{"id":1230,"date":"2014-04-07T19:35:52","date_gmt":"2014-04-07T19:35:52","guid":{"rendered":"http:\/\/pequenabiografiadedesejos.com.br\/?p=1230"},"modified":"2023-02-19T02:47:35","modified_gmt":"2023-02-19T02:47:35","slug":"trecho-inedito-de-o-beijo-de-schiller","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cezartridapalli.com.br\/?p=1230","title":{"rendered":"Trecho in\u00e9dito de &#8220;O beijo de Schiller&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>O jornal liter\u00e1rio <em>Rascunho<\/em>, em sua edi\u00e7\u00e3o de Abril de 2014, traz longo trecho in\u00e9dito do romance &#8220;O beijo de Schiller&#8221;. O livro venceu o Pr\u00eamio Minas Gerais de Literatura em 2013, na categoria &#8220;Fic\u00e7\u00e3o&#8221;. Com previs\u00e3o de lan\u00e7amento para maio de 2014, pela Editora Arte &amp; Letra, o excerto publicado no Rascunho \u00e9 o in\u00edcio da trama protagonizada &#8211; em termos! &#8211; pelo escritor Em\u00edlio Meister, durante um sequestro do qual \u00e9 v\u00edtima. Abaixo, o fragmento publicado em primeira m\u00e3o. Caso queira ler no original, <a href=\"http:\/\/rascunho.gazetadopovo.com.br\/o-beijo-de-schiller\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">clique aqui<\/a>.<\/p>\n<p><span style=\"color: #ffffff;\">.<\/span><\/p>\n<div class=\"figure aligncenter\" style=\"width:567px;\"><a href=\"http:\/\/pequenabiografiadedesejos.com.br\/?attachment_id=1231\" rel=\"attachment wp-att-1231\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" title=\"Ilustra\u00e7\u00e3o: Theo Szczepanski\" alt=\"Ilustra\u00e7\u00e3o: Theo Szczepanski\" src=\"https:\/\/cezartridapalli.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/In\u00e9dito.jpg\" width=\"567\" height=\"604\" \/><\/a><div>Ilustra\u00e7\u00e3o: Theo Szczepanski<\/div><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h2>O beijo de Schiller<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pensar o tempo todo sobre os pr\u00f3prios pensamentos torna a vida do homem um inferno. Quando ainda queria transformar Luka em um bi\u00f3logo, precisei ler algumas coisas relacionadas ao assunto e elas foram suficientes para saber que somente dois por cento do emaranhado gen\u00e9tico haviam diferenciado o homem dos outros animais e feito dele um ser capaz n\u00e3o s\u00f3 de pensar, mas tamb\u00e9m de se pensar superior. E de pensar errado, o que n\u00e3o deixa de ser uma forma de pensamento. Isto \u00e9, de tornar sua pr\u00f3pria vida um tormento cujo fim s\u00f3 se daria na cessa\u00e7\u00e3o dos dois por cento. E esse sujeito a\u00ed atr\u00e1s? Pelo pouco que vi, parece uma crian\u00e7a, esse filho que n\u00e3o tenho, o olhar infantil na paisagem: a vegeta\u00e7\u00e3o exuberante da Serra do Mar. Falta apenas pegar seus super-her\u00f3is de pl\u00e1stico e desliz\u00e1-los contra o vidro do carro, simulando trajetos, personagens, aventuras. No entanto, em vez de super-her\u00f3is, ele traz consigo um rev\u00f3lver. Metal preto, cano curto. H\u00e1 alguns minutos, tubo encostado na minha cabe\u00e7a, um proj\u00e9til separado do meu c\u00e9rebro por poucos cent\u00edmetros, chumbo inerte prometendo calar o que perambula pelo labirinto das sinapses. Era uma ponta cinza preparada para explodir minha massa cinzenta e levar os dois ou os cem por cento da minha humanidade, feita de tristezas e alegrias ilhadas pelo mar da indiferen\u00e7a e do esquecimento. A ideia de minha morte nunca havia passado de curiosidade intelectual. Dentro dessa mesma cabe\u00e7a uma bala estava prestes a acabar com qualquer possibilidade de especula\u00e7\u00e3o, trocando o pensamento sobre a morte pela morte do pensamento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu poderia ser dram\u00e1tico e dizer que nesse momento, uma semana depois de ter sido pisoteado por minha filha, parar de pensar n\u00e3o seria uma ideia ruim. Por pior que a vida seja, por\u00e9m, eu quero ir at\u00e9 o m\u00e1ximo da experi\u00eancia. Os