{"id":1430,"date":"2014-08-21T18:25:57","date_gmt":"2014-08-21T18:25:57","guid":{"rendered":"http:\/\/cezartridapalli.com.br\/?p=1430"},"modified":"2023-02-19T02:45:16","modified_gmt":"2023-02-19T02:45:16","slug":"entrevista-exclusiva-com-cezar-tridapalli","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cezartridapalli.com.br\/?p=1430","title":{"rendered":"Entrevista exclusiva com Cezar Tridapalli"},"content":{"rendered":"<p>O Portal Paran\u00e1 Online publicou entrevista na qual falo de v\u00e1rias inst\u00e2ncias da produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria. Falo sobre os livros que escrevi, minhas influ\u00eancias, repercuss\u00e3o dos livros, projetos futuros e, num contexto mais geral, sobre o papel da cidade na vida do escritor e do escritor para a vida da cidade. A entrevista, feita pelo rep\u00f3rter Jonatan Silva, aponta\u00a0<em>O beijo de Schiller<\/em> como um dos melhores livros do ano. Abaixo, a entrevista na \u00edntegra. Para ler na p\u00e1gina do Portal Paran\u00e1 Online, <a href=\"http:\/\/www.parana-online.com.br\/colunistas\/contracapa\/104643\/ENTREVISTA+EXCLUSIVA+COM+O+ESCRITOR+CEZAR+TRIDAPALLI\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">clique aqui<\/a>.<\/p>\n<p>&#8212;<\/p>\n<p><em><strong>Por Jonatan Silva<\/strong><\/em><\/p>\n<div class=\"figure alignleft\" style=\"width:362px;\"><a href=\"https:\/\/cezartridapalli.com.br\/wp-content\/uploads\/2011\/04\/DUO_9938.jpg\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\" \" title=\"Divulga\u00e7\u00e3o\/Paulo Henrique Camargo\" alt=\"Divulga\u00e7\u00e3o\/Paulo Henrique Camargo\" src=\"https:\/\/cezartridapalli.com.br\/wp-content\/uploads\/2011\/04\/DUO_9938.jpg\" width=\"362\" height=\"544\" \/><\/a><div>Divulga\u00e7\u00e3o\/Paulo Henrique Camargo<\/div><\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Cezar Tridapalli n\u00e3o \u00e9 nenhum novato na literatura: seu primeiro livro,\u00a0<\/em>Pequena biografia de desejos<em>, foi lan\u00e7ado em 2011. Em 2014, o curitibano publicou\u00a0<\/em>O beijo de Schiller<em>, romance que ganhou o Pr\u00eamio Minas Gerais de Literatura.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Em entrevista exclusiva, Cezar Tridapalli comenta os planos liter\u00e1rios para o futuro e fala sobre a repercuss\u00e3o de\u00a0<\/em>O beijo de Schiller<em>, considerado um dos melhores livros do ano.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>Qual a principal diferen<\/b><b>\u00e7<\/b><b>a entre o autor de <i>Pequena Biografia de Desejos<\/i> e o de <i>O Beijo de Schiller<\/i>?<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O <i>Pequena biografia de desejos<\/i> teve uma hist\u00f3ria de abandono, comecei-o e parei por tr\u00eas ou quatro anos. Depois, a retomada, o conv\u00edvio com as incongru\u00eancias causadas pelo distanciamento. E s\u00f3 mais para o final \u00e9 que eu fui elaborar um mapa para eu me achar e n\u00e3o cometer nenhum deslize l\u00f3gico, nenhuma derrapada na tal verossimilhan\u00e7a, al\u00e9m de tentar ter maior no\u00e7\u00e3o do todo. N\u00e3o vejo isso como defeito, gostei do resultado e sei que h\u00e1 leitores que preferir\u00e3o o primeiro romance ao segundo. Normal, e que bom. Para <i>O beijo de Schiller<\/i>, eu constru\u00ed o mapa antes do territ\u00f3rio