talvez venha a acontecer, uma esp\u00e9cie em extin\u00e7\u00e3o: baleias e elefantes n\u00e3o levantariam a nadadeira ou a tromba para nos preservar. A ecologia \u00e9 pr\u00f3pria do homem (sim, apesar da polui\u00e7\u00e3o, ou antes, por causa dela), e os direitos dos animais, inclusive, s\u00f3 existem para os humanos. Isso diz muito sobre a esp\u00e9cie\u201d (Andr\u00e9 Comte-Sponville, em\u00a0<em>O esp\u00edrito do ate\u00edsmo<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>86. \u201cO mesmo <em>homo sapiens<\/em>, que n\u00e3o seria mais que uma imita\u00e7\u00e3o grotesca de Deus, \u00e9 o mais extraordin\u00e1rio, de longe, de todos os animais: ele tem um c\u00e9rebro espantosamente complexo e eficiente; \u00e9 capaz de amor, de revolta, de cria\u00e7\u00e3o; inventou as ci\u00eancias e as artes, a moral e o direito, a religi\u00e3o e a irreligi\u00e3o, a filosofia e o humor, a gastronomia e o erotismo&#8230; N\u00e3o \u00e9 pouco! O que ele fez de melhor, nenhum animal teria feito. O que ele fez de pior, tamb\u00e9m n\u00e3o. Isso diz bastante sobre sua singularidade (Andr\u00e9 Comte-Sponville, em\u00a0<em>O esp\u00edrito do ate\u00edsmo<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>87. \u201cO ate\u00edsmo (&#8230;) \u00e9 uma forma de humildade. Somos filhos da terra (<em>h\u00famus<\/em>, de onde vem &#8216;humildade&#8217;), e d\u00e1 para sentir essa filia\u00e7\u00e3o&#8230; mais vale assumi-la e inventar o c\u00e9u que corresponda a ela (Andr\u00e9 Comte-Sponville, em\u00a0<em>O esp\u00edrito do ate\u00edsmo<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>88. Desejamos \u201cprimeiro, n\u00e3o morrer, ou n\u00e3o completamente, ou n\u00e3o definitivamente; depois, encontrar os seres queridos que perdemos; que a justi\u00e7a e a paz terminem por triunfar; enfim, e talvez principalmente, ser amados\u201d (Andr\u00e9 Comte-Sponville, em\u00a0<em>O esp\u00edrito do ate\u00edsmo<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>89. \u201cSeria sem d\u00favida muito bom se houvesse um Deus criador do mundo e uma Provid\u00eancia cheia de bondade, uma ordem moral do universo e uma vida depois da morte, entretanto \u00e9 muito curioso que tudo isso \u00e9 exatamente o que poder\u00edamos desejar a n\u00f3s mesmos\u201d (Sigmund Freud, em <em>O futuro de uma ilus\u00e3o<\/em>);<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>90. \u201cQuem n\u00e3o espera o triunfo final da justi\u00e7a e da paz? Quem n\u00e3o deseja ser amado? Quem n\u00e3o desejaria a vit\u00f3ria definitiva da vida sobre a morte? Se dependesse de mim, pode ter certeza de que Deus existiria faz tempo!\u201d (Andr\u00e9 Comte-Sponville, em\u00a0<em>O esp\u00edrito do ate\u00edsmo<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>91. \u201cEnquanto nos escapa, o objeto de nossos desejos nos parece superior a todo resto; quando obtemos, desejamos outra coisa, e a mesma sede de vida nos excita sempre\u201d (Lucr\u00e9cio)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">92.\u00a0\u201cA inf\u00e2ncia \u00e9 a esta\u00e7\u00e3o da maldade\u201d (Jos\u00e9 Eduardo Agualusa, em <em>A esta\u00e7\u00e3o das chuvas<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">93.\u00a0\u201cAs not\u00edcias sobre crian\u00e7as que matam ou torturam outras crian\u00e7as n\u00e3o me surpreendem. Admira-me, sim, que este fen\u00f3meno n\u00e3o seja mais vasto. Os grandes torturadores, e eu conheci alguns (&#8230;), s\u00e3o quase sempre homens que n\u00e3o tiveram inf\u00e2ncia e por isso a exercem mais tarde\u201d (Jos\u00e9 Eduardo Agualusa, em\u00a0<em>A esta\u00e7\u00e3o das chuvas<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>94.\u00a0\u201cO meu av\u00f4 (&#8230;) ensinou-me a ser c\u00e9tica. Sobretudo, ensinou-me a desconfiar dos iluminados, daqueles que conhecem os destinos do mundo. Dizia-me: \u2018As asas acontecem tanto aos anjos, quanto aos dem\u00f3nios, quanto \u00e0s ganlinhas. Por precau\u00e7\u00e3o, o melhor \u00e9 tratar a todos como se fossem galinhas\u2019\u201d (Jos\u00e9 Eduardo Agualusa, em\u00a0<em>A esta\u00e7\u00e3o das chuvas<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>95.\u00a0\u201cEm crian\u00e7a tirei um p\u00e1ssaro de dentro de uma pequena gaiola. O p\u00e1ssaro n\u00e3o voou. Ficou ali andando aos c\u00edrculos, aos c\u00edrculos, aterrorizado com a largueza do mundo e a responsabilidade enorme de ter de sobreviver por si. Quando me libertaram eu me senti assim. Vagueava pelas ruas sem rumo certo. Tamb\u00e9m tinha dificuldade em reconhecer as coisas e as pessoas. Aquela cidade j\u00e1 n\u00e3o pertencia ao meu organismo, era uma pr\u00f3tese\u201d (Jos\u00e9 Eduardo Agualusa, em\u00a0<em>A esta\u00e7\u00e3o das chuvas<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>96.\u00a0\u201cEu sou como o capim, n\u00e3o dou fruto, nem sombra fa\u00e7o. E nesta terra isso \u00e9 uma coisa boa. Ningu\u00e9m repara em n\u00f3s\u201d (Jos\u00e9 Eduardo Agualusa, em\u00a0<em>A esta\u00e7\u00e3o das chuvas<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>97.\u00a0\u201cMais pr\u00e1tico que morrer \u00e9 nunca ter existido\u201d (Jos\u00e9 Eduardo Agualusa, em\u00a0<em>A esta\u00e7\u00e3o das chuvas<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>98.\u00a0\u201cN\u00e3o me leves muito a s\u00e9rio. O cora\u00e7\u00e3o dos velhos \u00e9 um mineral amargo\u201d (Jos\u00e9 Eduardo Agualusa, em\u00a0<em>A esta\u00e7\u00e3o das chuvas<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>99.\u00a0\u201cFalo de como estamos por dentro: de joelhos\u201d (Jos\u00e9 Eduardo Agualusa, em\u00a0<em>A esta\u00e7\u00e3o das chuvas<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>100.\u00a0\u201cNunca vou me acostumar com coisa nenhuma. Quem se acostuma est\u00e1 morto, e n\u00e3o sabe\u201d (Truman Capote, em <em>Bonequinha de luxo<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>101.\u00a0\u201cAs conversas que ela come\u00e7ava pareciam madeira verde, soltavam fuma\u00e7a mas n\u00e3o pegavam fogo\u201d (Truman Capote, em\u00a0<em>Bonequinha de luxo<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>102.\u00a0\u201cO gim est\u00e1 para o artif\u00edcio assim como as l\u00e1grimas est\u00e3o para a maquiagem\u201d(Truman Capote, em\u00a0<em>Bonequinha de luxo<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>103.\u00a0\u201cO car\u00e1ter delas fora moldado cedo demais, o que, como o enriquecimento s\u00fabito, provoca certo desequil\u00edbrio\u201d (Truman Capote, em\u00a0<em>Bonequinha de luxo<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>104.\u00a0\u201c\u2018Acredita no que estou dizendo?\u2018 Acreditava. Era inacredit\u00e1vel demais para n\u00e3o ser verdade\u201d (Truman Capote, em\u00a0<em>Bonequinha de luxo<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>105.\u00a0\u201cOs rel\u00f3gios ficam lerdos no domingo\u201d (Truman Capote, em\u00a0<em>Bonequinha de luxo<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>106.\u00a0\u201cN\u00e3o ame nunca um bicho selvagem, Sr. Bell (&#8230;). Esse foi o erro de Doc. Sempre voltava de casa com alguma coisinha selvagem. Um falc\u00e3o de asa machucada. At\u00e9 um lince crescido com pata quebrada. Mas n\u00e3o d\u00e1 para entregar o cora\u00e7\u00e3o a um bicho desses: quanto mais voc\u00ea d\u00e1, mais forte ele fica. At\u00e9 que fica forte o bastante para voltar para o mato. Ou para voar at\u00e9 uma \u00e1rvore, depois para outra mais alta, depois para o c\u00e9u. \u00c9 assim que acaba, Sr. Bell. Se a gente amar um bicho selvagem, vai acabar olhando para o c\u00e9u\u201d (Truman Capote, em\u00a0<em>Bonequinha de luxo<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>107.\u00a0\u201cQualquer um deveria poder casar com um homem ou uma mulher &#8211; escute, se voc\u00ea viesse me dizer que queria juntar os trapinhos com o garanh\u00e3o Man O\u2019War, eu iria respeitar seus sentimentos. \u00c9 s\u00e9rio. O amor deveria ser livre. Sou totalmente a favor. Agora que fa\u00e7o uma boa ideia do que \u00e9 amar (Truman Capote, em\u00a0<em>Bonequinha de luxo<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>108.\u00a0\u201cA verdade \u00e9 que as coisas boas s\u00f3 acontecem se a gente for uma boa pessoa. Boa, n\u00e3o, honesta \u00e9 melhor. N\u00e3o honesta no que diz respeito \u00e0 lei &#8211; eu violaria um t\u00famulo e roubaria os olhos do morto se isso servisse para melhorar o dia -, mas honesta consigo mesma (Truman Capote, em\u00a0<em>Bonequinha de luxo<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>109.\u00a0\u201cAquela doce profundidade em que duas pessoas se comunicam mais em sil\u00eancio do que com palavras: uma calma afetuosa toma o lugar das tens\u00f5es, do falat\u00f3rio e da brigalhada sem fim que produzem os momentos mais vistosos, mais superficialmente dram\u00e1ticos de uma amizade (Truman Capote, em\u00a0<em>Bonequinha de luxo<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>110.\u00a0\u201cHolly Golightly, antes de ler uma carta importante: \u2018voc\u00ea pode abrir aquela gaveta e me passar a bolsa? Uma garota n\u00e3o pode ler uma coisa dessas assim, sem batom\u2019\u201d (Truman Capote, em\u00a0<em>Bonequinha de luxo<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>111.\u00a0\u201cO que \u00e9 que voc\u00ea sente quando est\u00e1 apaixonada?, ela perguntava. Ah, Rosita dizia com os olhos desfalecentes, parece que botaram pimenta no cora\u00e7\u00e3o, parece que tem uns peixinhos nadando na veias\u201d (Truman Capote, em \u201cUma casa de flores\u201d)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>112.\u00a0\u201cAt\u00e9 ent\u00e3o, n\u00e3o se sentira solit\u00e1rio. Agora, reconhecendo a sua solid\u00e3o, sentia-se vivo\u201d (Truman Capote, em \u201cUm viol\u00e3o de diamante\u201d)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>113.\u00a0\u201cJ\u00e1 \u00e9 ruim ter que viver sem alguma coisa que a gente quer; mas, arre, o que me tira do s\u00e9rio \u00e9 n\u00e3o poder dar a algu\u00e9m uma coisa que a gente quer que o outro tenha\u201d (Truman Capote, em \u201cMem\u00f3ria de um Natal\u201d)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>114.\u00a0\u201cEu, por mim, poderia partir deste mundo com o dia de hoje nos olhos\u201d (Truman Capote, em \u201cMem\u00f3ria de um Natal\u201d)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>115.\u00a0\u201cLevante-se e escreva. Vamos! Divers\u00e3o infeliz dos poetas falidos. A l\u00edngua d\u00e9bil da mem\u00f3ria esfor\u00e7ava-se por capturar insetos de met\u00e1foras\u201d (Assionara Souza, em <em>Os h\u00e1bitos e os monges<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>116.\u00a0\u201cFechou os olhos sem dormir. Mirou-se aflito por dentro da alma escura. Noite ap\u00f3s noite: Noite\u201d (Assionara Souza, em\u00a0<em>Os h\u00e1bitos e os monges<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>117.\u00a0\u201cOntem a chuva lavou as pedras, mas n\u00e3o os desejos\u201d (Assionara Souza, em\u00a0<em>Os h\u00e1bitos e os monges<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>118.\u00a0\u201cSou a favor de armas, desde que os idiotas realmente se suicidem\u201d (Assionara Souza, em\u00a0<em>Os h\u00e1bitos e os monges<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>119.\u00a0Vamos, garoto, recite o poema! Se a c\u00f3lera espuma a dor que mora n\u2019alma. A vida em constante manifestar-se. \u00c9 como eu digo pra voc\u00eas, meus amigos. Diante do mar: valeu a pena? Sil\u00eancio na sala de aula. Todos dormem (Assionara Souza, em\u00a0<em>Os h\u00e1bitos e os monges<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>120.\u00a0\u201cHoje, por decis\u00e3o, come\u00e7o a envelhecer\u201d (Assionara Souza, em\u00a0<em>Os h\u00e1bitos e os monges<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">121. \u201c- Ainda existe alguma coisa pela qual valha a pena morrer? \/ O colega Estacou um instante. \/ &#8211; A vida &#8211; respondeu.\u201d (Otto Leopoldo Wick, em <em>Jaboc<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">122.\u00a0\u201cVoltei de uma festa. Um baile de fantasia, \u00e9 melhor dizer. Todo mundo de m\u00e1scara. Agora todos dormem, todos podem dormir. Desatarraxaram as m\u00e1scaras e no escuro n\u00e3o h\u00e1 o perigo de descobrirem que n\u00e3o t\u00eam rosto. Eu n\u00e3o: arranquei a minha no espelho e me contemplei longamente\u201d (Otto Leopoldo Wick, em\u00a0<em>Jaboc<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>123. \u201cContra os moinhos de vento, a imaterialidade do discurso\u201d (Otto Leopoldo Wick, em\u00a0<em>Jaboc<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>124. \u201cMetaf\u00edsica, poesia, \u00f3pera, medita\u00e7\u00e3o, bronha, aguardente &#8211; tudo por causa de um torcicolo, um mau jeito, uma luxa\u00e7\u00e3o na alma\u201d (Otto Leopoldo Wick, em\u00a0<em>Jaboc<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>125.\u00a0\u201cN\u00e3o tem car\u00e1ter, porque ainda nem sabe o que \u00e9 isso. Decerto, nunca refletiu sobre a vida, e para qu\u00ea?\u201d (Robert Walser, em<em> Jakob Von Guntem, um di\u00e1rio<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>126. \u201cComo se \u00e9 infantil quando se tem medo. N\u00e3o h\u00e1 comportamento pior que aquele ditado pela desconfian\u00e7a e pela ignor\u00e2ncia\u201d\u00a0(Robert Walser, em<em> Jakob Von Guntem, um di\u00e1rio<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>127. \u201cQue eu seja o mais inteligente de todos nem \u00e9 feito, talvez, que proporcione grande satisfa\u00e7\u00e3o. De que adiantam pensamentos e ideias quando se tem, como eu, a sensa\u00e7\u00e3o de n\u00e3o saber o que fazer com eles?\u201d (Robert Walser, em<em> Jakob Von Guntem, um di\u00e1rio<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>128. \u201cNada me agita mais profundamente que a vis\u00e3o e o odor da bondade e da probidade. O sentimento das coisas vis e m\u00e1s logo se esgota, mas compreender o valoroso e o nobre \u00e9 t\u00e3o dif\u00edcil quanto atraente\u201d (Robert Walser, em<em> Jakob Von Guntem, um di\u00e1rio<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>129. \u201cA interdi\u00e7\u00e3o de certas coisas \u00e9 por vezes t\u00e3o encantadora que n\u00e3o se tem como n\u00e3o faz\u00ea-las. \u00c9 por isso que todo tipo de obriga\u00e7\u00e3o me \u00e9 cara: porque nos possibilita a alegria da transgress\u00e3o. Se n\u00e3o houvesse nenhum mandamento nesse mundo, nenhuma obriga\u00e7\u00e3o, eu morreria, pereceria de inani\u00e7\u00e3o, me estropiaria de t\u00e9dio. Que me incitem, pois, que me obriguem e tutelem. Acho absolutamente ador\u00e1vel. No fim, quem decide sou eu, e ningu\u00e9m mais\u201d (Robert Walser, em<em> Jakob Von Guntem, um di\u00e1rio<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>130. Consegue imaginar a fala desse sujeito? \u201cDo meu colega Fuchs, tenho apenas uma coisa a dizer: \u00e9 um sujeito obl\u00edquo, tortuoso. Fala como quem executa uma cambalhota malsucedida\u201d (Robert Walser, em<em> Jakob Von Guntem, um di\u00e1rio<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>131. \u201cAs hist\u00f3rias familiares se parecem, dissera ela, os personagens se reproduzem e superp\u00f5em &#8211; sempre h\u00e1 um tio que \u00e9 um estroina, uma apaixonada que fica solteira, h\u00e1 sempre um louco, um ex-alco\u00f3latra, um primo que gosta de se vestir de mulher nas festas, um fracassado, um vencedor, um suicida\u201d (Ricardo Piglia, em <em>Alvo Noturno<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>132. \u201cO senhor v\u00ea campos cultivados, desertos, cidades, f\u00e1bricas, mas o cora\u00e7\u00e3o secreto das pessoas \u00e9 uma coisa que n\u00e3o se entende nunca. E isso \u00e9 incr\u00edvel porque somos policiais. Ningu\u00e9m est\u00e1 em melhor situa\u00e7\u00e3o para ver os extremos da mis\u00e9ria e da loucura\u201d\u00a0(Ricardo Piglia, em\u00a0<em>Alvo Noturno<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>133. \u201cPor outro lado, possivelmente fossem uma seita de comedores de cogumelos. Por isso Cristo se retira para o deserto e recebe Satan\u00e1s. Essas seitas palestinas &#8211; por exemplo os ess\u00eanios &#8211; ingeriam fungos alucin\u00f3genos que s\u00e3o a base de todas as religi\u00f5es antigas, andavam pelo deserto delirantes, falando com Deus e ouvindo os anjos, e a h\u00f3stia consagrada n\u00e3o era mais que uma imagem dessa comunh\u00e3o m\u00edstica que prendia entre si os iniciados do pequeno grupo, acrescentara o seminarista num aparte, contava Luca. <em>Comei, esta \u00e9 a minha carne<\/em>\u201d (Ricardo Piglia, em\u00a0<em>Alvo Noturno<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>134. \u201cA fiadora e a tecedura mec\u00e2nica do destino! Esse tecido provoca calafrios at\u00e9 a medula. \u00c9 urdido em algum lugar e n\u00f3s viemos tecidos, floreados na trama. Ah, se eu pudesse tornar a penetrar, nem que fosse por um instante, na oficina onde funcionam todos os teares. A vis\u00e3o n\u00e3o dura nem um segundo, porque depois j\u00e1 caio no sonho bruto da realidade\u201d (Ricardo Piglia, em\u00a0<em>Alvo Noturno<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>135. \u201cOs velhos se interessam por netos, isso \u00e9 sabido, fato associado aos ciclos da natureza ou a alguma coisa, enfim, uma esp\u00e9cie de emo\u00e7\u00e3o consegue brotar em suas velhas cabe\u00e7as, o filho \u00e9 a morte do pai isso \u00e9 certo mas para o av\u00f4 o neto \u00e9 uma esp\u00e9cie de renascimento ou remanche\u201d (Michel Houellebecq, em <em>O mapa e o territ\u00f3rio<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>136. \u201c\u00c9 decerto por compaix\u00e3o que presumimos uma gula particularmente intensa nas pessoas idosas, porque desejamos nos persuadir de que lhes resta ao menos isso, ao passo que, na maioria dos casos, os gozos gustativos extinguem-se irremediavelmente, como todo o resto. Subsistem os dist\u00farbios digestivos e o c\u00e2ncer de pr\u00f3stata\u201d (Michel Houellebecq, em\u00a0<em>O mapa e o territ\u00f3rio<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>137. \u201c- Que bom que voc\u00ea \u00e9 independente &#8211; respondeu seu pai. &#8211; Ao longo da vida conheci muita gente que queria ser artista e era sustentada pelo pai; nenhum deles conseguiu chegar l\u00e1. Curioso, podemos achar que a necessidade de se exprimir, de deixar um rastro no mundo, \u00e9 uma for\u00e7a poderosa; e, no entanto, isso em geral n\u00e3o basta. O que funciona melhor, o que ainda obriga as pessoas a se superarem \u00e9 a pura e simples necessidade de dinheiro\u201d (Michel Houellebecq, em\u00a0<em>O mapa e o territ\u00f3rio<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>138. \u201cAinda mais surpreendente, era \u00edntimo dos principais dogmas da f\u00e9 cat\u00f3lica, cujo estigma sobre a cultura ocidental fora t\u00e3o profundo &#8211; ao passo que, nesse campo, seus contempor\u00e2neos geralmente sabiam um pouco menos sobre a vida de Jesus que sobre a do Homem-Aranha\u201d\u00a0(Michel Houellebecq, em\u00a0<em>O mapa e o territ\u00f3rio<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>139. \u201cNaquela casa, sentia-se tentado a acreditar em coisas como o amor, o amor rec\u00edproco de um casal, que irradia pelas paredes com certo calor, um calor meigo que se transmite aos futuros ocupantes para lhes dar serenidade\u201d (Michel Houellebecq, em\u00a0<em>O mapa e o territ\u00f3rio<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>140. \u201cOlga foi recebida como uma cliente da casa por Georges, magro, calvo e vagamente sinistro, com um ar de ex-gay devasso\u201d\u00a0(Michel Houellebecq, em\u00a0<em>O mapa e o territ\u00f3rio<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>141. \u201cAssimilou rapidamente o comportamento apropriado. N\u00e3o precisava ser obrigatoriamente brilhante, o melhor quase sempre era n\u00e3o falar nada, mas era indispens\u00e1vel escutar seu interlocutor, escut\u00e1-lo com gravidade e empatia, \u00e0s vezes reanimando a conversa com um \u2018S\u00e9rio?\u2019 destinado a denotar interesse e surpresa, ou um \u2018Sem d\u00favida\u2026\u2018enfatizado por uma aprova\u00e7\u00e3o compreensiva\u201d (Michel Houellebecq, em\u00a0<em>O mapa e o territ\u00f3rio<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>142. \u201cEncontraram-se no escrit\u00f3rio de Olga e foi constrangedor ver, lado a lado, aquela criatura untuosa, de formas indefinidamente desej\u00e1veis, e aquele m\u00edsero pedacinho de mulher, com a vagina inexplorada\u201d\u00a0(Michel Houellebecq, em\u00a0<em>O mapa e o territ\u00f3rio<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>143. \u201cEram um jovem casal urbano rico e sem crian\u00e7as, esteticamente decorativo, ainda na primeira fase do amor &#8211; e, por conseguinte, prontos para se deslumbrar com tudo, na esperan\u00e7a de acumular um acervo de <em>belas recorda\u00e7\u00f5es<\/em> que lhes seriam \u00fateis quando se aproximassem dos anos dif\u00edceis (\u2026) &#8211; representavam, para qualquer profissional da hotelaria-gastronomia, o arqu\u00e9tipo dos clientes ideias\u201d (Michel Houellebecq, em\u00a0<em>O mapa e o territ\u00f3rio<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>144. \u201cViveram felizes por v\u00e1rias semanas (n\u00e3o era, n\u00e3o podia mais ser a felicidade exacerbada e fervilhante dos jovens; durante os fins de semana n\u00e3o cogitavam mais <em>fazer a cabe\u00e7a <\/em>ou <em>encher a cara<\/em>; j\u00e1 se preparavam &#8211; mas ainda estavam em idade de se divertir com isso &#8211; para aquela felicidade epicurista, sossegada, sofisticada sem esnobismo que a sociedade ocidental oferece aos representantes de suas classes m\u00e9dias altas em meados de vida\u201d (Michel Houellebecq, em\u00a0<em>O mapa e o territ\u00f3rio<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>145. \u201cHumildes e desvalidos, desprezados por todos, submetidos a todas as mazelas da vida urbana sem ter acesso a nenhum de seus prazeres, os jovens padres urbanos constitu\u00edam, para quem n\u00e3o comungava sua cren\u00e7a, um tema desorientador e incans\u00e1vel\u201d\u00a0(Michel Houellebecq, em\u00a0<em>O mapa e o territ\u00f3rio<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>146. \u201cJed n\u00e3o era jovem &#8211; a bem da verdade, nunca fora\u201d (Michel Houellebecq, em\u00a0<em>O mapa e o territ\u00f3rio<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>147. \u201cSer artista, na sua opini\u00e3o, era antes de tudo ser algu\u00e9m <em>submisso<\/em>. Submisso a mensagens misteriosas, imprevis\u00edveis, que poder\u00edamos, na falta de termo melhor e na aus\u00eancia de toda a cren\u00e7a religiosa, qualificar como <em>intui\u00e7\u00f5es<\/em>\u201d\u00a0(Michel Houellebecq, em\u00a0<em>O mapa e o territ\u00f3rio<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>148. \u201cCom o bra\u00e7o lan\u00e7ado para a frente e para cima &#8211; apontado para a multid\u00e3o espremida atr\u00e1s dos cord\u00f5es, como era previs\u00edvel -, Kennedy sorria com aquele entusiasmo e otimismo cretinos t\u00e3o dif\u00edceis de serem imitados pelos n\u00e3o americanos\u201d (Michel Houellebecq, em\u00a0<em>O mapa e o territ\u00f3rio<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>149. \u201cAli estava um homem que havia dirigido com dinamismo, e \u00e0s vezes com pulso firme, uma empresa com uns cinquenta funcion\u00e1rios, que tivera de despedir, contratar; que negociara contratos envolvendo dezenas, \u00e0s vezes centenas de milh\u00f5es de euros. Mas as cercanias da morte trazem humildade, e o que ele parecia querer, aquela noite, era que tudo transcorrese da melhor maneira poss\u00edvel, e principalmente, n\u00e3o incomodar, era essa, aparentemente, sua \u00fanica ambi\u00e7\u00e3o atual na Terra\u201d (Michel Houellebecq, em\u00a0<em>O mapa e o territ\u00f3rio<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>150. \u201cEm meio \u00e0 decad\u00eancia f\u00edsica generalizada a que se resume a velhice, a voz e o olhar constituem o testemunho dolorosamente irrecus\u00e1vel da persist\u00eancia do car\u00e1ter, das aspira\u00e7\u00f5es, dos desejos, de tudo o que constitui uma personalidade humana\u201d (Michel Houellebecq, em\u00a0<em>O mapa e o territ\u00f3rio<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>151. \u201c\u00c9 sempre poss\u00edvel, dissera-lhe Houellebecq ao evocar sua carreira de romancista, fazer anota\u00e7\u00f5es, tentar alinhar frases; mas, para nos lan\u00e7armos na escrita de um romance, temos que esperar que tudo se torne compacto, irrefut\u00e1vel, esperar a eclos\u00e3o de um real foco de necessidade\u201d (Michel Houellebecq, em\u00a0<em>O mapa e o territ\u00f3rio<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>152. \u201cPerguntou-se fugazmente o que o levara a se lan\u00e7ar numa representa\u00e7\u00e3o art\u00edstica do mundo, ou mesmo a pensar que uma representa\u00e7\u00e3o art\u00edstica do mundo fosse poss\u00edvel, o mundo era tudo, exceto um tema de emo\u00e7\u00e3o art\u00edstica, o mundo apresentava-se irrefutavelmente como um dispositivo racional, destitu\u00eddo tanto de magia quanto de interesse especial\u201d (Michel Houellebecq, em\u00a0<em>O mapa e o territ\u00f3rio<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>153. \u201cPercebeu que estava prestes a deixar aquele mundo do qual nunca fizera parte de verdade, seus contatos humanos, j\u00e1 pouco numerosos, iriam secar e se esgotar um por um, ele se acharia na vida como de achava agora, na cabine sofisticada e bem-acabada de seu Audi Allroad A6, sereno e sem alegria, definitivamente neutro\u201d (Michel Houellebecq, em\u00a0<em>O mapa e o territ\u00f3rio<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>154. \u201cO c\u00e3o \u00e9 uma esp\u00e9cie de crian\u00e7a definitiva, mais d\u00f3cil e mais doce, uma crian\u00e7a que se houvesse imobilizado na idade da raz\u00e3o, mas, al\u00e9m disso, uma crian\u00e7a \u00e0 qual sobreviveremos: aceitar amar um c\u00e3o \u00e9 aceitar amar uma criatura que ir\u00e1, inelutavelmente, ser-lhe arrancada\u201d (Michel Houellebecq, em\u00a0<em>O mapa e o territ\u00f3rio<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>155. \u201cSem d\u00favida influenciado pelas ideias em voga na sua gera\u00e7\u00e3o, at\u00e9 aquele momento julgara a sexualidade uma for\u00e7a positiva, uma fonte de uni\u00e3o que aumentava a conc\u00f3rdia entre os humanos pelos caminhos inocentes do prazer compartilhado. Agora, ao contr\u00e1rio, via nela cada vez mais frequentemente a luta, o combate brutal pela domina\u00e7\u00e3o, a elimina\u00e7\u00e3o do rival e a multiplica\u00e7\u00e3o fortuita dos coitos sem nenhuma raz\u00e3o de ser al\u00e9m de assegurar uma propaga\u00e7\u00e3o m\u00e1xima aos genes. Via nela a fonte de todo conflito, todo massacre, todo sofrimento. A sexualidade se lhe afigurava cada vez mais como a manifesta\u00e7\u00e3o mais direta e evidente do mal. E n\u00e3o era sua carreira na pol\u00edcia que o faria mudar de opini\u00e3o: os crimes que n\u00e3o tinham como motiva\u00e7\u00e3o o dinheiro tinham como motiva\u00e7\u00e3o o sexo, era um ou outro, a humanidade parecia incapaz de imaginar qualquer coisa afora isso, ao menos em mat\u00e9ria criminal\u201d\u00a0(Michel Houellebecq, em\u00a0<em>O mapa e o territ\u00f3rio<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>156. Sobre a economia: \u201c- Ouviu os progn\u00f3sticos? &#8211; N\u00e3o, na realidade n\u00e3o escutara absolutamente nada, contentara-se em admirar seus seios, mas absteve-se de interromp\u00ea-la. &#8211; Daqui a uma semana, v\u00e3o constatar que todos os progn\u00f3sticos eram falsos. Chamar\u00e3o outro especialista, talvez o mesmo, e ele far\u00e1 novos progn\u00f3sticos, com a mesma seguran\u00e7a\u2026 &#8211; Ela balan\u00e7ava a cabe\u00e7a, desolada, quase indignada. &#8211; Com que direito uma disciplina incapaz de fazer um progn\u00f3stico verific\u00e1vel se arvora a ser uma <em>ci\u00eancia<\/em>?