v\u00e1rios minutos de caminhada di\u00e1ria e alongamentos insuport\u00e1veis n\u00e3o podem ser em v\u00e3o. Precisam esticar mais do que o m\u00fasculo adutor da coxa, precisam esticar a vida. Lembro-me do amputado que se arrasta esfolado pelo cal\u00e7ad\u00e3o a implorar moedas suficientes para que possa ter for\u00e7as para se esfolar no dia seguinte atr\u00e1s de moedas suficientes para que possa ter for\u00e7as para se esfolar no dia seguinte atr\u00e1s de moedas suficientes para. Tenho esse apego canino ao osso da vida. Uma dor de cabe\u00e7a, um \u00f4nibus atrasado, um copo a menos de cerveja, um vizinho que chamasse para mais um carteado, qualquer bobagem fora do ocorrido seria suficiente para me fazer n\u00e3o nascer. \u00c9 que o roteiro se desenvolveu enquanto se desenvolvia (tenho horror \u00e0 ideia idiota de destino pr\u00e9-tra\u00e7ado) e eu nasci. Se levei essa sorte, quero ir at\u00e9 o fim, quando voltarei a ser o que era: nada. Eug\u00eania n\u00e3o vai conseguir me demover dessa ideia com malabarismos religiosos, motivo de nossas mais recentes discuss\u00f5es. Que diminu\u00edram nos \u00faltimos dias. Apenas uma pausa, sei bem, pequeno sinal de respeito pela minha dor. A conversa com minha filha, Vit\u00f3ria, abriu uma s\u00e9rie de caminhos insuspeitados para mim e reorganizou o passado de modo que a estrada vigorosa que eu vislumbrava para o futuro se mostra esburacada, pinguela fr\u00e1gil. Primeiro, ela j\u00e1 falava como adulta; depois, falava como adulta que pensa, e pensa coer\u00eancias, eu apenas abobalhado ouvindo facadas verbais t\u00e3o l\u00f3gicas que me emudeceram. Depois de longos minutos ouvindo toda a sorte de agulhas substantivas sendo enfiadas no meu ouvido, perdi o fio do racioc\u00ednio dela. Eu j\u00e1 n\u00e3o precisava entender nada. Cada nova frase, cada novo jeito de dizer, ilustrar, argumentar tinha como legenda a mesma tradu\u00e7\u00e3o: eu era um p\u00e9ssimo pai, homem abomin\u00e1vel. Estivesse ela falando em qualquer l\u00edngua, a rede do enredo, t\u00e3o bem tecida por ela, embrulhou os fios nos meus ouvidos e s\u00f3 dizia a mesma coisa: eu era um coitado. Pensei em dizer que pode haver injusti\u00e7a mesmo na coer\u00eancia. A vers\u00e3o que ela havia urdido para a nossa rela\u00e7\u00e3o era perfeita. A realidade, no entanto, podia n\u00e3o corresponder \u00e0quilo que ela construiu. Mesmo assim, calei-me. Se eu falasse, estragaria aquela l\u00f3gica de volutas barrocas com outro enredo: o meu. Portanto, cheio de empola\u00e7\u00e3o, resmungos, explica\u00e7\u00f5es que n\u00e3o avan\u00e7am, rodeiam, precisam de tempo. Seria o mesmo que fazer um personagem de desenho animado como o Gaguinho interromper padre Ant\u00f3nio Vieira para desafiar seus argumentos e sua ret\u00f3rica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Talvez eu escrevesse para ela. Seria ela t\u00e3o boa que teria formulado a narrativa da minha nulidade assim, de improviso? Era poss\u00edvel que n\u00e3o, e isso mais me do\u00eda, prova de que ela j\u00e1 ruminava tudo aquilo havia muito tempo. Uma mulher \u2014 sim, ela j\u00e1 era uma mulher, reconhe\u00e7o \u2014, quando puxa um mil\u00edmetro de fio em uma meada, n\u00e3o consegue mais parar. Um c\u00e9rebro feminino est\u00e1 sempre mergulhado em horm\u00f4nios e a apneia o entorpece. Ela puxa o fio inerte, o novelo se desenrola e ent\u00e3o vai se arquitetando a teia com a qual ela nos prende e devora, enxurrada de palavras colhidas no terreno f\u00e9rtil da sopa hormonal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vit\u00f3ria faz vinte e um anos em setembro. O menino a\u00ed atr\u00e1s pode ter a mesma idade dela \u2014 eu n\u00e3o consegui encar\u00e1-lo no momento em que nos rendia. Minha lembran\u00e7a \u00e9 fugidia, meu medo de olhar para ele \u00e9 feroz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O terror trava. No espelho interno do carro, n\u00e3o tive o sangue