narrativo propriamente dito. Eu j\u00e1 sabia de onde partiria e tinha muita no\u00e7\u00e3o para onde a coisa deveria ir, embora algumas solu\u00e7\u00f5es decisivas tenham surgido no meio do caminho, incluindo o t\u00edtulo e as partes que o justificam. Mas o planejamento me deu tranquilidade. Mesmo nos dias em que nenhuma grande ideia aparecia, eu tinha o projeto que me mandava fazer a hist\u00f3ria andar. Depois de duas ou tr\u00eas frases escritas na tela, os dedos no teclado s\u00e3o a maior fonte de inspira\u00e7\u00e3o que conhe\u00e7o. Para o mapa que eu elaborei \u00e9 a mesma coisa, mas a\u00ed \u00e9 a m\u00e3o no l\u00e1pis e uma grande cartolina branca na minha frente, com a qual me divirto escrevendo tudo em letras pequenas at\u00e9 ver o grande papel preenchido. De minha parte, acho que a grande mudan\u00e7a \u00e9 esta, a do m\u00e9todo de organizar a estrutura do romance. N\u00e3o digo que um ou outro jeito melhora a qualidade do resultado. Melhora s\u00f3 o jeito de eu me localizar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para citar uma outra diferen\u00e7a, agora entre os livros, acredito que temos em <i>Pequena biografia de desejos<\/i> um personagem mais capaz de nos cativar e provocar empatia. Todos torcemos para o protagonista, o Desid\u00e9rio Santos dos Santos. J\u00e1 em <i>O beijo de Schiller<\/i>, podemos nos divertir com Em\u00edlio, mas podemos a um s\u00f3 tempo ach\u00e1-lo um babaca. Aprendemos com ele, mas o xingamos tamb\u00e9m e h\u00e1 mais contrapontos vindos dos outros personagens. Creio que as coisas estejam mais difusas, as fronteiras mais borradas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>O <i>Beijo de Schiller<\/i> dialoga com autores importantes da literatura contempor<\/b><b>\u00e2<\/b><b>nea <\/b><b>\u2013<\/b><b> como Ian McEwan, Don DeLillo, Jonathan Franzen e Philip Roth <\/b><b>\u2013<\/b><b>, combina um qu<\/b><b>\u00ea<\/b><b> de mist<\/b><b>\u00e9<\/b><b>rio, filosofia e sociologia\/antropologia. Como surgiu a ideia de escrever o livro?<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fico feliz por ser identificado com estes autores. O Franzen \u00e9 o que menos conhe\u00e7o, nunca li sua fic\u00e7\u00e3o, apenas alguns tantos ensaios que, diga-se de passagem, achei muito bons. Eu, como j\u00e1 disse um pouco, me organizei mais para escrever o segundo livro, me cerquei de mais elementos, rascunhei tudo antes numa cartolina enorme e, com letra pequena e a l\u00e1pis, escrevi toda a hist\u00f3ria do romance. Hoje adoro olhar para o grafismo daquela cartolina. Uma vez ouvi em Curitiba o escritor angolano Jos\u00e9 Eduardo Agualusa falar que s\u00f3 escrevia para poder saber o que iria acontecer no final. Achei \u00f3timo, divertido e tudo, mas n\u00e3o consegui agir assim no segundo livro. Quando n\u00e3o estou escrevendo, tenho meu bloco de notas sempre \u00e0 m\u00e3o, que \u00e9 o meu telefone celular. N\u00e3o fico obcecado em busca de elementos liter\u00e1rios. Mas, aos poucos, eles v\u00e3o surgindo, e eu os anoto sem nenhum m\u00e9todo ou ordem, vou anotando aleatoriamente. O ac\u00famulo dessas anota\u00e7\u00f5es esparsas vai criando um corpo, v\u00e3o surgindo liga\u00e7\u00f5es entre elas, personagens, enredos. A partir da\u00ed, as anota\u00e7\u00f5es deixam de ser