\u201d (Michel Houellebecq, em\u00a0<em>O mapa e o territ\u00f3rio<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>157. \u201cAh, sim, deram-lhe morfina, n\u00e3o havia restri\u00e7\u00f5es, preferiam os internos sossegados, mas aquilo era vida, estar o tempo todo sob efeito de morfina? \/\/ Na verdade, Jed achava que sim, que era inclusive uma vida particularmente invej\u00e1vel, sem preocupa\u00e7\u00f5es, sem responsabilidades, sem desejos nem temores, pr\u00f3xima da vida das plantas, em que \u00e9 poss\u00edvel desfrutar da car\u00edcia moderada do sol e da brisa\u201d (Michel Houellebecq, em\u00a0<em>O mapa e o territ\u00f3rio<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>158. \u201cUma dezena de tar\u00e2ntulas precipitou-se, agitando-se sobre suas patas felpudas, para o compartimento vizinho, tratando imediatamente de destro\u00e7ar os insetos que o ocupavam &#8211; robustas e cintilantes centopeias. Pronto, eis com o que o doutor Petisque ocupava suas noites, em vez de se distrair, como a maioria dos colegas, em banais orgias com prostitutas eslavas. Tomava-se por Deus, pura e simplesmente, e agia com suas popula\u00e7\u00f5es de insetos como Deus com as popula\u00e7\u00f5es humanas\u201d (Michel Houellebecq, em\u00a0<em>O mapa e o territ\u00f3rio<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>159. \u201cDe maneira mais gen\u00e9rica, vivia-se um per\u00edodo ideologicamente estranho, em que todos na Europa ocidental pareciam persuadidos de que o capitalismo estava condenado, inclusive a curto prazo, e que vivia seus derradeiros anos, sem que os partidos radicais de esquerda, no entanto, conseguissem seduzir algu\u00e9m al\u00e9m de sua clientela habitual de masoquistas ressentidos. Um v\u00e9u de cinzas parecia embotar os esp\u00edritos\u201d (Michel Houellebecq, em\u00a0<em>O mapa e o territ\u00f3rio<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>160. \u201cSomos muito normais, n\u00e3o h\u00e1 outro plano previsto al\u00e9m de ser normal, \u00e9 uma inclina\u00e7\u00e3o que herdamos no sangue. Durante gera\u00e7\u00f5es nossas fam\u00edlias trabalharam para refinar a vida at\u00e9 tirar dela qualquer evid\u00eancia &#8211; qualquer aspereza que pudesse nos destacar ao olhar distante. Com o tempo acabaram conseguindo certa compet\u00eancia no ramo, mestres da invisibilidade\u201d (Alessandro Baricco, em <em>A paix\u00e3o de A.<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>161. \u201cAssim, para n\u00f3s o mundo tem fronteira f\u00edsicas muito imediatas, e fronteiras mentais fixas como uma liturgia. E aquele \u00e9 nosso infinito\u201d (Alessandro Baricco, em\u00a0<em>A paix\u00e3o de A.<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>162. \u201cQueimam a mem\u00f3ria e, nas cinzas, leem o pr\u00f3prio futuro\u201d\u00a0(Alessandro Baricco, em\u00a0<em>A paix\u00e3o de A.<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>163. \u201c\u00c9 preciso dizer que ela \u00e9 especialmente bonita, e sem querer. Tem um qu\u00ea de masculino. Uma dureza. Isso facilita as coisas para n\u00f3s &#8211; somos cat\u00f3licos: a beleza \u00e9 uma virtude moral e n\u00e3o tem nada a ver com o corpo, portanto a curva de um traseiro n\u00e3o significa nada, nem o \u00e2ngulo perfeito de um tornozelo delgado tem de significar alguma coisa: o corpo feminino \u00e9 o objeto de uma sistem\u00e1tica remiss\u00e3o\u201d (Alessandro Baricco, em\u00a0<em>A paix\u00e3o de A.<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>164. \u201cSomos cheios de palavras cujos verdadeiros significados n\u00e3o nos ensinaram, e uma delas \u00e9 a palavra dor. Outra \u00e9 a palavra morte. N\u00e3o sabemos o que designam, mas as usamos, e isso \u00e9 um mist\u00e9rio (\u2026). Certa vez Bobby me disse que quando era mais novo, e tinha catorze anos, foi por acaso a uma reuni\u00e3o na par\u00f3quia dedicada ao tema da masturba\u00e7\u00e3o, e\u00a0 o curioso era que na realidade ele, naquela \u00e9poca, n\u00e3o conhecia o significado da palavra masturba\u00e7\u00e3o &#8211; a verdade \u00e9 que n\u00e3o sabia o que era. Mas tinha ido, e, ali\u00e1s, dera sua opini\u00e3o e discutira animadamente, isso ele lembrava. Disse que, pensando bem, n\u00e3o estava certo de que <em>os outros<\/em> soubessem do que estavam falando. Talvez o \u00fanico ali que realmente batia punheta fosse o padre, disse.\u201d (Alessandro Baricco, em\u00a0<em>A paix\u00e3o de A.<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>165. \u201cA beleza f\u00edsica \u00e9 algo para o qual n\u00e3o ligamos. N\u00e3o \u00e9 necess\u00e1ria \u00e0 edifica\u00e7\u00e3o do Reino. Assim, Luca a carrega consigo, sem us\u00e1-la &#8211; um encontro adiado. Para a maioria ele parece um tipo distante, e as garotas adoram aquela dist\u00e2ncia, que chamam de tristeza. Mas, como todo mundo, ele gostaria simplesmente de ser feliz\u201d (Alessandro Baricco, em\u00a0<em>A paix\u00e3o de A.<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>166. \u201c\u00c9 um habitat absurdo, feito de dor reprimida e censuras di\u00e1rias. Mas n\u00f3s n\u00e3o podemos perceber o quanto \u00e9 absurdo, porque, como r\u00e9pteis no p\u00e2ntano, conhecemos apenas aquele mundo, e o p\u00e2ntano para n\u00f3s \u00e9 a normalidade. Por isso somos aptos a metabolizar doses inacredit\u00e1veis de infelicidade, tomando-as pelo curso devido das coisas: nem sequer desconfiamos que escondem feridas a ser curadas e fraturas a recompor\u201d (Alessandro Baricco, em\u00a0<em>A paix\u00e3o de A.<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>167. \u201cN\u00f3s homens tocamos toda a pele que podemos e, de vez em quando, enfiamos as m\u00e3os sob as saias delas, mas nem sempre. Elas, no entanto, tocam logo nosso sexo, pois somos n\u00f3s que abrimos as cal\u00e7as e, \u00e0s vezes, as tiramos. Isso acontece em casas em que os pais, irm\u00e3os, irm\u00e3s est\u00e3o do outro lado, atr\u00e1s da porta, e qualquer um pode entrar de uma hora para outra. Portanto fazemos tudo numa precariedade permeada de perigo. Frequentemente n\u00e3o h\u00e1 nada mais que uma porta entreaberta entre o pecado e o castigo, e isso faz com que o prazer de se tocar e o medo de ser descobertos, assim como o desejo e o remorso, aconte\u00e7am simultaneamente, ligados numa \u00fanica emo\u00e7\u00e3o que n\u00f3s chamamos, com precis\u00e3o espl\u00eandida, sexo: conhecemos cada matiz e apreciamos sua reluzente origem no complexo de culpa, do qual \u00e9 uma variante entre tantas outras. Se algu\u00e9m pensar que \u00e9 um modo infantil de ver as coisas, n\u00e3o entendeu nada. O sexo \u00e9 pecado: pens\u00e1-lo como algo inocente \u00e9 uma simplifica\u00e7\u00e3o a que s\u00f3 os infelizes se entregam\u201d (Alessandro Baricco, em\u00a0<em>A paix\u00e3o de A.<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>168. \u201c\u00c9 que seguimos em frente \u00e0 base de flashes, o resto \u00e9 escurid\u00e3o\u201d (Alessandro Baricco, em\u00a0<em>A paix\u00e3o de A.<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>169. \u201cEle queria dizer que, na aus\u00eancia de sentido, ainda assim o mundo acontece, e naquela acrobacia de existir sem coordenadas h\u00e1 uma beleza, at\u00e9 uma nobreza, \u00e0s vezes.\u201d (Alessandro Baricco, em\u00a0<em>A paix\u00e3o de A.<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>170. \u201cDiz que precisamos nos apavorar, e que somos tudo, essa \u00e9 nossa beleza, n\u00e3o nossa doen\u00e7a. \u00c9 o avesso do horror\u201d (Alessandro Baricco, em\u00a0<em>A paix\u00e3o de A.<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>171. \u201cEntre a <em>dolce vita<\/em> no estrangeiro e o retorno arriscado para casa, ele escolheu o retorno. \u00c0 explora\u00e7\u00e3o apaixonada do desconhecido (a aventura), ele preferiu a apoteose do conhecido (o retorno). Ao infinito (pois a aventura pretende ser infinita), preferiu o finito (pois o retorno \u00e9 a reconcilia\u00e7\u00e3o com a finitude da vida)\u201d (Milan Kundera, em <em>A ignor\u00e2ncia<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>172. \u201cTodas as previs\u00f5es se enganam, \u00e9 uma das poucas certezas que foram dadas ao homem. Mas se erram em rela\u00e7\u00e3o ao futuro, dizem a verdade sobre quem as formula, s\u00e3o a melhor chave para compreender como viveram no seu tempo\u201d (Milan Kundera, em\u00a0<em>A ignor\u00e2ncia<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>173. \u201cO mesmo cineasta do subconsciente que, durante o dia, lhe enviava por\u00e7\u00f5es de sua terra natal como imagens de felicidade, organizava, \u00e0 noite, retornos pavorosos a esse mesmo pa\u00eds. O dia era iluminado pela beleza do pa\u00eds que havia sido abandonado, e a noite pelo horror de retornar a ele. O dia mostrava-lhe o para\u00edso que ele havia perdido, a noite, o inferno do qual havia fugido\u201d (Milan Kundera, em\u00a0<em>A ignor\u00e2ncia<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>174. \u201cEra incapaz de viver sozinho, sem os cuidados das mulheres. Mas cada vez menos suportava suas exig\u00eancias, suas brigas, seus choros e at\u00e9 mesmo seus corpos, presentes demais, expansivos demais. Para conserv\u00e1-las e ao mesmo tempo fugir delas, atirava contra elas granadas de bondade. Resguardado atr\u00e1s da nuvem da explos\u00e3o, ele batia em retirada\u201d\u00a0(Milan Kundera, em\u00a0<em>A ignor\u00e2ncia<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>175. \u201cEla v\u00ea as bocas que se abrem todas ao mesmo tempo, bocas que se mexem, emitem palavras e explodem sem parar em muitas risadas (mist\u00e9rio: como \u00e9 que mulheres que n\u00e3o se escutam podem rir daquilo que falam?) (Milan Kundera, em\u00a0<em>A ignor\u00e2ncia<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>176. \u201cA gigantesca vassoura invis\u00edvel que transforma, desfigura, apaga as paisagens est\u00e1 trabalhando h\u00e1 mil\u00eanios, mas seus movimentos, outrora lentos, apenas percept\u00edveis, aceleraram-se de tal modo que eu me pergunto: a <em>Odisseia<\/em>, hoje, seria conceb\u00edvel? A epopeia do retorno pertence ainda \u00e0 nossa \u00e9poca? Pela manh\u00e3, ao acordar nas encostas de \u00cdtaca, Ulisses poderia ouvir extasiado a m\u00fasica do Grande Retorno se a velha oliveira tivesse sido derrubada e se n\u00e3o pudesse reconhecer nada \u00e0 sua volta?\u201d (Milan Kundera, em\u00a0<em>A ignor\u00e2ncia<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>177. \u201cEla tem assim a impress\u00e3o de sair de sua adolesc\u00eancia, de tornar-se madura, adulta, o que para ela significa: aquela que tomou conhecimento do tempo, que deixou um peda\u00e7o de sua vida para tr\u00e1s e que pode virar a cabe\u00e7a para olh\u00e1-lo\u201d (Milan Kundera, em\u00a0<em>A ignor\u00e2ncia<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>178. \u201cMorrer; decidir morrer; \u00e9 muito mais f\u00e1cil para um adolescente do que para um adulto. O qu\u00ea? A morte n\u00e3o priva o adolescente de uma parte muito maior do futuro? Certo, mas para um jovem o futuro \u00e9 uma coisa distante, abstrata, irreal, na qual ele realmente n\u00e3o acredita\u201d (Milan Kundera, em\u00a0<em>A ignor\u00e2ncia<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>179. \u201cPois a mulher morta \u00e9 uma mulher indefesa; n\u00e3o possui mais poder, n\u00e3o possui mais influ\u00eancia: n\u00e3o respeitam mais nem seus desejos nem seus gostos; a mulher morta n\u00e3o pode desejar nada, n\u00e3o pode aspirar a nenhuma estima, refutar nenhuma cal\u00fania. Nunca sentira por ela uma compaix\u00e3o t\u00e3o dolorosa, t\u00e3o torturante, como depois de sua morte\u201d (Milan Kundera, em\u00a0<em>A ignor\u00e2ncia<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>180. Uma defesa da brevidade da vida: \u201cOs relacionamentos er\u00f3ticos podem preencher toda a vida adulta. Mas, se essa vida for muito mais longa, o t\u00e9dio n\u00e3o sufocar\u00e1 a capacidade de excita\u00e7\u00e3o muito antes de as for\u00e7as f\u00edsicas declinarem? Pois existe uma enorme diferen\u00e7a entre o primeiro, o d\u00e9cimo, o cent\u00e9simo, o mil\u00e9simo ou o milion\u00e9simo coito. Onde se situa a fronteira depois da qual a repeti\u00e7\u00e3o se tornar\u00e1 estereotipada, ou ent\u00e3o c\u00f4mica, at\u00e9 mesmo imposs\u00edvel?\u201d (Milan Kundera, em\u00a0<em>A ignor\u00e2ncia<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>181. \u201cSe algu\u00e9m pudesse reter na mem\u00f3ria tudo o que viveu, se pudesse a qualquer momento evocar qualquer fragmento do passado que quisesse, n\u00e3o teria nada a ver com os humanos: nem seus amores, nem suas amizades, nem suas raivas, nem sua faculdade de perdoar ou de se vingar se pareceriam com os nossos. \/\/ Poder-se-iam criticar indefinidamente aqueles que deformam o passado, o rescrevem, o falsificam, que aumentam a import\u00e2ncia de um acontecimento, se calam a respeito de outro; essas cr\u00edticas s\u00e3o justas (n\u00e3o podem deixar de ser) mas (\u2026) nada compreendemos da vida humana se persistirmos em escamotear a primeira e todas as evid\u00eancias: uma realidade tal qual quando ela existiu n\u00e3o existe mais; sua restitui\u00e7\u00e3o \u00e9 imposs\u00edvel\u201d (Milan Kundera, em\u00a0<em>A ignor\u00e2ncia<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>182. \u201cSobre o futuro todo mundo se engana. O homem s\u00f3 pode ter certeza do momento presente. Mas ser\u00e1 realmente verdade? Ele pode conhecer verdadeiramente o presente? Ser\u00e1 capaz de julg\u00e1-lo? Claro que n\u00e3o. Pois como \u00e9 que aquele que n\u00e3o conhece o futuro pode compreender o sentido do presente? Se n\u00e3o conhecermos o futuro a que o presente nos conduz, como poderemos dizer que esse presente \u00e9 bom ou mau, que merece nossa ades\u00e3o, nossa desconfian\u00e7a ou nossa raiva?\u201d (Milan Kundera, em\u00a0<em>A ignor\u00e2ncia<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>183. \u201cPor mais inteligentes que sejam, as discuss\u00f5es que se passam nas altas esferas do esp\u00edrito s\u00e3o sempre m\u00edopes diante daquilo que, sem raz\u00e3o ou l\u00f3gica, se passa embaixo: dois grandes ex\u00e9rcitos guerreiam at\u00e9 a morte por causas sagradas; mas \u00e9 a min\u00fascula bact\u00e9ria da peste que aniquilar\u00e1 a ambos\u201d (Milan Kundera, em\u00a0<em>A ignor\u00e2ncia<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>184. Sobre a velocidade da leitura: \u201cEu dava conta de um bloco de texto ou de um par\u00e1grafo inteiro num s\u00f3 gole visual. Era quest\u00e3o de deixar os olhos e os pensamentos escorrerem, como cera, para tirar uma impress\u00e3o fresquinha da p\u00e1gina. Para irrita\u00e7\u00e3o dos que ficavam em torno de mim, eu virava a p\u00e1gina de poucos em poucos segundos com um gesto impaciente do pulso. As minhas necessidades eram simples. Eu n\u00e3o prestava muita aten\u00e7\u00e3o em temas ou frases especialmente bem resolvidas e pulava belas descri\u00e7\u00f5es de clima, paisagens e interiores\u201d (Ian McEwan, em <em>Serena<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>185. \u201cEu vi dobras de pele em locais improv\u00e1veis, at\u00e9 debaixo dos bra\u00e7os dele. Que coisa mais estranha que, na minha surpresa, rapidamente reprimida, n\u00e3o tenha me ocorrido que eu estava olhando para o meu pr\u00f3prio futuro. Eu estava com vinte e um. O que eu considerava a regra &#8211; rija, lisa, macia &#8211; era o caso especial, e passageiro, da juventude. Para mim, os velhos eram uma esp\u00e9cie \u00e0 parte, como os pardais ou as raposas. E agora, o que eu n\u00e3o daria para voltar a ter cinquenta e quatro!\u201d (Ian McEwan, em\u00a0<em>Serena<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>186. \u201cEnfiadas de camisas \u2018psicod\u00e9licas\u2019 e roupas militares enfeitadas <em>\u00e0 la <\/em>Sgt. Pepper pendiam de longas araras na cal\u00e7ada. \u00c0 disposi\u00e7\u00e3o de hordas de pessoas que pensavam igual e estavam desesperadas por exprimir a sua individualidade\u201d (Ian McEwan, em\u00a0<em>Serena<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>187. \u201cEla tinha uma mania ou um ponto fraco, rir estrondosamente das suas pr\u00f3prias piadas &#8211; n\u00e3o, eu achava, por pensar que era engra\u00e7ada, mas porque achava que a vida precisava ser celebrada e queria que os outros se juntassem a ela. Gente que fala alto, especialmente as mulheres, sempre atrai inimigos\u201d (Ian McEwan, em\u00a0<em>Serena<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>188. \u201c\u00c0s vezes <em>n\u00e3o<\/em> conversar \u00e9 o melhor jeito de enfrentar uma dificuldade. Essa modinha de \u2018verdade\u2019 pessoal, e de confrontar as coisas, estava causando muitos preju\u00edzos, na minha opini\u00e3o, e acabando com muitas amizades e casamentos\u201d (Ian McEwan, em\u00a0<em>Serena<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>189. \u201cO amor n\u00e3o cresce num ritmo est\u00e1vel, mas avan\u00e7a em ondas, choques, saltos selvagens\u201d (Ian McEwan, em\u00a0<em>Serena<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>190. \u201cEra simpaticamente agitado, como que perpetuamente suspenso no \u00faltimo segundo de uma piada\u201d (Ian McEwan, em\u00a0<em>Serena<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>191. \u201cSeria poss\u00edvel escapar daqueles compromissos invocando os privil\u00e9gios do artista livre, mas ele odiava esse tipo de arrog\u00e2ncia. Tinha diversos amigos que usavam o expediente de se passarem por g\u00eanios quando interessava, deixando de comparecer a um ou outro evento por crer que as dificuldades assim causadas apenas aumentariam o respeito pela natureza imperativa de sua voca\u00e7\u00e3o art\u00edstica. Essas pessoas &#8211; e os escritores eram os piores &#8211; conseguiam convencer amigos e familiares de que n\u00e3o s\u00f3 suas horas de trabalho eram importantes, mas que tamb\u00e9m qualquer soneca ou caminhada, quaisquer epis\u00f3dios de sil\u00eancio, depress\u00e3o ou embriaguez tinham uma justificativa superior\u201d (Ian McEwan, em <em>Amsterdam<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>192. \u201cEra f\u00e1cil para Clive imaginar a civiliza\u00e7\u00e3o como o somat\u00f3rio de todas as artes, juntamente com o <em>design<\/em> de qualidade, boas comidas, bons vinhos e coisas do g\u00eanero. Mas agora ela parecia ser o que realmente era &#8211; quil\u00f4metros quadrados de casas modernas e ordin\u00e1rias cujo principal prop\u00f3sito consistia em sustentar as antenas de TV; f\u00e1bricas produzindo coisas sem valor para serem anunciadas nas televis\u00f5es; e, em l\u00fagubres p\u00e1tios, caminh\u00f5es fazendo filas para distribu\u00ed-las; fora disso, estradas e a tirania do tr\u00e1fego. Parecia a manh\u00e3 seguinte de uma festa de arromba. Ningu\u00e9m gostaria que fosse assim, mas ningu\u00e9m fora consultado. Ningu\u00e9m o planejara, mas a maioria das pessoas tinha de viver ali\u201d (Ian McEwan, em\u00a0<em>Amsterdam<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>193. \u201cE haja estradas, novas estradas se insinuando sem cessar, sem pejo, como se a \u00fanica coisa importante fosse ir de um lugar para outro. No que concernia ao bem-estar de qualquer outra forma de vida na Terra, o projeto humano n\u00e3o era apenas um fracasso, mas um erro desde o come\u00e7o\u201d (Ian McEwan, em\u00a0<em>Amsterdam<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>194. \u201cSabemos t\u00e3o pouco sobre os outros. Permanecemos em geral submersos, como <em>icebergs<\/em>, com nossas identidades sociais vis\u00edveis projetando apenas o que temos de branco e frio. Aqui estava uma rara vis\u00e3o do que fica sob as ondas, da privacidade e dos dist\u00farbios de um homem, de sua dignidade demolida pela necessidade esmagadora da fantasia pura, do pensamento puro, pelo irredut\u00edvel elemento humano &#8211; a mente\u201d (Ian McEwan, em\u00a0<em>Amsterdam<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>195. \u201cN\u00e3o recebe cartas. N\u00e3o abre envelopes. Quem a conhece sabe. \u00c9 uma esp\u00e9cie de fobia. H\u00e1 vinte anos, evita receber not\u00edcias\u201d (Bernardo Carvalho, em <em>O filho da m\u00e3e<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>196. \u201cSempre haver\u00e1 algu\u00e9m pronto para reconhecer e atacar a vulnerabilidade onde quer que ela se manifeste (\u2026), s\u00f3 deixar\u00e1 de ser vulner\u00e1vel quando j\u00e1 n\u00e3o tiver nada a perder\u201d (Bernardo Carvalho, em\u00a0<em>O filho da m\u00e3e<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>197. \u201cNikolai nunca se entendeu com o enteado. No fundo, n\u00e3o pode ver a juventude. N\u00e3o se conforma em ter perdido a sua. A inf\u00e2ncia o enternece, mas os adolescentes, descobrindo o prazer, fazem-no perder a cabe\u00e7a (\u2026). Desde o in\u00edcio, rivalizara com o amor que a mulher nutria pelo filho. Tentou ignor\u00e1-lo, porque tamb\u00e9m a amava. MsA, conforme o rapaz ia se tornando mais bonito, a rivalidade tamb\u00e9m crescia. S\u00f3 a promessa de que toda aquela felicidade, inoc\u00eancia e independ\u00eancia um dia teriam fim podia tranquiliz\u00e1-lo\u201d (Bernardo Carvalho, em\u00a0<em>O filho da m\u00e3e<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>198. \u201cReproduzir faz parte da natureza humana, tanto quanto a guerra. Reproduzir e matar\u201d (Bernardo Carvalho, em\u00a0<em>O filho da m\u00e3e<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>199. \u201cAs hist\u00f3rias de amor podem n\u00e3o ter futuro, mas t\u00eam sempre passado. \u00c9 por isso que as pessoas se agarram a tudo o que as remete de volta ao que perderam. Os livros que elas leem sempre dizem respeito ao passado. Romances hist\u00f3ricos, mem\u00f3rias, biografias, tudo tem que ser escrito em retrospectiva, sen\u00e3o n\u00e3o faz sentido. Ningu\u00e9m quer ler o que est\u00e1 por vir, \u00e0 beira do abismo. As pessoas precisam se agarrar ao que j\u00e1 conhecem. Os modernismo n\u00e3o podiam mesmo durar. Nem as revolu\u00e7\u00f5es. Ningu\u00e9m vai construir uma casa \u00e0 beira do abismo\u201d (Bernardo Carvalho, em\u00a0<em>O filho da m\u00e3e<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>200. As m\u00e3es t\u00eam mais a ver com as guerras do que imaginam. \u00c9 o contr\u00e1rio do que todo mundo pensa. N\u00e3o pode haver guerra sem m\u00e3es. Mais do que ningu\u00e9m, as m\u00e3es t\u00eam horror a perder. Voc\u00ea \u00e9 capaz de tudo para evitar a morte de um filho. \u00c9 capaz de defend\u00ea-lo contra a pr\u00f3pria justi\u00e7a. Os filhos est\u00e3o acima de qualquer suspeita. Voc\u00ea \u00e9 capaz de matar por um filho. E acaba recebendo o troco na mesma moeda quando a guerra o leva. Est\u00e1 pronta para defender a prole e o cl\u00e3 contra tudo. Sem querer ver que \u00e9 da\u00ed que nascem as guerras. Todo mundo tem m\u00e3e. At\u00e9 o pior canalha, o pior carrasco. N\u00e3o deixa de ser uma esp\u00e9cie de fanatismo\u201d (Bernardo Carvalho, em\u00a0<em>O filho da m\u00e3e<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">201.\u00a0&#8220;Ah, humilha\u00e7\u00e3o \u00e9 quase tudo, quer coisa mais humilhante do que amar e n\u00e3o ser correspondido? Esse papo de que amar \u00e9 o mais importante \u00e9 hist\u00f3ria pra boi dormir, objetivo de quem quer ser Buda, Cristo, madre Teresa de Calcut\u00e1, amar, grande porcaria (&#8230;), amar \u00e9 uma merda, bom mesmo \u00e9 ser amado, isso \u00e9 na realidade o que importa, se voc\u00ea ama ou n\u00e3o \u00e9 um detalhe, ali\u00e1s, o melhor \u00e9 n\u00e3o amar&#8221; (Carola Saavedra, em <em>Toda ter\u00e7a<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">202. &#8220;Em frente ao espelho eu era um cachorro, um doguinho dos mais desprez\u00edveis, cara de carente profissional, abanando o rabo para primeira mocinha um pouco esperta que tinha aparecido. Ent\u00e3o, perguntei a mim se cachorros morriam de amor. N\u00e3o, cachorros n\u00e3o morriam de amor. Cachorros morriam atropelados, morriam de falta de ra\u00e7\u00e3o, n\u00e3o de amor. Se ao menos eu tivesse uma mand\u00edbula nervosa&#8221; (Luiz Felipe Leprevost, em\u00a0<em>E se contorce igual a um drag\u00e3ozinho ferido<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">203. &#8220;O dia seguinte, sempre essa insist\u00eancia de ressurrei\u00e7\u00e3o&#8221;\u00a0(Luiz Felipe Leprevost, em\u00a0<em>E se contorce igual a um drag\u00e3ozinho ferido<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">204. &#8220;Eis a quest\u00e3o: Se mantemos o instinto numa esp\u00e9cie de cativeiro amig\u00e1vel, um dia, cedo ou tarde, ele nos trai&#8221;\u00a0(Luiz Felipe Leprevost, em\u00a0<em>E se contorce igual a um drag\u00e3ozinho ferido<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">205. &#8220;Voc\u00ea est\u00e1 sozinha e eu tamb\u00e9m estou. E \u00e9 inexplic\u00e1vel, mas tamb\u00e9m a nossa aus\u00eancia tem mat\u00e9ria&#8221;\u00a0(Luiz Felipe Leprevost, em\u00a0<em>E se contorce igual a um drag\u00e3ozinho ferido<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">206. &#8220;N\u00e3o. A hist\u00f3ria do Dil\u00favio \u00e9 tola, simplesmente. Nos \u00e9 contado que ele foi causado por uma chuvarada que durou quarenta dias e quarenta noites. Toda essa \u00e1gua devia ter existido na Terra antes das chuvas come\u00e7arem, pois n\u00e3o pode cair mais do que foi levado para cima. O bom senso me diz que isso \u00e9 um ing\u00eanuo disparate&#8221; (Flann O&#8217;Brien, em\u00a0<em>O arquivo Dalkey<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">207. &#8220;As atitudes do homem est\u00e3o todas sujeitas a predestina\u00e7\u00e3o e ele n\u00e3o pode, portanto, ter livre-arb\u00edtrio. Deus criou Judas. Cuidou para que ele fosse criado, educado e pudesse prosperar nos neg\u00f3cios. Ele tamb\u00e9m estabeleceu que Judas devesse trair Seu Filho Divino. Ent\u00e3o, como \u00e9 que Judas pode ter culpa?\u00a0(Flann O&#8217;Brien, em\u00a0<em>O arquivo Dalkey<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">208. &#8220;O sargento era amig\u00e1vel, por assim dizer, com seus amigos. Bebia u\u00edsque a rodo quando tinha oportunidade mas isso n\u00e3o parecia afet\u00e1-lo em absoluto. Hackett afirmava que isso acontecia porque os modos do sargento quando s\u00f3brio eram id\u00eanticos aos modos das outras pessoas quando b\u00eabadas&#8221;\u00a0(Flann O&#8217;Brien, em\u00a0<em>O arquivo Dalkey<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">209. &#8220;Ela perguntou-lhe por que n\u00e3o escrevia seus pensamentos. Para qu\u00ea, respondeu-lhe Duffy, com desprezo cauteloso. Para competir com fazedores de frases, incapazes de pensar com coer\u00eancia durante sessenta segundos? Para submeter-se \u00e0s cr\u00edticas de uma classe m\u00e9dia est\u00fapida, que entrega a sua moral aos cuidados da pol\u00edcia e sua arte aos empres\u00e1rios?