frio suficiente para checar minhas pupilas, tampouco detalhes do rosto desse delinquente sentado no banco de tr\u00e1s. Somente o olhar perif\u00e9rico v\u00ea \u2014 ou os anos de conhecimento permitem deduzir \u2014 Eug\u00eania a meu lado, retesada, sem dizer palavra alguma. Percebo-a tensa, o monstro do p\u00e2nico sentado no seu colo, imobilizando-a. O veloc\u00edmetro marca sessenta quil\u00f4metros por hora na estrada que liga Itapo\u00e1 a Garuva. Em outras circunst\u00e2ncias, eu estaria fazendo o mesmo trajeto a cem. Caminh\u00f5es e carros velhos fazem fila indiana atr\u00e1s de n\u00f3s, jogam luz alta, nos ultrapassam. E se a pol\u00edcia tentasse nos parar? Seria o fim do pesadelo, ainda que sem saber de que forma, se nos devolvendo para a vida ou para a morte. N\u00e3o sei ao certo como ele \u00e9, mas sua estranha amea\u00e7a (estranha na forma, n\u00e3o no conte\u00fado) de alguns minutos atr\u00e1s, desde a intrus\u00e3o, ressoa n\u00edtida: \u201cn\u00e3o tenho nada a perder, qualquer bobeada e eu estouro seus miolos\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O mundo l\u00e1 fora n\u00e3o quer saber de n\u00f3s. Exibicionista, estampa o c\u00e9u de um azul arrogante, que nos esnoba com seus contrastes, a mata verde pontuada de flores coloridas. Muitos morrem de modo tr\u00e1gico em meio a uma paisagem exuberante. Outros recebem not\u00edcias excelentes abafadas por raios e trov\u00f5es. S\u00e3o mundos sem pontos de contato, indiferentes um ao outro. A natureza desdenha dos \u00eaxtases e das dores do homem, capaz de chorar por bobagens inventadas por ele pr\u00f3prio, incluindo a\u00ed o valor de beleza atribu\u00eddo \u00e0s paisagens naturais. Nem de longe parecem a mesma natureza.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 tamb\u00e9m o artificial. Penso na nossa casa, minha, de Eug\u00eania, onde Vit\u00f3ria morou t\u00e3o pouco \u2014 come\u00e7o a entender a urg\u00eancia com que decidiu se mudar t\u00e3o logo os dezoito anos chegaram. Para essa casa \u00e9 que rumamos agora, ainda que a passos arrastados. Vejo a porta de entrada, o corredor amplo, as escadas que passam ligeiras, levam aos quartos do andar superior e me conduzem ainda para o terceiro n\u00edvel, para a porta do c\u00f4modo \u00fanico, o escrit\u00f3rio onde se aninham os livros. Sei que cada coisa est\u00e1 em seu lugar. Pap\u00e9is, l\u00e1pis, canetas, computador, dezenas de pequenos blocos de anota\u00e7\u00e3o em branco. Est\u00e3o l\u00e1, diferentes da natureza (mas t\u00e3o indiferentes quanto ela), im\u00f3veis, esperando para que algu\u00e9m fa\u00e7a algo, levante a m\u00e3o, use o polegar opositor para pin\u00e7ar um l\u00e1pis, exer\u00e7a alguma for\u00e7a de atrito para esfregar o grafite no papel branco e materializar um sentido. Se ningu\u00e9m aparecer para isso, os pap\u00e9is n\u00e3o trovejar\u00e3o, nem os l\u00e1pis azuis desenhar\u00e3o algum tipo de c\u00e9u. Quantas vezes devo ter assistido a Toy Story com Vit\u00f3ria? Aos quatro anos, ela n\u00e3o parava de se agarrar \u00e0s minhas cal\u00e7as, pendurando-se em meu cinto para que v\u00edssemos outras e tantas vezes aqueles seres inanimados que ganhavam vida longe dos olhos humanos. O olhar humano era medusa: tirava a alma dos bonecos, devolvia-lhes \u00e0 mat\u00e9ria de cuja combina\u00e7\u00e3o n\u00e3o soprava nenhuma porcentagem de vida: um amontoado de pl\u00e1sticos e tecidos imitador de formas reconhec\u00edveis. Assim \u00e9 que me perco imaginando pap\u00e9is e livros \u2014 a ideia n\u00e3o \u00e9 original, mas me distrai \u2014 ganhando vida na minha aus\u00eancia, conversando com canetas e l\u00e1pis. Mas sei, mesmo com a impossibilidade da certeza, que est\u00e3o l\u00e1 inertes, sequer submissos, o que implicaria algum tipo de inten\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o me sinto Calvin, o garoto que d\u00e1 vida ao que \u00e9 morto. Que recria em Haroldo suas outras faces, seus contradit\u00f3rios, seus paradoxos, com ele discute, por tr\u00e1s dele se esconde, culpando-o, abra\u00e7ando-o, apoiando-se nele. Calvin, o menino que n\u00e3o fui e que n\u00e3o tive.