{"id":1200,"date":"2014-03-26T00:39:10","date_gmt":"2014-03-26T00:39:10","guid":{"rendered":"http:\/\/pequenabiografiadedesejos.com.br\/?p=1200"},"modified":"2023-02-19T02:47:54","modified_gmt":"2023-02-19T02:47:54","slug":"a-literatura-em-curitiba","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cezartridapalli.com.br\/?p=1200","title":{"rendered":"A literatura em Curitiba"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">A literatura curitibana tem chamado a aten\u00e7\u00e3o da imprensa local e, de forma surpreendente, tamb\u00e9m de outros eixos Brasil afora. O Portal Paran\u00e1 On-line fez mat\u00e9ria recente a respeito do assunto, falando tanto da cria\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria propriamente dita quanto do processo de edi\u00e7\u00e3o e circula\u00e7\u00e3o do livro. Para isso, o jornalista Jonatan Silva lan\u00e7ou 5 quest\u00f5es referentes ao assunto, que serviram de subs\u00eddio para o texto final. Abaixo, coloco as 5 quest\u00f5es com minhas respectivas respostas, a fim de compartilhar o que penso atualmente sobre o assunto.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">***<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>Jonatan Silva: Como \u00e9 ser escritor em Curitiba?<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Cezar Tridapalli:<\/strong> Curitiba d\u00e1 pano para muitos tecidos narrativos e po\u00e9ticos, mas creio que todo o lugar seja capaz de fornecer esses elementos. O que posso dizer tamb\u00e9m \u00e9 que n\u00e3o conseguiremos uma unidade tem\u00e1tica e estil\u00edstica apenas por escrevermos nesse espa\u00e7o demarcado geograficamente. Uma cidade se faz de imagin\u00e1rios e esses imagin\u00e1rios v\u00e3o al\u00e9m da \u00e2ncora geogr\u00e1fica, embora n\u00e3o prescindam dela. O Italo Calvino, no <i>Cidades invis\u00edveis<\/i>, dizia que \u201ca cidade se embebe como uma esponja dessa onda que reflui das recorda\u00e7\u00f5es e se dilata\u201d. O espa\u00e7o no qual estamos nos toca, nos sensibiliza como a um filme fotogr\u00e1fico, mas n\u00f3s devolvemos impress\u00f5es e sentidos sempre subjetivados. Sobre Curitiba, especificamente, s\u00f3 tenho uma certeza: o fato de n\u00e3o ter praia ajuda a gente a ficar mais em casa, pensando bobagem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>JS: Antes de ser escritor voc\u00ea fez o Curso de Forma\u00e7\u00e3o de Oficiais da Pol\u00edcia Militar. Nessa \u00e9poca o desejo de escrever j\u00e1 despontava? <\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>CT:<\/strong> \u00c9, na verdade me formei oficial do Corpo de Bombeiros, que \u00e9 um ramo da Pol\u00edcia Militar do Paran\u00e1. Na \u00e9poca em que entrei, havia tamb\u00e9m passado no vestibular para Letras, o que significava que eu j\u00e1 tinha interesse em livros e leitura. Mas apenas como leitor. N\u00e3o me pensava produzindo mais seriamente, perseguindo um tal projeto est\u00e9tico (nem sei se tenho isso, mas \u00e9 bonito de falar). Tinha l\u00e1 meus poemas guardados, e s\u00f3. A ideia de escrever a s\u00e9rio veio depois das aulas com o ent\u00e3o professor e hoje grande amigo Paulo Venturelli, a quem, inclusive, dedico meu primeiro romance, o <i>Pequena biografia de desejos<\/i>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b><b>JS:\u00a0<\/b>Quais s\u00e3o as dificuldades para um escritor que publica por uma editora menor?<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>CT:\u00a0<\/strong>A resposta padr\u00e3o \u00e9: a dificuldade de distribui\u00e7\u00e3o nos principais pontos de venda do Brasil e a dificuldade de fazer o livro ser lido pela cr\u00edtica, pela imprensa, para que, falando bem ou mal, ele ganhe visibilidade e reverbera\u00e7\u00e3o. Isso aconteceu muito exemplarmente com o primeiro livro, que ficou restrito a Curitiba, com raras exce\u00e7\u00f5es. Mas \u00e9 preciso lembrar que eu era um sujeito completamente desconhecido, sem v\u00ednculo nenhum com jornalistas, outros escritores, nada disso. E os contatos com a editora, que \u00e9 de outro estado, foram estritos. Ent\u00e3o \u00e9 claro que tudo fica mais dif\u00edcil. Eu era um autor afastado j\u00e1 havia algum tempo da universidade e sem liga\u00e7\u00e3o com o meio liter\u00e1rio, nem mesmo o local.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Agora, para o segundo romance, n\u00e3o quero dizer que sou super conhecido, claro que n\u00e3o, mas j\u00e1 houve avan\u00e7os, consegui me inserir um pouco, ganhei um pr\u00eamio nacional importante. E o fato de publicar pela Editora Arte &amp; Letra tem me entusiasmado. Ela se enquadra naquilo que podemos chamar de \u201ceditora pequena\u201d pela quantidade de t\u00edtulos que publica anualmente. Mas \u00e9 ineg\u00e1vel a qualidade gr\u00e1fica, o cuidado mais personalizado com cada obra, o status cool que ela carrega. Tudo isso agrega valor. E est\u00e1 com suas obras nas principais livrarias do pa\u00eds.