aleat\u00f3rias e passam a ser mais focadas naquilo que entrevejo da hist\u00f3ria. O enredo de <i>O beijo de Schiller<\/i> teve um momento decisivo, quando a hist\u00f3ria come\u00e7ou a vir. Eu estava no Rio de Janeiro, acompanhando meu pai, que tiraria o visto para os EUA. Como n\u00e3o pude entrar na embaixada, fiquei do lado de fora, lendo uma revista que trazia um ensaio do escritor turco Orhan Pamuk, que por sua vez falava da obra <i>Poesia ing<\/i><i>\u00ea<\/i><i>nua e sentimental<\/i>, de Friedrich Schiller (1759-1805). Em Curitiba, moro perto da Rua Schiller, que \u00e9 uma rua bel\u00edssima, diferente, muito arborizada, um verdadeiro parque linear, com cancha de bocha, pista de skate, academia ao ar livre, quadras esportivas, playground etc. E o Schiller, o alem\u00e3o, falava sobre como podemos dividir as pessoas entre aquelas que t\u00eam uma postura mais ing\u00eanua e inocente diante da vida e aquelas mais maliciosas, que percebem a vida de um jeito mais artificioso, como se jogassem. A\u00ed criei um protagonista que mora na Rua Schiller e vive seus dilemas na hora de tentar decifrar a si mesmo e a outros personagens, sobretudo o menino, que, sabemos desde a primeira p\u00e1gina, \u00e9 seu sequestrador. Eu tamb\u00e9m gosto muito do humor deste livro, embora nem de longe possamos consider\u00e1-lo uma com\u00e9dia. Espero que ele provoque um riso sentido, que, no fundo, ri da trag\u00e9dia dessa tal de condi\u00e7\u00e3o humana, t\u00e3o falada e t\u00e3o pouco compreendida. N\u00e3o tento compreend\u00ea-la, mas cutucar alguns de seus enigmas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>Como foi a experi<\/b><b>\u00ea<\/b><b>ncia da repercuss<\/b><b>\u00e3<\/b><b>o de <i>O Beijo de Schiller<\/i>?<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu espero sinceramente que a repercuss\u00e3o esteja apenas come\u00e7ando. Em Curitiba, a t\u00e3o famigerada autofagia n\u00e3o deu as caras, pois \u00e9 onde o livro melhor circula, com mat\u00e9rias nos principais jornais do estado, esta entrevista, participa\u00e7\u00e3o no Litercultura, grava\u00e7\u00e3o de entrevista para TV, entrevista ao vivo em r\u00e1dio etc. Mas eu ainda espero ser lido por outros centros. N\u00e3o se trata de pedir a b\u00ean\u00e7\u00e3o dos eixos maiores e mais representativos, mas justamente de colocar a obra \u00e0 prova de outros contextos e leitores. Quero saber se o romance tem algo a dizer fora do cen\u00e1rio curitibano. Vencer o Pr\u00eamio Minas Gerais de Literatura deu uma medida dessa possibilidade, vamos ver se <i>O beijo<\/i> se espalha e tem condi\u00e7\u00f5es de ser distribu\u00eddo, lido e reverberar em outras plagas. Outro ponto muito relevante \u2013 mais que qualquer outro \u2013 tem sido a receptividade dos leitores, que est\u00e1 sendo muito positiva. L\u00e1 no site (www.cezartridapalli.com.br) tenho colocado as impress\u00f5es de todos os que me escrevem, que tiram um pouco do seu tempo para trocar impress\u00f5es e an\u00e1lises. \u00c9 isso que eu gostaria de ver amplificado. Se escrevemos \u00e9 porque achamos que temos algo a dizer e compartilhamos com o leitor algumas inquieta\u00e7\u00f5es comuns, capazes de tocar em pontos tamb\u00e9m sens\u00edveis a ele. Ent\u00e3o \u00e9 claro que queremos ser lidos, migrar para dentro da cabe\u00e7a das pessoas ou, melhor, alugar por um tempo a cabe\u00e7a das pessoas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>Recentemente voc<\/b><b>\u00ea<\/b><b> foi <\/b><b>\u00e0<\/b><b> Holanda em busca de ideias para seu novo romance. Por que a escolha de uma cen<\/b><b>\u00e1<\/b><b>rio estrangeiro?