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dentro do espectro que vai de Woody e Buzz Lightyear at\u00e9 Calvin e Haroldo, forma-se um sistema de pensamento capaz de pensar a rela\u00e7\u00e3o entre o sujeito e o objeto. Eis uma boa introdu\u00e7\u00e3o para alguma palestra. Luka poderia falar sobre isso tamb\u00e9m. J\u00e1 que n\u00e3o se fez bi\u00f3logo, pode explorar esse conceito como arquiteto, nem que force a barra para especular sobre o espa\u00e7o das rela\u00e7\u00f5es e a rela\u00e7\u00e3o entre os espa\u00e7os, as coisas e os homens.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ainda preciso ver se Luka continuar\u00e1 existindo ou se meus miolos estourar\u00e3o antes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cSe est\u00e3o pensando que eu sou um demente mental, est\u00e3o enganados.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Era a voz do marginal que irrompia em meio ao som do vento e dos pneus no asfalto. Assim como \u00e0s vezes sonhamos estar sonhando, levei um susto dentro do susto maior, pano de fundo do terror que est\u00e1vamos, Eug\u00eania e eu, vivendo dentro de nosso carro. Desde a confus\u00e3o permeada por balbucios agressivos de meia hora atr\u00e1s, o sil\u00eancio havia se estabelecido. Um sil\u00eancio que permitiu devaneios inusitados, passear por Calvin e Toy Story. Tr\u00eas pessoas em sil\u00eancio dentro de um carro, uma delas armada. Tr\u00eas vozes caladas, constrangidas. Mas n\u00e3o era s\u00f3 eu quem pensava muito, misturando assuntos desconexos. Algu\u00e9m devia estar pensando a toda a velocidade para que a for\u00e7a centr\u00edfuga das palavras n\u00e3o vencesse as curvas e escapasse pela boca. Se est\u00e3o pensando que eu sou um demente mental, est\u00e3o enganados, foi o que ele disse.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><i>\u2014 Voc\u00ea quer dizer \u201cdoente mental\u201d. \u201cDemente\u201d j\u00e1 \u00e9 \u201cdoente mental\u201d. Falar \u201cdemente mental\u201d significa o mesmo que falar \u201cdoente mental mental\u201d.<\/i><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><i>\u2014 Ah, entendo: se pensarmos na equa\u00e7\u00e3o (demente) + (mental), na qual demente = doente mental, ent\u00e3o teremos (doente mental) + (mental), ou seja, \u201cdoente mental mental\u201d.<\/i><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><i>\u2014 Seu racioc\u00ednio matem\u00e1tico \u00e9 perfeito.<\/i><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><i>\u2014 Obrigado.<\/i><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Chegamos ao final da estrada de Garuva. Curitiba est\u00e1 \u00e0 direita. Fa\u00e7o a curva. Esse aviso que ele nos dera no meio de par\u00eanteses cravados no sil\u00eancio poderia ser entendido como o contr\u00e1rio do que quisera dizer? Seria ele um doente mental tentando expurgar o r\u00f3tulo? Se esse delinquente for mesmo insano, isso pode ser pior do que um sujeito apenas mau. Ou perdido. Se ao menos eu pudesse saber o que Eug\u00eania est\u00e1 pensando.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><i>\u2014 Voc\u00ea poderia nos dar um minuto? Preciso conversar a s\u00f3s com minha mulher. Voc\u00ea sabe, n\u00e3o? Coisas \u00edntimas. De casal.<\/i><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><i>\u2014 Mas claro, desculpem minha indelicadeza. Quando quiserem, parem em algum lugar. Eu des\u00e7o do carro, voc\u00eas conversam e depois me chamam.<\/i><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><i>\u2014 Quanta gentileza. N\u00e3o teme que o deixemos na estrada a comer poeira? Ou que eu engate uma r\u00e9 e lhe esmague o cr\u00e2nio?