&#8221; (James Joyce, no conto &#8220;Um caso doloroso&#8221;, em\u00a0<em>Dublinenses<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">210. &#8220;Tu pode deixar pra tr\u00e1s um filho, um irm\u00e3o, um pai, com certeza uma mulher, h\u00e1 circunst\u00e2ncias em que tudo isso \u00e9 justific\u00e1vel, mas n\u00e3o tem o direito de deixar pra tr\u00e1s um cachorro depois de cuidar dele por um certo tempo (&#8230;). Os cachorros abdicam pra sempre de parte do instinto pra viver com as pessoas e nunca mais podem recuper\u00e1-lo. Um cachorro fiel \u00e9 um animal aleijado&#8221; (Daniel Galera, em\u00a0<em>Barba ensopada de sangue<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">211. &#8220;Dizia que eu parecia um porco se virando no barro. J\u00e1 viu um porco se virando no barro? \u00c9 a pr\u00f3pria imagem da felicidade&#8221;\u00a0(Daniel Galera, em\u00a0<em>Barba ensopada de sangue<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>\u00a0212. &#8220;A praia est\u00e1 vazia e suas areias acobreadas est\u00e3o mornas e cicatrizadas do a\u00e7oite da \u00faltima leva de turistas&#8221;\u00a0(Daniel Galera, em\u00a0<em>Barba ensopada de sangue<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>213. &#8220;O corpo \u00e9 sua pr\u00f3pria c\u00e1psula do tempo e sua viagem \u00e9 sempre um pouco p\u00fablica, por mais que tentemos esconder ou maquiar&#8221;\u00a0(Daniel Galera, em\u00a0<em>Barba ensopada de sangue<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>214. &#8220;Pede um caf\u00e9. O jogo come\u00e7a e nas duas horas seguintes ele bebe alguns chopes e come uma por\u00e7\u00e3o de batatas fritas. O Gr\u00eamio perde de tr\u00eas a zero para o Atl\u00e9tico Paranaense&#8221;\u00a0(Daniel Galera, em\u00a0<em>Barba ensopada de sangue<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>215. &#8220;A maioria das pessoas, contudo, enxerga apenas a realidade superficial da escrita e acha que os escritores vivem silenciosamente concentrados em um trabalho intelectual em seu gabinete ou escrit\u00f3rio. Basta ter for\u00e7a para erguer uma x\u00edcara de caf\u00e9, imaginam, que voc\u00ea pode escrever um romance. Mas assim que voc\u00ea arrega\u00e7a as mangas para come\u00e7ar, percebe que n\u00e3o \u00e9 um trabalho t\u00e3o tranquilo como parece. O processo todo &#8211; sentar em sua mesa, concentrar sua mente como se fosse um raio laser, imaginar alguma coisa em um horizonte vazio, criando uma hist\u00f3ria, escolhendo as palavras certas, uma a uma, mantendo todo o fluxo da hist\u00f3ria nos trilhos &#8211; exige muito mais energia, por um longo per\u00edodo, do que imagina a maioria das pessoas. Pode ser que voc\u00ea n\u00e3o mova seu corpo de um lado para outro, mas h\u00e1 um exaustivo e din\u00e2mico trabalho operando dentro de voc\u00ea. Todo mundo usa a mente quando pensa. Mas um escritor veste um traje chamado narrativa e pensa com todo o seu ser; e para o romancista esse processo exige p\u00f4r em a\u00e7\u00e3o toda a sua reserva f\u00edsica, geralmente ao ponto da estafa&#8221; (Haruki Murakami, em\u00a0<em>Do que eu falo quando eu falo de corrida<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>216. &#8220;Pensando bem, seria estranho exigir clareza das pessoas numa \u00e9poca como a nossa&#8221; (Fi\u00f3dor Dostoi\u00e9vski, em\u00a0<em>Os irm\u00e3os Karam\u00e1zov<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>217. &#8220;Porque n\u00e3o s\u00f3 o exc\u00eantrico &#8216;nem sempre&#8217; \u00e9 uma particularidade e um caso isolado, como, ao contr\u00e1rio, vez por outra acontece de ser justo ele, talvez, que traz em si a medula do todo, enquanto os demais seres viventes de sua \u00e9poca &#8211; todos, movidos por algum vento estranho, dele est\u00e3o temporariamente afastados sabe-se l\u00e1 por que raz\u00e3o&#8221;\u00a0(Fi\u00f3dor Dostoi\u00e9vski, em\u00a0<em>Os irm\u00e3os Karam\u00e1zov<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>218. O jovem j\u00e1 mostrou toda a sua superioridade pr\u00e1tica e intelectual sobre aquela numerosa parcela da nossa juventude estudantil de ambos os sexos, eternamente necessitada e infeliz&#8221;\u00a0(Fi\u00f3dor Dostoi\u00e9vski, em\u00a0<em>Os irm\u00e3os Karam\u00e1zov<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>219. &#8220;Ele chegara a essa casa ainda naquela inf\u00e2ncia t\u00e3o tenra em que n\u00e3o h\u00e1 como esperar da crian\u00e7a ast\u00facia de calculista, esperteza ou arte de bajular e agradar, habilidade para se fazer gostar&#8221;\u00a0(Fi\u00f3dor Dostoi\u00e9vski, em\u00a0<em>Os irm\u00e3os Karam\u00e1zov<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>220. &#8220;Meninos puros de cora\u00e7\u00e3o e alma, ainda quase crian\u00e7as, muito ami\u00fade gostam de falar entre si, nas turmas, e inclusive em voz alta, de coisas, quadros e imagens sobre as quais nem sempre se fala sequer com soldados; al\u00e9m disso, neste tipo de assunto os pr\u00f3prios soldados ignoram e n\u00e3o compreendem muito do que j\u00e1 conhecem os filhos ainda crian\u00e7as da nossa intelectualidade e da alta sociedade. Entre eles, \u00e9 de crer, ainda n\u00e3o existe pervers\u00e3o moral; cinismo verdadeiro, pervertido, interior, tamb\u00e9m n\u00e3o, mas existe pervers\u00e3o exterior, e \u00e9 esta que n\u00e3o raro eles consideram algo at\u00e9 delicado, fino, galhardo e digno de imita\u00e7\u00e3o&#8221;\u00a0(Fi\u00f3dor Dostoi\u00e9vski, em\u00a0<em>Os irm\u00e3os Karam\u00e1zov<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>221. &#8220;N\u00e3o s\u00e3o os milagres que inclinam o realista para a f\u00e9. O verdadeiro realista, caso n\u00e3o creia, sempre encontrar\u00e1 em si for\u00e7a e capacidade para n\u00e3o acreditar no milagre, e se o milagre se apresenta diante dele como um fato irrefut\u00e1vel, \u00e9 mais f\u00e1cil ele descrer de seus sentidos que admitir o fato. E se o admite, admite-o como fato natural, que apenas lhe fora at\u00e9 ent\u00e3o desconhecido. No realista a f\u00e9 n\u00e3o nasce do milagre, mas \u00e9 o milagre que nasce da f\u00e9&#8221;\u00a0(Fi\u00f3dor Dostoi\u00e9vski, em\u00a0<em>Os irm\u00e3os Karam\u00e1zov<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>222. &#8220;Todas essas deporta\u00e7\u00f5es para trabalhos for\u00e7ados, antes acompanhados de espancamentos, nunca corrigem e, principalmente, quase n\u00e3o atemorizam nenhum criminoso, e o n\u00famero de crimes n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o diminui como ainda aumenta com o passar do tempo. O senhor h\u00e1 de concordar comigo nesse ponto. E assim resulta que a sociedade n\u00e3o ganha nenhuma prote\u00e7\u00e3o, pois, embora o membro pernicioso seja amputado mecanicamente e deportado para longe, fora do alcance da vista, em seu lugar aparece imediatamente outro criminoso ou talvez dois&#8221;\u00a0(Fi\u00f3dor Dostoi\u00e9vski, em\u00a0<em>Os irm\u00e3os Karam\u00e1zov<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>223. &#8220;A sociedade o alija pela for\u00e7a que sobre ele triunfa de forma plenamente mec\u00e2nica e acompanha esse alijamento com o \u00f3dio (&#8230;) &#8211; com o \u00f3dio e a mais completa indiferen\u00e7a por seu futuro como irm\u00e3o que ela relega ao esquecimento (&#8230;). Se, por\u00e9m, retorna \u00e0 sociedade, n\u00e3o raro o faz com tamanho \u00f3dio que a pr\u00f3pria sociedade como que j\u00e1 o alija. Como isso vai terminar, os senhores mesmos podem julgar&#8221;\u00a0(Fi\u00f3dor Dostoi\u00e9vski, em\u00a0<em>Os irm\u00e3os Karam\u00e1zov<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>224. &#8220;O que \u00e0 mente parece desonra \u00e9 tudo beleza para o cora\u00e7\u00e3o (&#8230;). \u00c9 horr\u00edvel que a beleza seja uma coisa n\u00e3o s\u00f3 terr\u00edvel, mas tamb\u00e9m misteriosa. A\u00ed lutam o diabo e Deus, e o campo de batalha \u00e9 o cora\u00e7\u00e3o dos homens. Ali\u00e1s, \u00e9 a dor que ensina a gemer&#8221;\u00a0(Fi\u00f3dor Dostoi\u00e9vski, em\u00a0<em>Os irm\u00e3os Karam\u00e1zov<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>225. &#8220;(&#8230;) n\u00f3s aqui s\u00f3 n\u00e3o cremos por leviandade, porque nos falta tempo: em primeiro lugar, os afazeres nos absorvem, em segundo, Deus nos deu pouco tempo, apenas vinte e quatro horas por dia, de sorte que n\u00e3o temos tempo nem para dormir direito, quanto mais para arrependimento&#8221;\u00a0(Fi\u00f3dor Dostoi\u00e9vski, em\u00a0<em>Os irm\u00e3os Karam\u00e1zov<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>226. &#8220;Pegaria toda essa m\u00edstica e a eliminaria de uma vez em toda a terra russa para tornar todos os imbecis definitivamente racionais. E quanta prata e ouro iria para a Casa da Moeda!&#8221;\u00a0(Fi\u00f3dor Dostoi\u00e9vski, em\u00a0<em>Os irm\u00e3os Karam\u00e1zov<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>227. &#8220;Deus! s\u00f3 de pensar o quanto sacrificou o homem de f\u00e9, quantos esfor\u00e7os de toda esp\u00e9cie dispendeu gratuitamente por essa fantasia, e isso durante tantos mil\u00eanios! Quem \u00e9 esse que zomba tantos dos homens? (&#8230;) Com os diabos, o que eu faria depois disso com aquele que primeiro inventou Deus! Enforc\u00e1-lo num p\u00e9 de \u00e1lamo amargo seria pouco&#8221;\u00a0(Fi\u00f3dor Dostoi\u00e9vski, em\u00a0<em>Os irm\u00e3os Karam\u00e1zov<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>228. N\u00e3o odieis os ateus, mestres do mal, os materialistas, os perversos dentre estes e tamb\u00e9m os bons, pois entre eles h\u00e1 muitos bons, principalmente em nossos dias&#8221;\u00a0(Fi\u00f3dor Dostoi\u00e9vski, em\u00a0<em>Os irm\u00e3os Karam\u00e1zov<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>229. &#8220;Na escola as crian\u00e7as s\u00e3o cru\u00e9is: separadas, parecem anjos de Deus, mas juntas, sobretudo na escola, s\u00e3o constantemente muito cru\u00e9is&#8221;\u00a0(Fi\u00f3dor Dostoi\u00e9vski, em\u00a0<em>Os irm\u00e3os Karam\u00e1zov<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>230. &#8220;Veja como s\u00e3o os nossos filhinhos &#8211; isto \u00e9, n\u00e3o os seus, mas os nossos, os filhos dos miser\u00e1veis desprezados, por\u00e9m nobres &#8211; aos nove anos de idade j\u00e1 conhecem a verdade na Terra. J\u00e1 os ricos n\u00e3o atingem essa profundeza durante a vida inteira&#8221;\u00a0(Fi\u00f3dor Dostoi\u00e9vski, em\u00a0<em>Os irm\u00e3os Karam\u00e1zov<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>231. &#8220;Se eu n\u00e3o acreditasse na vida, se perdesse a confian\u00e7a na mulher querida, se perdesse a confian\u00e7a na ordem das coisas, se me convencesse at\u00e9 de que tudo, ao contr\u00e1rio, \u00e9 uma desordem, um caos maldito e talvez at\u00e9 demon\u00edaco, mesmo que todos os horrores da frustra\u00e7\u00e3o humana me atingissem, ainda assim eu teria vontade de viver, e j\u00e1 que trouxe esse c\u00e1lice aos l\u00e1bios n\u00e3o o afastaria de mim enquanto n\u00e3o o esvaziasse!&#8221;\u00a0(Fi\u00f3dor Dostoi\u00e9vski, em\u00a0<em>Os irm\u00e3os Karam\u00e1zov<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>232. &#8220;Frequentemente uns moralistas t\u00edsicos e ranhosos, principalmente os poetas, chamam de torpe essa sede de viver&#8221;\u00a0(Fi\u00f3dor Dostoi\u00e9vski, em\u00a0<em>Os irm\u00e3os Karam\u00e1zov<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>233. &#8220;Tenho vontade de viver e vivo, ainda que contrariando a l\u00f3gica. V\u00e1 que eu n\u00e3o acredite na ordem das coisas, mas a mim me s\u00e3o caras as folhinhas pegajosas que desabrocham na primavera, me \u00e9 caro o azul do c\u00e9u, \u00e9 caro esse ou aquele homem de quem, n\u00e3o sei se acreditas, \u00e0s vezes a gente n\u00e3o sabe por que gosta, me \u00e9 caro um ou outro feito humano no qual a gente talvez tenha at\u00e9 deixado de acreditar h\u00e1 muito tempo e mesmo assim, movido pela lembran\u00e7a antiga, o respeita de cora\u00e7\u00e3o&#8221;\u00a0(Fi\u00f3dor Dostoi\u00e9vski, em\u00a0<em>Os irm\u00e3os Karam\u00e1zov<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>234. &#8220;&#8216;Acho que todos no mundo devem, antes de tudo, passar a amar a vida&#8217;. &#8216;Passar a amar mais a vida que o sentido dela?'&#8221;\u00a0(Fi\u00f3dor Dostoi\u00e9vski, em\u00a0<em>Os irm\u00e3os Karam\u00e1zov<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>235. &#8220;Portanto, aceito Deus (&#8230;). N\u00e3o \u00e9 Deus que eu n\u00e3o aceito, entende isso, \u00e9 o mundo criado por ele, o mundo de Deus que n\u00e3o aceito e n\u00e3o posso concordar em aceitar&#8221;\u00a0(Fi\u00f3dor Dostoi\u00e9vski, em\u00a0<em>Os irm\u00e3os Karam\u00e1zov<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>236. &#8220;(&#8230;) quanto mais tola mais direta. Quanto mais tola, mais clara. A tolice \u00e9 curta e ing\u00eanua, j\u00e1 a intelig\u00eancia tergiversa e se esconde. A intelig\u00eancia \u00e9 um canalha, mas a tolice \u00e9 franca e honesta&#8221;\u00a0(Fi\u00f3dor Dostoi\u00e9vski, em\u00a0<em>Os irm\u00e3os Karam\u00e1zov<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>237. &#8220;Os pedintes, sobretudo os pedintes nobres, nunca deveriam aparecer, deveriam, sim, pedir esmolas pelos jornais. Ainda se pode amar o pr\u00f3ximo de forma abstrata e \u00e0s vezes at\u00e9 de longe, mas de perto quase nunca. Se tudo acontecesse como no palco, num bal\u00e9, onde os pedintes, quando aparecem, est\u00e3o vestidos em andrajos de seda e rendas rasgadas e pedem esmolas dan\u00e7ando graciosamente, bem, neste caso ainda se poderia admir\u00e1-los&#8221;\u00a0(Fi\u00f3dor Dostoi\u00e9vski, em\u00a0<em>Os irm\u00e3os Karam\u00e1zov<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>238. &#8220;De fato, \u00e0s vezes se fala da crueldade &#8216;bestial&#8217; do homem, mas isso \u00e9 terrivelmente injusto e ofensivo para com os animais: a fera nunca pode ser t\u00e3o cruel como o homem, t\u00e3o artisticamente, t\u00e3o esteticamente cruel. O tigre simplesmente trinca, dilacera, e \u00e9 s\u00f3 o que sabe fazer. N\u00e3o lhe passaria pela cabe\u00e7a pregar as orelhas das pessoas com pregos por uma noite, mesmo que pudesse faz\u00ea-lo&#8221;\u00a0(Fi\u00f3dor Dostoi\u00e9vski, em\u00a0<em>Os irm\u00e3os Karam\u00e1zov<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>239. &#8220;Acho que se o diabo n\u00e3o existe e, portanto, o homem o criou, ent\u00e3o o criou \u00e0 sua imagem e semelhan\u00e7a&#8221;\u00a0(Fi\u00f3dor Dostoi\u00e9vski, em\u00a0<em>Os irm\u00e3os Karam\u00e1zov<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>240. &#8220;Eu n\u00e3o sofri para estrumar com meu ser, meus crimes e minhas l\u00e1grimas a futura harmonia de n\u00e3o sei quem&#8221;\u00a0(Fi\u00f3dor Dostoi\u00e9vski, em\u00a0<em>Os irm\u00e3os Karam\u00e1zov<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>241. &#8220;N\u00e3o h\u00e1 preocupa\u00e7\u00e3o mais constante e torturante para o homem do que, estando livre, encontrar depressa a quem sujeitar-se&#8221;\u00a0(Fi\u00f3dor Dostoi\u00e9vski, em\u00a0<em>Os irm\u00e3os Karam\u00e1zov<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>242. &#8220;Por se sujeitarem todos juntos eles se exterminaram uns aos outros a golpes de espada. Criavam os deuses e conclamavam uns aos outros: &#8216;Deixai vossos deuses e vinde sujeitar-se aos nossos, sen\u00e3o ser\u00e1 a morte para v\u00f3s e os vossos deuses'&#8221;\u00a0(Fi\u00f3dor Dostoi\u00e9vski, em\u00a0<em>Os irm\u00e3os Karam\u00e1zov<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>243. &#8220;Eu te digo que o homem n\u00e3o tem uma preocupa\u00e7\u00e3o mais angustiante do que encontrar a quem entregar depressa aquela d\u00e1diva da liberdade com que esse ser infeliz nasce&#8221;\u00a0(Fi\u00f3dor Dostoi\u00e9vski, em\u00a0<em>Os irm\u00e3os Karam\u00e1zov<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>244. &#8220;Porque o segredo da exist\u00eancia humana n\u00e3o consiste apenas em viver, mas na finalidade de viver. Sem uma s\u00f3lida no\u00e7\u00e3o da finalidade do viver o homem n\u00e3o aceitar\u00e1 viver e preferir\u00e1 destruir-se a permanecer na Terra ainda que cercado s\u00f3 de p\u00e3es&#8221;\u00a0(Fi\u00f3dor Dostoi\u00e9vski, em\u00a0<em>Os irm\u00e3os Karam\u00e1zov<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">\u00a0*<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">245. &#8220;(&#8230;) ele se preparava para dar mais uma, no dia seguinte, mais uma brusca guinada e enveredar por um caminho novo, totalmente desconhecido e mais uma vez completamente s\u00f3 e, como antes, cheio de esperan\u00e7a, mas sem saber em qu\u00ea, esperando muito, esperando demais da vida, sem, no entanto, conseguir ele mesmo definir nada do que havia em suas expectativas ou em seus desejos&#8221;\u00a0(Fi\u00f3dor Dostoi\u00e9vski, em\u00a0<em>Os irm\u00e3os Karam\u00e1zov<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">246. &#8220;A fraternidade n\u00e3o chegar\u00e1 antes que o senhor se torne irm\u00e3o de fato de toda e qualquer pessoa. Nunca os homens, levados por nenhuma ci\u00eancia e nenhuma vantagem, ser\u00e3o capazes de dividir pacificamente suas propriedades e seus direitos com os outros. Tudo ser\u00e1 pouco para cada um deles e todos ir\u00e3o queixar-se, invejar e exterminar uns aos outros&#8221;\u00a0(Fi\u00f3dor Dostoi\u00e9vski, em\u00a0<em>Os irm\u00e3os Karam\u00e1zov<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">247. &#8220;Pois que em nosso s\u00e9culo todos se dividiram em unidades, cada um se isola em sua toca, cada um se afasta do outro, esconde-se, esconde o que possui e termina ele mesmo por afastar-se das pessoas e afast\u00e1-las de si mesmo. Acumula riqueza isoladamente e pensa: como hoje sou forte e como sou abastado! mas o louco nem sabe que quanto mais acumula mais mergulha em sua loucura suicida. Porque se acostumou a esperar unicamente de si e separou-se do todo como unidade, acostumou sua alma a n\u00e3o acreditar na ajuda dos homens, nos homens e na humanidade, e n\u00e3o faz sen\u00e3o tremer diante do fato de que desaparecer\u00e3o seu dinheiro e os direitos que adquiriu&#8221;\u00a0(Fi\u00f3dor Dostoi\u00e9vski, em\u00a0<em>Os irm\u00e3os Karam\u00e1zov<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">248. &#8220;O mundo proclamou a liberdade, sobretudo ultimamente,e \u00a0eis o que vemos dessa liberdade deles: s\u00f3 escravid\u00e3o e suic\u00eddio! Porque o mundo diz: &#8216;Tens necessidade e por isso satisfaze-as, porque tens os mesmos direitos que os homens mais ilustres e ricos. N\u00e3o temas satisfaz\u00ea-las e at\u00e9 procura multiplic\u00e1-las&#8217; &#8211; eis a atual doutrina do mundo. \u00c9 nisso que veem a liberdade. E o que resulta desse direito \u00e0 multiplica\u00e7\u00e3o das necessidades? Para os ricos o\u00a0<em>isolamento<\/em> e o suic\u00eddio espiritual, para os pobres, a inveja e o assassinato, porquanto esses direitos foram concedidos mas ainda n\u00e3o se indicaram os meios de satisfazer as necessidades&#8221;\u00a0(Fi\u00f3dor Dostoi\u00e9vski, em\u00a0<em>Os irm\u00e3os Karam\u00e1zov<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">249. &#8220;Compreendendo a liberdade como a multiplica\u00e7\u00e3o e o r\u00e1pido saciamento das necessidades, deformam sua natureza porque geram dentro de si muitos desejos absurdos e tolos, os h\u00e1bitos e as inven\u00e7\u00f5es mais disparatadas.Vivem apenas para invejar uns aos outros, para a lux\u00faria, a soberba. Dar jantares, viajar, possuir carruagens, posi\u00e7\u00e3o social e criados escravos eles j\u00e1 consideram uma necessidade, e para saci\u00e1-la sacrificam at\u00e9 a vida, a honra, o amos ao homem, e at\u00e9 se matam se n\u00e3o conseguem saci\u00e1-la (&#8230;). Eu vos pergunto: esse homem \u00e9 livre?&#8221;\u00a0(Fi\u00f3dor Dostoi\u00e9vski, em\u00a0<em>Os irm\u00e3os Karam\u00e1zov<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">250. &#8220;\u00c9 por isso que no mundo vem-se extinguindo cada vez mais a ideia de servir \u00e0 humanidade, a ideia da fraternidade e da integridade dos homens, pois, em verdade, essa ideia j\u00e1 est\u00e1 sendo recebida at\u00e9 com zombaria; porque, como esse escravo se afastaria de seus h\u00e1bitos, para onde iria se est\u00e1 t\u00e3o acostumado a saciar as infinitas necessidades que ele mesmo inventou? Ele est\u00e1 isolado e pouco se importa com o todo. Eles chegaram a um ponto em que acumularam objetos demais, por\u00e9m ficaram com alegria de menos&#8221;\u00a0(Fi\u00f3dor Dostoi\u00e9vski, em\u00a0<em>Os irm\u00e3os Karam\u00e1zov<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">251. &#8220;Qual deles \u00e9 mais capaz de exaltar a grande ideia e servir a ela &#8211; o rico isolado ou este\u00a0<em>liberto\u00a0<\/em>da tirania dos objetos e dos costumes?&#8221;\u00a0(Fi\u00f3dor Dostoi\u00e9vski, em\u00a0<em>Os irm\u00e3os Karam\u00e1zov<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">252. &#8220;Vi em f\u00e1bricas at\u00e9 crian\u00e7as de dez anos: fracas, estioladas, encurvadas e j\u00e1 depravadas. Ambiente abafado, m\u00e1quinas batendo, todo o dia trabalhando, palavras obscenas e vinho, vinho; \u00e9 disso que precisa a alma de uma crian\u00e7a ainda t\u00e3o pequena? Ela precisa de sol, de brincadeiras de crian\u00e7a, de exemplos luminosos em toda a parte e ao menos uma gotinha de amor&#8221; (Fi\u00f3dor Dostoi\u00e9vski, em\u00a0<em>Os irm\u00e3os Karam\u00e1zov<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">253. &#8220;Homem, n\u00e3o te coloques acima dos animais: eles n\u00e3o t\u00eam pecado e tu, com tua grandeza, apodreces a Terra com tua apari\u00e7\u00e3o sobre ela e deixar\u00e1s depois de ti tuas pegadas podres &#8211; infelizmente quase todos n\u00f3s!&#8221;\u00a0(Fi\u00f3dor Dostoi\u00e9vski, em\u00a0<em>Os irm\u00e3os Karam\u00e1zov<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">254. &#8220;\u00c9 at\u00e9 imposs\u00edvel imaginar toda a desonra e decad\u00eancia moral a que um ciumento \u00e9 capaz de acomodar-se sem quaisquer remorsos. E note-se que nem todos s\u00e3o propriamente almas torpes e s\u00f3rdidas. ao contr\u00e1rio, de cora\u00e7\u00e3o elevado, de amor puro, cheios de abnega\u00e7\u00e3o, podem ao mesmo tempo esconder-se debaixo de mesas, subornar diaristas torpes e acomodar-se \u00e0 mais indecente sordidez da espionagem e da escuta atr\u00e1s das portas&#8221;\u00a0(Fi\u00f3dor Dostoi\u00e9vski, em\u00a0<em>Os irm\u00e3os Karam\u00e1zov<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">254. &#8220;Poder-se-ia pensar: que amor \u00e9 esse que precisa ser t\u00e3o vigiado, e de que vale um amor que precisa ser t\u00e3o intensamente vigiado? Pois \u00e9 isso que nunca ir\u00e1 compreender o verdadeiro ciumento&#8221;\u00a0(Fi\u00f3dor Dostoi\u00e9vski, em\u00a0<em>Os irm\u00e3os Karam\u00e1zov<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">255. &#8220;Na natureza n\u00e3o existe nada rid\u00edculo, por mais que pare\u00e7a ao homem, movido por seus preconceitos. Se os c\u00e3es fossem capazes de refletir e criticar, nas rela\u00e7\u00f5es sociais entre os homens, seus amos, certamente encontrariam um n\u00famero igual &#8211; se n\u00e3o bem maior &#8211; de coisas que achariam rid\u00edculas; repito isso porque tenho a firme convic\u00e7\u00e3o de que n\u00f3s fazemos muito mais tolices&#8221;\u00a0(Fi\u00f3dor Dostoi\u00e9vski, em\u00a0<em>Os irm\u00e3os Karam\u00e1zov<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">256. &#8220;Ao contr\u00e1rio, n\u00e3o tenho nada contra Deus. Claro, Deus \u00e9 apenas uma hip\u00f3tese&#8230; por\u00e9m&#8230; reconhe\u00e7o que ele \u00e9 necess\u00e1rio, para a ordem&#8230; para a ordem universal, etc&#8230; e se Ele n\u00e3o existisse seria preciso invent\u00e1-lo&#8221;\u00a0(Fi\u00f3dor Dostoi\u00e9vski, em em <em>Os irm\u00e3os Karam\u00e1zov<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">257. &#8220;(&#8230;) porque se pode amar a humanidade mesmo sem crer em Deus&#8221;\u00a0(Fi\u00f3dor Dostoi\u00e9vski, em <em>Os irm\u00e3os Karam\u00e1zov<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">258. &#8220;&#8216;A quest\u00e3o \u00e9 saber quais s\u00e3o minhas convic\u00e7\u00f5es, e n\u00e3o quantos anos eu tenho, n\u00e3o \u00e9 verdade?&#8217; &#8216;Quando tiver mais idade, voc\u00ea mesmo ver\u00e1 que import\u00e2ncia tem a idade para as convic\u00e7\u00f5es'&#8221;\u00a0(Fi\u00f3dor Dostoi\u00e9vski, em\u00a0<em>Os irm\u00e3os Karam\u00e1zov<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">259. &#8220;Grigori \u00e9 honesto, mas \u00e9 um imbecil. Muitas pessoas s\u00e3o honestas justamente porque s\u00e3o imbecis&#8221;\u00a0(Fi\u00f3dor Dostoi\u00e9vski, em\u00a0<em>Os irm\u00e3os Karam\u00e1zov<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">260. &#8220;Deus te proteja, am\u00e1vel menino, de que um dia tenhas de pedir perd\u00e3o \u00e0 mulher amada por uma culpa tua! Particularmente \u00e0 mulher amada, particularmente, por mais culpado que sejas perante ela! Porque a mulher \u00e9, meu irm\u00e3o, o diabo sabe o que \u00e9, eu pelo menos entendo delas! Mas tenta te confessar culpado perante ela, &#8216;a culpa \u00e9 minha, dirias, perdoa, desculpa&#8217;: a\u00ed desabar\u00e1 uma saraivada de censuras! Por nada nesse mundo ela te perdoar\u00e1 com franqueza e simplicidade, mas te humilhar\u00e1 at\u00e9 reduzir-se a um trapo, descontar\u00e1 at\u00e9 o que n\u00e3o houve, levar\u00e1 tudo em conta, n\u00e3o esquecer\u00e1 nada, acrescentar\u00e1 coisas de sua parte e s\u00f3 ent\u00e3o desculpar\u00e1. E isso ainda sendo a melhor, a melhor entre elas! Raspar\u00e1 at\u00e9 a \u00faltima m\u00e1goa e despejar\u00e1 tudo em tua cabe\u00e7a&#8221;\u00a0(Fi\u00f3dor Dostoi\u00e9vski, em\u00a0<em>Os irm\u00e3os Karam\u00e1zov<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">261. &#8220;Os homens, a despeito de toda a sua indiscut\u00edvel intelig\u00eancia, tomam toda essa com\u00e9dia por alguma coisa s\u00e9ria. Nisto reside sua trag\u00e9dia. E ent\u00e3o sofrem, \u00e9 claro, mas&#8230; em compensa\u00e7\u00e3o, vivem apesar de tudo, vivem na realidade, n\u00e3o na fantasia; porque o sofrimento \u00e9 que \u00e9 vida. Sem sofrimento, que prazer poderia haver em viver? &#8211; tudo se transformaria num infinito <em>Te Deum<\/em>: \u00e9 uma coisa sagrada, por\u00e9m meio chata&#8221;\u00a0(Fi\u00f3dor Dostoi\u00e9vski, em\u00a0<em>Os irm\u00e3os Karam\u00e1zov<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">262. &#8220;Quando a humanidade, sem exce\u00e7\u00e3o, tiver renegado Deus (e creio que essa era (&#8230;) vir\u00e1), ent\u00e3o cair\u00e1 por si s\u00f3, sem antropofagia, toda a velha concep\u00e7\u00e3o de mundo e, principalmente, toda a velha moral, e come\u00e7ar\u00e1 o inteiramente novo. Os homens se juntar\u00e3o para tomar da vida tudo o que ela pode dar, mas visando unicamente \u00e0 felicidade e \u00e0 alegria neste mundo. O homem alcan\u00e7ar\u00e1 sua grandeza imbuindo-se do esp\u00edrito de uma divina e tit\u00e2nica altivez, e surgir\u00e1 o homem-deus. Vencendo, a cada hora, com sua vontade e ci\u00eancia, uma natureza j\u00e1 sem limites, o homem sentir\u00e1 assim e a cada hora um gozo t\u00e3o elevado que este lhe substituir\u00e1 todas as antigas esperan\u00e7as de gozo celestial. Cada um saber\u00e1 que \u00e9 plenamente mortal, n\u00e3o tem ressurrei\u00e7\u00e3o, e aceitar\u00e1 a morte com altivez e tranquilidade, como um deus. Por altivez compreender\u00e1 que n\u00e3o h\u00e1 raz\u00e3o para reclamar de que a vida \u00e9 um instante, e amar\u00e1 seu irm\u00e3o j\u00e1 sem esperar qualquer recompensa. O amor satisfar\u00e1 apenas um instante da vida, mas a simples consci\u00eancia de sua fugacidade refor\u00e7ar\u00e1 a chama desse amor tanto quanto ela antes se dissipava na esperan\u00e7a de um amor al\u00e9m-t\u00famulo e infinito&#8221;\u00a0(Fi\u00f3dor Dostoi\u00e9vski, em\u00a0<em>Os irm\u00e3os Karam\u00e1zov<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">263. &#8220;Com efeito, todos esses quatro funcion\u00e1rios que compunham o corpo de jurados eram gente mi\u00fada, da baixa burocracia, grisalhos &#8211; s\u00f3 um deles levemente mais jovem -, pouco conhecidos em nossa sociedade, que vinham vegetando com parcos vencimentos, tinham qui\u00e7\u00e1, esposas velhas inapresent\u00e1veis onde quer que fosse, uma penca de filhos, talvez at\u00e9 descal\u00e7os, encontravam num joguinho de baralho em algum lugar o m\u00e1ximo com que distrais seu \u00f3cio e, naturalmente, nunca haviam lido um \u00fanico livro&#8221;\u00a0(Fi\u00f3dor Dostoi\u00e9vski, em\u00a0<em>Os irm\u00e3os Karam\u00e1zov<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">264. &#8220;Nosso horror est\u00e1 justamente no fato de que esses casos sombrios quase j\u00e1 n\u00e3o nos horrorizam mais! Porquanto o que deve nos horrorizar \u00e9 o nosso h\u00e1bito e n\u00e3o um delito isolado desse ou daquele indiv\u00edduo. Onde est\u00e3o as causas de nossa indiferen\u00e7a, de nossa atitude quase morna diante de semelhantes casos, de semelhantes bandeiras da \u00e9poca, que nos profetizam um futuro nada invej\u00e1vel? Estariam no nosso cinismo, na exaust\u00e3o precoce da intelig\u00eancia e da imagina\u00e7\u00e3o de nossa sociedade ainda t\u00e3o jovem mas t\u00e3o precocemente caduca? Estariam em nossos princ\u00edpios morais abalados at\u00e9 os fundamentos ou, enfim, talvez no fato de at\u00e9 carecermos totalmente desses princ\u00edpios morais? Eu n\u00e3o tenho a solu\u00e7\u00e3o para esses problemas, e todavia eles s\u00e3o angustiantes, e todo e qualquer cidad\u00e3o n\u00e3o s\u00f3 deve, como \u00e9 obrigado a sofrer por eles&#8221;\u00a0(Fi\u00f3dor Dostoi\u00e9vski, em\u00a0<em>Os irm\u00e3os Karam\u00e1zov<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">265. &#8220;Oh, tamb\u00e9m somos bons e magn\u00edficos, mas s\u00f3 quando n\u00f3s mesmos nos sentimos bem e magnificamente. Ao contr\u00e1rio, somos at\u00e9 dominados &#8211; precisamente dominados &#8211; pelos mais nobres ideais, mas s\u00f3 sob a condi\u00e7\u00e3o \u00a0de que eles sejam atingidos por acaso, que nos caiam do c\u00e9u sobre a mesa e, principalmente, que sejam gratuitos, gratuitos, que nada paguemos por eles. Abominamos pagar, mas em compensa\u00e7\u00e3o gostamos muito de receber, e isso em todos os sentidos. Oh, dai-nos, dai-nos todos