<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As ideias eu j\u00e1 tinha e a Holanda, por causa de uma s\u00e9rie de fatores, estava nelas. Fui para a Holanda porque o romance deve falar do ser estrangeiro, o olhar de um brasileiro fora do pa\u00eds e vice-versa. Vou investigar os tipos de imigra\u00e7\u00e3o de que os personagens podem lan\u00e7ar m\u00e3o para ver se conseguem fugir de si mesmos, ou ao menos da vers\u00e3o que constru\u00edram de si mesmos. \u00c9 a tentativa de migrar para outro eu. Terras estrangeiras aparecem de leve nos meus dois primeiros romances (Roma, em <i>Pequena biografia de desejos<\/i>, Berlim e Orl\u00e9ans, na Fran\u00e7a, em <i>O beijo de Schiller<\/i>). No pr\u00f3ximo, Curitiba continuar\u00e1 a ser importante, dessa vez olhada ainda mais em perspectiva, em contraponto com uma cidade europeia, que \u00e9 Utrecht, na Holanda.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>Ainda nesse assunto, voc<\/b><b>\u00ea<\/b><b> acredita que o &#8220;escritor curitibano&#8221;, um ser tratado como uma esp<\/b><b>\u00e9<\/b><b>cie local, precisa necessariamente buscar suas refer<\/b><b>\u00ea<\/b><b>ncias somente no ambiente comum e autorreferente da cidade?<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mesmo que \u00e0s vezes eu escreva cenas que beiram o absurdo, todo o absurdo cabe na realidade, n\u00e3o se trata de literatura fant\u00e1stica, embora eu goste de l\u00ea-la em certos momentos. Meus dois romances t\u00eam um registro realista. Eu invento hist\u00f3rias, cenas, situa\u00e7\u00f5es, mas n\u00e3o o cen\u00e1rio. Tudo se passa em cen\u00e1rios reais, ruas reais, paisagens. E, mesmo j\u00e1 tendo viajado muito, nasci, cresci e vivi desde sempre em Curitiba, que \u00e9 minha \u00e2ncora. Ela me d\u00e1 lastro e me afunda. \u00c9 o espa\u00e7o do planeta que eu mais conhe\u00e7o, e \u00e9 inescap\u00e1vel falar disso. Quando comecei a entender melhor os movimentos liter\u00e1rios e art\u00edsticos, e junto estavam as aulas de Literatura Brasileira que eu dava, percebia que Curitiba n\u00e3o aparecia no mapa liter\u00e1rio do pa\u00eds. Comecei tamb\u00e9m a entrar em contato com o discurso da autofagia curitibana. Fiquei cabreiro. Afinal, por que nossa m\u00fasica n\u00e3o toca nas r\u00e1dios, nossos escritores, com honrosas exce\u00e7\u00f5es, n\u00e3o fazem parte do c\u00e2none? Nosso cinema, nossa dan\u00e7a etc. Mas essa impress\u00e3o ruim foi diminuindo. Quando eu lancei o primeiro livro, eu era um completo desconhecido, sem liga\u00e7\u00e3o com a academia nem com o meio jornal\u00edstico. Logo em seguida, vi o romance transitar bem pela cidade, conheci outros escritores e vi que o movimento era muito bom, diverso, que mostrava a cara em v\u00e1rias frentes. Nasci em um bairro um pouco mais afastado, hoje moro perto do Centro, ou seja, tenho uma forma\u00e7\u00e3o inicial ligada ao futebol de rua, \u00e0 escola p\u00fablica, a subir em \u00e1rvores e viver de joelhos