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>JS:\u00a0<\/b><b>Muita gente fala que a literatura em Curitiba \u00e9 autof\u00e1gica. Como voc\u00ea viu o tratamento \u00e0 sua obra depois do pr\u00eamio de literatura de Minas Gerais?\u00a0<\/b><b>Como o escritor curitibano \u00e9 visto nos outros estados?<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>CT:\u00a0<\/strong>Desde 2011, quando idealizamos a FLIM \u2013 a Festa Liter\u00e1ria do Col\u00e9gio Medianeira, onde trabalho j\u00e1 faz uns duzentos anos \u2013 e o Projeto Sujeitos Leitores \u2013 s\u00e9rie de entrevistas em v\u00eddeo com grandes leitores da cidade e de fora dela (dispon\u00edvel no Youtube) \u2013, conheci muitos escritores, a maioria local. Essa famigerada autofagia parece um bord\u00e3o de fachada, mas que, se investigado a fundo, vai perder a for\u00e7a. H\u00e1 discord\u00e2ncias, claro, n\u00e3o se trata de desejar uma panelinha de pessoas que combinam de ficar jogando confete uma na cabe\u00e7a da outra, mas sinto que h\u00e1 muito respeito tamb\u00e9m. Por ser um escritor curitibano, n\u00e3o sou obrigado a gostar particularmente das obras de todos os curitibanos ou radicados aqui. E nem todos devem gostar dos meus livros. Mas meu gosto n\u00e3o \u00e9 lei. Ent\u00e3o vou lutar para que todos tenham o direito de mostrar como pensam o mundo a partir da sua linguagem. E vice-versa. Isso eu acho que \u00e9 manter um relacionamento maduro com a quest\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Depois que ganhei o Pr\u00eamio Minas Gerais de Literatura, recebi muitos cumprimentos, ganhei umas notas em jornais, um breve perfil, vai sair trecho in\u00e9dito, tem convite para entrevista, de repente aparece uma participa\u00e7\u00e3o em evento liter\u00e1rio. Enfim, tudo tem acontecido como as coisas devem ser, sem euforia desmedida nem sil\u00eancio constrangedor. Por eu ter vencido um pr\u00eamio em Minas Gerais, a gente acaba ganhando uma visibilidade naquele estado tamb\u00e9m.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o sei se essa esp\u00e9cie \u201cautor curitibano\u201d \u00e9 vista em outros estados assim, em bloco. \u00c0s vezes, sim, com a ajuda de mat\u00e9rias como as que sa\u00edram recentemente a respeito do assunto. Mas alguns escritores t\u00eam mais penetra\u00e7\u00e3o que outros, independente de serem ou n\u00e3o curitibanos. Seja por terem uma editora com mais inser\u00e7\u00e3o, melhores relacionamentos, mais tempo de estrada, trabalho j\u00e1 estabelecido e reconhecido pela qualidade, essas coisas todas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b><b>JS:\u00a0<\/b>Voc\u00ea acredita que houve uma mudan\u00e7a no pensamento \u2013 tanto de quem \u00e9 daqui quanto de quem \u00e9 de outros estados \u2013 sobre a produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria? Comento isso por conta daquela mat\u00e9ria que saiu no O Globo.<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>CT:\u00a0<\/strong>Mudar, mudou, mas quase exclusivamente entre as pessoas que acompanham os assuntos relacionados \u00e0 produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria. Sempre produzimos grandes autores, mas agora, com a difus\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o por meio das tecnologias, parece que estamos acreditando mais nisso e tendo uma no\u00e7\u00e3o mais conjunta de tudo o que se faz e que comp\u00f5e um sistema editorial que vai sendo fortalecido: em Curitiba, temos editoras \u00f3timas, temos autores \u00f3timos, temos jornais liter\u00e1rios entre os melhores do Brasil, temos muita gente boa produzindo e publicando on-line. Tudo parece perfeito, mas tem um \u201cdetalhe\u201d: acho que ainda falta o leitor. N\u00e3o penso que o curitibano tenha que ler curitibanos por solidariedade bairrista. Mas ele deveria ter a chance de entrar em contato com quem fala do espa\u00e7o onde ele vive ou, mesmo que n\u00e3o fale da cidade, que compartilhe uma sensibilidade que foi forjada na terra onde ele vive. \u00c9 evidente que consigo pensar no meu mundo mesmo lendo Dostoi\u00e9vski, mas \u00e9 claro tamb\u00e9m que, como autores, gostar\u00edamos de ser lidos por quem forma a cidade da qual falamos direta ou indiretamente. N\u00e3o se leia por pena, leia-se para descobrir que tamb\u00e9m produzimos com qualidade. Leia-se porque ler \u00e9 melhor do que n\u00e3o ler. Esse motivo j\u00e1 basta. Por que ler? Porque sim.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A literatura curitibana tem chamado a aten\u00e7\u00e3o da imprensa local e, de forma surpreendente, tamb\u00e9m de outros eixos Brasil afora. 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