os bens poss\u00edveis da vida (precisamente todos os poss\u00edveis, menos n\u00e3o aceitamos) e sobretudo n\u00e3o imponhais obst\u00e1culo ao nosso direito ao que quer que seja, e ent\u00e3o demonstraremos que tamb\u00e9m podemos ser bons e magn\u00edficos. N\u00e3o somos cobi\u00e7osos, n\u00e3o, mas, n\u00e3o obstante, dai-nos dinheiro, mais, mais, e quanto mais for poss\u00edvel, e vereis com que magnanimidade, com que desd\u00e9m pelo vil metal o esbanjaremos em uma noite num regabofe desenfreado&#8221;\u00a0(Fi\u00f3dor Dostoi\u00e9vski, em\u00a0<em>Os irm\u00e3os Karam\u00e1zov<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">266. &#8220;Todo ser humano \u00e9 um resultado de pai e m\u00e3e. Pode-se n\u00e3o reconhec\u00ea-los, n\u00e3o am\u00e1-los, pode-se duvidar deles. Mas eles a\u00ed est\u00e3o: seu rosto, suas atitudes, suas maneiras e manias, suas ilus\u00f5es e esperan\u00e7as, a forma de suas m\u00e3os e seus dedos do p\u00e9, a cor dos olhos e dos cabelos, seu modo de falar, suas ideias, provavelmente a idade de sua morte, tudo isso passou para n\u00f3s&#8221; (J. M. G. Le Clezio, em\u00a0<em>O africano<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">267. &#8220;Each time he took a walk, he felt as though he were leaving himself behind, and by giving himself up to the movement of the streets, by reducing himself to a seeing eye, he was able to scape the obligation to think, and this, more than anything else, brought him a measure of peace, a salutary emptiness within. The world was outside him, and the speed with which it kept changing made it impossible for him to dwell on any one thing for very long. Motion was of the essence, the act os putting one foot in front other and allowing himself to follow the drift of his own body. By wandering aimlessly, all places became equal, and it no longer mattered where he was&#8221; (Paul Auster, em <em>City of glass<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">268. &#8220;But beggars and performers make up only a small part of the vagabond population. They are the aristocracy, the elite of the fallen. Far more numerous are those with nothing to do, with nowhere to go. Many are drunks &#8211; but that term does not do justice to the devastation they embody. Hulks of despair, clothed in rags, their faces bruised and bleeding, they shuffle through the streets as though traffic, collapsing on sidewalks &#8211; they seem to be everywhere the moment you look for them. Some will starve to death, others will die of exposure, still others will be beaten or burned or tortured. For every soul lost in this particular hell, there are several others locked inside madness\u2014unable to exit to the world that stands at the threshold of their bodies. Even though they seem to be there, they cannot be counted as present. The man, for example, who goes everywhere with a set of drumsticks, pounding the pavement with them in a reck\u00adless, nonsensical rhythm, stooped over awkwardly as he advances along the street, beating and beating away at the cement. Perhaps he thinks he is doing important work. Perhaps, if he did not do what he did, the city would fall apart. Perhaps the moon would spin out of its orbit and come crashing into the earth. There are the ones who talk to themselves, who mutter, who scream, who curse, who groan, who tell themselves stories as if to someone else&#8221;\u00a0(Paul Auster, em\u00a0<em>City of glass<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">269. &#8220;Does this mean that reality only contains things that can be detected, directly or indirectly, by our senses and by the methods of science? What about things like jealousy and joy, happiness and love? Are these not also real? Yes, they are real. But they depend for their existence on brains: human brains, certainly, and probably the brains of other advanced animal species, such as chimpanzees, dogs and whales, too. Rocks don\u2019t feel joy or jealousy, and mountains do not love&#8221; (Richard Dawkins, em <em>The magic of reality<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">270. Suppose the dealer shuffles the pack and deals them out to four players, so that they each have 13 cards. I pick up my hand and gasp in astonishment. I have a complete hand of 13 spadesl All the spades. I am too startled to go on with the game, and I show my hand to the other three players, knowing they will be as amazed as I am. But then, one by one, each of the other players lays his cards on the table, and the gasps of astonishment grow with each hand. Every one of them has a \u2018perfect\u2019 hand: one has 13 hearts, another has 13 diamonds, and the last one has 13 clubs. Would this be supernatural magic? We might be tempted to think so. Mathematicians can calculate the chance of such a remarkable deal happening purely by chance. It turns out to be almost impossibly small: 1 in 53,644,737,765,488,792,839,237,440,000. If you sat down and played cards for a trillion years, you might on one occasion get a perfect deal like that. But &#8211; and here\u2019s the thing &#8211; this deal is no more unlikely than every&#8217; other deal of cards that has ever happened! The chance of any particular deal of 52 cards is 1 in 53,644,737,765,488,792, 839,237,440,000 because that is the total number of all possible deals. It is just that we don\u2019t notice any particular pattern in the vast majority ot deals that are made, so they don&#8217;t strike us as anything out ot the ordinary. We only notice the deals that happen to stand out in some way&#8221;\u00a0(Richard Dawkins, em\u00a0<em>The magic of reality<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">271. &#8220;Given enough generations, ancestors that look like newts can change into descendants that look like frogs. Given even more generations, ancestors that look like fish can change into descendants that look like monkeys. Given yet more generations, ancestors that look like bacteria can change into descendants that look like humans. And this is exactly what happened. This is the kind of thing that happened in the history of every animal and plant that has ever lived. The number of generations required is larger than you or I can possibly imagine, but the world is thousands of millions of years old, and we know from fossils that life got started more than three and a half billion years ago, so there has been plenty of time for evolution to happen&#8221;\u00a0(Richard Dawkins, em\u00a0<em>The magic of reality<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">272. &#8220;In fact, as we shall see, most &#8216;solid&#8217; matter consists of empty space (&#8230;) even the legendarily hard diamond is almost entirely empty space! The same is true of all rocks, no matter how hard and solid. It is true of iron and lead. It is also true of even the hard\u00adest wood. And it is true of you and me\u00a0(Richard Dawkins, em\u00a0<em>The magic of reality<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">273. &#8220;Believe it or not, your 185-million-greats-grandtather was \u2014 a fish. So was your 185-million-greats-grandmother, which is just as well or they couldn\u2019t have mated with each other and you wouldn\u2019t be here (&#8230;)\u00a0Yet if you walk steadily from one end of the bookshelf to the other, you 11 see a human at one end and a fish at the other. And lots of other interesting great-&#8230; great- grandparents in between, which, as we shall soon see, include some animals that look like apes, others that look like monkeys, others that look like shrews, and so on&#8221;\u00a0(Richard Dawkins, em\u00a0<em>The magic of reality<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">274. &#8220;But now is the moment to return, as I promised I would, to the question of why, when you cut a piece of, say, lead into smaller and smaller pieces, you eventually reach a point where, if you cut it again, it is no longer lead. An atom of lead has 82 protons. If you split the atom so that it no longer has 82 protons it ceases to be lead&#8221;\u00a0(Richard Dawkins, em\u00a0<em>The magic of reality<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">275. &#8220;Dust mites are distantly related to spiders but too small to\u00a0see except as tiny specks. There are thousands of them in every home, crawling through every carpet and every bed, quite probably including yours. If primitive peoples had known about them, you can imagine what myths and legends they might have invented to explain them! But before the invention of the microscope, their existence was not even dreamed of \u2014 and so there are no myths about them. And, small as it is, even a dust mite contains more than a hundred trillion atoms (&#8230;) And atoms are far far smaller even than bacteria. The whole world is made of incredibly tiny things, much too small to be visible to the naked eye &#8211; and yet none of the myths or so-called holy books that some people, even now, think were given to us by an all-knowing god, mentions them at all! In fact, when you look at those myths and stories, you can see that they don t contain any of the knowledge that science has patiently worked out. They don\u2019t tell us how big or how old the universe is; they don\u2019t tell us how to treat cancer; they don\u2019t explain gravity or the internal combustion engine; they don&#8217;t tell us\u00a0about germs, or nuclear fusion, or electricity, or anaesthetics, In fact, unsurprisingly, the stories in holy hooks don t contain any more information about the world than was known to the primitive peoples who first started telling them! If these \u2018holy books\u2019 really were written, or dictated, or inspired, by all-knowing gods, don\u2019t you think it\u2019s odd that those gods said nothing about any of these important and useful things?&#8221;\u00a0(Richard Dawkins, em\u00a0<em>The magic of reality<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">276. &#8220;The Aztecs believed that they had to sacrifice human victims to appease the sun god, otherwise he would not rise in the east each morning. Apparently it didn\u2019t occur to them to try the experiment of not making sacrifices, to see whether the sun might, just possibly, rise anyway&#8221; (Richard Dawkins, em\u00a0<em>The magic of reality<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">277.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;1. Go out into a big field with a football and plonk it down to represent the sun.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">2. Then walk 25 metres away and drop a peppercorn to represent the Earth&#8217;s size and its distance from the sun.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">3. The moon, to the same scale, would be a pinhead, and it would be only 5 centimetres away from the peppercorn.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">4. But the nearest other star, Proxima Centauri, to the same scale, would be another (slightly smaller) football located about&#8230; wait for it&#8230; six and a half thousand kilometres away!&#8221;\u00a0(Richard Dawkins, em\u00a0<em>The magic of reality<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">278. &#8220;Supernovas, unlike ordinary stars, can create elements\u00a0even heavier than iron: lead, for example, and uranium. The\u00a0titanic explosion of a supernova scatters all the elements that the star, and then the supernova, have made, including the elements necessary for life, far and wide through space. Eventually the clouds of dust, rich in heavy elements, will start the cycle again, condensing to make new stars and planets. That is where the matter in our planet came from, and that is why our planet contains the elements that are needed to make us, the carbon, nitrogen, oxygen and so on: they come from the dust that remained after a long-gone supernova lit up the cosmos. That is the origin of the poetic phrase \u2018We are stardust. It is literally true. Without occasional (but very rare) supernova explosions, the elements necessary for life would not exist&#8221;\u00a0(Richard Dawkins, em\u00a0<em>The magic of reality<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">279. &#8220;And now here is something amazing. Astronomers have looked at the expansion and worked backwards through time. It is as though they constructed a movie of the expanding universe, with the galaxies rushing apart, and then ran the film in reverse. Instead of hurtling away from each other, in the backwards film the galaxies converge. And from that film the astronomers can calculate back to the moment when the expansion of the universe must have begun. They can even calculate when that moment was. That\u2019s how they know it was somewhere between 13 and 14 billion years ago. That was the moment when the universe itself began &#8211; the moment called the \u2018big bang\u2019&#8221;\u00a0(Richard Dawkins, em\u00a0<em>The magic of reality<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">280. &#8220;In California in March 1997 a\u00a0religious cult called Heaven\u2019s Gate came to a sad end when all 39 of its members took poison. They killed themselves because they believed that a UFO from outer space would take their souls to another world. At the time a bright comet called Hale-Bopp was prominent in the sky and the cult believed &#8211; because their spiritual leader told them so &#8211; that an alien spacecraft was accompanying the comet on its journey. They bought a telescope to observe it, but then sent it back to the shop because it \u2018didn\u2019t work\u2019. How did they know it didnt work? Because they couldn\u2019t see the spacecraft through it!&#8221;\u00a0(Richard Dawkins, em\u00a0<em>The magic of reality<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">281. &#8220;One man, for instance, believed he had been abducted for no better reason than that he often got nosebleeds. His theory was that the aliens had put a radio transmitter in bis nose to spy on him. He also thought he might be part alien himself, on the grounds that his colouring was a little darker than his parents\u2019. A surprisingly large number of Americans, many of them otherwise normal, sincerely believe that they personally have been taken aboard flying saucers and been the victims of horrific experiments conducted by little grey men with large heads and huge, wraparound eyes. There is a whole mythology of\u2018alien abductions\u2019, which is as rich, as colourful and as detailed as the mythology of ancient Greece and the gods of Mount Olympus. But these alien abduction myths are recent, and you can actually go and talk to people who believe they have been abducted: apparently normal sane, level-headed people, who will tell you they saw the aliens face to face; actually tell you what the aliens look like, and what they say while performing their nasty experiments and sticking needles into people (the aliens speak English, of\u00a0course!)&#8221;\u00a0(Richard Dawkins, em\u00a0<em>The magic of reality<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">282. &#8220;Recovering \u2018lost\u2019 memory is a whole other story, by the way, which is interesting in its own right. When we think we remember a real incident, we may only be remembering another memory . .. and so on back to what may or may not have been a real incident originally. Memories of memories of memories can become progressively distorted. There is good evidence that some of our most vivid memories are actually false memories. And false memories can be deliberately planted by unscrupulous \u2018therapists\u2019&#8221;\u00a0(Richard Dawkins, em\u00a0<em>The magic of reality<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\" align=\"left\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" align=\"left\">283. &#8220;Is there really life on other planets? Nobody knows. If you forced me to give an opinion one way or the other, I\u2019d say yes, and probably on millions of planets. But who cares about an opinion? There is no direct evidence. One of the great virtues of science is that scientists know when they don\u2019t know the answer to something. They cheer\u00adfully admit that they don\u2019t know. Cheerfully, because not knowing the answer is an exciting challenge to try to find it&#8221;\u00a0(Richard Dawkins, em\u00a0<em>The magic of reality<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\" align=\"left\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">284. &#8220;Child psychologists have shown that very young children, when asked why certain rocks are pointy, reject scientific causes as an explanation and prefer the answer: \u2018So that animals can scratch themselves when they get itchy.\u2019 Most children grow out of that kind of explanation for the pointy rocks. But quite a lot of adults seem unable to shake off the same kind of explanation when it comes to major misfortunes like earth\u00adquakes, or good fortune such as lucky escapes from earthquakes&#8221;\u00a0(Richard Dawkins, em\u00a0<em>The magic of reality<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">285. &#8220;Let\u2019s put that in the language of Charles Darwin, the language of natural selection: those individual animals that act as though Sod\u2019s Law were true are more likely to survive and reproduce than those individual animals that follow Pollyanna\u2019s Law&#8221;\u00a0(Richard Dawkins, em\u00a0<em>The magic of reality<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">286. &#8220;Nem toda correspond\u00eancia poss\u00edvel, no campo da linguagem, aponta para algo relevante no mundo dos f\u00f3tons e dos \u00e1tomos. Sen\u00e3o, ter\u00edamos de supor que, ao escrever <em>Romeu e Julieta<\/em>\u00a0&#8211; no qual dois jovens de fam\u00edlias inimigas e de sexos opostos se sentem irresistivelmente atra\u00eddos um para o outro, o que causa a destrui\u00e7\u00e3o de ambos -, William Shakespeare estava dizendo algo significativo sobre o el\u00e9tron e o p\u00f3sitron, part\u00edculas de cargas el\u00e9tricas opostas que s\u00e3o inexoravelmente atra\u00eddas uma para a outra e que se aniquilam mutuamente no momento de colis\u00e3o&#8221; (Carlos Orsi e Daniel Bezerra, em <em>Picaretagem qu\u00e2ntica<\/em>: como livros de esoterismo e autoajuda distorcem a Ci\u00eancia para te enganar)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">287. Met\u00e1foras s\u00e3o boas para iluminar a vida, mas se levadas al\u00e9m de seus limites, acabam provocando confus\u00e3o: n\u00e3o \u00e9 porque sua namorada \u00e9 linda como uma flor que voc\u00ea deve adub\u00e1-la&#8221; (Carlos Orsi e Daniel Bezerra, em\u00a0<em>Picaretagem qu\u00e2ntica<\/em>: como livros de esoterismo e autoajuda distorcem a Ci\u00eancia para te enganar)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">288. &#8220;A hip\u00f3tese de que o &#8216;campo de consci\u00eancia&#8217; \u00e9 o ingrediente fundamental do Universo abre a possibilidade &#8211; eis o principal fator de <em>marketing<\/em> do misticismo qu\u00e2ntico &#8211; de que a realidade seja male\u00e1vel, no sentido de que pode ser forjada na fornalha da for\u00e7a de vontade: se um n\u00famero grande o suficiente de pessoas acreditar, digamos, na paz mundial, ou que sorvete de morango cura o c\u00e2ncer, o campo universal poderia ser redefinido para acomodar esses novos conceitos. O problema, que deve parecer evidente, \u00e9 que isso simplesmente n\u00e3o acontece. A realidade n\u00e3o \u00e9 democr\u00e1tica: dos prim\u00f3rdios da humanidade at\u00e9 o per\u00edodo cl\u00e1ssico da civiliza\u00e7\u00e3o grega, o consenso parece ter sido o de que a Terra era plana, mas n\u00e3o h\u00e1 nenhum ind\u00edcio de que nosso planeta tenha sido achatado como uma panqueca durante todo esse tempo. Outros exemplos abundam: antes de Galileu realizar suas primeiras observa\u00e7\u00f5es da Lua, o consenso, no mundo ocidental, dizia que nosso sat\u00e9lite natural tinha de ser uma esfera perfeita e sem manchas. Se houvesse mesmo um &#8216;campo de consci\u00eancia&#8217; construindo a realidade, o grande cientista italiano jamais teria observado as montanhas, os vales e as crateras lunares&#8221;\u00a0(Carlos Orsi e Daniel Bezerra, em\u00a0<em>Picaretagem qu\u00e2ntica<\/em>: como livros de esoterismo e autoajuda distorcem a Ci\u00eancia para te enganar)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">289. &#8220;N\u00e3o h\u00e1 mentaliza\u00e7\u00e3o que fa\u00e7a multiplicarem-se as vagas nos cursos superiores mais desenvolvidos. Al\u00e9m disso, h\u00e1 alguma evid\u00eancia experimental de que t\u00e9cnicas de &#8216;visualiza\u00e7\u00e3o&#8217; &#8211; em que a pessoa se esfor\u00e7a para ver a si mesma j\u00e1 na posi\u00e7\u00e3o almejada &#8211; s\u00e3o, na verdade, contraproducentes. De acordo com o psic\u00f3logo brit\u00e2nico Richard Wiseman, pessoas que se valem de estrat\u00e9gias assim acabam sendo levadas a subestimar o esfor\u00e7o realmente necess\u00e1rio para conquistar o objetivo e, por isso, se frustram com mais facilidade&#8221;\u00a0(Carlos Orsi e Daniel Bezerra, em\u00a0<em>Picaretagem qu\u00e2ntica<\/em>: como livros de esoterismo e autoajuda distorcem a Ci\u00eancia para te enganar)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">290.\u00a0&#8220;O estado atual da Mec\u00e2nica Qu\u00e2ntica, ao sugerir que a realidade pode sofrer de uma indetermina\u00e7\u00e3o fundamental, n\u00e3o parece inspirar sentimentos de espanto ou humildade, mas o oposto: a tenta\u00e7\u00e3o de se p\u00f4r o ego humano no papel de Grande Determinador. Para escritores de autoajuda, \u00e9 um meio f\u00e1cil de adular o leitor e, ao mesmo tempo, de culp\u00e1-lo quando os clich\u00eas de sempre n\u00e3o funcionam. A consci\u00eancia humana \u00e9 o centro de nossas vidas e preocupa\u00e7\u00f5es cotidianas, mas n\u00e3o h\u00e1 motivo algum para p\u00f4-la, tamb\u00e9m, no centro do cosmo. Fazer isso \u00e9 negar o que talvez seja a principal contribui\u00e7\u00e3o da ci\u00eancia para a compreens\u00e3o filos\u00f3fica do lugar do homem no Universo: um animal feito de poeira de estrelas, irm\u00e3o das \u00e1rvores, dos sapos e das bact\u00e9rias, habitando a periferia de uma gal\u00e1xia igual a bilh\u00f5es de outras, tentando, como uma crian\u00e7a que cata \u00a0conchas na praia e pondera o mar, entender a imensid\u00e3o&#8221;\u00a0(Carlos Orsi e Daniel Bezerra, em\u00a0<em>Picaretagem qu\u00e2ntica<\/em>: como livros de esoterismo e autoajuda distorcem a Ci\u00eancia para te enganar)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">291. \u201cO escritor gostaria que acredit\u00e1ssemos que, ao contr\u00e1rio daqueles escrevinhadores que podem dizer com anteced\u00eancia como o livro deles vai acabar, sua imagina\u00e7\u00e3o \u00e9 t\u00e3o poderosa, e seus personagens t\u00e3o reais e v\u00edvidos, que ele n\u00e3o tem como control\u00e1-los. A melhor das hip\u00f3teses aqui, mais uma vez, \u00e9 que n\u00e3o se trata da verdade, pois tal no\u00e7\u00e3o pressup\u00f5e a perda do desejo autoral, a abdica\u00e7\u00e3o da inten\u00e7\u00e3o. A responsabilidade fundamental do romancista \u00e9 criar significado, e, se de alguma maneira esse trabalho \u00e9 deixado para os personagens, ele est\u00e1 necessariamente evitando a responsabilidade \u201d (Jonathan Franzen, em <em>Como ficar sozinho<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">292. &#8220;\u2026 meu trabalho representa uma campanha ativa contra os valores de que n\u00e3o gosto: sentimentalidade, narrativa d\u00e9bil, prosa abertamente l\u00edrica, solipsismo, autocomplac\u00eancia, misoginia e outros provincianismos, jogos de palavra est\u00e9reis, didatismo patente, simplicidade moral, dificuldade desnecess\u00e1ria, fetiches de informa\u00e7\u00e3o, e por a\u00ed vai&#8221;\u00a0(Jonathan Franzen, em\u00a0<em>Como ficar sozinho<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">293. &#8220;N\u00f3s vivemos no tempo \u2014 ele nos prende e nos molda \u2014, mas eu nunca achei que entendia isso muito bem. E n\u00e3o me refiro a teorias de como ele se dobra e volta para tr\u00e1s, ou se pode existir em outro lugar em vers\u00f5es paralelas. N\u00e3o, eu me refiro ao tempo comum, rotineiro, que os rel\u00f3gios nos mostram que passa regularmente; tique-taque, clique-claque. Existe algo mais plaus\u00edvel do que um segundo ponteiro? E, no entanto, basta o menor prazer ou dor para nos ensinar a maleabilidade do tempo. Algumas emo\u00e7\u00f5es o aceleram, outras o retardam; \u00e0s vezes, ele parece desaparecer &#8211; at\u00e9 o ponto que ele realmente desaparece, para nunca mais voltar&#8221; (Julian Barnes, em <i>O sentido de um fim<\/i>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">294. &#8220;Mas foi na escola que tudo come\u00e7ou, ent\u00e3o eu preciso voltar brevemente a alguns incidentes que viraram anedotas, a algumas lembran\u00e7as aproximadas que o tempo deformou em certezas. Se eu n\u00e3o posso mais ter certeza dos acontecimentos reais, posso ao menos ser fiel \u00e0s impres\u00ads\u00f5es que aqueles fatos deixaram. \u00c9 o melhor que posso fazer&#8221;\u00a0(Julian Barnes, em\u00a0<i>O sentido de um fim<\/i>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">295. &#8220;A escola ficava no centro de Londres, e todo dia sa\u00edamos de nossos diferentes bairros e pass\u00e1vamos de um sistema de controle para outro. Naquela \u00e9poca, as coisas eram mais sim\u00adples: menos dinheiro, nenhum aparelho eletr\u00f4nico, pouca tirania da moda, nenhuma namorada. N\u00e3o havia nada para nos distrair da nossa obriga\u00e7\u00e3o humana e filial de estudar, passar nos exames, usar nossas qualifica\u00e7\u00f5es para arranjar um emprego e depois organizar um modo de vida mais satisfa\u00adt\u00f3rio do que o dos nossos pais, que iriam aprov\u00e1-lo, embora comparando-o em segredo com seus pr\u00f3prios come\u00e7os de vida, que tinham sido mais simples e, portanto, superiores. Nada disso, \u00e9 claro, jamais era verbalizado: o requintado darwinismo social da classe m\u00e9dia inglesa sempre permanecia impl\u00edcito&#8221;\u00a0(Julian Barnes, em\u00a0<i>O sentido de um fim<\/i>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">296. &#8220;Sim, \u00e9 claro que \u00e9ramos pretensiosos \u2014 para que mais serve a juventude? N\u00f3s us\u00e1vamos termos como &#8216;Weltans\u00adchauung&#8217; e &#8216;Sturm und Drang&#8217;, gost\u00e1vamos de dizer &#8216;Isso \u00e9 filosoficamente autoevidente&#8217; e assegur\u00e1vamos uns aos outros que a primeira obriga\u00e7\u00e3o da imagina\u00e7\u00e3o era ser transgressora&#8221;\u00a0(Julian Barnes, em\u00a0<i>O sentido de um fim<\/i>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">297. &#8220;\u2014 Voc\u00ea n\u00e3o gosta\u00adria de dividir conosco seus pensamentos?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0\u2014\u00a0 \u00a0N\u00e3o sei, senhor.<\/p>\n<p>\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0\u2014\u00a0 \u00a0O que \u00e9 que voc\u00ea n\u00e3o sabe?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0\u2014\u00a0Bem, num certo sentido, eu n\u00e3o posso saber o que \u00e9 que eu n\u00e3o sei. Isso \u00e9 filosoficamente autoevidente&#8221;\u00a0(Julian Barnes, em\u00a0<i>O sentido de um fim<\/i>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">298. &#8220;Por que ele e n\u00e3o n\u00f3s? Por que nenhum de n\u00f3s jamais chegou a ter nem a experi\u00eancia de fracassar em conseguir uma namorada? Pelo menos a humilha\u00e7\u00e3o disso teria contribu\u00eddo para ficarmos mais s\u00e1bios, teria nos dado algo de que poder\u00edamos nos gabar negativamente. (\u201cNa realidade, \u2018um imbecil pustulento com o carisma de uma sola de t\u00eanis\u2019 foram as palavras exatas dela.\u201d) N\u00f3s sab\u00edamos por nossas leituras dos grandes livros que Amor envolvia Sofri\u00admento, e ter\u00edamos de bom grado praticado o Sofrimento se houvesse uma promessa impl\u00edcita, talvez at\u00e9 l\u00f3gica, de que o Amor poderia estar a caminho&#8221;\u00a0(Julian Barnes, em\u00a0<i>O sentido de um fim<\/i>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">299. &#8220;A Hist\u00f3ria \u00e9 aquela certeza fabricada no instante em que as imperfei\u00e7\u00f5es da mem\u00f3ria se encontram com as falhas de documenta\u00e7\u00e3o&#8221;\u00a0(Julian Barnes, em\u00a0<i>O sentido de um fim<\/i>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">300. &#8220;Afinal de contas, &#8216;aquela \u00e9poca n\u00e3o eram os anos 1960?