ralados. Depois, com a mudan\u00e7a, o asfalto por todos os lados, sair de casa sempre cal\u00e7ado, com uma roupa mais ou menos, todos esses contrastes ajudam a formar um jeito de conhecer a cidade. Esse p\u00eandulo entre o centro e o bairro afastado aparece de forma muito evidente em <i>Pequena biografia de desejos<\/i>. Curitiba est\u00e1 grudada na minha pele. Mesmo se um dia eu n\u00e3o us\u00e1-la como cen\u00e1rio, ela vai fazer parte de uma maneira de enxergar as coisas. Alguns dizem que isso \u00e9 provincianismo, eu n\u00e3o acho. Ou ent\u00e3o tudo \u00e9.<\/p>\n<div class=\"figure alignright\" style=\"width:307px;\"><a href=\"https:\/\/cezartridapalli.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/05\/Capa.jpg\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" title=\"A capa de &quot;O beijo de Schiller&quot;\" alt=\"A capa de &quot;O beijo de Schiller&quot;\" src=\"https:\/\/cezartridapalli.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/05\/Capa.jpg\" width=\"307\" height=\"461\" \/><\/a><div>A capa de &#8220;O beijo de Schiller&#8221;<\/div><\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>E por falar em &#8220;cen<\/b><b>\u00e1<\/b><b>rio local&#8221;, como voc<\/b><b>\u00ea<\/b><b> v<\/b><b>\u00ea<\/b><b> a cena liter<\/b><b>\u00e1<\/b><b>ria atual? As livrarias apoiam o autor local?<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 muitas cenas. Ou uma cena com muitas frentes. Publica\u00e7\u00f5es liter\u00e1rias s\u00e3o uma tradi\u00e7\u00e3o antiga na cidade. Todos os requisitos para a cria\u00e7\u00e3o de um sistema liter\u00e1rio propriamente dito existem em Curitiba: temos revistas e jornais de literatura entre os mais importantes do pa\u00eds, temos editoras, temos escritores, temos livrarias. Por mais incr\u00edvel e contradit\u00f3rio que pare\u00e7a, acho que n\u00e3o temos leitores. N\u00e3o defendo o bairrismo, achando que curitibanos <i>precisam<\/i> ler curitibanos, mas acho que poderiam ao menos conhec\u00ea-los. Os pr\u00f3prios materiais did\u00e1ticos refor\u00e7am a tese de que s\u00f3 existe literatura antiga e feita em outros lugares. A lista de livros dos muitos vestibulares tamb\u00e9m endossa essa sensa\u00e7\u00e3o. Se a literatura contempor\u00e2nea \u00e9 uma forma de dialogar com a tradi\u00e7\u00e3o e pensar o tempo em que ela foi escrita, de jogar algumas luzes sobre o seu presente, ela merecia ganhar um pouco mais desses espa\u00e7os institucionalizados. E ainda existe a lenda (ou o fato?) de que, para ser reconhecido em Curitiba, voc\u00ea precisa antes passar pelo crivo do Rio e de S\u00e3o Paulo. Temos romancistas, poetas, contistas e cronistas de uma qualidade grandiosa. N\u00e3o \u00e0 toa, est\u00e3o indicados para os principais pr\u00eamios liter\u00e1rios do pa\u00eds. E, como disse, \u00e9 uma cena com muitas frentes, pois a indica\u00e7\u00e3o para pr\u00eamios passa longe de muitos autores curitibanos, n\u00e3o por falta de qualidade, mas porque procuram se infiltrar em outras searas, fazendo edi\u00e7\u00f5es artesanais, autopublica\u00e7\u00f5es, trabalhando nas escolas, publicando pelos blogs e redes sociais. Gente boa mesmo, n\u00e3o estou fazendo m\u00e9dia. E temos, por fim, os nossos c\u00e2nones, que pularam os muros da cidade e est\u00e3o no Brasil todo e em muitas