<\/i><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><i>\u2014 Ah, recuso-me a acreditar que casal de t\u00e3o fino trato incorreria em tamanha falta de dec\u00eancia. Os bons princ\u00edpios ainda prevalecem e \u00e9 por isso que tenho f\u00e9 na humanidade.<\/i><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Minha ousadia me deixa apenas girar a cabe\u00e7a um pouco para o lado, onde vislumbro Eug\u00eania, primeiro suas coxas, depois subo meus olhos at\u00e9 seus olhos, que n\u00e3o me olham. Parece uma boneca de cera. Os guardas do Madame Tussaud devem estar atr\u00e1s de mim. Apesar de retesada e im\u00f3vel, m\u00e3os crispadas no cetim da saia amassando as varizes, Eug\u00eania tem um semblante indecifr\u00e1vel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma pequena ousadia leva a outra. Em fra\u00e7\u00f5es de segundo, passeio meus olhos pelo espelho retrovisor. Vejo apenas um vulto, n\u00e3o arrisco a sustenta\u00e7\u00e3o do olhar. A setenta quil\u00f4metros por hora, mesmo as curvas da serra se aproximando, seria poss\u00edvel olh\u00e1-lo com mais vagar, desde que ele fosse um filho, um sobrinho. Mas um rapaz armado que diz n\u00e3o ter nada a perder, promete estourar nossos miolos e jura feito doente mental que n\u00e3o \u00e9 demente mental inspira cuidados, prud\u00eancias, covardias. Sou fraco para exibir coragem e tento procur\u00e1-lo sem que me veja. Minhas olhadelas veem apenas um rosto mal enquadrado no retrovisor, meia face aparecendo, outra metade sem o alcance de espelhos. Vejo sem ver, meu olhar sempre desviante. Dou mais um zap em seu rosto e torno a olhar para frente. Umas quatro ou cinco vezes repito o ritual, a esguelha tirando tinta da sua pele, o olho que busca e n\u00e3o quer encontrar a correspond\u00eancia com o outro porque teme a brutal resposta, mesmo procurando um naco de empatia. Sei, por\u00e9m, que \u00e9 preciso conhecer o inimigo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tento mir\u00e1-lo, ent\u00e3o, mais uma vez. Parece absorto, o olhar nas montanhas. Vasculho boca, desvio, vejo um nariz bem formado, volto para a estrada, express\u00e3o das sobrancelhas sem significado aparente, retorno para o caminh\u00e3o que me ultrapassa. Volto o olhar e ainda vejo seu olho perdido e agitado mirando a Serra do Mar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cOlhando o qu\u00ea? Nunca viu? Quer que eu te estoure os miolos? N\u00e3o sou demente mental, mas n\u00e3o tenho nada a perder. Qualquer bobeada, bum. Se voc\u00ea parar na pol\u00edcia, vou preso, mas voc\u00ea.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os sentidos se embaralham e se anulam. O entendimento cai por terra. Eu olhava para seu olho direito, um olho que apontava para a serra. O que fazia aquele outro, todo esquerdo, olhando direto para mim? Frio s\u00fabito na boca seca do abd\u00f4men e desorienta\u00e7\u00e3o. Ironia medonha: o olho direito era torto. O estrabismo como recurso. Encarei por pouco tempo o olho sinistro, que me via.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os olhos d\u00edspares faziam coro \u00e0 discrep\u00e2ncia que eu continuava intuindo: que palavras agressivas para essa voz suave sem proje\u00e7\u00e3o nem arestas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 recomenda\u00e7\u00f5es da pol\u00edcia: n\u00e3o argumente, n\u00e3o reaja. N\u00e3o foi por recomenda\u00e7\u00e3o alguma que me calei. N\u00e3o sabia o que dizer, como dizer, esbocei um \u201cmas\u2026\u201d que n\u00e3o saiu da garganta \u00e1spera, prevenindo-me da aus\u00eancia de palavras futuras. Se n\u00e3o sabia o que dizer depois do mas, melhor que ficasse preso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A est\u00e1tua de cera ao meu lado \u2014 as intermin\u00e1veis borrifadas de luz alta atr\u00e1s de mim seriam mesmo a guarda do Madame Tussaud? \u2014 crispou um pouco mais as m\u00e3os, erguendo a saia acetinada, brilhante e viscosa. H\u00e1 quanto tempo n\u00e3o via um peda\u00e7o daquelas pernas? L\u00e1 fora, a Serra do Mar esnobando-se toda. Ao meu lado, as veias min\u00fasculas das coxas de Eug\u00eania eram estradinhas azuis que recortavam a paisagem de carne e subiam, prenunciando a mata previs\u00edvel e h\u00e1 muito tempo intocada.