&#8217; Sim, eram, mas como eu disse, isso dependia de onde \u2014 e com quem \u2014 voc\u00ea estava. Se voc\u00ea permitir uma breve aula de hist\u00f3ria: a maioria das pessoas n\u00e3o experimentou os \u201canos 1960\u201d at\u00e9 os anos 1970. O que significa, logicamente, que a maioria das pessoas nos anos 1960 ainda estava experimentando os 1950&#8221;\u00a0(Julian Barnes, em\u00a0<i>O sentido de um fim<\/i>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">301. &#8220;\u2014 \u00a0Eu n\u00e3o sei qual \u00e9 a estat\u00edstica ligando intelig\u00eancia a suic\u00eddio \u2014 respondi.<\/p>\n<p>\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u2014 \u00a0Sim, Tony, mas voc\u00ea entende o que eu quero dizer.<\/p>\n<p>\u2014 \u00a0N\u00e3o, na realidade n\u00e3o entendo.<\/p>\n<p align=\"left\">\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u2014 \u00a0Bem, digamos assim: voc\u00ea \u00e9 um rapaz inteligente, mas n\u00e3o t\u00e3o inteligente que pudesse vir a fazer uma coisa dessas.<\/p>\n<p>\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 Eu olhei para ela sem pensar. Falsamente encorajada, ela continuou:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0\u2014\u00a0Mas quando voc\u00ea \u00e9 muito inteligente, eu acho que um parafuso pode se soltar&#8221;\u00a0(Julian Barnes, em\u00a0<i>O sentido de um fim<\/i>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">302. &#8220;Ele era mesmo inteligente demais. Quando voc\u00ea \u00e9 t\u00e3o inteligente assim consegue convencer a si mesmo de qualquer coisa. Voc\u00ea simplesmente deixa de lado o bom-senso. Foi o c\u00e9rebro que o fez enlouquecer, por isso ele fez aquilo&#8221;\u00a0(Julian Barnes, em\u00a0<i>O sentido de um fim<\/i>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">303. &#8220;Ele tinha uma cabe\u00e7a melhor e um temperamento mais rigoroso do que o meu; ele pensava logicamente, e depois agia de acordo com a conclus\u00e3o do pensamento l\u00f3gico. Enquanto a maioria de n\u00f3s, eu desconfio, faz o contr\u00e1rio: n\u00f3s tomamos uma decis\u00e3o instintiva, depois constru\u00edmos uma infraestrutura de racioc\u00ednio para justific\u00e1-la. E chamamos o resultado dis\u00adso de bom-senso&#8221;\u00a0(Julian Barnes, em\u00a0<i>O sentido de um fim<\/i>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">304. &#8220;Algum ingl\u00eas disse que o casamento \u00e9 uma refei\u00e7\u00e3o comprida e sem gra\u00e7a onde servem o pudim primeiro&#8221;\u00a0(Julian Barnes, em\u00a0<i>O sentido de um fim<\/i>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">305. &#8220;Na maturidade da vida, voc\u00ea espera um certo descanso, n\u00e3o \u00e9? Voc\u00ea acha que merece isso. Eu, pelo menos, achava. Mas a\u00ed voc\u00ea come\u00e7a a entender que premiar a virtude n\u00e3o compete \u00e0 vida&#8221;\u00a0(Julian Barnes, em\u00a0<i>O sentido de um fim<\/i>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">306. &#8220;Talvez eu simplesmente me sinta mais seguro com a hist\u00f3ria que foi mais ou menos acordada. Ou talvez seja o mesmo paradoxo de novo: a hist\u00f3ria que acontece debaixo do nosso nariz de\u00adveria ser a mais clara, e no entanto \u00e9 a mais deliquescente. N\u00f3s vivemos no tempo, ele nos limita e nos define, e o tempo supostamente mede a hist\u00f3ria, n\u00e3o \u00e9? Mas se n\u00e3o podemos en\u00adtender o tempo, n\u00e3o podemos alcan\u00e7ar seus mist\u00e9rios de ritmo e progresso, que chance n\u00f3s temos com a hist\u00f3ria \u2014 mesmo o nosso pequeno, pessoal e praticamente n\u00e3o documentado peda\u00e7o dela?&#8221;\u00a0(Julian Barnes, em\u00a0<i>O sentido de um fim<\/i>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">307. &#8220;Eu descobri que esta pode ser uma das diferen\u00e7as entre a juventude e a velhice: quando somos jovens, inventamos futuros para n\u00f3s mesmos; quando somos velhos, inventamos diferentes passados para os outros&#8221;\u00a0(Julian Barnes, em\u00a0<i>O sentido de um fim<\/i>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">308. &#8220;Mas por que dever\u00edamos esperar que a idade nos abran\u00addasse? Se n\u00e3o cabe \u00e0 vida recompensar o m\u00e9rito, por que cabe\u00adria a ela proporcionar-nos sentimentos ternos e confortadores perto do seu final?&#8221;\u00a0(Julian Barnes, em\u00a0<i>O sentido de um fim<\/i>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">309. &#8220;Quantas vezes nos contamos a hist\u00f3ria da nossa vida? Quantas vezes nos ajustamos, embelezamos, editamos esper\u00adtamente? E quanto mais longa a vida, menos s\u00e3o os que ainda est\u00e3o por perto para nos contradizer, para nos lembrar que nossa vida n\u00e3o \u00e9 a nossa vida, mas apenas a hist\u00f3ria que n\u00f3s contamos a respeito da nossa vida. Contamos para outros, mas\u00a0\u2014 principalmente \u2014 para n\u00f3s mesmos&#8221;\u00a0(Julian Barnes, em\u00a0<i>O sentido de um fim<\/i>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">310. &#8220;N\u00e3o, o que eu quero dizer \u00e9 que, quando voc\u00ea tem vinte anos, mes\u00admo que voc\u00ea se sinta confuso e incerto a respeito dos seus objetivos, voc\u00ea tem um forte senso do que \u00e9 a vida, e do que voc\u00ea \u00e9 na vida, e pode vir a ser. Mais tarde&#8230; mais tarde h\u00e1 mais incerteza, mais sobreposi\u00e7\u00e3o, mais retrocesso, mais falsas lembran\u00e7as. Na juventude, conseguimos nos lembrar de toda a nossa curta vida. Mais tarde, a mem\u00f3ria vira uma coisa feita de retalhos e remendos. \u00c9 um pouco como a caixa preta que os avi\u00f5es carregam para registrar o que acontece num desastre. Se nada der errado, a fita se apaga sozinha. Ent\u00e3o, se voc\u00ea se arrebenta, o motivo se torna \u00f3bvio; se voc\u00ea n\u00e3o se arrebenta, ent\u00e3o o registro da sua viagem \u00e9 muito menos claro&#8221;\u00a0(Julian Barnes, em\u00a0<i>O sentido de um fim<\/i>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">311. &#8220;Ent\u00e3o, em vez disso, revi as lembran\u00e7as que tinha, as imagens mui\u00adto antigas e as rec\u00e9m-chegadas. Eu as coloquei contra a luz, revirando-as em meus dedos, tentando ver se elas agora signi\u00adficavam algo diferente. Comecei a reexaminar o meu eu mais jovem, at\u00e9 onde \u00e9 poss\u00edvel fazer isso. \u00c9 claro que eu tinha sido est\u00fapido e ing\u00eanuo \u2014 todos n\u00f3s somos; mas eu sabia que n\u00e3o devia exagerar estas caracter\u00edsticas, porque isso \u00e9 apenas um modo de voc\u00ea elogiar a si mesmo por aquilo que voc\u00ea se tornou&#8221;\u00a0(Julian Barnes, em\u00a0<i>O sentido de um fim<\/i>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">312. &#8220;Na escola, voc\u00ea aprendeu sobre subst\u00e2ncias qu\u00edmicas em tubos de ensaio, equa\u00e7\u00f5es que descrevem movimento e talvez alguma coisa sobre a fotoss\u00edntese \u2014 que ser\u00e1 mencionada adiante \u2014, mas o mais prov\u00e1vel \u00e9 que voc\u00ea n\u00e3o tenha aprendido nada sobre morte, risco, estat\u00edsticas a ci\u00eancia que ir\u00e1 mat\u00e1-lo ou cur\u00e1-lo. O furo em nossa cultura est\u00e1 se transformando em abismo: a medicina baseada em evid\u00eancias, a suprema ci\u00eancia aplicada, cont\u00e9m algumas das ideias mais inteligentes dos dois \u00faltimos s\u00e9culos e salvou milh\u00f5es de vidas, mas nunca houve uma \u00fanica exposi\u00e7\u00e3o sobre o assunto no Museu de Ci\u00eancias de Londres&#8221; (Ben Goldacre, em\u00a0<em>Ci\u00eancia picareta<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">313. &#8220;A purifica\u00e7\u00e3o e a reden\u00e7\u00e3o s\u00e3o muito recorrentes nos rituais porque existe uma clara e onipresente necessidade desses temas: todos n\u00f3s faze\u00admos coisas lament\u00e1veis como resultado de nossas pr\u00f3prias circunst\u00e2ncias, e novos rituais s\u00e3o frequentemente inventados em resposta \u00e0s novas cir\u00adcunst\u00e2ncias. Em Angola e Mo\u00e7ambique, surgiram rituais de purifica\u00e7\u00e3o e limpeza para as crian\u00e7as afetadas pela guerra, especialmente para as antigas crian\u00e7as-soldados. Esses s\u00e3o rituais de cura nos quais a crian\u00e7a \u00e9 purificada do pecado e da culpa, da \u2018contamina\u00e7\u00e3o\u2019 da guerra e da morte (contamina\u00e7\u00e3o \u00e9 uma met\u00e1fora recorrente em todas as culturas, por motivos \u00f3bvios); a crian\u00e7a tamb\u00e9m \u00e9 protegida das consequ\u00eancias de suas a\u00e7\u00f5es pr\u00e9vias, ou seja, ela \u00e9 protegida da retalia\u00e7\u00e3o pelos esp\u00ed\u00adritos vingadores daqueles que matou. Como diz um relat\u00f3rio do Banco Mundial de 1999: &#8216;Esses rituais de limpeza e purifica\u00e7\u00e3o para as crian\u00e7as-soldados t\u00eam a apa\u00adr\u00eancia do que os antrop\u00f3logos chamam de ritos de transi\u00e7\u00e3o. Isto \u00e9, a crian\u00e7a passa por uma mudan\u00e7a de status simb\u00f3lico de algu\u00e9m que existiu em um dom\u00ednio de viola\u00e7\u00e3o sancionada da norma ou de suspens\u00e3o da norma (isto \u00e9, assassinato, guerra) para algu\u00e9m que deve agora viver em um dom\u00ednio de normas sociais e comportamentais pac\u00edficas e se conforma a elas'&#8221; (Ben Goldacre, em\u00a0<em>Ci\u00eancia picareta<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">314. &#8220;N\u00e3o acho que eu esteja indo longe demais. No que chamamos de mundo, ocidental desenvolvido, buscamos reden\u00e7\u00e3o e purifica\u00e7\u00e3o das formas mais extremas de nossa indulg\u00eancia material: nos enchemos de drogas, bebidas, comidas ruins e outros excessos, sabemos que \u00e9 um comportamento inadequado e ansiamos pela prote\u00e7\u00e3o ritual\u00edstica diante das consequ\u00eancias, por um &#8216;ritual de transi\u00e7\u00e3o&#8217; p\u00fablico que celebre nosso retorno \u00e0s normas comportamentais mais saud\u00e1veis&#8221;\u00a0(Ben Goldacre, em\u00a0<em>Ci\u00eancia picareta<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">315. &#8220;(&#8230;) se voc\u00ea s\u00f3 deseja fazer um exerc\u00edcio de respira\u00e7\u00e3o, tudo bem. Mas os criadores da gin\u00e1stica para o c\u00e9rebro v\u00e3o muito al\u00e9m. Seu bocejo especial, teatral e patenteado causar\u00e1 uma \u2018maior oxida\u00e7\u00e3o para um funcionamento eficiente e relaxado\u2019. A oxi\u00adda\u00e7\u00e3o \u00e9 o que causa a ferrugem. N\u00e3o \u00e9 a mesma coisa que oxigena\u00e7\u00e3o, que \u00e9 o que suponho que queiram dizer&#8221;\u00a0(Ben Goldacre, em\u00a0<em>Ci\u00eancia picareta<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">316. &#8220;Voc\u00ea pode fazer uma interven\u00e7\u00e3o perfeitamente sensata, como um copo d\u2019\u00e1gua e uma pausa para exerc\u00edcios, mas acrescente as bobagens, d\u00ea um toque mais t\u00e9cnico e ir\u00e1 parecer mais inteligente. Isso destaca o efeito placebo, mas voc\u00ea tamb\u00e9m pode pensar se o objetivo b\u00e1sico n\u00e3o \u00e9 algo muito mais c\u00ednico e lucrativo: transformar o bom senso em objeto de direitos autorais, \u00fanico, patenteado e privado. Veremos isso repetidamente, em uma escala maior, no trabalho dos profissionais de sa\u00fade d\u00fabios e, especificamente, no campo do \u201cnutricionismo\u201d, porque o conhecimento cient\u00edfico e os conselhos sensatos sobre alimenta\u00e7\u00e3o s\u00e3o gratuitos e de dom\u00ednio p\u00fablico. Qualquer pessoa pode us\u00e1-los, entend\u00ea-los, vend\u00ea-los ou simplesmente distribu\u00ed-los. A maioria das pessoas j\u00e1 sabe o que constitui uma dieta saud\u00e1vel. Se voc\u00ea quiser\u00a0 ganhar dinheiro com isso, ter\u00e1 de abrir espa\u00e7o no mercado e, para fazer isso, voc\u00ea ter\u00e1 de complicar e colocar seu pr\u00f3prio selo d\u00fabio. Existe algum dano nesse processo? Bom, certamente \u00e9 um desperd\u00edcio e mesmo no Ocidente decadente, enquanto entramos em uma prov\u00e1vel recess\u00e3o, parece peculiar pagar por conselhos b\u00e1sicos de dieta ou por pausas para exerc\u00edcios na escola. Mas existem outros perigos ocultos, que s\u00e3o muito mais amea\u00e7adores. Esse processo de profissionalizar o \u00f3bvio alimenta um senso de mist\u00e9rio ao redor da ci\u00eancia e dos conselhos de sa\u00fade, que \u00e9 desnecess\u00e1rio e destrutivo. Mais do que qualquer coisa, mais do que a propriedade desnecess\u00e1ria do \u00f3bvio, ele descapacita as pessoas. Com demasiada frequ\u00eancia, essa privatiza\u00e7\u00e3o esp\u00faria do bom senso est\u00e1 acontecendo em \u00e1reas em que poder\u00edamos assumir o controle, fazer por n\u00f3s mesmos, sentir nossa pr\u00f3pria pot\u00eancia e nossa capacidade para tomar decis\u00f5es sensatas, mas, em vez disso, estamos alimentando nossa depend\u00eancia de pessoas e sistemas externos e caros&#8221;\u00a0(Ben Goldacre, em\u00a0<em>Ci\u00eancia picareta<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">317. &#8220;Antes de come\u00e7armos, \u00e9 importante entender como os cosm\u00e9ticos \u2014 e especificamente os cremes hidratantes \u2014 realmente funcionam, pois n\u00e3o deve haver mist\u00e9rios aqui. Em primeiro lugar, voc\u00ea deseja que seu creme caro hidrate sua pele. Todos eles fazem isso, e a vaselina cumpre muito bem essa fun\u00e7\u00e3o; na verdade, grande parte da pesquisa inicial e importante em cosm\u00e9ticos voltava-se para preservar as propriedades umectantes da vaselina ao mesmo tempo que se evitasse sua oleosidade, e esse desafio t\u00e9cnico foi resolvido h\u00e1 d\u00e9cadas. Hydrobase, cujo frasco de meio litro pode ser comprado na farm\u00e1cia por 10 libras, cumpre essa fun\u00e7\u00e3o de modo excelente&#8221;\u00a0(Ben Goldacre, em\u00a0<em>Ci\u00eancia picareta<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">318. &#8220;Geralmente, as empresas de cosm\u00e9ticos pegam informa\u00e7\u00f5es altamente te\u00f3ricas e livrescas sobre o modo como as c\u00e9lulas funcionam \u2014 os com\u00adponentes em n\u00edvel molecular ou o comportamento das c\u00e9lulas em uma placa de vidro \u2014 e fingem que essa \u00e9 a mais recente descoberta de algo que ir\u00e1 deix\u00e1-la mais bonita. \u201cEsse componente molecular\u201d, dizem, coro um floreio, \u201c\u00e9 crucial para a forma\u00e7\u00e3o de col\u00e1geno.\u201d E isso \u00e9 totalmente verdade (juntamente com muitos outros amino\u00e1cidos que s\u00e3o usados por seu corpo para montar prote\u00ednas em articula\u00e7\u00f5es, pele e em tudo o mais, mas n\u00e3o h\u00e1 motivo para acreditar que ele falte a algu\u00e9m, nem que pass\u00e1-lo em seu rosto far\u00e1 alguma diferen\u00e7a em sua apar\u00eancia. Em geral, as subst\u00e2ncias n\u00e3o s\u00e3o bem absorvidas pela pele porque o prop\u00f3sito dela \u00e9 ser relativamente imperme\u00e1vel. Se voc\u00ea se sentar numa banheira cheia de feij\u00f5es assados em uma brincadeira num evento beneficente, n\u00e3o vai engordar nem come\u00e7ar a arrotar. Apesar disso, em qualquer visita \u00e0 farm\u00e1cia (eu recomendo que voc\u00ea fa\u00e7a isso), \u00e9 poss\u00edvel encontrar um conjunto fenomenal de ingredientes m\u00e1gicos \u00e0 venda. Valmont Cellular DNA Complex \u00e9 feito de \u201cDNA de ovas de salm\u00e3o especialmente tratadas\u201d (\u201cInfelizmente, esfregar salm\u00e3o em seu rosto n\u00e3o teria o mesmo efeito\u201d, disse o The Times em sua cr\u00edtica), mas \u00e9 espetacularmente improv\u00e1vel que o DNA \u2014 uma mol\u00e9cula muito grande, sem d\u00favida \u2014 seja absorvido por sua pele ou que, de fato, tenha qualquer uso para a atividade sint\u00e9tica que acontece nela, mesmo sendo absorvido. Voc\u00ea provavelmente n\u00e3o sofre de falta de componentes de DNA em seu corpo. J\u00e1 existe uma grande quantidade deles. No entanto, pensando bem, se o DNA do salm\u00e3o fosse absorvido por inteiro por sua pele, ent\u00e3o voc\u00ea estaria absorvendo padr\u00f5es alien\u00ed\u00adgenas, ou melhor, de peixe, em suas c\u00e9lulas; isto \u00e9, voc\u00ea absorveria as instru\u00e7\u00f5es para gerar c\u00e9lulas de peixe, o que poderia n\u00e3o ser muito bom, j\u00e1 que voc\u00ea \u00e9 um ser humano&#8221;\u00a0(Ben Goldacre, em\u00a0<em>Ci\u00eancia picareta<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">319. &#8220;Como exemplo perfeito, existem muitos cremes (e outros tratamentos de beleza) que dizem levar oxig\u00e9nio diretamente para sua pele. Muitos deles cont\u00eam per\u00f3xido. Se voc\u00ea realmente quiser se convencer de sua efic\u00e1cia, a f\u00f3rmula qu\u00edmica deste composto \u00e9 H2O2, que poderia at\u00e9 ser compreendido como \u00e1gua &#8216;com algum oxig\u00eanio extra&#8217;, embora as f\u00f3rmulas qu\u00edmicas n\u00e3o funcionem desse modo \u2014\u00a0afinal de contas, um montinho de ferrugem \u00e9 uma ponte de ferro &#8216;com algum oxig\u00eanio extra&#8217;, e voc\u00ea n\u00e3o ia supor que isso oxigenaria sua pele. Mesmo se dermos a eles o benef\u00edcio da d\u00favida e fingirmos que esses tratamentos realmente v\u00e3o levar oxig\u00eanio \u00e0 superf\u00edcie da pele e que ele ir\u00e1 penetrar nas c\u00e9lulas, que bem isso traria? Seu corpo est\u00e1 constantemente monitorando a quantidade de sangue e nutrientes que fornece aos tecidos, assim como a quantidade de pequenos vasos capilares que alimentam determinada \u00e1rea, e mais vasos aparecer\u00e3o nas \u00e1reas com baixo oxig\u00eanio, porque esse \u00e9 um bom indicador da necessidade de maior suprimento de sangue. Mesmo que fosse verdadeira a afirma\u00e7\u00e3o de que o oxig\u00eanio no creme penetra em seus tecidos, seu corpo simplesmente diminuiria o suprimento de sangue para aquela parte da pele, marcando um gol contra homeost\u00e1tico. Na realidade, o per\u00f3xido de hidrog\u00eanio \u00e9 simplesmente uma subst\u00e2ncia qu\u00edmica corrosiva, que cria uma queimadura leve em pot\u00eancias baixas. Isso pode explicar a sensa\u00e7\u00e3o fresca e radiante&#8221;\u00a0(Ben Goldacre, em\u00a0<em>Ci\u00eancia picareta<\/em>)<sup><br \/>\n<\/sup><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">320. &#8220;Quero deixar uma coisa bem clara: n\u00e3o estou em uma cruzada em prol dos consumidores. Como a loteria federal, o setor de cosm\u00e9ticos joga com os sonhos das pessoas, e elas s\u00e3o livres para desperdi\u00e7ar seu dinheiro. Posso muito bem considerar os cosm\u00e9ticos de luxo \u2014 e outras formas de charlatanismo \u2014 como um imposto volunt\u00e1rio, especial e autoadministrado sobre as pessoas que n\u00e3o entendem a ci\u00eancia corretamente. Eu tamb\u00e9m seria o primeiro a concordar que as pessoas n\u00e3o compram cosm\u00e9ticos caros s\u00f3 porque acreditam em sua efic\u00e1cia, porque sei que \u00e9 um pouco mais complicado do que isso: eles s\u00e3o bens de luxo, itens de status e s\u00e3o comprados por todo o tipo de motivos interessantes. Mas isso n\u00e3o \u00e9 totalmente neutro do ponto de vista moral. Em primeiro lugar, os fabricantes desses produtos vendem atalhos para fumantes e obesos; eles promovem a ideia de que um corpo saud\u00e1vel pode ser obtido usando-se po\u00e7\u00f5es caras em vez de se aplicar a solu\u00e7\u00e3o simples e tradicional de fazer exerc\u00edcios e comer verduras. Esse \u00e9 um tema recorrente por todo o mundo da ci\u00eancia picareta&#8221;\u00a0(Ben Goldacre, em\u00a0<em>Ci\u00eancia picareta<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">321. &#8220;Mesmo que consideremos a possibilidade de sua exist\u00eancia, a afirma\u00e7\u00e3o da &#8216;mem\u00f3ria da \u00e1gua&#8217; tem grandes furos conceituais, e voc\u00ea mesmo pode perceb\u00ea-los. Se a \u00e1gua tem uma mem\u00f3ria, como dizem os homeopatas, e essa mem\u00f3ria funciona em uma dilui\u00e7\u00e3o de 10<sup>60<\/sup>, ent\u00e3o, neste momento, toda a \u00e1gua deveria ser uma dilui\u00e7\u00e3o homeop\u00e1tica cura\u00adtiva de todas as mol\u00e9culas no mundo. A \u00e1gua flui pelo globo terrestre h\u00e1 muito tempo, afinal de contas, e a \u00e1gua em meu corpo, enquanto eu me sento aqui, digitando, em Londres, j\u00e1 passou pelos corpos de muitas outras pessoas. Talvez algumas das mol\u00e9culas de \u00e1gua que est\u00e3o em meus dedos enquanto eu digito esta senten\u00e7a estejam atualmente em seu globo ocular. Talvez algumas das mol\u00e9culas de \u00e1gua que se encontram em meus neur\u00f4nios enquanto eu decido se devo escrever \u201cxixi\u201d ou \u201curina&#8221; nesta frase estejam agora na bexiga da rainha (Deus a aben\u00e7oe): a \u00e1gua iguala tudo e vai a toda parte. Olhe s\u00f3 para as nuvens.\u00a0Como uma mol\u00e9cula de \u00e1gua sabe esquecer cada uma das outras mo\u00adl\u00e9culas que j\u00e1 encontrou? Como ela sabe que deve tratar meu machucado com sua mem\u00f3ria de arnica em vez de faz\u00ea-lo com a mem\u00f3ria das fezes de Isaac Asimov?&#8221;\u00a0(Ben Goldacre, em\u00a0<em>Ci\u00eancia picareta<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">322. &#8220;Do mesmo modo, muitas doen\u00e7as t\u00eam o que se chama de uma &#8216;his\u00adt\u00f3ria natural&#8217;: elas pioram e depois melhoram. Como disse Voltaire: &#8216;A arte da medicina consiste em divertir o paciente enquanto a natureza cura a doen\u00e7a.&#8217; Digamos que voc\u00ea tenha um resfriado. Ele vai melhorar depois de poucos dias, mas no momento voc\u00ea se sente p\u00e9ssimo. \u00c9 bem natural que, quando os sintomas chegarem a um ponto m\u00e1ximo, voc\u00ea fa\u00e7a coisas para tentar melhorar. Voc\u00ea pode tomar um rem\u00e9dio homeo\u00adp\u00e1tico. Voc\u00ea poderia sacrificar um bode e pendurar as v\u00edsceras dele ao redor do pesco\u00e7o. Voc\u00ea poderia pressionar seu cl\u00ednico geral para que lhe receitasse antibi\u00f3ticos. (Listei essas solu\u00e7\u00f5es em ordem crescente de rid\u00edculo.)&#8221;\u00a0(Ben Goldacre, em\u00a0<em>Ci\u00eancia picareta<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">323. &#8220;Apesar de todos os perigos da medicina complementar e alternativa, a maior decep\u00e7\u00e3o para mim \u00e9 o modo como ela distorce a compreens\u00e3o de nosso corpo. Assim como a teoria do Big Bang \u00e9 muito mais interessante do que a hist\u00f3ria da cria\u00e7\u00e3o no <em>G\u00eanesis<\/em>, a hist\u00f3ria que a ci\u00eancia nos conta sobre o mundo natural \u00e9 muito mais interessante do que qualquer f\u00e1bula sobre p\u00edlulas m\u00e1gicas preparadas por um terapeuta alternativo. Para recuperar esse equi\u00adl\u00edbrio, estou oferecendo uma turn\u00ea pelo redemoinho de uma das \u00e1reas mais bizarras e interessantes da pesquisa m\u00e9dica: o relacionamento entre o corpo\u00a0e a mente, o papel do significado na cura e, em especial, &#8216;o efeito placebo'&#8221;\u00a0(Ben Goldacre, em\u00a0<em>Ci\u00eancia picareta<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">324. &#8220;Houve ocasi\u00f5es, na hist\u00f3ria m\u00e9dica, em que os pesquisadores foram mais rudes. O Tuskegee Syphilis Study [Estudo Tuskegee sobre S\u00edfilis], por exemplo, \u00e9 um dos momentos mais vergonhosos dos Estados Uni\u00addos, se \u00e9 que se pode dizer isso atualmente: 399 homens pobres, afroamericanos, de uma regi\u00e3o rural, foram recrutados pelo servi\u00e7o de sa\u00fade p\u00fablica do pa\u00eds, em 1932, para um estudo de observa\u00e7\u00e3o para saber 0 que aconteceria se a s\u00edfilis fosse, simplesmente, deixada sem tratamento. Surpreendentemente, o estudo continuou at\u00e9 1972. Em 1949, a penicilina foi apresentada como um tratamento efetivo para a s\u00edfilis. Esses homens n\u00e3o receberam nem penicilina, nem Salvarsan, e nem mesmo um pedido de desculpas at\u00e9 que Bill Clinton o fez em 1997&#8221;\u00a0(Ben Goldacre, em\u00a0<em>Ci\u00eancia picareta<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">325. &#8220;(&#8230;)\u00a0um estudo recente a respeito da dor causada por choques el\u00e9tricos mostrou que um tratamento analg\u00e9sico era mais forte quando se dizia aos participantes que ele custava 2,50 d\u00f3lares do que quando se dizia que custava 10 centavos.\u00a0(E um estudo atualmente no prelo mostra que as pessoas t\u00eam mais probabilidade de seguir conselhos pelos quais pagaram)&#8221;\u00a0(Ben Goldacre, em\u00a0<em>Ci\u00eancia picareta<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">326. &#8220;Cerca de um s\u00e9culo atr\u00e1s, essas quest\u00f5es \u00e9ticas foram cuidadosamente documentadas por um \u00edndio canadense chamado Quesalid. C\u00e9tico, ele achava que o xamanismo era besteira e que ele s\u00f3 funcionava por meio da cren\u00e7a e entrou no jogo para investigar essa ideia. Ele encontrou um xam\u00e3 que se disp\u00f4s a ensin\u00e1-lo e aprendeu todos os truques, inclusive a atua\u00e7\u00e3o cl\u00e1ssica em que o curador oculta um tufo de algod\u00e3o no canto da boca e, ent\u00e3o, sugando o ar e ofegando, no auge do ritual de cura, expele o algod\u00e3o coberto de sangue, tendo mordido discretamente o l\u00e1bio no ponto certo, e o apresenta solenemente aos espectadores como um esp\u00e9cime patol\u00f3gico extra\u00eddo do corpo do paciente. Quesalid tinha provas do engodo \u2014 ele conhecia o truque \u2014 e estava decidido a expor aqueles que o realizavam, mas, como parte de seu treinamento, ele tinha de fazer algum trabalho cl\u00ednico e foi convocado por uma fam\u00edlia &#8216;que sonhara que ele seria seu salvador&#8217;, para ver um paciente que sofria. Ele fez o truque com o tufo de algod\u00e3o e ficou surpreso, at\u00f4nito e humilhado ao descobrir que seu paciente melhorou&#8221;\u00a0(Ben Goldacre, em\u00a0<em>Ci\u00eancia picareta<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">326. &#8220;O fil\u00f3sofo e professor Harry Frankfurt, da Universidade de Princeton, discute essa quest\u00e3o detalhadamente num ensaio cl\u00e1ssico de 1986, <em>On Bullshit<\/em> [Sobre falar merda]. Em seu argumento, &#8216;falar merda&#8217; \u00e9 uma forma de falsidade distinta da mentira: o mentiroso sabe qual \u00e9 a verdade e se importa com ela, mas decide enganar deliberadamente; quem fala a verdade conhece a verdade e tenta exprimi-la; quem fala merda, por outro lado, n\u00e3o se importa com a verdade e simplesmente tenta impressionar&#8221;\u00a0(Ben Goldacre, em\u00a0<em>Ci\u00eancia picareta<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">327. &#8220;Meu objetivo aqui n\u00e3o \u00e9 sugerir, de modo algum, que os antioxidantes sejam <em>inteiramente<\/em> irrelevantes para a sa\u00fade. Se eu fosse fazer um slogan para uma camiseta de divulga\u00e7\u00e3o deste livro, ele seria: &#8216;Acho que voc\u00ea vai descobrir que \u00e9 um pouco mais complicado do que isso.