partes do mundo. Quanto \u00e0s livrarias, eu acho isso um problema mesmo, embora seja ruim falar sem conhecer melhor. Mas, s\u00f3 para ter uma ideia, <i>O beijo de Schiller<\/i>, um romance premiado, que saiu com mat\u00e9ria nos principais ve\u00edculos de comunica\u00e7\u00e3o de Curitiba, n\u00e3o est\u00e1 sendo vendido na maior rede de livrarias da cidade. Tentei contato pessoal duas vezes, mas n\u00e3o consegui at\u00e9 agora entender por que o livro n\u00e3o \u00e9 vendido l\u00e1. Meu editor tamb\u00e9m diz que n\u00e3o entende.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>Qual o papel do escritor na constru<\/b><b>\u00e7\u00e3<\/b><b>o dessa cena local?<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mais do que fazer um favor para a cidade, de in\u00edcio a cidade \u00e9 que d\u00e1 material para o autor escrever. No longo prazo talvez a coisa se inverta, ou ao menos se equilibre, caso a obra n\u00e3o morra, n\u00e3o seja esquecida. No dia a dia, estamos fazendo a cidade discutindo seu planejamento urbano, sua mobilidade, sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o e seguran\u00e7a, leis de incentivo etc, mas existe uma discuss\u00e3o da cidade que \u00e9 de outra ordem, ou de outro caos. Tem uma frase \u00f3tima no in\u00edcio de <i>As cidades invis<\/i><i>\u00ed<\/i><i>veis<\/i>, do Italo Calvino, que diz o seguinte: \u201cA cidade se embebe como uma esponja dessa onda que reflui das recorda\u00e7\u00f5es e se dilata\u201d. Essa onda que reflui, reflui das recorda\u00e7\u00f5es e da linguagem\/discurso que se construiu a partir da cidade e, numa retroalimenta\u00e7\u00e3o, constr\u00f3i a pr\u00f3pria cidade. A literatura pode impedir que a l\u00edngua vire \u201capenas\u201d (vamos salientar as aspas desse \u201capenas\u201d) documento hist\u00f3rico ou jornal para embrulhar o peixe na feira. As recorda\u00e7\u00f5es nunca s\u00e3o a reconstru\u00e7\u00e3o fiel do passado, elas aparecem reelaboradas no di\u00e1logo com as lentes de leitura do presente. Se um livro for realmente bom, ele ser\u00e1 significativo no seu tempo e continuar\u00e1 a s\u00ea-lo no futuro, pois \u00e9 capaz de resgatar a hist\u00f3ria e de <i>re-present<\/i><i>\u00e1<\/i><i>-la<\/i>, ou seja, torn\u00e1-la presente de novo. Ent\u00e3o uma obra poder\u00e1, a cada leitura, atualizar a cidade. Mesmo que a cidade seja apenas cen\u00e1rio (\u00e9 o meu caso), ela nunca ser\u00e1 um cen\u00e1rio \u201cpano de fundo\u201d, sem intera\u00e7\u00e3o com as coisas que acontecem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mais um detalhe: o escritor precisa ir al\u00e9m de escrever a obra e isso \u00e9 por vezes desanimador, at\u00e9 constrangedor, porque a gente precisa se expor bastante. Para personalidades t\u00edmidas e inseguras \u2013 estou falando por mim \u2013, \u00e9 um esfor\u00e7o grande ficar se autopromovendo. Ter um papel pol\u00edtico, ok, mas ter que ficar promovendo seu pr\u00f3prio livro, ficar falando bem dele e tal, isso \u00e9 realmente constrangedor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>Clarice Lispector dizia que escrevia com a mesma necessidade de quem se alimenta. Por que voc<\/b><b>\u00ea<\/b><b> escreve?