\u00a0<i>Veredas e varizes<\/i>\u00a0seria bom t\u00edtulo para um livro.\u00a0<i>Grande sert\u00e3o<\/i>: varizes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os recatos de Eug\u00eania come\u00e7aram de repente. Talvez uma vingan\u00e7a pela nossa hist\u00f3ria de vida. Ou ao menos para o enredo que criei sobre a nossa hist\u00f3ria de vida. Al\u00e9m dessa hip\u00f3tese, h\u00e1 outra, complementar: andara se convertendo \u2014 ela jura que n\u00e3o \u2014 aos ritos cat\u00f3licos, com os quais aprendera, segundo ela, as mil li\u00e7\u00f5es que a religi\u00e3o tem para nos ensinar, seu apego \u00e0 vida em comunidade, seu modo de preservar rituais de passagem, seu jeito de refor\u00e7ar o valor da fam\u00edlia e da prote\u00e7\u00e3o aos mais fr\u00e1geis por meio das figuras emblem\u00e1ticas arquet\u00edpicas de um pai, um filho e uma m\u00e3e. Que essa m\u00e3e engravida mas \u00e9 virgem e cria uma pombinha branca que a fecundou depois da visita de um humanoide com asas, isso Eug\u00eania n\u00e3o me explica, n\u00e3o tem import\u00e2ncia alguma para ela, o que conta, diz, s\u00e3o os s\u00edmbolos que emergem dessa imbricada rela\u00e7\u00e3o. Ela chama de complexo o que eu chamo de del\u00edrio criado em uma \u00e9poca obscura e que, ainda hoje, \u00e9 sustentado por alguns picaretas. Voc\u00ea nem parece escritor, ela me acusa, n\u00e3o consegue abstrair nada, n\u00e3o consegue espremer essas hist\u00f3rias e ficar apenas com o sumo \u2014 ela diz o suprassumo \u2014 delas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ent\u00e3o, uma combina\u00e7\u00e3o entre sua convers\u00e3o tardia e a transfus\u00e3o de for\u00e7as que nossas vidas sofreram \u00e9 a nova vers\u00e3o que tenho para explicar seus recentes recatos, suas fugas aos m\u00ednimos toques.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eug\u00eania \u00e9 oito anos mais velha do que eu. Nos conhecemos nas muitas festas que os centros acad\u00eamicos da Universidade Federal do Paran\u00e1 organizavam no in\u00edcio da d\u00e9cada de 1980. Ela fazia sua segunda gradua\u00e7\u00e3o enquanto eu acabara de entrar na primeira \u2014 e \u00fanica. Vi na faculdade a t\u00e1bua de salva\u00e7\u00e3o para meu grande projeto de ser escritor. Era a t\u00e1bua na qual queria entalhar o meu destino. Nada al\u00e9m de dois poemas escritos me dava essa garantia. A arrog\u00e2ncia adolescente tem a vantagem de esconder de n\u00f3s mesmos as fragilidades e n\u00e3o nos faz ver \u2014 e essa cegueira nos resguarda \u2014 que provocamos no outro a temida vergonha alheia. Um poema social e outro de amor eram o meu portf\u00f3lio para entrar em uma faculdade de Letras para ser escritor. N\u00e3o para aprender, claro, j\u00e1 que um jovem de vinte anos n\u00e3o tem mais nada para aprender, mas sim para mostrar o que j\u00e1 era capaz de compor, conhecer pessoas, publicar nos pequenos jornais dos estudante at\u00e9 que algu\u00e9m passasse os olhos e descobrisse o g\u00eanio que ali se escondia. Minha inf\u00e2ncia n\u00e3o teve interesses maiores. Se Vit\u00f3ria, aos quatro anos, me pedia para ver e rever Toy Story, eu, aos quatro, ouvia meu pai contando sobre as bordoadas que dava em estudantes na Reitoria e no Polit\u00e9cnico durante o fervilhante ano de 1968. Essas hist\u00f3rias eram os meus contos de fadas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 poss\u00edvel que ele tenha batido nos pais de Eug\u00eania. Gosto de pensar nisso. Hoje menos, mas nos momentos em que t\u00ednhamos um casamento mais ativo, nas horas das grandes brigas que s\u00f3 os apaixonados s\u00e3o capazes de armar, eu adorava imaginar, cena a cena, meu pai, cassetete f\u00e1lico em punho, desferindo doses bem distribu\u00eddas de