&#8217; Pretendo, como se diz, &#8216;problematizar&#8217; a vis\u00e3o dominante dos nutricionistas quanto aos antioxidantes, que atualmente est\u00e1 apenas 20 anos atr\u00e1s das evid\u00eancias de pesquisa&#8221;\u00a0(Ben Goldacre, em\u00a0<em>Ci\u00eancia picareta<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">328. &#8220;O motivo para essa enorme disparidade na expectativa de vida \u2014\u00a0a diferen\u00e7a entre uma aposentadoria longa e rica e uma muito complicada, na verdade \u2014 n\u00e3o \u00e9 que as pessoas em Hampstead t\u00eam o cuidado de comer um punhado de frutinhas e de castanhas-do-par\u00e1 todos os dias, garantindo assim que n\u00e3o tenham defici\u00eancia de sel\u00eanio, como aconselham os nutricionistas. Isso \u00e9 uma fantasia e, em alguns aspectos, \u00e9 uma das caracter\u00edsticas mais destrutivas do projeto dos nutricionis\u00adtas muito bem exemplificado por McKeith: essa \u00e9 uma distra\u00e7\u00e3o das causas reais de uma sa\u00fade ruim, mas tamb\u00e9m \u2014 interrompa-me se eu estiver indo longe demais \u2014, de certa forma, um manifesto do indivi\u00addualismo direitista. Voc\u00ea \u00e9 o que voc\u00ea come, e as pessoas morrem cedo porque merecem. Elas escolhem a morte, por meio da ignor\u00e2ncia e da pregui\u00e7a, mas voc\u00ea escolhe a vida \u2014 peixe fresco e azeite de oliva \u2014, e \u00e9 por isso que voc\u00ea \u00e9 saud\u00e1vel. Voc\u00ea vai chegar aos 80 anos. Voc\u00ea merece isso. Eles, n\u00e3o. De volta ao mundo real, interven\u00e7\u00f5es genu\u00ednas de sa\u00fade p\u00fablica para lidar com os fatores sociais e de estilo de vida causadores de doen\u00e7as s\u00e3o muito menos lucrativas e muito menos espetaculares do que qualquer coisa com que uma Gillian McKeith \u2014 ou, mais importante, um editor de TV \u2014 possa sonhar em se envolver. Qual s\u00e9rie do hor\u00e1rio nobre da TV investiga os desertos alimentares criados pelas gigantescas cadeias de supermercados, as mesmas empresas com as quais esses famosos nutricionistas, com tanta frequ\u00eancia, t\u00eam contratos comerciais lucrativos? Quem p\u00f5e na TV a quest\u00e3o da desigualdade social como promotora da desigualdade de sa\u00fade? Onde est\u00e1 o interesse humano em proibir a promo\u00e7\u00e3o de alimentos ruins, em facilitar o acesso a op\u00e7\u00f5es mais saud\u00e1veis por meio de impostos ou em manter um sistema claro de rotulagem? Onde est\u00e1 o espet\u00e1culo dos &#8216;ambientes prop\u00edcios&#8217;, que promovem o exerc\u00edcio naturalmente, ou do planejamento urbano que prioriza ci\u00adclistas, pedestres e transportes p\u00fablicos sobre os carros? Ou a redu\u00e7\u00e3o da sempre crescente desigualdade entre o sal\u00e1rio dos altos executivos e dos funcion\u00e1rios da f\u00e1brica? Quando voc\u00ea ouviu falar sobre ideias elegantes como &#8216;\u00f4nibus escolares andantes&#8217;? Ou as hist\u00f3rias sobre os benef\u00edcios dessas ideias foram retiradas da primeira p\u00e1gina dos jornais pelas not\u00edcias urgentes sobre a \u00faltima moda em alimenta\u00e7\u00e3o? N\u00e3o espero que a dra. Gillian Mckeith, nem ningu\u00e9m que apare\u00e7a na m\u00eddia, aborde uma \u00fanica dessas quest\u00f5es, e voc\u00ea tamb\u00e9m n\u00e3o espera, pois, se formos honestos, sabemos que esses programas s\u00f3 falam em parte sobre alimenta\u00e7\u00e3o, sendo muito mais sobre voyeurismo indecente e lascivo, l\u00e1grimas, n\u00fameros e variedades&#8221;\u00a0(Ben Goldacre, em\u00a0<em>Ci\u00eancia picareta<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">329. &#8220;(&#8230;)\u00a0como notou George Orwell, a verdadeira genialidade da publicidade \u00e9 vender a solu\u00e7\u00e3o <em>e<\/em> o problema. As empresas farmac\u00eauticas t\u00eam trabalhado muito em seus an\u00fancios para o consumidor direto e em seu lobby para vender a &#8216;hip\u00f3tese da serotonina&#8217; contra a depress\u00e3o, mesmo que as evid\u00eancias cient\u00edficas para essa teoria sejam mais t\u00eanues a cada ano. Por sua vez, a ind\u00fastria de suplementos alimentares promove, para seu pr\u00f3prio mercado, defici\u00eancias alimentares como causa para o des\u00e2nimo (n\u00e3o tenho uma cura milagrosa a ofere\u00adcer e, repetindo-me, creio que as causas sociais desses problemas s\u00e3o possivelmente mais interessantes e ainda mais pass\u00edveis de interven\u00e7\u00e3o)&#8221;\u00a0(Ben Goldacre, em\u00a0<em>Ci\u00eancia picareta<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">330. &#8220;Como n\u00e3o podem encontrar <em>novos tratamentos<\/em> para as doen\u00e7as que j\u00e1 temos, as empresas de p\u00edlulas inventam <em>novas doen\u00e7as<\/em> para os tratamentos que eles j\u00e1 t\u00eam. As principais inven\u00e7\u00f5es recentes incluem transtorno de ansiedade social (um novo uso para as drogas ISRS [Inibidores seletivos de recapta\u00e7\u00e3o de serotonina]), disfun\u00e7\u00e3o sexual feminina (um novo uso para o Viagra), s\u00edndrome da alimenta\u00e7\u00e3o noturna (ISRS, mais uma vez) e assim por diante; esses s\u00e3o problemas, em um sentido real, mas n\u00e3o necessariamente resolvidos por p\u00edlulas nem adequadamente diagnosticados em termos biom\u00e9dicos reducionistas. Na verdade, tratar intelig\u00eancia, perda de libido, timidez e fadiga como problemas cur\u00e1veis por p\u00edlulas m\u00e9dicas pode ser considerado grosseiro, explorador e francamente incapacitante&#8221;\u00a0(Ben Goldacre, em\u00a0<em>Ci\u00eancia picareta<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">331. &#8220;As revistas contam hist\u00f3rias sobre casais com problemas de relacio\u00adnamento n\u00e3o compreendidos pelo cl\u00ednico geral (porque esse \u00e9 o primeiro par\u00e1grafo de qualquer hist\u00f3ria m\u00e9dica que aparece na m\u00eddia). Depois, os casais consultaram um especialista, e ele tamb\u00e9m n\u00e3o os ajudou. Mas,\u00a0ent\u00e3o, eles foram a uma cl\u00ednica particular. Fizeram exames de sangue, perfis hormonais, estudos esot\u00e9ricos de mapeamento do fluxo sangu\u00ed\u00adneo no clit\u00f3ris e compreenderam: a solu\u00e7\u00e3o estava em uma p\u00edlula, mas essa \u00e9 s\u00f3 metade da hist\u00f3ria. Era um problema mec\u00e2nico. Raramente mencionam-se outros fatores \u2014 que a mulher estava cansada pelo exces\u00adso de trabalho ou que o homem estava exausto por ser pai de um beb\u00ea e que tinha dificuldade em aceitar o fato de que sua esposa era agora a m\u00e3e de seus filhos, e n\u00e3o mais a garota com quem namorou no ch\u00e3o do dormit\u00f3rio estudantil ao som de &#8216;Don\u2019t You Want Me Baby?&#8217;, da banda Human League, em 1983 \u2014 porque n\u00e3o queremos falar sobre essas quest\u00f5es e porque n\u00e3o queremos falar sobre desigualdade social, desintegra\u00e7\u00e3o das comunidades locais, ruptura da fam\u00edlia, impacto da incerteza de emprego, mudan\u00e7a de expectativas e de ideias de individualismo\u00a0ou qualquer outro fator complexo e dif\u00edcil que possa atuar sobre o aparente aumento de comportamentos antissociais nas escolas&#8221;\u00a0(Ben Goldacre, em\u00a0<em>Ci\u00eancia picareta<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">332. &#8220;Esse \u00e9 o principal problema que a m\u00eddia tem quando precisa cobrir uma pesquisa m\u00e9dica acad\u00eamica atual: n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel encaixar essas pequenas melhorias \u2014 que representam uma importante contribui\u00e7\u00e3o para a sa\u00fade \u2014 no modelo anterior de &#8216;cura milagrosa e medos ocultos&#8217;. Vou ainda mais longe e afirmo que a pr\u00f3pria ci\u00eancia \u00e9 pouco adequada como mat\u00e9ria para um notici\u00e1rio: por sua pr\u00f3pria natureza, \u00e9 um tema para a se\u00e7\u00e3o de assuntos gerais porque, em geral, n\u00e3o avan\u00e7a por meio de descobertas revolucion\u00e1rias, s\u00fabitas e marcantes. Ela progride atrav\u00e9s de temas e de teorias que emergem gradualmente, apoiados em uma base de evid\u00eancias vindas de in\u00fameras disciplinas em diversos n\u00edveis explica\u00adtivos. No entanto, a m\u00eddia continua obcecada por &#8216;novas descobertas&#8217;. \u00c9 bastante compreens\u00edvel que os jornais achem que seu trabalho \u00e9 escrever sobre novos assuntos, mas se um resultado experimental \u00e9 uma not\u00edcia genu\u00edna, isso ocorre, muitas vezes, pelas mesmas raz\u00f5es que in\u00addicam que ele provavelmente est\u00e1 errado: ele deve ser novo e inesperado e deve mudar o que se pensava anteriormente, o que quer dizer que deve conter informa\u00e7\u00f5es isoladas que contradizem uma grande quantidade de evid\u00eancias experimentais j\u00e1 existentes. Muitos trabalhos bons, grande parte realizada por um pesquisador grego chamado John Ioannidis, demonstraram como e por que muitas pesquisas\u00a0novas com resultados inesperados se mostram, ao fim, falsas. \u00c9 uma quest\u00e3o claramente importante na aplica\u00e7\u00e3o da pesquisa cient\u00edfica ao trabalho cotidiano, por exemplo, na medicina, e suspeito que seja algo que a maioria das pessoas entenda intuitivamente; seria imprudente arriscar sua vida por causa de um \u00fanico estudo com dados que caminham em dire\u00e7\u00e3o contr\u00e1ria aos outros&#8221;\u00a0(Ben Goldacre, em\u00a0<em>Ci\u00eancia picareta<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">333. &#8220;Quando raciocinamos informalmente \u2014 voc\u00ea pode usar a palavra intui\u00e7\u00e3o, se preferir \u2014, usamos regras pr\u00e1ticas que simplificam os problemas em prol da efici\u00eancia. Muitos desses atalhos foram bem caracterizados em um campo chamado heur\u00edstica e s\u00e3o modos eficientes de investigar em muitas circunst\u00e2ncias. Essa conveni\u00eancia tem um custo \u2014 cren\u00e7as falsas \u2014 porque existem vulnerabilidades sistem\u00e1ticas nessas estrat\u00e9gias de verifica\u00e7\u00e3o da verdade, que podem ser exploradas. Isso n\u00e3o \u00e9 diferente do modo como as pinturas podem explorar atalhos em nosso sistema perceptivo: quando os objetos est\u00e3o mais distantes, eles parecem ser menores, e a &#8216;perspectiva&#8217; pode usar esse truque para nos fazer ver tr\u00eas dimens\u00f5es onde s\u00f3 existem duas, aproveitando a estrat\u00e9gia de nosso aparelho de verifica\u00e7\u00e3o de profundidade.\u00a0Quando nosso sistema cognitivo \u2014 aparelho que usamos para a verifica\u00e7\u00e3o da verdade\u00a0\u2014 \u00e9 enganado, chegamos a conclus\u00f5es err\u00f4neas sobre coisas abstratas. Podemos identificar equivocadamente flutua\u00e7\u00f5es normais como padr\u00f5es significativos, por exemplo, ou enxergar causalidade onde, na verdade, ela n\u00e3o existe&#8221;\u00a0(Ben Goldacre, em\u00a0<em>Ci\u00eancia picareta<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">334. &#8220;Como seres humanos, temos uma capacidade inata para extrair informa\u00e7\u00f5es do nada. Vemos formas nas nuvens e um homem na Lua, os jogadores est\u00e3o convencidos de que t\u00eam &#8216;temporadas de sorte&#8217;, ouvimos mensagens ocultas sobre Sat\u00e3 em uma grava\u00e7\u00e3o de heavy metal tocada de tr\u00e1s para a frente. Nossa capacidade para enxergar padr\u00f5es \u00e9 o que nos permite encontrar sentido no mundo, mas, \u00e0s vezes, por ansiedade, somos excessivamente sens\u00edveis e enxergamos padr\u00f5es onde eles n\u00e3o existem&#8221;\u00a0(Ben Goldacre, em\u00a0<em>Ci\u00eancia picareta<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><b>* <\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">335. \u201cO \u2018refor\u00e7o da comunidade\u2019 transforma uma afirma\u00e7\u00e3o em uma forte cren\u00e7a por meio da repeti\u00e7\u00e3o. O processo independe de a afirma\u00e7\u00e3o ter sido pesquisada adequadamente ou sustentada por dados emp\u00edricos significativos o bastante para garantir a cren\u00e7a de pessoas razo\u00e1veis. O refor\u00e7o comunit\u00e1rio explica, em grande medida, como as cren\u00e7as religiosas podem ser passadas de uma gera\u00e7\u00e3o para outra. Ele tamb\u00e9m explica como depoimentos de terapeutas, psic\u00f3logos, celebridades, te\u00f3logos, pol\u00edticos, apresentadores de talk-shows e assim por diante podem suplantar e ser mais poderosos do que qualquer evid\u00eancia cient\u00edfica\u201d (Ben Goldacre, em <i>Ci\u00eancia picareta<\/i>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\" align=\"center\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">336. \u201cTemos uma opini\u00e3o muito elevada sobre n\u00f3s mesmos, o que \u00e9 bom. A grande maioria do p\u00fablico pensa que \u00e9 mais justa, tem menos preconceitos, \u00e9 mais inteligente e dirige melhor do que o ser humano m\u00e9dio quando, \u00e9 claro, apenas metade de n\u00f3s pode ser melhor do que a pessoa mediana. Quase todos temos algo chamado \u2018vi\u00e9s de atribui\u00e7\u00e3o\u2019: acreditamos que nossos sucessos se devem \u00e0s nossas capacidades internas e que nossos fracassos se devem a fatores externos; por\u00e9m, pensamos que os sucessos dos outros se devem \u00e0 sorte e que seus fracassos s\u00e3o causados por suas pr\u00f3prias falhas. N\u00e3o podemos todos estar certos\u201d (Ben Goldacre, em <i>Ci\u00eancia picareta<\/i>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\" align=\"center\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">337. \u201cPessoas incompetentes exibem uma dupla dificuldade: elas n\u00e3o s\u00f3 s\u00e3o incompetentes, como podem ter dificuldades demais para perceber a pr\u00f3pria incompet\u00eancia porque as habilidades necess\u00e1rias para <i>fazer<\/i> uma avalia\u00e7\u00e3o correta s\u00e3o as mesmas que usamos para <i>reconhecer<\/i> uma avalia\u00e7\u00e3o correta\u201d (Ben Goldacre, em <i>Ci\u00eancia picareta<\/i>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\" align=\"center\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">338. \u201cAs pessoas com desempenho especialmente fraco em rela\u00e7\u00e3o a seus pares n\u00e3o percebiam sua pr\u00f3pria incompet\u00eancia, por\u00e9m, mais do que isso, eram menos capazes de reconhecer a compet\u00eancia <i>nos outros<\/i>, porque isso tamb\u00e9m depende de \u2018metacogni\u00e7\u00e3o\u2019 ou conhecimento sobre a habilidade\u201d (Ben Goldacre, em <i>Ci\u00eancia picareta<\/i>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\" align=\"center\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">339. \u201cQuando seus pais eram jovens, eles podiam consertar o pr\u00f3prio carro e entender a ci\u00eancia por tr\u00e1s da maior parte da tecnologia cotidiana, mas n\u00e3o \u00e9 mais assim (&#8230;) Os aparelhos do dia a dia passaram a ter uma complexidade de \u2018caixa preta\u2019 que pode parecer sinistra al\u00e9m de intelectualmente debilitante\u201d (Ben Goldacre, em <i>Ci\u00eancia picareta<\/i>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\" align=\"center\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">340. \u201cA igreja est\u00e1 cheia. A assembleia de fi\u00e9is devotados ouve a pr\u00e9dica. O reverendo explica como devem ser os preparativos para o feriado santo do Natal. Quando tem a impress\u00e3o de que a assembleia n\u00e3o est\u00e1 prestando aten\u00ad\u00e7\u00e3o, ele chuta a plataforma que substitui o p\u00falpito com a bota de montaria. \/\/ Porque, para a assembleia, o importante n\u00e3o \u00e9 prestar aten\u00e7\u00e3o. O que importa \u00e9 se vestir bem para o domingo, importa n\u00e3o esquecer em casa o livro de salmos em ale\u00adm\u00e3o. Importa arrear a carro\u00e7a verde (ou vermelho-escura) e importa que o pelo dos cavalos esteja brilhante. Escov\u00e1-los para que fiquem bem limpos, isso importa. Para as meninas importa a saia passada e a sombrinha nova, ainda que elas estejam descal\u00e7as. O culto a Deus \u00e9 como a parada militar em tempos de paz: todos s\u00e3o a um tempo especta\u00addores e participantes\u201d (S\u00e1ndor L\u00e9nard, em <i>O vale do fim do mundo<\/i>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\" align=\"center\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">341. \u201cParece incompreens\u00edvel que justamente o europeu, que conheceu as profundezas dos horrores, conheceu o medo da morte e a fome, golpeado pelas pragas da civiliza\u00e7\u00e3o, quando as b\u00ean\u00e7\u00e3os da cultura o abandonaram havia muito tempo, continue querendo viver entre estradas sinalizadas e proibi\u00e7\u00f5es. Anseia pelo escrit\u00f3rio, pela fabrica. Deseja se queixar do superior malvado, do subordinado est\u00fapido, deseja ir ao cinema para que possa ver as paisagens onde n\u00e3o teria coragem e seria incapaz de viver. \/\/ N\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 incompreens\u00edvel. O europeu e t\u00e3o desampa\u00adrado que n\u00e3o pode escolher a liberdade infinita da vida simples, elementar. A fraqueza do indiv\u00edduo cria a horda; tamb\u00e9m nessas horas, pol\u00edticos educados falam de massa. Os fracos anseiam pela camisa colorida, pelas \u00e1guias costu\u00adradas nos uniformes, pelo barrete negro, pela bota, porque sem eles se sentem ainda mais fracos\u201d (S\u00e1ndor L\u00e9nard, em <i>O vale do fim do mundo<\/i>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\" align=\"center\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">342. \u201cApenas a m\u00e1scara do palco antigo era sempre igual, somente no teatro existem malvados incorrig\u00edveis e her\u00f3is sem m\u00e1culas. H\u00e1 tempos o espectr\u00f3grafo comprovou que a natureza n\u00e3o conhece subst\u00e2ncias puras, em tudo h\u00e1 de tudo. Temos de aceitar o fato de que em todos tamb\u00e9m existe tudo. Somente o enxofre e o fogo do inferno atemorizam o ladr\u00e3o de galinhas principiante, e temos de prome ter as gra\u00e7as eternas do para\u00edso se quisermos oferecer um analg\u00e9sico para uma av\u00f3 que morre de c\u00e2ncer\u201d (S\u00e1ndor L\u00e9nard, em <i>O vale do fim do mundo<\/i>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\" align=\"center\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">343. \u201cAs crian\u00e7as todas trabalham. Viver e trabalhar signifi\u00adcam o mesmo que viver e respirar. As de tr\u00eas anos carre\u00adgam lenha para a cozinha. A crian\u00e7a mais velha, especial\u00admente se for menina, \u00e9 a substituta severa e generosa da m\u00e3e. As de dezesseis anos podem se casar, uma vez que at\u00e9 ent\u00e3o passaram a vida lavando fraldas, fervendo min\u00adgau de leite, tanto mais porque dos dezesseis aos sessenta elas n\u00e3o aprendem nenhuma palavra ou conceito novo\u201d (S\u00e1ndor L\u00e9nard, em <i>O vale do fim do mundo<\/i>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\" align=\"center\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">344. \u201cA sabedoria de Aldomiro n\u00e3o tem nenhuma pretens\u00e3o de originalidade. Lao-Ts\u00e9 anotou h\u00e1 muito tempo: \u2018O s\u00e1\u00adbio se ocupa de n\u00e3o fazer nada\u2019. A concep\u00e7\u00e3o do curso de pensamento do portugu\u00eas: \u2018Sombra, \u00e1gua fresca, sapa\u00adtos folgados\u2019; a do italiano \u00e9 o \u2018dolcefar niente\u2019. Mas da doce ina\u00e7\u00e3o ningu\u00e9m se aproximou tanto quanto os filhos felizes deste pa\u00eds. Aqui n\u00e3o h\u00e1 inverno para que formigas e cigarras sejam julgadas. O caboclo mora no interior do pa\u00eds, os \u00edndios e espanh\u00f3is s\u00e3o capuchinhos, os descen\u00addentes dos negros e ca\u00e7adores portugueses de esmeraldas vivem em cabanas. N\u00e3o t\u00eam m\u00f3veis. O filho menor dorme na rede, os demais, em esteiras no ch\u00e3o. Em volta da ca\u00adbana h\u00e1 quatro ou cinco p\u00e9s de caf\u00e9. O caf\u00e9 nunca falta, basta colher a fruta no p\u00e9, sec\u00e1-la, descasc\u00e1-la, torr\u00e1-la, e moer as sementes. L\u00e1 cresce tamb\u00e9m a cana-de-a\u00e7\u00facar. Seu sumo cozido \u00e9 o melhor ado\u00e7ante de caf\u00e9 do mundo, grosso, escuro, doce e nutritivo. Por assim dizer, a batata-doce cresce em todo lugar&#8230; basta enfiar dois ou tr\u00eas talos na terra, e ela corre por si. Os gomos imensos crescem na superf\u00edcie e nem \u00e9 preciso desenterr\u00e1-los. Basta abaixar-se por eles. N\u00e3o custa muito semear duas vezes por ano meia saca de milho e um pote de feij\u00e3o e esperar que amadure\u00ad\u00e7am. O p\u00e9 de banana e o p\u00e9 de mam\u00e3o crescem em meio \u00e0s ervas daninhas e arbustos e d\u00e3o frutos durante o ano todo. A laranja semeia quem cospe a semente em um canto adequado, a groselha semeiam os p\u00e1ssaros pequenos que trazem o gr\u00e3o de outro lugar. As galinhas se multiplicam por si, e encontram besouros e minhocas suficientes para que os ovos n\u00e3o faltem. Os porquinhos tamb\u00e9m conhecem os caminhos em meio aos arbustos, no mato, onde encon\u00adtram ra\u00edzes e gomos apropriados para eles. As colmeias juntam disciplinadamente o mel, na primavera orqu\u00eddeas e l\u00edrios abundam&#8230; para que \u2013 n\u00e3o pergunto com ironia, mas com muita sinceridade \u2013, para que as letras, as aulas, a preocupa\u00e7\u00e3o com o futuro, que aumenta a press\u00e3o e entope as art\u00e9rias? Se o infeliz europeu n\u00e3o quer viver sem m\u00f3veis, roupas e livros, o problema \u00e9 dele. \/\/ Quem teria coragem de afirmar que Di\u00f3genes era louco? Hoje em dia s\u00f3 segue o exemplo dele o caboclo que, sentado na margem, contempla o riacho e adia o trabalho at\u00e9 que a \u00e1gua corra montanha acima. E se Rockefeller \u2013 o Alexandre, o Grande, da nossa \u00e9poca \u2013, ele pr\u00f3prio viesse e de novo perguntasse: \u201cO que voc\u00ea deseja?\u201d \u2013 o s\u00e1bio tamb\u00e9m hoje diria apenas \u2018afaste-se um pouco para n\u00e3o cobrir o sol\u2019, ou, porque vivemos em uma regi\u00e3o subtropical, \u2018chegue mais perto, jogue um pouco de sombra sobre mim\u2019. Essa sabedoria n\u00e3o se op\u00f5e \u00e0 vida, ou melhor, o portugu\u00eas gosta tanto da vida que confessa: \u2018se a morte \u00e9 repouso eterno, prefiro viver cansado\u2019. O homem que descansa na soleira tem clareza disso tudo. \u2018Se o trabalho fosse bom, os ricos o guardariam para eles\u2019, cita, e apalpa os bolsos para ver se ainda restam folhas de milho\u201d (S\u00e1ndor L\u00e9nard, em <i>O vale do fim do mundo<\/i>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\" align=\"center\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">345. \u201cA situa\u00e7\u00e3o \u00e9 mais compreens\u00edvel se levarmos em conta que na Am\u00e9rica do Sul toda pir\u00e2mide come\u00e7a a ser constru\u00edda pela ponta. Quando em outro lugar se constr\u00f3i uma cidade, come\u00e7a-se pelas ferrovias e estradas. Depois v\u00eam os encanamentos, a luz, os esgotos&#8230; A seguir as casas, o hospital e os edif\u00edcios p\u00fablicos&#8230; por fim, talvez se pense na igreja. A constru\u00e7\u00e3o da nova capital, Bras\u00edlia, come\u00e7ou pela estrutura da catedral, e por enquanto n\u00e3o h\u00e1 ferrovia, e tamb\u00e9m de carro \u00e9 dif\u00edcil chegar l\u00e1. Em outros lugares fabricam-se bicicletas, depois motocicletas, locomotivas&#8230; quem sabe um dia reatores nucleares. Aqui existe reator nuclear, mas n\u00e3o h\u00e1 f\u00e1brica de bicicletas. Assim, existe a Academia dos Imortais, todos os quarenta homens ilustres t\u00eam um fraque verde bordado em ouro e um sabre enfei\u00adtado, mas a escola prim\u00e1ria tem problemas, porque n\u00e3o h\u00e1 professores. N\u00e3o h\u00e1 professores em n\u00famero suficiente, por\u00adque n\u00e3o existe escola de pedagogia, e n\u00e3o se podem criar escolas de pedagogia porque n\u00e3o h\u00e1 professores. E nem haver\u00e1 porque os impostos n\u00e3o s\u00e3o para isso (&#8230;) Tudo \u00e9 claro e l\u00f3gico\u201d (S\u00e1ndor L\u00e9nard, em <i>O vale do fim do mundo<\/i>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\" align=\"center\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">346. \u201cAs mem\u00f3rias aderem aos objetos\u201d (S\u00e1ndor L\u00e9nard, em <i>O vale do fim do mundo<\/i>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\" align=\"center\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">347. \u201cA ambi\u00e7\u00e3o morre t\u00e3o tarde quanto a esperan\u00e7a\u201d (S\u00e1ndor L\u00e9nard, em <i>O vale do fim do mundo<\/i>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\" align=\"center\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">348. \u201c\u2019O Brasil tem mais leis que qualquer outro pa\u00eds\u2019, explicou uma vez um amigo nativo, \u2018mas falta apenas uma. A lei que ordenaria que as outras precisam ser respeitadas\u2019\u201d (S\u00e1ndor L\u00e9nard, em <i>O vale do fim do mundo<\/i>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\" align=\"center\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">349. \u201cN\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil descobrir o que inspira ou n\u00e3o confian\u00e7a. Um paciente certa vez entrou em minha sala, n\u00e3o sei mais porqu\u00ea. Avistou a minha pobre biblioteca de tr\u00eas pratelei\u00adras. \u2018O m\u00e9dico novo n\u00e3o vale grande coisa\u201d, noticiou no dia seguinte para todos que encontrava. \u2018Estive na sala dele, e sabe o que tem l\u00e1? Livros! Ele tem livros! Ele ainda estuda!\u2019 A minha pr\u00e1tica melhorou quando por algum tempo eu tamb\u00e9m fiquei de cama por causa do meu co\u00adra\u00e7\u00e3o\u201d (S\u00e1ndor L\u00e9nard, em <i>O vale do fim do mundo<\/i>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\" align=\"center\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">350. \u201c\u00c9 verdade que a Sra. Plinz \u2013 ao contr\u00e1rio dos outros \u2013 n\u00e3o \u00e9 supersticiosa. Acredita somente nas bruxas que existem de verdade\u201d (S\u00e1ndor L\u00e9nard, em <i>O vale do fim do mundo<\/i>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\" align=\"center\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">351. \u00c9 in\u00fatil dar as costas para o passado. Quando me deito sem fazer nada e olho para o teto, o tempo passado volta, e pergunta: \u2018voc\u00ea ainda sabe?\u2019\u201d (S\u00e1ndor L\u00e9nard, em <i>O vale do fim do mundo<\/i>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\" align=\"center\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">352. \u201cA nostalgia n\u00e3o tem uma literatura t\u00e3o vasta quanto o amor infeliz, mas esses sentimentos s\u00e3o paren\u00adtes A nostalgia n\u00e3o tem nada a ver com o pa\u00eds, nem com a na\u00e7\u00e3o, muito menos com a p\u00e1tria. A nostalgia d\u00f3i. N\u00e3o tem objeto. Talvez as plantas soubessem contar com mais exati\u00add\u00e3o o que ela \u00e9: em terra desconhecida, em clima estranho, elas murcham, enlouquecem. Aqui a tulipa n\u00e3o d\u00e1 flor, o arbusto do lil\u00e1s n\u00e3o cresce, ele \u00e9 baixo, n\u00e3o vive nem morre, a groselha n\u00e3o d\u00e1 frutos. Elas sabem o que \u00e9 nostalgia\u201d (S\u00e1ndor L\u00e9nard, em <i>O vale do fim do mundo<\/i>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\" align=\"center\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">353. \u201cPor\u00e9m aprenderam que a vida passa, que os mortos s\u00e3o seguidos por novos mortais que desejam comer, beber, descansar&#8230;\u201d (S\u00e1ndor L\u00e9nard, em <i>O vale do fim do mundo<\/i>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\" align=\"center\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">354. \u201cSomente os sonhos voam at\u00e9 os planetas. Os sonhadores ficam nos campos de aipim e continuam a tirar ervas daninhas\u201d (S\u00e1ndor L\u00e9nard, em <i>O vale do fim do mundo<\/i>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\" align=\"center\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">355. \u201cE ainda que no campo cient\u00edfico n\u00e3o tenham ido longe, elas conhecem tudo. Conhecem seus limites. Sabem que na cidade as casas s\u00e3o altas e o pavimento \u00e9 duro. Quem cai na cidade se machuca. L\u00e1 nada brota. De l\u00e1 n\u00e3o vem nada de bom. Todos s\u00e3o escravos miser\u00e1veis. S\u00f3 vive em seguran\u00e7a quem vive na pr\u00f3pria terra. As pessoas precisam de cercas\u201d (S\u00e1ndor L\u00e9nard, em <i>O vale do fim do mundo<\/i>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\" align=\"center\">*<\/p>\n<p>356. \u201cMeu senhor, minha senhora, desculpe tocar no assunto, mas voc\u00ea vai morrer. N\u00e3o se ofenda, vamos todos: eu, a Dona Eul\u00e1lia do 51, a rainha Silvia da Su\u00e9cia e a voz da chamada a cobrar\u201d (Antonio Prata, em <i>Meio intelectual meio de esquerda<\/i> \u2013 cr\u00f4nica \u201cOrnitorrinco\u201d)<\/p>\n<p align=\"center\">*<\/p>\n<p>357. \u201cVeja s\u00f3 os gregos, t\u00e3o sabidos: todos mortos. Shakespeare, morto! Einstein, morto! A Marylin Monroe, Noel Rosa e o cacique Tiribi\u00e7\u00e1, mortos! \u2018Ah, mas eles sobreviveram em nossa mem\u00f3ria!\u2019 Grande coisa. Lembran\u00e7as n\u00e3o comem picanha, n\u00e3o fazem sexo e, mesmo vivendo na cabe\u00e7a de milh\u00f5es de pessoas, nunca sentiram o prazer de um cafun\u00e9\u201d (Antonio Prata, em <i>Meio intelectual meio de esquerda<\/i> \u2013 cr\u00f4nica \u201cOrnitorrinco\u201d)<\/p>\n<p align=\"center\">*<\/p>\n<p>358. \u201cPara um escritor, poucas observa\u00e7\u00f5es podem ser mais tr\u00e1gicas. Posso me acabar de ler Shakespeare, Dostoi\u00e9vski, e Goethe, mas os verdadeiros Macbeths, Ivans Karam\u00e1zovs e Faustos est\u00e3o entre as m\u00e1quinas de caf\u00e9 e os scanners, tiram fotinhos na portaria e alimentam as catracas com seus crach\u00e1s; nos vinte andares acima do Subsolo 1, sonhos medram ou murcham, homens negociam, traem, fofocas espalham-se, talvez algu\u00e9m entregue a pr\u00f3pria cabe\u00e7a em nome de um valor; a gl\u00f3ria e o fiasco espocam, diariamente, entre divis\u00f3rias de PVC\u201d (Antonio Prata, em <i>Meio intelectual meio de esquerda<\/i> \u2013 cr\u00f4nica \u201cSubsolo 1\u201d)<\/p>\n<p align=\"center\">*<\/p>\n<p>359. \u201cComo heran\u00e7a da escravid\u00e3o, n\u00f3s nunca entendemos que a lei \u00e9 um c\u00f3digo comum, destinado a organizar minimamente o fuzu\u00ea, de forma que possamos caminhar com alguma seguran\u00e7a em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 felicidade. Vemos a lei como a demonstra\u00e7\u00e3o de poder de uma pessoa sobre outra\u201d (Antonio Prata, em <i>Meio intelectual meio de esquerda<\/i> \u2013 cr\u00f4nica \u201cSenta, \u00f4 careca!