<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Muito \u00e9 por divers\u00e3o intelectual, diria ser esse o principal motivo. \u00c9 sofrido antes, \u00e9 sofrido durante, mas o final de um dia de trabalho que rendeu d\u00e1 a energia suficiente para prosseguir. E quando o trabalho n\u00e3o rendeu, \u00e9 preciso escrever sem energia mesmo. Ir para o computador sem pensar muito, como se n\u00e3o houvesse mesmo alternativa. Uma frase bem ajeitada, uma sacada para o enredo, uma perip\u00e9cia bem encaixada, uma reflex\u00e3o n\u00e3o for\u00e7ada, tudo isso \u00e9 o que eu chamo de divers\u00e3o intelectual. Al\u00e9m disso, sou um sujeito indeciso e, a cada opini\u00e3o que tenho, trago sempre um amigo imagin\u00e1rio a me apresentar um contra-argumento que me impede de ter convic\u00e7\u00f5es muito s\u00f3lidas. Ent\u00e3o a literatura, polif\u00f4nica por sua natureza, acaba sendo uma arena boa para colocar os conflitos em vez de resolv\u00ea-los. Resolver, se for o caso, vai ser tarefa do leitor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>As redes de livrarias crescem mais e mais. As listas dos mais vendidos est<\/b><b>\u00e3<\/b><b>o com n<\/b><b>\u00fa<\/b><b>meros mais estonteantes. Voc<\/b><b>\u00ea<\/b><b>, como professor e escritor, acha que os jovens est<\/b><b>\u00e3<\/b><b>o lendo mais e melhor?<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Concordo com o crescimento do mercado editorial e os n\u00fameros mostram isso. Mas curiosamente o n\u00famero de leitores de livros n\u00e3o cresce. At\u00e9 retrocede, se pegarmos as duas vers\u00f5es anteriores do documento Retratos da Leitura no Brasil (2007 e 2011, se n\u00e3o me engano). H\u00e1 mais leitores de tela, isso \u00e9 certo, que s\u00e3o aqueles leitores de textos mais curtos, informativos etc. Isso \u00e9 bom, mas os livros mesmo n\u00e3o est\u00e3o indo parar nas m\u00e3os dos leitores. Minha esperan\u00e7a \u00e9 no longo prazo, e creio haver motivo: nossa defasagem de bibliotecas \u00e9 muito grande, boa parte das escolas n\u00e3o t\u00eam bibliotecas e, se t\u00eam, s\u00e3o geridas por profissionais n\u00e3o-leitores, entre outros problemas. A\u00ed, a quest\u00e3o: como o mercado editorial cresce e o n\u00famero de leitores n\u00e3o? \u00c9 que o maior comprador de livros do mundo \u00e9 o governo brasileiro, que busca equipar as escolas com bibliotecas. Talvez, no longo prazo, a escola consiga formar leitores (e eu j\u00e1 afirmo isso louco para contra-argumentar, tal \u00e9 a dificuldade que a escola tem de aproximar os alunos dos livros). Temos que ter um professor leitor, premissa b\u00e1sica. Temos que dar acesso aos livros. Temos que mostrar que a literatura n\u00e3o \u00e9 coisa do passado e que ela se faz aqui e agora. Falando assim, parece f\u00e1cil. A gente tem a ideia de um bolo perfeito na cabe\u00e7a, mas n\u00e3o tem muita ideia de como faz\u00ea-lo. No geral, n\u00e3o sou otimista. Nunca fomos leitores de livros e n\u00e3o vejo isso no horizonte pr\u00f3ximo. E sei que estou me contradizendo, mas essa contradi\u00e7\u00e3o \u00e9 coerente com a minha personalidade claudicante (risos).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Portal Paran\u00e1 Online publicou entrevista na qual falo de v\u00e1rias inst\u00e2ncias da produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria. 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