{"id":1863,"date":"2018-07-14T21:54:36","date_gmt":"2018-07-14T21:54:36","guid":{"rendered":"http:\/\/cezartridapalli.com.br\/?p=1863"},"modified":"2023-02-19T02:32:39","modified_gmt":"2023-02-19T02:32:39","slug":"as-novas-masculinidades-no-seculo-21-por-cezar-tridapalli","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cezartridapalli.com.br\/?p=1863","title":{"rendered":"As novas masculinidades no s\u00e9culo 21, por Cezar Tridapalli"},"content":{"rendered":"<p>A edi\u00e7\u00e3o de julho\/2018 da revista TopView traz o artigo &#8220;Novas masculinidades no s\u00e9culo 21&#8221;, reflex\u00e3o a partir de uma hist\u00f3ria bem pessoal e que busca compartilhar modos de entender novos pap\u00e9is masculinos na contemporaneidade.<\/p>\n<p>O link para a publica\u00e7\u00e3o original \u00e9 este:\u00a0<a href=\"https:\/\/topview.com.br\/self\/novas-masculinidades-no-seculo-21-cezar-tridapalli\/\">https:\/\/topview.com.br\/self\/novas-masculinidades-no-seculo-21-cezar-tridapalli\/<\/a><\/p>\n<h1 class=\" xt-post-title\">As novas masculinidades no s\u00e9culo 21, por Cezar Tridapalli<\/h1>\n<p>Sou filho, sou pai, sou homem.<\/p>\n<p>Muitas palavras cabem nas tr\u00eas palavras acima.<\/p>\n<p><em><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-87459 aligncenter\" src=\"https:\/\/controle.topview.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Portrait-3-books.jpg\" sizes=\"(max-width: 401px) 100vw, 401px\" srcset=\"https:\/\/topview.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Portrait-3-books.jpg 401w, https:\/\/topview.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Portrait-3-books-301x450.jpg 301w\" alt=\"\" width=\"401\" height=\"600\" \/>Sou filho:<\/em> minha m\u00e3e e meu pai vieram do interior, ela do Paran\u00e1 nos anos de 1950, ele de Santa Catarina nos 1960. Ela, col\u00f4nia alem\u00e3; ele, col\u00f4nia italiana. Ela segue cuidando da casa; ele, hoje aposentado, trabalhava fora. Tem clich\u00ea maior sobre a forma\u00e7\u00e3o de um menino-branco-hetero-cis-crist\u00e3o-cat\u00f3lico (a religi\u00e3o paterna prevaleceu) e que ainda frequentou col\u00e9gio militar desde os 11 anos at\u00e9 ser oficial com 20? Isso formou meu modo de ser e ver o mundo? Sim e n\u00e3o. R\u00f3tulos colados na superf\u00edcie escondem profundidades.<\/p>\n<p>Abandonei a farda. E me despi dos fatos sobrenaturais da religi\u00e3o, seus fantasmas. Iniciei a vida adulta nessa transi\u00e7\u00e3o: da estrela militar no ombro para um curso de Letras que me fez professor e escritor. De um devoto que se ajoelhava em novenas a algu\u00e9m que busca a \u00e9tica sem precisar de vigil\u00e2ncia e puni\u00e7\u00e3o. N\u00e3o coloco nisso ju\u00edzo de valor do tipo olha como evolu\u00ed, ou como me degenerei. Tomei rumo feito de circunst\u00e2ncias misturadas com algum livre-arb\u00edtrio (Ortega y Gasset: \u201ceu sou eu e minhas circunst\u00e2ncias\u201d), experienciando a vida em suas teias objetivas e subjetivas.<\/p>\n<p><em>Sou pai:<\/em> meu pai e minha m\u00e3e tiveram dois filhos, uma menina mais velha e eu. Eu tenho dois filhos: uma menina mais velha e um menino. A hist\u00f3ria se repete? Espero que n\u00e3o como farsa nem como trag\u00e9dia. Ela caminha em espiral, trazendo passados mas nunca coincidindo com eles, e mesmo que haja um incontorn\u00e1vel di\u00e1logo entre mudan\u00e7as gen\u00e9ticas e culturais, entre genes e memes (memes entendidos aqui como genes culturais, na acep\u00e7\u00e3o que se l\u00ea, por exemplo, em Richard Dawkins), \u00e9 evidente que a mudan\u00e7a n\u00e3o se deu em n\u00edveis gen\u00e9ticos: algo mudou na cultura. Na minha inf\u00e2ncia eu brincava de carrinhos, bonecos belicosos, bola e outras brincadeiras consideradas de menino; hoje meu filho tem bonecos e bonecas, joga bola, se veste de Batman, gosta de fadas e de ver as unhas pintadas.<\/p>\n<blockquote><p>\u201cNa minha inf\u00e2ncia eu brincava de carrinhos, bonecos belicosos, bola e outras brincadeiras consideradas de menino; hoje meu filho tem bonecos e bonecas, joga bola, se veste de Batman, gosta de fadas e de ver as unhas pintadas.