{"id":1346,"date":"2014-06-22T11:48:12","date_gmt":"2014-06-22T11:48:12","guid":{"rendered":"http:\/\/cezartridapalli.com.br\/?p=1346"},"modified":"2023-02-19T02:46:21","modified_gmt":"2023-02-19T02:46:21","slug":"jornal-relevo-publica-trecho-de-o-beijo-de-schiller","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cezartridapalli.com.br\/?p=1346","title":{"rendered":"Jornal RelevO publica trecho de &#8220;O beijo de Schiller&#8221;"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Em sua edi\u00e7\u00e3o de junho de 2014, o Jornal RelevO publicou trecho do romance\u00a0<em>O beijo de Schiller<\/em>. Trata-se de um fragmento particularmente interessante, uma vez que, por meio dele, \u00e9 poss\u00edvel conhecer um pouco melhor a personalidade do suposto protagonista, Em\u00edlio Meister. Se o ditado diz que, quando se fala do outro, isso mostra mais a respeito de quem fala do que do alvo comentado, ent\u00e3o podemos ver Meister em a\u00e7\u00e3o. No excerto publicado, ele conversa com seu inusitado sequestrador sobre a pr\u00f3pria mulher, Eug\u00eania.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Confira a edi\u00e7\u00e3o de junho do Jornal Relevo <a href=\"http:\/\/issuu.com\/jornalrelevo\/docs\/relevo_junho_de_2014\/1?e=2234477\/8259629\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">clicando aqui<\/a>. O fragmento referido se encontra na p\u00e1gina 16 do jornal, mas pode ser lido abaixo tamb\u00e9m.<\/p>\n<div class=\"figure aligncenter\" style=\"width:584px;\"><a href=\"https:\/\/cezartridapalli.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/Relevo_junho_2014.jpg\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" title=\"Capa da edi\u00e7\u00e3o de junho\/2014 do Jornal RelevO.\" alt=\"Capa da edi\u00e7\u00e3o de junho\/2014 do Jornal RelevO.\" src=\"https:\/\/cezartridapalli.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/Relevo_junho_2014.jpg\" width=\"584\" height=\"675\" \/><\/a><div>Capa da edi\u00e7\u00e3o de junho\/2014 do Jornal RelevO.<\/div><\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Trecho do romance\u00a0<\/em>O beijo de Schiller<em>, editora Arte&amp;Letra, 2014, vencedor do Pr\u00eamio Governo de Mionas Gerais 2013:<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cEla tem certo receio de caminhar aqui na Schiller, embora jamais v\u00e1 admitir isso. Antes dessa pesquisa que ela insiste em chamar de estudo sobre o comportamento coletivo e o grau de coes\u00e3o social das pessoas que assistem a missas, ela fez um trabalho aqui, arregimentando alunos entusiasmados, um trabalho pr\u00e1tico-te\u00f3rico que estudou e estabeleceu estrat\u00e9gias de integra\u00e7\u00e3o entre os idosos que jogam bocha e damas e os jovens que deslizam em seus skates na pista cerca de cem metros mais adiante, aquela com a caveira de asas que voc\u00ea achou engra\u00e7ada. Ela insiste em dizer que a Sociologia precisa se traduzir, a partir da pesquisa, em estrat\u00e9gias pr\u00e1ticas. Por isso reuniu um grupo de estudos da universidade, prop\u00f4s uma extens\u00e3o que ligasse \u2014 a express\u00e3o era dela \u2014 o jovem potente e o idoso poente, a juventude que corre riscos e a velhice que tem na serenidade, na bocha e nas damas, um ponto de descanso para o descanso final. Ela queria estudar a rela\u00e7\u00e3o entre o espa\u00e7o e o corpo domesticado, aproveitando a forma\u00e7\u00e3o em arquitetura