\u201d)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">\u00a0*<\/p>\n<p>360. \u201cRecorrer a essas lembran\u00e7as \u00e9 para mim como entrar no s\u00f3t\u00e3o da minha mem\u00f3ria culta, com um certo sorriso ir\u00f4nico no rosto, o meu, suponho. Ali\u00e1s, quando \u00e0s vezes tento compor, em frente ao espelho do banheiro, o sorriso ir\u00f4nico que imagino em mim, n\u00e3o consigo. S\u00f3 vejo um estranho manequim cheio de sorrisos interrompidos ou excessivos, que n\u00e3o consegue compor o sorriso sutil, como uma espuma t\u00eanue, que me faria feliz\u201d (Manuel V\u00e1zquez Montalb\u00e1n, em <i>Quarteto<\/i>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>361. \u201cEu estava deslumbrado com a proposta de mudar a vida, como pedia Rimbaud, e de mudar a Hist\u00f3ria, como pedia Marx, entre outros, e afinal minha viagem intelectual e culta descobria o motor incessante de crueldade que legitima tanto uma como a outra. O melhor \u00e9 se conformar com a apar\u00eancia da realidade e escolher suas facetas mais prazerosas e bonitas. J\u00e1 \u00e9 suficiente o nosso inferno \u00edntimo, essas areias movedi\u00e7as internas em que os remorsos e as inseguran\u00e7as engolem nossa pr\u00f3pria entidade. Se fosse poss\u00edvel extirpar a capacidade de olhar para dentro de si mesmo!\u201d (Manuel V\u00e1zquez Montalb\u00e1n, em <i>Quarteto<\/i>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">\u00a0*<\/p>\n<p>362. \u201cEu n\u00e3o era movido por um impulso de solidariedade, mas pela mesma mec\u00e2nica ritual que leva voc\u00ea aos batizados e enterros, e mesmo a alguns vel\u00f3rios: a preocupa\u00e7\u00e3o de que sua aus\u00eancia seja muito mais notada que sua presen\u00e7a\u201d (Manuel V\u00e1zquez Montalb\u00e1n, em <i>Quarteto<\/i>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">\u00a0*<\/p>\n<p>363. \u201cO que os uniu foi a falta de princ\u00edpios e de objetivos e o fato de conhecer, gra\u00e7as \u00e0 cultura, quase todos os princ\u00edpios e todos os objetivos poss\u00edveis\u201d (Manuel V\u00e1zquez Montalb\u00e1n, em <i>Quarteto<\/i>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">\u00a0*<\/p>\n<p>364. \u201cPara eles, seu mundo social era uma paisagem predestinada da qual podiam esperar um cheque de vez em quando, o apoio econ\u00f4mico inicial para a loja de antiguidades e algum dia uma heran\u00e7aa suficiente para poderem continuar sendo o que eram at\u00e9 o final dos seus dias, quer dizer, para continuar sendo importantemente nada, consideravelmente nada\u201d (Manuel V\u00e1zquez Montalb\u00e1n, em <i>Quarteto<\/i>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">\u00a0*<\/p>\n<p>365. \u201cTudo em ordem. Tudo em desordem. No espelho vejo o meu velho irm\u00e3o, esse que faz as contas do tempo que est\u00e1 comigo, esse outro que envelhece e me olha cativo, que precisa do meu olhar para reconhecer-se vivo. Esse outro que me pede nostalgia e me mente com vontade de voltar \u00e0 inf\u00e2ncia, como uma fuga para tr\u00e1s, imposs\u00edvel a fuga para a frente, para al\u00e9m do espelho. E esse outro sempre me prop\u00f5e o medo de amar e de envelhecer at\u00e9 que o tranquilizo quando o beijo, quando beijo meus l\u00e1bios e do contato brota a flor de h\u00e1lito fantasmal\u201d (Manuel V\u00e1zquez Montalb\u00e1n, em <i>Quarteto<\/i>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">\u00a0*<\/p>\n<p>366. \u201cIntimamente, Moshe j\u00e1 decidira tornar-se vegetariano, ou at\u00e9 mesmo naturista, mas postergava a concretiza\u00e7\u00e3o dessa decis\u00e3o porque n\u00e3o seria f\u00e1cil ser naturista na comunidade de jovens do kibutz. Mesmo sem ser vegetariano ele tinha de se esfor\u00e7ar dia e noite para n\u00e3o ser diferente dos outros. Se conter. Fingir. Ele pensou na crueldade que havia no ato de comer carne, e na sina dessas galinhas, condenadas a passar toda a sua vida em gaiolas gradeadas com arame, espremidas e apertadas uma na outra para porem seus ovos, duas a duas, naqueles compactos compartimentos, sem poderem se mover em seu lugar nem mesmo um passo, por todos os dias de suas vidas. Um dia ainda haver\u00e1 no mundo uma gera\u00e7\u00e3o, pensou Moshe, que nos chamar\u00e1 a todos de assassinos e n\u00e3o compreender\u00e1 como pudemos comer a carne de criaturas como n\u00f3s, de quem confiscamos o contato com a terra e o cheiro do verde, para faz\u00ea-las brotar em chocadeiras autom\u00e1ticas, para cri\u00e1-las em gaiolas apertadas, para aliment\u00e1-las e abarrot\u00e1-las at\u00e9 enjoar, para roubar-lhes todos os ovos antes de elas os chocarem, e por fim para cortar-lhes a garganta, depen\u00e1-las, arrancar-lhes os membros e os \u00f3rg\u00e3os e nos empanturrar e salivar e lamber a gordura\u201d (Am\u00f3s Oz, em <i>Entre amigos<\/i>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">\u00a0*<\/p>\n<p>367. \u201cQuando Ioav ergueu os olhos viu um floco de nuvens baixas bem em cima dele e disse a si mesmo que tudo que consideramos importante na verdade n\u00e3o tem import\u00e2ncia e no que \u00e9 realmente importante n\u00e3o temos tempo bastante para pensar. A vida inteira passa e voc\u00ea quase n\u00e3o pensa nas coisas simples e grandiosas, solid\u00e3o, saudade, paix\u00e3o e morte\u201d (Am\u00f3s Oz, em <i>Entre amigos<\/i>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">\u00a0*<\/p>\n<p>368. \u201cEle n\u00e3o tinha no quarto nem um bule seu nem x\u00edcaras suas, por quest\u00e3o de princ\u00edpios: a pr\u00e1tica de juntar coisas \u00e9 a maldi\u00e7\u00e3o da sociedade humana. \u00c9 da natureza das coisas materiais se apoderar lentamente da alma e escraviz\u00e1-la. Martin tampouco acreditava na institui\u00e7\u00e3o familiar, porque a vida do casal em si mesma cria uma barreira sup\u00e9rflua entre a c\u00e9lula familiar e a sociedade. Achava que a comunidade como um todo tinha de criar e educar todas as crian\u00e7as, e n\u00e3o s\u00f3 seus pais biol\u00f3gicos. Tudo aqui pertence a todos n\u00f3s, todos n\u00f3s pertencemos uns aos outros e as crian\u00e7as t\u00eam de ser crias de todos n\u00f3s\u201d (Am\u00f3s Oz, em <i>Entre amigos<\/i>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">\u00a0*<\/p>\n<p>369. \u201cEle dizia: \u2018O homem \u00e9 basicamente bom e gentil e honesto e \u00e9 s\u00f3 o ambiente que nos corrompe\u2019. Osnat dizia: \u2018Mas o que \u00e9 o ambiente? No final das contas, mais homens\u2019\u201d (Am\u00f3s Oz, em <i>Entre amigos<\/i>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">\u00a0*<\/p>\n<p>370. \u201cOsnat ficava calada. Pensava consigo mesma que a crueldade \u00e9 mais disseminada no mundo do que a compaix\u00e3o, e \u00e0s vezes a pr\u00f3pria compaix\u00e3o \u00e9 uma forma de crueldade\u201d (Am\u00f3s Oz, em <i>Entre amigos<\/i>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">371. &#8220;Sobretudo, desde que sua vida come\u00e7ara lentamente a declinar, desde que seu medo de artista de n\u00e3o atingir o fim \u2013\u00a0esse receio de o rel\u00f3gio querer parar antes de ele ter cumprido sua parte, antes de ter-se dado por inteiro\u00a0\u2013 n\u00e3o devia mais ser considerado mera extravag\u00e2ncia, sua exist\u00eancia exterior vinha sendo limitada quase que exclusivamente \u00e0 bela cidade que elegera como sua e \u00e0 casa r\u00fastica que constru\u00edra nas montanhas e onde passava os ver\u00f5es chuvosos&#8221; (Thomas Mann, em\u00a0<em>Morte em Veneza<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">372. &#8220;Tencionava adiantar a obra a que dedicava sua vida at\u00e9 determinado ponto, antes de transferir-se para o campo, e a ideia de uma vadiagem pelo mundo, que o afastaria de seu trabalho durante meses, parecia por demais leviana e contr\u00e1ria aos planos para ser seriamente levada em conta. Ele sabia perfeitamente por que a tenta\u00e7\u00e3o surgira t\u00e3o inopinadamente. Era desejo de fuga, que ele confessava a si mesmo, essa nostalgia de dist\u00e2ncia e novidade, esse desejo de liberta\u00e7\u00e3o, desobriga\u00e7\u00e3o e esquecimento\u00a0\u2013 impulso de se afastar da obra, do cen\u00e1rio cotidiano de obriga\u00e7\u00e3o r\u00edgida, fria e apaixonada. Amava, na verdade, seu trabalho e quase j\u00e1 amava a luta enervante, a cada dia renovada, entre sua vontade tenaz e orgulhosa, tantas vezes posta \u00e0 prova, e esse cansa\u00e7o crescente, de quem ningu\u00e9m devia suspeitar e que nenhum ind\u00edcio de fraqueza ou neglig\u00eancia no produto acabado deveria trair&#8221; (Thomas Mann, em\u00a0<em>Morte em Veneza<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">373. &#8220;Para que qualquer produto intelectual de peso possa surtir de imediato um efeito amplo e profundo, \u00e9 preciso que haja uma afinidade secreta, uma coincid\u00eancia entre o destino pessoal de seu autor e o destino an\u00f4nimo de sua gera\u00e7\u00e3o. As pessoas n\u00e3o sabem por que elas tornam famosa uma obra de arte. Sem o menor conhecimento de causa, julgam descobrir centenas de m\u00e9ritos para justificar tamanho apre\u00e7o; mas o verdadeiro fundamento de seu aplauso \u00e9 algo imponder\u00e1vel, \u00e9 simpatia&#8221;\u00a0(Thomas Mann, em\u00a0<em>Morte em Veneza<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">374. &#8220;Era o poeta de todos aqueles que trabalham \u00e0 beira da exaust\u00e3o, dos que carregam um fardo superior a suas for\u00e7as e, mesmo esgotados, se mant\u00eam ainda de p\u00e9, de todos esses moralistas que t\u00eam por m\u00e1xima o dever de produzir e que, de porte franzino e dispondo de meios prec\u00e1rios, \u00e0 custa de prod\u00edgios de vontade e h\u00e1bil organiza\u00e7\u00e3o, conseguem obter, ao menos por algum tempo, efeitos de grandeza. H\u00e1 muitos deles: s\u00e3o os her\u00f3is dessa \u00e9poca. E todos eles se reconheciam na sua obra; nela se encontravam justificados, poeticamente enaltecidos e, cheios de gratid\u00e3o, difundiam seu nome&#8221;\u00a0(Thomas Mann, em\u00a0<em>Morte em Veneza<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">375. &#8220;Mesmo sob o prisma pessoal, a arte \u00e9 uma vida elevada. Ela traz uma felicidade mais profundas um desgaste mais acelerado. Grava no rosto de seu servidor os tra\u00e7os de aventuras imagin\u00e1rias e espirituais, e com o tempo, mesmo no caso de uma vida exterior de uma placidez mon\u00e1stica, provoca uma pervers\u00e3o, um refinamento, um cansa\u00e7o e uma excita\u00e7\u00e3o dos nervos, que mesmo uma vida cheia de paix\u00f5es e prazeres desvairados dificilmente poderia produzir&#8221;\u00a0(Thomas Mann, em\u00a0<em>Morte em Veneza<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">376. &#8220;N\u00e3o h\u00e1 nada mais estranho e melindroso do que a rela\u00e7\u00e3o entre pessoas que s\u00f3 se conhecem de vista\u00a0\u2013 que se encontram e se observam diariamente, ou mesmo a toda hora, sem um cumprimento, sem uma palavra, for\u00e7adas a manter uma aparente indiferen\u00e7a de desconhecidos, por imposi\u00e7\u00e3o dos costumes, ou por capricho pessoal. H\u00e1 entre elas inquieta\u00e7\u00e3o e curiosidade exacerbada, a histeria de uma necessidade insatisfeita, artificialmente reprimida, de travar conhecimento e comunicar-se, e tamb\u00e9m, sobretudo, uma esp\u00e9cie de respeito carregado de tens\u00e3o. Pois o ser humanos ama e respeita seu semelhante enquanto n\u00e3o tem condi\u00e7\u00f5es de julg\u00e1-lo, e o desejo \u00e9 produto de um conhecimento imperfeito&#8221;\u00a0(Thomas Mann, em\u00a0<em>Morte em Veneza<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">377. &#8220;Pois a paix\u00e3o, tal como o crime, n\u00e3o se adapta \u00e0 ordem estabelecida, ao bem-estar da marcha do cotidiano, e qualquer desarranjo da estrutura burguesa, qualquer perturba\u00e7\u00e3o e tribula\u00e7\u00e3o do mundo t\u00eam de lhe ser bem-vindos, pois ela pode alimentar a vaga esperan\u00e7a de encontrar a\u00ed algum proveito&#8221;\u00a0(Thomas Mann, em\u00a0<em>Morte em Veneza<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">378. &#8220;V\u00eas agora que n\u00f3s, poetas, n\u00e3o podemos ser nem s\u00e1bios nem dignos? Que fatalmente incorremos em erro, que fatalmente permanecemos devassos e aventureiros do sentimento? A maestria de nosso estilo \u00e9 mentira e estupidez; nossa fama e respeitabilidade, uma farsa; a confian\u00e7a depositada em n\u00f3s pela multid\u00e3o, altamente rid\u00edcula; a educa\u00e7\u00e3o do povo e da juventude pela arte, um empreendimento temer\u00e1rio que deveria ser proibido. Pois, como pode servir de educador quem traz em si um pendor inato e incorrig\u00edvel para o abismo?&#8221;\u00a0(Thomas Mann, em\u00a0<em>Morte em Veneza<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">379. &#8220;Um dia me expulsaram, junto com um companheiro, da sala de aula, por ficar conversando. Sa\u00edmos da classe e nos sentamos no ch\u00e3o, perto da porta, com as costas apoiadas na parede e as pernas esticadas, como um par de c\u00famplices. Disse que havia, na sua casa, uma granada de m\u00e3o da guerra e que ele queria me mostrar, mas que seu pai o tinha proibido de lev\u00e1-la para a rua. Indiquei que podia ir v\u00ea-la. Ent\u00e3o, observando criticamente minhas botas, feridas j\u00e1 de morte, falou: &#8216;\u00c9 que minha casa \u00e9 de muito luxo&#8217;. Com frequ\u00eancia, o inimigo de classe \u00e9 seu companheiro de carteira.\u00a0(Juan Jos\u00e9 Mill\u00e1s, em <em>O mundo<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">380. Os grandes acontecimentos afetam nossa vida s\u00f3 relativamente, com frequ\u00eancia uma frase pronunciada <em>en\u00a0passant\u00a0<\/em>ou um evento fortuito nos influenciam muito mais que a chegada do homem \u00e0 Lua ou a da estrutura do DNA. Quem pronunciou a frase decisiva no caso de Tessel foi a m\u00e3e dela, numa tarde t\u00f3rrida em que elas tinham sa\u00eddo para comprar um par de sapatos na Cidade do Cabo: &#8220;Olha, a sua cara&#8221;, disse a m\u00e3e, e Tessel entendeu logo a que se referia. \u00c0 frente delas, caminhava um menino gordo, de m\u00e3os dadas com a m\u00e3e (&#8230;). Foi uma gafe terr\u00edvel do ponto de vista pedag\u00f3gico, e o sangue de Tessel congelou nas veias. \/\/ Aquele garoto gordo, encontrado por acaso numa rua comercial da Cidade do Cabo, transformou-se em sua \u00fanica expectativa de futuro. Ela beijaria rapazes gordos, se sentaria ao lado de rapazes gordos, primeiro na escola, depois na universidade, se casaria com um rapaz gordo e daria \u00e0 luz muitos meninos gordos. Tessel pensou em suic\u00eddio. (Tommy Wieringa, em\u00a0<em>Joe Speedboat<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>381. &#8220;Voc\u00ea prefere amar mais e sofrer mais, ou amar menos e sofrer menos? Para mim, esta \u00e9 a \u00fanica e verdadeira quest\u00e3o.&#8221; (from &#8220;A \u00fanica hist\u00f3ria&#8221; by Julian Barnes)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>382. &#8220;Voc\u00ea pode observar \u2013 corretamente \u2013 que n\u00e3o se trata de uma pergunta de verdade. Porque n\u00e3o temos escolha. Se tiv\u00e9ssemos escolha, ent\u00e3o existiria uma pergunta. Mas n\u00e3o temos, ent\u00e3o n\u00e3o existe. Quem pode controlar o quanto ama? Se voc\u00ea consegue controlar, \u00e9 porque n\u00e3o \u00e9 amor. Eu n\u00e3o sei que nome dar a isso, mas n\u00e3o \u00e9 amor.&#8221; (from &#8220;A \u00fanica hist\u00f3ria&#8221; by Julian Barnes)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>383. &#8220;A farm\u00e1cia vendia curativos para verruga e xampu seco em pequenos frascos, mas n\u00e3o anticoncepcionais;&#8221; (from &#8220;A \u00fanica hist\u00f3ria&#8221; by Julian Barnes)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>384. &#8220;\u2013 Seu marido joga? \u2013 Meu marido? O Sr. C.E.? \u2013 Ela riu. \u2013 N\u00e3o. O jogo dele \u00e9 golfe. Eu acho pouco esportivo bater em bola parada. Voc\u00ea n\u00e3o concorda?&#8221; (from &#8220;A \u00fanica hist\u00f3ria&#8221; by Julian Barnes)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>385. &#8220;Havia coisas demais nessa resposta para eu destrinchar na mesma hora, ent\u00e3o s\u00f3 balancei a cabe\u00e7a e grunhi baixinho.&#8221; (from &#8220;A \u00fanica hist\u00f3ria&#8221; by Julian Barnes)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>386. &#8220;\u2013 Voc\u00ea gostaria de uma carona? Eu tenho um carro. Ela me olhou de vi\u00e9s. \u2013 Bem, eu n\u00e3o iria querer uma carona se voc\u00ea n\u00e3o tivesse um carro. Isso seria contraproducente. \u2013 Algo no modo como ela disse isso tornou imposs\u00edvel eu me sentir ofendido. \u2013 Mas e quanto a sua reputa\u00e7\u00e3o? \u2013 Minha reputa\u00e7\u00e3o? \u2013 respondi. \u2013 Acho que n\u00e3o tenho uma reputa\u00e7\u00e3o. \u2013 Puxa vida. Ent\u00e3o vamos ter que arranjar uma para voc\u00ea. Todo rapaz devia ter uma reputa\u00e7\u00e3o.&#8221; (from &#8220;A \u00fanica hist\u00f3ria&#8221; by Julian Barnes)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>387. &#8220;N\u00f3s tendemos a classificar qualquer relacionamento novo que encontramos em uma categoria preexistente. N\u00f3s vemos o que \u00e9 geral ou comum nele; enquanto os participantes v\u00eam \u2013 sentem \u2013 apenas o que \u00e9 individual e particular. N\u00f3s dizemos: que previs\u00edvel; eles dizem: que surpresa! Uma das coisas que pensei a nosso respeito \u2013 Susan e eu \u2013 na \u00e9poca, e agora, de novo, tantos anos depois \u2013 foi que muitas vezes n\u00e3o pareciam existir palavras para o nosso relacionamento; pelo menos nenhuma palavra que servisse. Mas talvez esta seja uma ilus\u00e3o que todos os amantes t\u00eam a respeito de si mesmos: que eles fogem a qualquer categoria e descri\u00e7\u00e3o.&#8221; (from &#8220;A \u00fanica hist\u00f3ria&#8221; by Julian Barnes)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>388. &#8220;Uma conversa entre mim e meus pais (leia: minha m\u00e3e), uma daquelas conversas inglesas que condensa par\u00e1grafos de animosidade em duas frases: \u2013 Mas eu tenho dezenove anos. \u2013 Exatamente, voc\u00ea s\u00f3 tem dezenove anos.&#8221; (from &#8220;A \u00fanica hist\u00f3ria&#8221; by Julian Barnes)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>389. &#8220;Enquanto Susan fervia a \u00e1gua na chaleira, eu olhei em volta. A casa era semelhante \u00e0 nossa, s\u00f3 que tudo parecia um pouco mais elegante; ou melhor, ali as coisas velhas pareciam herdadas, e n\u00e3o compradas de segunda m\u00e3o. Havia lumin\u00e1rias comuns com c\u00fapulas de pergaminho amarelado. Havia tamb\u00e9m \u2013 n\u00e3o exatamente uma displic\u00eancia, era mais uma indiferen\u00e7a com o fato de as coisas n\u00e3o estarem arrumadas. Eu vi tacos de golfe numa bolsa no ch\u00e3o do corredor e dois copos ainda n\u00e3o retirados da mesa do almo\u00e7o, talvez at\u00e9 da noite anterior. Nada deixava de ser retirado na nossa casa. Tudo tinha que ser arrumado, lavado, varrido, esfregado. Caso algu\u00e9m aparecesse de repente. Mas quem faria isso? O vig\u00e1rio? O guarda local? Algu\u00e9m querendo dar um telefonema? Um vendedor ambulante? A verdade era que ningu\u00e9m jamais chegou sem ser convidado e toda aquela arruma\u00e7\u00e3o e limpeza eram feitas em motivo do que me parecia ser um profundo atavismo social. Enquanto aqui as pessoas como eu chegavam e o lugar parecia, como minha m\u00e3e sem d\u00favida teria&#8221; (from &#8220;A \u00fanica hist\u00f3ria&#8221; by Julian Barnes)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>390. &#8220;Enquanto Susan fervia a \u00e1gua na chaleira, eu olhei em volta. A casa era semelhante \u00e0 nossa, s\u00f3 que tudo parecia um pouco mais elegante; ou melhor, ali as coisas velhas pareciam herdadas, e n\u00e3o compradas de segunda m\u00e3o. Havia lumin\u00e1rias comuns com c\u00fapulas de pergaminho amarelado. Havia tamb\u00e9m \u2013 n\u00e3o exatamente uma displic\u00eancia, era mais uma indiferen\u00e7a com o fato de as coisas n\u00e3o estarem arrumadas. Eu vi tacos de golfe numa bolsa no ch\u00e3o do corredor e dois copos ainda n\u00e3o retirados da mesa do almo\u00e7o, talvez at\u00e9 da noite anterior. Nada deixava de ser retirado na nossa casa. Tudo tinha que ser arrumado, lavado, varrido, esfregado. Caso algu\u00e9m aparecesse de repente. Mas quem faria isso? O vig\u00e1rio? O guarda local? Algu\u00e9m querendo dar um telefonema? Um vendedor ambulante? A verdade era que ningu\u00e9m jamais chegou sem ser convidado e toda aquela arruma\u00e7\u00e3o e limpeza eram feitas em motivo do que me parecia ser um profundo atavismo social. Enquanto aqui as pessoas como eu chegavam e o lugar parecia, como minha m\u00e3e sem d\u00favida teria observado, n\u00e3o ver uma vassoura h\u00e1 quinze dias.&#8221; (from &#8220;A \u00fanica hist\u00f3ria&#8221; by Julian Barnes)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>391. &#8220;Por exemplo, eu me lembro de me deitar na cama uma noite e ficar acordado por causa de uma daquelas ere\u00e7\u00f5es enormes que, quando se \u00e9 jovem, voc\u00ea desatentamente \u2013 ou despreocupadamente \u2013 imagina que v\u00e3o durar para o resto da vida. Mas esta foi diferente. Era uma esp\u00e9cie de ere\u00e7\u00e3o generalizada, desconectada de uma pessoa, de um sonho ou de uma fantasia. Era apenas pelo fato de eu ser beatificamente jovem. Jovem de c\u00e9rebro, cora\u00e7\u00e3o, p\u00eanis e alma \u2013 e aconteceu de ser o p\u00eanis o que melhor exprimiu aquele estado geral.&#8221; (from &#8220;A \u00fanica hist\u00f3ria&#8221; by Julian Barnes)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>392. &#8220;Mas caso voc\u00ea esteja na d\u00favida, eu n\u00e3o tenho inveja dos jovens. Nos meus dias de ira e insol\u00eancia adolescentes, eu costumava perguntar a mim mesmo: para que servem os velhos, a n\u00e3o ser para invejar os jovens? Este me parecia ser o objetivo principal deles antes da extin\u00e7\u00e3o.&#8221; (from &#8220;A \u00fanica hist\u00f3ria&#8221; by Julian Barnes)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>393. &#8220;Eu n\u00e3o me lembro de quando nos beijamos pela primeira vez. N\u00e3o \u00e9 esquisito? Eu consigo lembrar 6-2; 7-5; 2-6. Eu consigo me lembrar das orelhas daquele motorista velho nos m\u00ednimos detalhes. Mas n\u00e3o consigo me lembrar de quando ou onde nos beijamos pela primeira vez, ou quem tomou a iniciativa, ou se fomos n\u00f3s dois ao mesmo tempo.&#8221; (from &#8220;A \u00fanica hist\u00f3ria&#8221; by Julian Barnes)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>394. &#8220;Olha, eu n\u00e3o quis, em momento algum, em nenhum n\u00edvel, matar meu pr\u00f3prio pai e dormir com minha m\u00e3e. \u00c9 verdade que eu quis dormir com Susan \u2013 e fiz isso muitas vezes \u2013 e por alguns anos pensei em matar Gordon Macleod, mas isso \u00e9 outra parte da hist\u00f3ria. Sem entrar muito nisso, eu penso que o mito de \u00c9dipo \u00e9 precisamente o que ele come\u00e7ou sendo: mais melodrama que psicologia. Em todos os meus anos de vida, eu nunca conheci ningu\u00e9m a quem ele pudesse se aplicar.&#8221; (from &#8220;A \u00fanica hist\u00f3ria&#8221; by Julian Barnes)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>395. &#8220;\u2013 N\u00e3o \u00e9 estranho? \u2013 ela diz. \u2013 Minha m\u00e3e morreu de c\u00e2ncer quando eu tinha dez anos e s\u00f3 penso nela quando estou cortando as unhas dos p\u00e9s.&#8221; (from &#8220;A \u00fanica hist\u00f3ria&#8221; by Julian Barnes)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>396. &#8220;prazeres. A bebida altera as pessoas. E n\u00e3o para melhor. Eu concordo. N\u00e3o&#8221; (from &#8220;A \u00fanica hist\u00f3ria&#8221; by Julian Barnes)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>397. &#8220;E o Sr. C.E. n\u00e3o era nenhum modelo das virtudes de beber. Enquanto esperava pelo jantar, ele se sentava \u00e0 mesa cercado pelo que Susan chamava de \u201cseus garraf\u00f5es\u201d, despejando o l\u00edquido na sua caneca de cerveja com a m\u00e3o cada vez mais tr\u00eamula. Na frente dele havia outra caneca, cheia de cebolinhas, que ele mastigava. Ent\u00e3o, passado um tempo, arrotava discretamente, cobrindo a boca de uma maneira pseudocavalheiresca. Por causa disso, eu detestei cebolinha a vida inteira. E nunca apreciei muito cerveja.&#8221; (from &#8220;A \u00fanica hist\u00f3ria&#8221; by Julian Barnes)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>398. &#8220;Voc\u00ea j\u00e1 notou como ele fuma? Ele acende e solta a fuma\u00e7a como se sua vida dependesse disso, e ent\u00e3o, quando o cigarro est\u00e1 no meio, ele o apaga com nojo. E este nojo dura at\u00e9 ele acender o pr\u00f3ximo. Cerca de cinco minutos depois.&#8221; (from &#8220;A \u00fanica hist\u00f3ria&#8221; by Julian Barnes)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>399. &#8220;\u2013 N\u00e3o \u00e9 estranho? \u2013 ela diz. \u2013 Minha m\u00e3e morreu de c\u00e2ncer quando eu tinha dez anos e s\u00f3 penso nela quando estou cortando as unhas dos p\u00e9s.&#8221; (from &#8220;A \u00fanica hist\u00f3ria&#8221; by Julian Barnes)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>400. &#8220;Eu me lembrava, de leituras dos tempos de col\u00e9gio, que Obst\u00e1culos Aumentam a Paix\u00e3o; mas agora que eu estava sentindo o que antes s\u00f3 havia lido a respeito, a ideia de um Obst\u00e1culo n\u00e3o me parecia nem necess\u00e1ria nem desej\u00e1vel. Mas eu era muito jovem emocionalmente, e talvez simplesmente cego aos obst\u00e1culos que outros enxergariam com facilidade.&#8221; (from &#8220;A \u00fanica hist\u00f3ria&#8221; by Julian Barnes)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>401. &#8220;Aprendeu a passar o tempo. Essa \u00e9 uma das coisas da vida. N\u00f3s s\u00f3 estamos procurando um lugar seguro. E quando n\u00e3o encontramos, ent\u00e3o temos que aprender a passar o tempo.\u201d&#8221; (from &#8220;A \u00fanica hist\u00f3ria&#8221; by Julian Barnes)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>402. &#8220;\u2013 Sim e n\u00e3o. Sim e n\u00e3o. Mas jamais esque\u00e7a, jovem Mestre Paul. Todo mundo tem sua hist\u00f3ria de amor. Todo mundo. A hist\u00f3ria pode ter sido um fiasco, pode ter fracassado, pode nunca ter progredido, pode ter sido apenas fruto da imagina\u00e7\u00e3o, mas isso n\u00e3o a torna menos real. \u00c0s vezes, voc\u00ea v\u00ea um casal, e eles parecem totalmente entediados um com o outro, e voc\u00ea n\u00e3o consegue imaginar que eles tenham algo em comum, nem por que continuam vivendo juntos. Mas n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 h\u00e1bito ou complac\u00eancia ou conven\u00e7\u00e3o ou algo parecido. \u00c9 porque um dia eles tiveram sua hist\u00f3ria de amor. Todo mundo tem. \u00c9 a \u00fanica hist\u00f3ria. Eu n\u00e3o respondo. Eu me sinto censurado. N\u00e3o censurado por Susan. Censurado pela vida.&#8221; (from &#8220;A \u00fanica hist\u00f3ria&#8221; by Julian Barnes)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>403. &#8220;N\u00e3o que eu sempre concordasse com ela. Quando falava sobre Joan, ela dizia: \u201cN\u00f3s todos estamos procurando um lugar seguro.\u201d Eu refleti sobre essas palavras depois. A conclus\u00e3o a que cheguei foi a seguinte: talvez sim, mas eu sou jovem, eu \u201cs\u00f3 tenho dezenove anos\u201d, e estou mais interessado em procurar um lugar perigoso.&#8221; (from &#8220;A \u00fanica hist\u00f3ria&#8221; by Julian Barnes)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>404. &#8220;Ap\u00f3s alguns meses, talvez mais, ela anuncia que eu preciso de um fundo para fuga. \u2013 Para qu\u00ea? \u2013 Para fugir. Todo mundo devia ter um fundo para fuga. \u2013 Assim como todo rapaz devia ter uma reputa\u00e7\u00e3o. De onde tinha sa\u00eddo essa ideia? De um romance de Nancy Mitford? \u2013 Mas eu n\u00e3o quero fugir. Fugir de quem? Dos meus pais? Eu, de certa forma, j\u00e1 os deixei. Mentalmente. De voc\u00ea? Por que eu iria querer fugir de voc\u00ea? Eu quero que voc\u00ea fique na minha vida para sempre. \u2013 Isso \u00e9 muito lindo de sua parte, Paul. Mas n\u00e3o se trata de um fundo espec\u00edfico, sabe? \u00c9 uma esp\u00e9cie de fundo geral. Porque em algum momento todo mundo quer fugir de sua pr\u00f3pria vida. Esta \u00e9 uma das \u00fanicas coisas que os seres humanos t\u00eam em comum.