\u201d<\/p><\/blockquote>\n<p><em><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-87460 aligncenter\" src=\"https:\/\/controle.topview.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Portrait-4-color-pencils.jpg\" sizes=\"(max-width: 401px) 100vw, 401px\" srcset=\"https:\/\/topview.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Portrait-4-color-pencils.jpg 401w, https:\/\/topview.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Portrait-4-color-pencils-301x450.jpg 301w\" alt=\"\" width=\"401\" height=\"600\" \/><\/em><\/p>\n<p>Mudan\u00e7as culturais, por\u00e9m, n\u00e3o s\u00e3o a substitui\u00e7\u00e3o de um modelo por outro. Ainda h\u00e1 pais e m\u00e3es que maltratam e matam filhos meninos porque farejam neles uma feminilidade. No meio disso uma nova conduta brota como a flor no asfalto de que falava Drummond, em<em> A Flor e a N\u00e1usea<\/em>. Ainda que haja muita aridez, uma outra paisagem irrompe em condi\u00e7\u00f5es de gerar pessoas com menos traumas e mais abertas para o outro \u2013 essa alteridade que nos diz quem somos. Tor\u00e7o para que as flores dominem, com sua delicadeza, valores cimentados na cultura patriarcal.<\/p>\n<blockquote><p>\u201cPessoas podem preferir o trabalho dom\u00e9stico, pessoas podem querer trabalhar fora, pessoas podem pactuar acordos de fidelidade, pessoas podem ter d\u00favidas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 vida afetiva, pessoas podem viver a sexualidade \u00e0 sua maneira, pessoas precisam cuidar dos filhos, pessoas podem brincar.\u201d<\/p><\/blockquote>\n<p><em>Sou homem:<\/em> trabalhei de forma assalariada durante 20 anos, sempre o ganho mais alto da casa. Em 2015, uma cis\u00e3o: n\u00e3o vi mais sentido no que fazia, dividi-me entre o modelo carro-chefe-dono-da-grana e outro, j\u00e1 aceito pela teoria, mas hesitante na pr\u00e1tica: menos trabalho formal, mais casa, menos dinheiro que a mulher, mais tempo com os filhos. Tamb\u00e9m mais brincadeiras (brincar \u00e9 viver e simular viv\u00eancias, \u00e9 conferir, a partir de um olhar inaugural sobre a realidade, uma condi\u00e7\u00e3o de exist\u00eancia). Tamb\u00e9m mais e outros tipos de cansa\u00e7o. Dor e del\u00edcia, enfim. (Curiosidade: escrevo esse par\u00e1grafo e minha filha est\u00e1 ao meu lado lendo em voz alta a tarefa de casa, baseada na letra de Fam\u00edlia, dos Tit\u00e3s).<\/p>\n<p>Automatizar conceitos traz vantagens, \u00e9 at\u00e9 fundamental para a sobreviv\u00eancia: se tenho nas m\u00e3os um livro nunca visto, ainda assim sei que \u00e9 um livro. Se pedalo uma bicicleta diferente da minha, ainda assim sei que \u00e9 uma bicicleta e saberei andar nela. Mas pensar, por exemplo, que apenas a m\u00e3e deve se ocupar das coisas da casa ou que meninos n\u00e3o podem curtir determinadas cores \u00e9 uma automatiza\u00e7\u00e3o danosa, que nada tem de objetiva.<\/p>\n<p>A masculinidade \u00e9 uma dessas inst\u00e2ncias que passam por desautomatiza\u00e7\u00e3o, e as gera\u00e7\u00f5es atuais precisam saber sofrer com a desorienta\u00e7\u00e3o e com o sentimento de perda da identidade \u2013 quando o que se perdeu foi apenas um tipo dela. Sem essa identidade associada ao machismo, uma outra pede passagem e, boa not\u00edcia, ela pode ajudar homens e mulheres de forma nunca vista antes. A mulher ter\u00e1 menos dificuldade de assumir o controle da vida pelo qual luta h\u00e1 tanto tempo, sem a exclusividade da jornada dupla, no caso de optar por ter filhos. O homem, menos pressionado pelas atribui\u00e7\u00f5es do chefe que tudo decide, pode descobrir um outro modo de existir, mais leve, sem se obrigar a inibir fragilidades. Nada a ver com a simples invers\u00e3o de pap\u00e9is, mas com a cria\u00e7\u00e3o de acordos despidos dos conceitos automatizados.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-87458 aligncenter\" src=\"https:\/\/controle.topview.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Portrait-1-books.jpg\" sizes=\"(max-width: 401px) 100vw, 401px\" srcset=\"https:\/\/topview.