para trabalhar sociologia, Foucault como guru. Quis experimentar ainda a supera\u00e7\u00e3o de suas categorias de corpo obediente, condicionado a fazer as escolhas que n\u00e3o fez, mas que algu\u00e9m fez por ele. Engra\u00e7ado, sou capaz de ouvir a voz dela falando isso, como se estivesse ao nosso lado. Ela achava que conseguiria a minha simpatia s\u00e9ria se temperasse o trabalho com excertos liter\u00e1rios. Em Dom Casmurro, de Machado de Assis, o protagonista come\u00e7a contando a hist\u00f3ria dele. J\u00e1 est\u00e1 velho e promete, a frase \u00e9 c\u00e9lebre, atar as duas pontas da vida e restaurar na velhice a adolesc\u00eancia. Eug\u00eania misturou Foucault e Machado, dizendo que a Schiller era a rua que conseguia atar as duas pontas da vida, unir extremos, come\u00e7ava com velhos jogando bocha e caminhava at\u00e9 a pista de skate. Isso porque n\u00e3o quis ir mais fundo, j\u00e1 que a rua ainda traz escorregadores e suporia ainda a restaura\u00e7\u00e3o da velhice na inf\u00e2ncia. Ela quis ser fiel \u00e0 ep\u00edgrafe do trabalho, que era a frase do Machado. A pesquisa ent\u00e3o consistiu em estudos preliminares sobre integra\u00e7\u00e3o entre jovens e adolescentes, caracter\u00edsticas da juventude, seus guetos e comportamentos, e, de outro lado, tentava entender a nova tend\u00eancia de valoriza\u00e7\u00e3o da chamada terceira idade, aprender a conviver com essa faixa que estendia sua expectativa de vida e ganhava grande aten\u00e7\u00e3o do mercado, que via ali mais consumidores. A partir desse sobrevoo gen\u00e9rico, alunos foram a campo tentar compreender aquela realidade espec\u00edfica, de jovens e velhos que frequentavam a rua Schiller, no que se enquadravam e no que fugiam \u00e0quilo que a teoria prescrevia. Um estudo a priori seguido de uma descri\u00e7\u00e3o a posteriori, checagem de dados, conclus\u00f5es. Para celebrar a finaliza\u00e7\u00e3o do estudo, Eug\u00eania organizou, em um domingo ensolarado, feito e perfeito para a rua Schiller, uma grande festa de integra\u00e7\u00e3o. Estudados em suas partes, era a hora de colocar jovens e idosos para conviverem, trocar experi\u00eancias, arriscarem a desobedi\u00eancia salutar do corpo, desinstal\u00e1-los de suas zonas de conforto, de suas baias habituais para conhecer o novo, desestabiliza\u00e7\u00e3o que gera movimento, que obriga a caminhar (ela queria usar como abertura de cap\u00edtulo a imagem da terceira perna que paralisa, de Clarice Lispector em A paix\u00e3o segundo G.H., e eu s\u00f3 lembro de ter dito Eug\u00eania, fa\u00e7a-me o favor). O domingo estava mesmo deslumbrante. Organizaram oficinas de bocha e damas para os jovens, ousaram incentivar os velhos a subirem na prancha do skate. O comportamento ressabiado de ambos os grupos era visto por Eug\u00eania como comprova\u00e7\u00e3o das hip\u00f3teses que levantara no trabalho, mostrava a dificuldade que temos de nos jogarmos no desconhecido, de ampliarmos a experi\u00eancia sens\u00f3ria e intelectual, corpo e mente indissoci\u00e1veis. Nisso, mesmo os jovens, sempre vistos como ousados, tamb\u00e9m eram conservadores. Cada um a sua maneira, os dois grupos mostravam desd\u00e9m pela atividade do outro. Era isso que mudaria ao final do dia, ao final daquela viv\u00eancia que prometia ser a cereja do bolo de um trabalho t\u00e3o intenso e bonito. Mesmo minha crueldade competitiva n\u00e3o foi capaz de