&#8221; (from &#8220;A \u00fanica hist\u00f3ria&#8221; by Julian Barnes)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">405.\u00a0&#8220;N\u00e3o era dos punhos de Macleod que eu tinha medo \u2013 n\u00e3o em primeiro lugar. Era da raiva dele. N\u00f3s n\u00e3o lid\u00e1vamos com raiva na nossa fam\u00edlia. Faz\u00edamos coment\u00e1rios ir\u00f4nicos, r\u00e9plicas afiadas, apartes sarc\u00e1sticos; n\u00f3s us\u00e1vamos palavras precisas para vedar determinado comportamento, e palavras mais severas para condenar o que j\u00e1 havia ocorrido. Mas para qualquer coisa mais grave do que isso n\u00f3s faz\u00edamos o que foi imposto \u00e0 classe m\u00e9dia inglesa durante gera\u00e7\u00f5es. N\u00f3s internaliz\u00e1vamos nossa ira, nossa raiva, nosso desprezo. Determinadas palavras eram sussurradas. Pod\u00edamos at\u00e9 escrever algumas dessas palavras em nossos di\u00e1rios, caso tiv\u00e9ssemos um di\u00e1rio. Mas tamb\u00e9m pens\u00e1vamos que \u00e9ramos os \u00fanicos a reagir desse modo, e como era um pouco vergonhoso, internaliz\u00e1vamos ainda mais o problema.&#8221; (from &#8220;A \u00fanica hist\u00f3ria&#8221; by Julian Barnes)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">406.\u00a0&#8220;A ideia de viol\u00eancia por parte de maridos com diploma de Cambridge me parecia algo incompreens\u00edvel. \u00c9 claro, eu nunca tivera motivo para pensar nisso antes. Mas se tivesse, teria provavelmente achado que a viol\u00eancia dos maridos das classes trabalhadoras estava ligada \u00e0 incapacidade de articula\u00e7\u00e3o: eles recorriam aos punhos enquanto os maridos de classe m\u00e9dia recorriam \u00e0s palavras. Ambos os mitos levaram alguns anos para desaparecer, apesar da evid\u00eancia existente.&#8221; (from &#8220;A \u00fanica hist\u00f3ria&#8221; by Julian Barnes)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">407.\u00a0&#8220;Voc\u00ea \u00e9 um absolutista a favor do amor, e portanto um absolutista contra o casamento. Voc\u00ea pensou muito no assunto, e formulou muitas compara\u00e7\u00f5es extravagantes. O casamento \u00e9 um canil onde a complac\u00eancia mora e nunca \u00e9 acorrentada. O casamento \u00e9 uma caixa de joias que, por alguma misteriosa alquimia ao avesso, transforma ouro, prata e diamantes em metal, massa e quartzo. O casamento \u00e9 uma casa de barcos sem uso contendo uma velha canoa para duas pessoas, que n\u00e3o pode mais ir na \u00e1gua porque est\u00e1 toda furada no fundo e faltando um remo. O casamento \u00e9&#8230; ah, temos dezenas de compara\u00e7\u00f5es para usar.&#8221; (from &#8220;A \u00fanica hist\u00f3ria&#8221; by Julian Barnes)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">408.\u00a0&#8220;O que eu n\u00e3o gostava e desconfiava a respeito da idade adulta? Bem, para ser sucinto: o sentido de privil\u00e9gio, o sentido de superioridade, a suposi\u00e7\u00e3o de saber mais, se n\u00e3o tudo, a enorme banalidade das opini\u00f5es adultas, o modo como as mulheres tiravam da bolsa o estojo de p\u00f3 compacto e passavam no nariz, o modo como os homens se sentavam nas poltronas, com as pernas abertas e as partes \u00edntimas bem delineadas contra a cal\u00e7a, o modo como eles falavam de jardins e jardinagem, os \u00f3culos que usavam e a exibi\u00e7\u00e3o que faziam de si mesmos, a bebida e o cigarro, o ru\u00eddo horr\u00edvel de catarro que faziam ao tossir, os aromas artificiais que usavam para esconder seu cheiro animal, o modo como os homens ficavam carecas e as mulheres enchiam o penteado de laqu\u00ea, a ideia repulsiva de que eles talvez ainda estivessem fazendo sexo, sua obedi\u00eancia \u00e0s normas sociais, sua reprova\u00e7\u00e3o mal-humorada de tudo que fosse sat\u00edrico ou contestador, sua convic\u00e7\u00e3o de que o sucesso dos seus filhos seria avaliado em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 capacidade deles de imitar bem os pais, o barulho sufocante que faziam quando concordavam uns com os outros, seus coment\u00e1rios sobre a comida que preparavam e a comida que comiam, seu amor por coisas que eu achava nojentas (especialmente azeitonas, cebolas em conserva, chutneys, piccalilli, molho de raiz-forte, cebolinhas, pasta para sandu\u00edche, queijo fedorento e Marmite), sua complac\u00eancia emocional, seu sentido de superioridade racial, o modo como contavam as moedas, o modo como tiravam a comida presa entre os dentes, o modo como n\u00e3o se interessavam o suficiente por mim, e o modo como se interessavam demais por mim quando eu n\u00e3o queria que o fizessem. Esta era apenas uma lista abreviada, da qual Susan estava natural e completamente exclu\u00edda.&#8221; (from &#8220;A \u00fanica hist\u00f3ria&#8221; by Julian Barnes)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">409. &#8220;Ah, e outra coisa. O modo como, por algum terror at\u00e1vico em admitir sentimentos verdadeiros, eles ironizavam a vida emocional, transformando a rela\u00e7\u00e3o entre os sexos em uma piada tola. O modo como os homens davam a entender que eram as mulheres que realmente mandavam em tudo; o modo como as mulheres davam a entender que os homens n\u00e3o entendiam o que estava acontecendo. O modo como os homens fingiam que eram fortes, e as mulheres tinham que ser mimadas e paparicadas e tuteladas; o modo como as mulheres fingiam que, apesar do folclore sexual existente, eram elas que tinham bom senso e praticidade. O modo como cada sexo admitia chorosamente que, apesar dos defeitos de cada um, eles ainda precisavam um do outro. N\u00e3o podemos viver com elas, n\u00e3o podemos viver sem elas. E eles viviam uns com os outros no casamento, que, como diz um ditado, era uma institui\u00e7\u00e3o no sentido de uma institui\u00e7\u00e3o de doentes mentais. Quem disse isto primeiro? Um homem ou uma mulher? N\u00e3o \u00e9 surpresa que eu n\u00e3o quisesse nada disso. Ou melhor, que esperasse que isso nunca se aplicasse a mim; na realidade, que eu acreditasse que poderia impedir que isso se aplicasse a mim. Ent\u00e3o, de fato, quando eu disse \u201cEu tenho dezenove anos!\u201d, e meus pais responderam triunfantemente \u201cSim, voc\u00ea s\u00f3 tem dezenove anos!\u201d, o triunfo tamb\u00e9m foi meu. Gra\u00e7as a Deus eu \u201cs\u00f3\u201d tenho dezenove anos, pensei.&#8221; (from &#8220;A \u00fanica hist\u00f3ria&#8221; by Julian Barnes)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">410. &#8220;\u201cN\u00f3s fomos escolhidos pela sorte.\u201d Eu n\u00e3o acredito em destino, como posso ter dito. Mas acredito agora que, quando dois amantes se conhecem, j\u00e1 existe tanta hist\u00f3ria pregressa que apenas alguns desfechos s\u00e3o poss\u00edveis. Ao passo que os pr\u00f3prios amantes imaginam que o mundo est\u00e1 sendo reiniciado, e que as possibilidades s\u00e3o novas e infinitas.&#8221; (from &#8220;A \u00fanica hist\u00f3ria&#8221; by Julian Barnes)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">411.\u00a0&#8220;Ent\u00e3o h\u00e1 aquela palavra que Joan introduziu em nossa conversa como um poste de concreto dentro de um laguinho de peixes: praticidade. Ao longo da minha vida, vi amigos n\u00e3o conseguindo sair de um casamento, n\u00e3o conseguindo dar continuidade a um caso de amor, n\u00e3o conseguindo at\u00e9 come\u00e7\u00e1-los \u00e0s vezes, tudo pelo mesmo motivo. \u201cSimplesmente n\u00e3o \u00e9 pr\u00e1tico\u201d, eles dizem com des\u00e2nimo. As dist\u00e2ncias s\u00e3o muito grandes, os hor\u00e1rios de trem desfavor\u00e1veis, os hor\u00e1rios de trabalho n\u00e3o combinam, e h\u00e1 a hipoteca, os filhos, o cachorro; al\u00e9m disso, a posse compartilhada de coisas. \u201cEu simplesmente n\u00e3o consegui dividir a cole\u00e7\u00e3o de discos\u201d, uma esposa que n\u00e3o conseguiu se separar me disse uma vez. No auge do amor, o casal tinha juntado seus discos, desfazendo-se das duplicatas. Como seria poss\u00edvel desfazer isso? Ent\u00e3o ela ficou; e ap\u00f3s algum tempo, a tenta\u00e7\u00e3o de ir embora passou, e a cole\u00e7\u00e3o de discos deu um suspiro de al\u00edvio.&#8221; (from &#8220;A \u00fanica hist\u00f3ria&#8221; by Julian Barnes)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">412. &#8220;\u2013 Primeiro ponto. Eu n\u00e3o sou uma leva e traz. Tudo o que voc\u00ea disser nesta sala vai ficar nesta sala, n\u00e3o vai vazar. Segundo ponto. Eu n\u00e3o sou psiquiatra, n\u00e3o sou centro de aconselhamento nem gosto muito de ouvir as queixas dos outros. Eu tendo a achar que as pessoas devem seguir em frente, parar de reclamar, arrega\u00e7ar as mangas e tudo isso. Terceiro ponto. Eu n\u00e3o passo de uma velha b\u00eabada cuja vida n\u00e3o deu certo e que mora sozinha com seus cachorros. Ent\u00e3o n\u00e3o sou uma autoridade em nada. Nem mesmo em palavras cruzadas, como voc\u00ea uma vez observou. \u2013 Mas voc\u00ea ama a Susan.&#8221; (from &#8220;A \u00fanica hist\u00f3ria&#8221; by Julian Barnes<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">413. &#8220;\u2013 Paul, querido, eu acabei de dizer que n\u00e3o dou conselhos. Eu aceitei o meu pr\u00f3prio conselho por tantos anos e veja aonde isso me levou. Ent\u00e3o eu n\u00e3o fa\u00e7o mais isso.&#8221; (from &#8220;A \u00fanica hist\u00f3ria&#8221; by Julian Barnes<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">414. &#8220;Eu disse quando voc\u00eas fugiram juntos que voc\u00eas tinham muita coragem. Voc\u00eas t\u00eam coragem, e voc\u00eas t\u00eam amor. Se isso n\u00e3o for bom o suficiente para a vida, ent\u00e3o a vida n\u00e3o \u00e9 boa o suficiente para voc\u00eas. \u2013 Agora voc\u00ea est\u00e1 parecendo um or\u00e1culo. \u2013 Ent\u00e3o \u00e9 melhor eu ir lavar minha boca com sab\u00e3o.&#8221; (from &#8220;A \u00fanica hist\u00f3ria&#8221; by Julian Barnes<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">415. &#8220;Mas com isso vem um fato cronol\u00f3gico brutal. At\u00e9 onde voc\u00ea sabe, Susan s\u00f3 bebia ocasionalmente durante todos os anos em que esteve com Macleod. Mas agora que est\u00e1 vivendo com voc\u00ea, ela \u00e9 \u2013 se tornou, est\u00e1 se tornando \u2013 uma alco\u00f3latra. Isto \u00e9 demais para voc\u00ea admitir, quanto mais suportar.&#8221; (from &#8220;A \u00fanica hist\u00f3ria&#8221; by Julian Barnes<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">416. &#8220;Voc\u00ea tem vinte e cinco anos e n\u00e3o est\u00e1 preparado para este tipo de situa\u00e7\u00e3o. N\u00e3o existem artigos de jornal intitulados \u201cComo lidar com sua amante de meia-idade alco\u00f3latra\u201d. Voc\u00ea est\u00e1 por sua conta. Voc\u00ea ainda n\u00e3o tem teorias de vida, conhece apenas alguns dos seus prazeres e dores. Voc\u00ea ainda acredita, no entanto, no amor, e no que o amor \u00e9 capaz de fazer, como ele pode transformar uma vida, na verdade, as vidas de duas pessoas. Voc\u00ea acredita na invulnerabilidade do amor, na sua tenacidade, na capacidade do amor de vencer qualquer oponente. Esta, de fato, \u00e9 a sua \u00fanica teoria de vida at\u00e9 agora.&#8221; (from &#8220;A \u00fanica hist\u00f3ria&#8221; by Julian Barnes<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">417. &#8220;Voc\u00ea j\u00e1 sabe que existe sexo bom e sexo ruim. Naturalmente, voc\u00ea prefere sexo bom a sexo ruim. Mas tamb\u00e9m, sendo jovem, acha que mesmo assim, pensando bem, considerando os pr\u00f3s e os contras, sexo ruim \u00e9 melhor do que sexo nenhum. E \u00e0s vezes melhor do que masturba\u00e7\u00e3o, embora \u00e0s vezes n\u00e3o. Mas se acha que essas s\u00e3o as \u00fanicas categorias de sexo que existem, voc\u00ea se d\u00e1 conta de que est\u00e1 enganado. Porque existe uma categoria que voc\u00ea n\u00e3o sabia que existia, alguma coisa que n\u00e3o \u00e9, como voc\u00ea talvez tivesse adivinhado se tivesse sabido dela antes, meramente uma subcategoria de sexo ruim; trata-se de sexo triste. Sexo triste \u00e9 o sexo mais triste de todos.&#8221; (from &#8220;A \u00fanica hist\u00f3ria&#8221; by Julian Barnes<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">418. &#8220;Ent\u00e3o comecei a suspeitar que estava errado em considerar o alcoolismo como sendo o oposto do amor. Talvez eles fossem muito mais pr\u00f3ximos do que eu imaginava. O alcoolismo \u00e9 sem d\u00favida t\u00e3o obsessivo \u2013 t\u00e3o absolutista \u2013 quanto o amor; e talvez para quem bebe a for\u00e7a da bebida seja t\u00e3o poderosa quanto a for\u00e7a do sexo \u00e9 para o amante. Ent\u00e3o o alco\u00f3latra poderia ser simplesmente um amante que mudou o objeto e o foco do seu amor?&#8221; (from &#8220;A \u00fanica hist\u00f3ria&#8221; by Julian Barnes<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">419. &#8220;Ent\u00e3o, por fim, voc\u00ea come\u00e7a a mentir para ela. Por qu\u00ea? Algo a ver com a necessidade de criar um espa\u00e7o interno que voc\u00ea possa manter intacto, e onde voc\u00ea possa permanecer intacto. E \u00e9 assim que \u00e9 para voc\u00ea, agora. Amor e verdade \u2013 para onde foram? Voc\u00ea pergunta a si mesmo: ficar com ela \u00e9 um ato de coragem de sua parte ou um ato de covardia? Talvez ambos? Ou \u00e9 apenas algo inevit\u00e1vel?&#8221; (from &#8220;A \u00fanica hist\u00f3ria&#8221; by Julian Barnes<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">420. &#8220;Um dia, surge uma imagem na sua cabe\u00e7a, uma imagem do relacionamento de voc\u00eas. Voc\u00ea est\u00e1 numa janela do segundo andar da casa na Henry Road. Ela deu um jeito de saltar pela janela e voc\u00ea a est\u00e1 segurando. Pelos pulsos, \u00e9 claro. E o peso dela torna imposs\u00edvel para voc\u00ea pux\u00e1-la de volta para dentro. Voc\u00ea mal consegue n\u00e3o ser puxado para fora junto com ela, por ela. Num determinado momento, ela abre a boca para gritar, mas n\u00e3o sai som algum. Em vez disso, a pr\u00f3tese dent\u00e1ria dela se solta; voc\u00ea a ouve cair no ch\u00e3o com um ru\u00eddo de pl\u00e1stico. Voc\u00eas dois est\u00e3o empacados ali, presos um ao outro, e ficar\u00e3o assim at\u00e9 voc\u00ea perder as for\u00e7as e ela cair. Isto \u00e9 s\u00f3 uma met\u00e1fora, ou o pior dos sonhos; entretanto existem met\u00e1foras que se instalam com mais for\u00e7a no c\u00e9rebro do que eventos lembrados.&#8221; (from &#8220;A \u00fanica hist\u00f3ria&#8221; by Julian Barnes<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">421. &#8220;Voc\u00ea costumava dizer \u2013 para evitar os amigos que queriam vir visitar \u2013 \u201cAh, ela est\u00e1 tendo um mau dia. Ela n\u00e3o parece a mesma\u201d. E quando eles a viam b\u00eabada, voc\u00ea dizia: \u201cMas no fundo ela ainda \u00e9 a mesma. No fundo ela ainda \u00e9 a mesma.\u201d Quantas vezes voc\u00ea disse isso aos outros, quando a pessoa a quem voc\u00ea estava se dirigindo era na verdade voc\u00ea mesmo?&#8221; (from &#8220;A \u00fanica hist\u00f3ria&#8221; by Julian Barnes<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">422. &#8220;\u00c0s vezes quando, ligeiramente b\u00eabada, ela est\u00e1 num dos seus humores a\u00e9reos, irritantes, negando tanto a realidade quanto a sua preocupa\u00e7\u00e3o com ela, voc\u00ea se v\u00ea pensando: ela pode estar destruindo a si mesma no longo prazo, mas no curto prazo est\u00e1 fazendo mais mal a voc\u00ea. Uma raiva frustrante, impotente, toma conta de voc\u00ea, e, o que \u00e9 pior, uma raiva virtuosa. Voc\u00ea odeia a sua pr\u00f3pria virtude.&#8221; (from &#8220;A \u00fanica hist\u00f3ria&#8221; by Julian Barnes<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">423. &#8220;E tamb\u00e9m aquela quest\u00e3o recorrente da mem\u00f3ria. Ele reconhecia que a mem\u00f3ria era trai\u00e7oeira e tendenciosa, mas em que dire\u00e7\u00e3o? Na dire\u00e7\u00e3o do otimismo? Isso fazia sentido no in\u00edcio. Voc\u00ea se lembrava do passado em condi\u00e7\u00f5es felizes porque isto validava a sua exist\u00eancia. Voc\u00ea n\u00e3o tinha que ver a sua vida como uma vit\u00f3ria \u2013 a dele n\u00e3o poderia ser considerada assim \u2013, mas voc\u00ea precisava dizer a si mesmo que ela fora interessante, agrad\u00e1vel, significativa. Significativa? Isso seria um certo exagero. Ainda assim, uma mem\u00f3ria otimista poderia tornar mais f\u00e1cil algu\u00e9m se despedir da vida, poderia suavizar a dor da extin\u00e7\u00e3o.&#8221; (from &#8220;A \u00fanica hist\u00f3ria&#8221; by Julian Barnes<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">424. &#8220;Se a mem\u00f3ria \u00e9 tendenciosa na dire\u00e7\u00e3o do pessimismo, se, olhando retrospectivamente, tudo parece mais sombrio e triste do que realmente foi, ent\u00e3o isto pode tornar mais f\u00e1cil deixar a vida para tr\u00e1s. Se, como dizia a velha e querida Joan, morta j\u00e1 h\u00e1 mais de trinta anos, entramos e sa\u00edmos do inferno durante a vida, ent\u00e3o por que temer o inferno verdadeiro, ou, mais provavelmente, a eterna n\u00e3o exist\u00eancia?&#8221; (from &#8220;A \u00fanica hist\u00f3ria&#8221; by Julian Barnes<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">425. &#8220;Quando pensava na vida no Village, se lembrava dela como sendo baseada em um sistema simples. Para cada doen\u00e7a, havia um \u00fanico rem\u00e9dio. TCP para dor de garganta; Dettol para cortes; Disprin para dor de cabe\u00e7a. Vick para catarro no peito. E al\u00e9m dessas, havia quest\u00f5es mais s\u00e9rias, mas ainda com solu\u00e7\u00f5es unit\u00e1rias. A cura para sexo \u00e9 o casamento; a cura para amor \u00e9 o casamento; a cura para infidelidade \u00e9 o div\u00f3rcio; a cura para infelicidade \u00e9 o trabalho; a cura para infelicidade extrema \u00e9 beber; a cura para a morte \u00e9 uma cren\u00e7a fr\u00e1gil na outra vida.&#8221; (from &#8220;A \u00fanica hist\u00f3ria&#8221; by Julian Barnes<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">426. &#8220;\u201cEle se apaixonou como um homem que comete suic\u00eddio.\u201d N\u00e3o foi exatamente assim, mas havia um certo sentido de n\u00e3o ter escolha. Ele n\u00e3o conseguiu viver com Susan; n\u00e3o conseguiu estabelecer uma vida separada dela, logo voltou a viver com ela. Coragem ou covardia? Ou mera inevitabilidade?&#8221; (from &#8220;A \u00fanica hist\u00f3ria&#8221; by Julian Barnes<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">427. &#8220;\u00c9 estranho como, quando se \u00e9 jovem, n\u00e3o temos nenhuma obriga\u00e7\u00e3o para com o futuro; mas quando ficamos velhos, temos uma obriga\u00e7\u00e3o para com o passado. A \u00fanica coisa que n\u00e3o podemos mudar.&#8221; (from &#8220;A \u00fanica hist\u00f3ria&#8221; by Julian Barnes<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">428. &#8220;\u201cNo amor, tudo \u00e9 ao mesmo tempo falso e verdadeiro; o amor \u00e9 o \u00fanico assunto a respeito do qual \u00e9 imposs\u00edvel dizer algo absurdo.\u201d&#8221; (from &#8220;A \u00fanica hist\u00f3ria&#8221; by Julian Barnes<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">429. &#8220;Um dos efeitos permanentes da sua exposi\u00e7\u00e3o \u00e0 casa dos Macleod tinha sido uma avers\u00e3o por homens raivosos. N\u00e3o, n\u00e3o avers\u00e3o, repugn\u00e2ncia. Raiva \u00e9 uma express\u00e3o de autoridade, uma express\u00e3o de masculinidade, a raiva como prel\u00fadio da viol\u00eancia f\u00edsica: ele odiava isso tudo. Havia uma falsa virtude terr\u00edvel na raiva: olhe para mim, zangado, veja como posso explodir porque estou t\u00e3o carregado de emo\u00e7\u00f5es, veja como eu estou realmente vivo (ao contr\u00e1rio de todos aqueles insens\u00edveis ali), veja como eu vou provar isso agarrando o seu cabelo e batendo com a sua cara na porta. E agora veja o que voc\u00ea me obrigou a fazer! Eu estou com raiva disso tamb\u00e9m!&#8221; (from &#8220;A \u00fanica hist\u00f3ria&#8221; by Julian Barnes<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">430. &#8220;E se isto tivesse acontecido em vez daquilo? Era in\u00fatil, mas envolvente (e talvez mantivesse a dist\u00e2ncia a quest\u00e3o da responsabilidade). Por exemplo, e se ele n\u00e3o estivesse com dezenove anos, com todo o tempo do mundo nas m\u00e3os e \u2013 embora n\u00e3o se desse conta disto \u2013 louco para amar quando chegou no clube de t\u00eanis? E se Susan, por escr\u00fapulos religiosos ou morais, tivesse desencorajado o interesse dele, e ensinado a ele apenas as t\u00e1ticas mais mirabolantes do jogo de duplas mistas? E se Macleod tivesse continuado a ter interesse sexual pela esposa? Nada disso teria acontecido.&#8221; (from &#8220;A \u00fanica hist\u00f3ria&#8221; by Julian Barnes<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">431. &#8220;Agora, em seu estado de calma lentamente conquistado, ele descobriu que podia facilmente imaginar outras coisas al\u00e9m do que eles foram; fatos e sentimentos inteiramente diferentes. Curioso, ele seguiu este caminho at\u00e9 ent\u00e3o ignorado. Por exemplo, ele come\u00e7ou a ajudar o Velho Macleod com sua jardinagem. Al\u00e9m de jogar t\u00eanis com Susan, ele come\u00e7ou a jogar golfe, ter aulas no clube e frequentemente jogar com Gordon \u2013 como este pediu a ele que o chamasse \u2013 por todos os dezoito buracos enquanto o orvalho ainda brilhava no campo. Havia algo na presen\u00e7a dele que acalmava o Velho Macleod: aquele jeito ranzinza era s\u00f3 uma m\u00e1scara, e Paul o ajudava a relaxar um pouco no campo de golfe; ele at\u00e9 o ensinou (depois de consultar um manual de golfe americano) a amar aquela bolinha peluda, em vez de odi\u00e1-la. Ele \u2013 o Figura\u00e7a, como mais gente do que Susan o chamava agora \u2013 descobriu que gostava de beber: gim com Joan, cerveja com Gordon, um c\u00e1lice ocasional de xerez com Susan; embora todos concordassem que a certa altura ele j\u00e1 tinha bebido o suficiente e que n\u00e3o devia beber mais nada. E ent\u00e3o \u2013 por que n\u00e3o prosseguir com esta vida paralela at\u00e9 uma conclus\u00e3o se n\u00e3o l\u00f3gica pelo menos convencional \u2013 e se ele e uma das filhas dos Macleod come\u00e7assem a \u201cse gostar\u201d (como diriam seus pais)? Martha ou Clara? Obviamente Clara, que era mais parecida com Susan. Mas isto era contrafactual, ent\u00e3o ele escolheu Martha.&#8221; (from &#8220;A \u00fanica hist\u00f3ria&#8221; by Julian Barnes<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">432. &#8220;N\u00e3o, ele poderia ter continuado agindo como o suporte emocional dela, vendo sua progressiva destrui\u00e7\u00e3o. Mas ele teria que ser um masoquista. E naquela \u00e9poca ele tinha feito a descoberta mais assustadora da sua vida, uma descoberta que provavelmente lan\u00e7ou uma sombra sobre todos os seus relacionamentos subsequentes: a descoberta de que o amor, mesmo o mais ardente e o mais sincero, pode, quando devidamente agredido, se transformar em uma mistura azeda de piedade e raiva. Seu amor tinha desaparecido, tinha sido expulso, m\u00eas a m\u00eas, ano a ano. Mas o que o chocou foi que as emo\u00e7\u00f5es que o substitu\u00edram eram t\u00e3o violentas quanto o amor que ele tinha antes no cora\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o sua vida e seu cora\u00e7\u00e3o continuaram t\u00e3o agitados quanto antes, s\u00f3 que Susan n\u00e3o era mais capaz de aliviar seu cora\u00e7\u00e3o. E foi ent\u00e3o que, finalmente, ele teve que mand\u00e1-la de volta.&#8221; (from &#8220;A \u00fanica hist\u00f3ria&#8221; by Julian Barnes<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">433. &#8220;\u2013 N\u00e3o fa\u00e7o ideia. E de certa forma n\u00e3o estou interessado. Eu n\u00e3o estou interessado, sen\u00e3o vou ser arrastado de volta para dentro de todo aquele caos. \u2013 N\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o de ser arrastado de volta. Voc\u00ea ainda est\u00e1 nele. \u2013 Como assim? \u2013 Voc\u00ea ainda est\u00e1 nele. Voc\u00ea sempre estar\u00e1 nele. N\u00e3o literalmente. Mas no seu cora\u00e7\u00e3o. As coisas nunca terminam, n\u00e3o quando ferem t\u00e3o profundamente. Voc\u00ea vai estar sempre ferido. Essa \u00e9 a \u00fanica op\u00e7\u00e3o, ap\u00f3s algum tempo. Viver ferido ou morrer. Voc\u00ea n\u00e3o concorda?&#8221; (from &#8220;A \u00fanica hist\u00f3ria&#8221; by Julian Barnes<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">434. &#8220;Mas o que o fizera realmente desistir foi uma esp\u00e9cie de n\u00e1usea. Ele explicou que se voc\u00ea passasse v\u00e1rias horas por dia com o bra\u00e7o enfiado no traseiro de uma vaca, voc\u00ea n\u00e3o podia deixar de respirar as exala\u00e7\u00f5es nocivas do animal. E que quando estas exala\u00e7\u00f5es estavam dentro de voc\u00ea, elas buscavam inexoravelmente uma forma de tornar a sair. Alan parou por a\u00ed sua explica\u00e7\u00e3o. Mas Paul naturalmente imaginou Alan na cama com uma namorada, e tudo indo bem entre eles, at\u00e9 que uma quantidade catastr\u00f3fica de peido de vaca sai de dentro dele e a garota pula da cama, corre para pegar suas roupas e nunca mais aparece. Ou talvez isto n\u00e3o tivesse acontecido, mas Alan n\u00e3o suportasse a ideia de como seria se ele estivesse com algu\u00e9m a quem amasse. Que fim levou Alan? Ele n\u00e3o fazia ideia. Mas a hist\u00f3ria de Alan ficou na sua mem\u00f3ria desde ent\u00e3o. Porque uma vez que voc\u00ea tivesse passado por certas coisas, a presen\u00e7a delas dentro de voc\u00ea nunca desaparecia de verdade. O peido de vaca teria que sair, de uma forma ou de outra. Ent\u00e3o voc\u00ea teria que viver com as consequ\u00eancias at\u00e9 ele se dispersar.&#8221; (from &#8220;A \u00fanica hist\u00f3ria&#8221; by Julian Barnes<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">435. &#8220;Enquanto o que ele usava para se gabar era: veja como o meu relacionamento \u00e9 muito mais transgressivo do que o seu. E ainda: veja a for\u00e7a dos meus sentimentos por ela e dos dela por mim. Que era o que contava, claro, porque a for\u00e7a do sentimento determinava o grau de felicidade, n\u00e3o \u00e9? Isto parecia absolutamente l\u00f3gico para ele na \u00e9poca.&#8221; (from &#8220;A \u00fanica hist\u00f3ria&#8221; by Julian Barnes<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">436. &#8220;Ent\u00e3o agora ele entendia melhor por que os casais se agarravam \u00e0s suas hist\u00f3rias \u2013 cada um, frequentemente, a uma parte diferente dela \u2013 muito depois de ela ter terminado, at\u00e9 depois de terem chegado ao ponto de n\u00e3o terem certeza se seriam capazes de suportar um ao outro. O amor ruim ainda trazia os vest\u00edgios, a lembran\u00e7a, do amor bom \u2013 em algum lugar, l\u00e1 no fundo, onde nenhum dos dois queria mais cavar.&#8221; (from &#8220;A \u00fanica hist\u00f3ria&#8221; by Julian Barnes<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">437. &#8220;Ele folheou algumas anota\u00e7\u00f5es riscadas, depois tornou a guardar o caderno na gaveta. Talvez aquilo tivesse sido sempre uma perda de tempo. Talvez o amor n\u00e3o pudesse ser nunca capturado em uma defini\u00e7\u00e3o; ele s\u00f3 podia ser capturado em uma hist\u00f3ria.&#8221; (from &#8220;A \u00fanica hist\u00f3ria&#8221; by Julian Barnes<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>. . Ao longo das leituras, algumas passagens sempre deixam marcas, importantes no momento e que continuam a reverberar. N\u00e3o [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"parent":0,"menu_order":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","template":"","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/cezartridapalli.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/pages\/803"}],"collection":[{"href":"https:\/\/cezartridapalli.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/pages"}],"about":[{"href":"https:\/\/cezartridapalli.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/page"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cezartridapalli.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cezartridapalli.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=803"}],"version-history":[{"count":65,"href":"https:\/\/cezartridapalli.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/pages\/803\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2769,"href":"https:\/\/cezartridapalli.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/pages\/803\/revisions\/2769"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/cezartridapalli.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=803"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}