pancadas, tatuando hematomas na pele branca e ainda firme da m\u00e3e de Eug\u00eania. N\u00e3o gostar de sogras \u00e9 um atavismo que os livros de piadas se especializaram em descrever. N\u00e3o h\u00e1 novidade nisso. E quando Eug\u00eania repetia os discursos da m\u00e3e, narrando o drama de quem sofreu na pele e nos ossos a brutalidade de cavalos de toda a esp\u00e9cie, e sofreu o terrorismo psicol\u00f3gico das fichas do DOPS em Curitiba, come\u00e7\u00e1vamos intermin\u00e1veis brigas entre a minha vis\u00e3o de mundo vagabunda, de quem se encostava na fam\u00edlia dela a fim de sugar o sustento para a carreira genial, e a vis\u00e3o de mundo da fam\u00edlia dela, ex-combatente da ditadura que julga ter vencido as agruras e s\u00f3 por isso construiu sem peso na consci\u00eancia mans\u00e3o no Jardim Social com cinco carros na garagem. No in\u00edcio, Eug\u00eania me bancava, era meu escudo, minha coura\u00e7a \u00e0 prova de balas. Depois deixava passarem alguns tiros at\u00e9 que, por fim, tamb\u00e9m arriscava umas puxadas no gatilho. A tudo isso eu atribu\u00eda a m\u00e3o da m\u00e3e dela, um anel em cada dedo, irrompendo das sedas com as quais sempre se vestia. Eu tinha uma antagonista, algu\u00e9m que jamais compreenderia que o g\u00eanio precisava dormir durante o dia, pois estudava \u00e0 noite, estendia as aulas para os bares, escrevia obras-primas em guardanapo, fumava, bebia, buscava inspira\u00e7\u00e3o. Temos que usufruir o capital desses concentradores de renda que n\u00e3o produzem, eu pensava. N\u00e3o posso sustentar vagabundo, a m\u00e3e de Eug\u00eania dizia. Originalidade: zero.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" alt=\"\" src=\"http:\/\/rascunho.gazetadopovo.com.br\/wp-content\/themes\/rascunho\/style\/images\/articleend_body.png\" \/><\/p>\n<div id=\"authors_resume\" style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/rascunho.gazetadopovo.com.br\/?post_type=autor&amp;p=19300\">CEZAR TRIDAPALLI<\/a><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Nasceu em Curitiba, em 1974. Em 2011, lan\u00e7ou seu primeiro romance,\u00a0<b>Pequena biografia de desejos<\/b>\u00a0(7Letras). Em 2013, venceu o Pr\u00eamio Governo de Minas Gerais de Literatura, com o romance\u00a0<b>O beijo de Schiller<\/b>, a ser publicado pela Arte &amp; Letra em 2014.<\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O jornal liter\u00e1rio Rascunho, em sua edi\u00e7\u00e3o de Abril de 2014, traz longo trecho in\u00e9dito do romance &#8220;O beijo de [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":1231,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0},"categories":[61],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/cezartridapalli.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1230"}],"collection":[{"href":"https:\/\/cezartridapalli.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/cezartridapalli.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cezartridapalli.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cezartridapalli.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=1230"}],"version-history":[{"count":9,"href":"https:\/\/cezartridapalli.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1230\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2668,"href":"https:\/\/cezartridapalli.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1230\/revisions\/2668"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cezartridapalli.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/1231"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/cezartridapalli.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=1230"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/cezartridapalli.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=1230"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/cezartridapalli.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=1230"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}