escarnecer: o que se viu foram meninos atirando uns nos outros aquelas pesadas bolas de bocha, entre gargalhadas em falsete. As poucas tentativas de jogar a s\u00e9rio eram logo seguidas de mais brincadeiras, desapego \u00e0s regras, um querendo acertar a bola do outro com for\u00e7a, esquecendo o objetivo do jogo. No jogo de damas, nenhuma partida terminou. Os meninos riam para uma menina e s\u00f3 falavam em comer dama, brincadeira er\u00f3tica de quem estava come\u00e7ando a se aquecer com o assunto, e gritavam uns aos outros, comi tua dama, te comi, e j\u00e1 entrou insinua\u00e7\u00e3o e trocadilho for\u00e7ado entre dama e m\u00e3e e comi tua m\u00e3e e seu filho da puta e tal. O saldo foi um tornozelo atingido por uma bola de bocha, v\u00e1rios buracos fundos na cancha, pe\u00e7as de dama espalhadas pelo ch\u00e3o, juntadas com paci\u00eancia e vagar pelos alunos de Eug\u00eania, que n\u00e3o sabiam o que fazer. Na pista de skate, quase houve um acidente grave com o velhinho que caiu ao ser for\u00e7ado (Eug\u00eania disse \u2018encorajado\u2019) a fazer umas manobras. Como algu\u00e9m que em filme de com\u00e9dia escorrega em uma casca de banana. Surgiram boatos na hora sobre ele ter ou n\u00e3o ter osteoporose, quiseram chamar ambul\u00e2ncia, deix\u00e1-lo deitado sem mexer a coluna cervical enquanto ele esperneava dizendo que o deixassem levantar e ir embora em paz. O dia acabou com um sol que deixou amarelas todas as multicores do lugar. N\u00e3o existisse a humanidade e o dia estaria perfeito. Esse dia bonito, no entanto, terminou com gargalhadas de jovens irreverentes e arrogantes, e irrita\u00e7\u00e3o dos velhos que s\u00f3 queriam, pelo amor de Deus, ficar quietos em seus cantos. Depois de um tempo que julguei seguro, quando avaliei que o peso da decep\u00e7\u00e3o j\u00e1 havia passado, disse a Eug\u00eania que ela deveria modificar o t\u00edtulo do trabalho para algo do tipo a import\u00e2ncia da desintegra\u00e7\u00e3o social e do apartheid entre velhos e jovens. Avaliei mal, o peso ainda estava l\u00e1, ela me mandou \u00e0 merda e tomar no cu, vai se foder, seu animal. Cinco segundos depois ainda repetiu: seu animal. Disse que retomaria o projeto, com outra metodologia. Os velhinhos que n\u00e3o a ouvissem, pensei. Talvez por isso \u00e9 que n\u00e3o goste de caminhar por aqui. Nunca mais tocou no assunto e agora est\u00e1 l\u00e1, beatinha, pesquisando o quanto as pessoas que v\u00e3o \u00e0 missa configuram uma mundivid\u00eancia comum capaz de faz\u00ea-las agir tamb\u00e9m em comum, justificando o uso do termo comunidade. Afinal, congrega\u00e7\u00e3o, comunidade, igreja, ecclesia s\u00e3o todas palavras do mesmo saco, me disse ela, usando outros termos, claro, e significam coes\u00e3o, reuni\u00e3o em prol de algo comum. Se a f\u00e9 se mede em obras \u2014 e o que o cu tem a ver com as cal\u00e7as, eu me pergunto \u2014, que obras as pessoas unidas pela f\u00e9 promovem em conjunto? Enfim, \u00e9 isso que ela est\u00e1 pesquisando. Estudos ultra-profundos e cheios de ep\u00edgrafes e mais Foucault para provar que cavalo tem chifre, pois qualquer um sabe que uma missa \u00e9 um neg\u00f3cio formal no qual as pessoas v\u00e3o para ficar olhando o rel\u00f3gio, por medo do inferno, por uma conven\u00e7\u00e3o ainda n\u00e3o questionada, por um h\u00e1bito de inf\u00e2ncia, ou para olhar a bunda das mulheres na fila da comunh\u00e3o. Isso