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Portrait-1-books.jpg 401w, https:\/\/topview.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Portrait-1-books-301x450.jpg 301w\" alt=\"\" width=\"401\" height=\"600\" \/>N\u00e3o se trata de dizer o que podem homens e o que podem mulheres, trata-se de dizer o que podem <em>as pessoas<\/em>, \u201cde acordo com os acordos\u201d estabelecidos entre elas.<\/p>\n<blockquote><p>\u201cA masculinidade \u00e9 uma dessas inst\u00e2ncias que passam por desautomatiza\u00e7\u00e3o, e as gera\u00e7\u00f5es atuais precisam saber sofrer com a desorienta\u00e7\u00e3o e com o sentimento de perda da identidade \u2013 quando o que se perdeu foi apenas um tipo dela.\u201d<\/p><\/blockquote>\n<p>Pessoas podem preferir o trabalho dom\u00e9stico, pessoas podem querer trabalhar fora, pessoas podem pactuar acordos de fidelidade, pessoas podem ter d\u00favidas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 vida afetiva, pessoas podem viver a sexualidade \u00e0 sua maneira, pessoas precisam cuidar dos filhos, pessoas podem brincar. Pessoas podem. Que isso n\u00e3o resvale na supremacia do eu e no ego\u00edsmo, na liquidez <em>laissez-faire<\/em> das rela\u00e7\u00f5es (ou, se isso for um acordo, at\u00e9 pode), mas abra espa\u00e7o para irmos al\u00e9m do sobreviver, al\u00e9m ainda do viver, para alcan\u00e7armos o conviver, o viver com, feito de espa\u00e7o e tempo, com acordos e sem ass\u00e9dios. Enfim, talvez consigamos tecer feminilidades e masculinidades porosas \u00e0 voz do outro, esse ser, como n\u00f3s, cheio de desejos.<\/p>\n<p>Assim como caminhar, viver \u00e9 um jogo constante de equil\u00edbrios e desequil\u00edbrios. Para darmos passos precisamos nos lan\u00e7ar \u00e0 frente, na vertigem da pequena queda livre.<\/p>\n<blockquote><p>Cezar Tridapalli \u00e9 filho, \u00e9 pai, \u00e9 homem. Formado em Letras, especialista em Leitura de M\u00faltiplas Linguagens e mestre em Estudos Liter\u00e1rios, \u00e9 escritor, autor dos romances Pequena Biografia de Desejos e O Beijo de Schiller, vencedor do pr\u00eamio Minas Gerais de Literatura. <a href=\"https:\/\/cezartridapalli.com.br\/\">cezartridapalli.com.br<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p><em>*Mat\u00e9ria publicada originalmente por Cezar Tridapalli na edi\u00e7\u00e3o 213 da revista TOPVIEW.\u00a0<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A edi\u00e7\u00e3o de julho\/2018 da revista TopView traz o artigo &#8220;Novas masculinidades no s\u00e9culo 21&#8221;, reflex\u00e3o a partir de uma [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":1864,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0},"categories":[36,53],"tags":[30,29],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/cezartridapalli.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1863"}],"collection":[{"href":"https:\/\/cezartridapalli.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/cezartridapalli.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cezartridapalli.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cezartridapalli.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=1863"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/cezartridapalli.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1863\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1865,"href":"https:\/\/cezartridapalli.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1863\/revisions\/1865"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cezartridapalli.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/1864"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/cezartridapalli.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=1863"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/cezartridapalli.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=1863"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/cezartridapalli.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=1863"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}