eu n\u00e3o posso falar para Eug\u00eania, ela esmagaria a sobrancelha no teto e comeria meu f\u00edgado, mas eu digo a voc\u00ea: n\u00e3o h\u00e1 coes\u00e3o social alguma em quem vai \u00e0 missa. H\u00e1 gentes de todo o tipo, patr\u00e3o que explora empregado, empregado que xinga e desvia da empresa, pessoas de bem que seriam boas sem ir \u00e0 missa, pessoas m\u00e1s que acham que gastar uma hora \u00e9 a garantia da purga\u00e7\u00e3o dos pecados, e saem novinhas em folha para continuar na lama das diversas sacanagens. Gente que tem medo de que Deus puna a curiosidade de querer ir al\u00e9m, de comer ma\u00e7\u00e3s proibidas e mulheres e homens, ou medo de que Ele provoque um dil\u00favio na sua cabe\u00e7a, que mate animais afogados, que n\u00e3o tiveram culpa alguma das a\u00e7\u00f5es humanas, jogue gafanhotos na sua planta\u00e7\u00e3o, que pe\u00e7a para matar um filho, que provoque a inveja entre irm\u00e3os a ponto de um matar o outro. Uma propalada perfei\u00e7\u00e3o que precisou de rascunho, viu que a coisa tinha sa\u00eddo errada, inundou o planeta durante quarenta noites e dias \u2014 e precisava? N\u00e3o bastaria um estalar de dedos para todos sumirem? \u2014 para come\u00e7ar de novo, mas come\u00e7ar da mesma forma porque tudo deu errado outra vez. Errar \u00e9 humano, mas persistir no erro \u00e9 divino? Outros t\u00eam certeza de que Deus \u00e9 amor, que Ele perdoa os nossos pecados, que \u00e9 miseric\u00f3rdia sem fim e adora as criancinhas mesmo tendo Jos\u00e9 dado o p\u00e9ssimo exemplo de fugir com Jesus sem avisar as outras m\u00e3es e pais que Herodes iria provocar uma carnificina. Alguns acham que a desgra\u00e7a humana \u00e9 uma prova\u00e7\u00e3o divina e que a v\u00edtima precisa se fortalecer e enfrentar a prova\u00e7\u00e3o. Outros acham que Deus \u00e9 t\u00e3o bom que \u00e9 capaz de lhes dar um carro, uma casa e um gol do time favorito na final do campeonato. Deus d\u00e1 presente e lan\u00e7a todo tipo de praga, ama as criancinhas e pede a Abra\u00e3o para matar o pr\u00f3prio filho. Um caso de fenomenal bipolaridade. E Eug\u00eania j\u00e1 andou me sondando para ver o que eu achava de ela usar outro trecho do Machado de Assis, agora do conto \u2018A igreja do diabo\u2019, na ep\u00edgrafe desse novo trabalho, que ela est\u00e1 fazendo quase sozinha, dando tarefas pouco importantes aos alunos que, segundo ela agora diz, s\u00f3 atrapalham. Ela quer, enfim, provar o grau de coes\u00e3o social de quem vai \u00e0 missa, coes\u00e3o refletida na pr\u00e1tica das boas a\u00e7\u00f5es. Ela vai passar n\u00e3o sei quanto tempo estudando isso. Era s\u00f3 me perguntar o grau de coes\u00e3o que eu responderia a ela em um segundo: nenhum. Ela me mandaria para a puta que me pariu, diria que eu era raso, seria capaz de maldizer minha literatura feita de carne podre para os abutres sadomasoquistas que eram meus leitores. Isso ela j\u00e1 me disse uma vez. S\u00f3 sei que, da crueldade profunda at\u00e9 a bondade mais inimagin\u00e1vel, a humanidade \u00e9 capaz de ir aos extremos. Tudo comporta Deus. Ent\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil de acreditar: Deus \u00e9 qualquer coisa.\u201d<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em sua edi\u00e7\u00e3o de junho de 2014, o Jornal RelevO publicou trecho do romance\u00a0O beijo de Schiller. 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