{"id":1977,"date":"2019-08-26T16:19:27","date_gmt":"2019-08-26T16:19:27","guid":{"rendered":"http:\/\/cezartridapalli.com.br\/?p=1977"},"modified":"2019-08-26T18:26:35","modified_gmt":"2019-08-26T18:26:35","slug":"as-vozes-da-voz-ensaio-para-a-revista-helena","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cezartridapalli.com.br\/?p=1977","title":{"rendered":"&#8220;As vozes da voz&#8221;, ensaio para a revista Helena"},"content":{"rendered":"<p>O n\u00famero 11 da Revista Helena, publica\u00e7\u00e3o da Biblioteca P\u00fablica do Paran\u00e1, traz, entre outros, o extenso ensaio de Cezar Tridapalli a respeito de dois termos caros \u00e0 arte e \u00e0 literatura: lugar de fala e lugar de escuta. O ensaio segue abaixo, mas pode ser lido em seu ve\u00edculo original\u00a0neste link:\u00a0<strong><a href=\"http:\/\/www.helena.pr.gov.br\/2019\/06\/88\">http:\/\/www.helena.pr.gov.br\/2019\/06\/88<\/a><\/strong>.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure class=\"image\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter\" src=\"http:\/\/www.helena.pr.gov.br\/arquivos\/Image\/Helena_11\/helena_1.jpg\" alt=\"1\" width=\"600\" height=\"600\" \/><figcaption>\u00a0 \u00a0Ilustra\u00e7\u00f5es:\u00a0<strong>F\u00e1bio Abreu<\/strong><\/figcaption><\/figure>\n<p>O termo \u201clugar de fala\u201d tornou-se fundamental para discutir a posi\u00e7\u00e3o de minorias af\u00f4nicas e sem representa\u00e7\u00e3o, cujos discursos v\u00eam embalados em clich\u00eas pasteurizados por grupos hegem\u00f4nicos. Em literatura, costuma-se usar o conceito de polifonia, vindo do fil\u00f3sofo e linguista russo Mikhail Bakhtin. Fazendo um desmembramento simples da palavra, poli-fonia significa muitos sons ligados \u00e0 voz, \u00e0s muitas vozes e seus timbres. \u201cTimbre\u201d, no dicion\u00e1rio, relaciona-se a caracter\u00edsticas f\u00edsicas da fala. N\u00e3o me parece for\u00e7ado, no entanto, estender essa rela\u00e7\u00e3o e associar as muitas vozes e timbres da polifonia \u00e0s muitas vis\u00f5es de mundo a ela atreladas. \u00c9 disso que fala a polifonia na literatura. Vale lembrar ainda que timbre \u00e9 carimbo, \u00e9 marca, palavra importante para o prop\u00f3sito deste ensaio, afinal do que somos feitos al\u00e9m das c\u00e9lulas que nos constituem? Das nossas marcas, ou seja, somos feitos de encontros marcantes, que podem tanto ter expandido o nosso universo afetivo como t\u00ea-lo fechado, seja na forma de traumas pontuais ou ao longo do tempo, no estilo \u00e1gua mole em pedra dura, no esburacamento paulatino da sensibilidade. Portanto, al\u00e9m de genes, somos constitu\u00eddos por memes (express\u00e3o que conheci lendo o bi\u00f3logo Richard Dawkins), que seriam \u201cgenes culturais\u201d. Estas c\u00e9lulas do contexto em que vivemos e que igualmente nos formam e s\u00e3o transmitidas entre gera\u00e7\u00f5es deixam suas marcas em n\u00f3s. Muitas destas marcas nos atingiram na forma de linguagem verbal. Em uma narrativa liter\u00e1ria, como na vida, estamos sujeitos \u2014 e s\u00f3 por isso nos constitu\u00edmos como sujeitos \u2014 \u00e0 polifonia que, em conflito, nos gera estranhamento ou identifica\u00e7\u00e3o. Ou estranhamento e identifica\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que n\u00e3o raras s\u00e3o as vezes em que estranhamos nos identificar com situa\u00e7\u00f5es, atitudes e pensamentos de personagens nos livros, de pessoas na vida. Talvez, se quisermos nos aproximar de um vi\u00e9s psicanal\u00edtico, possamos afirmar que temos dentro de n\u00f3s um estranho que se identifica com desejos e puls\u00f5es de que nosso \u201ceu\u201d mal desconfia.<\/p>\n<p>O fato \u00e9 que vozes s\u00e3o faladas, mas tamb\u00e9m ouvidas \u2014 parece evidente, s\u00f3 que n\u00e3o, em tempos de gritaria nas redes sociais da vida digital e f\u00edsica.<\/p>\n<p>\u00c9 mais do que urgente pensar sobre lugar de fala e polifonia, pois ambas as express\u00f5es t\u00eam muito a contribuir com debates contempor\u00e2neos. Em termos r\u00e1pidos e simplificadores: 1) lugar de fala \u00e9 o respeito e o acolhimento da voz de grupos sociais que tiveram ao longo da Hist\u00f3ria sua linguagem silenciada ou deformada pela linguagem dominante. Ou, mais que acolhimento, trata-se da busca pela incorpora\u00e7\u00e3o dessas vozes \u00e0 din\u00e2mica da heterogeneidade, (que deveria ser) regulada politicamente; 2) polifonia \u00e9 a multiplicidade de vozes em conflito que falam em uma narrativa ficcional, com personagens marcados fatalmente pelo modo de ver e ler o mundo.<\/p>\n<p>\u00c9 poss\u00edvel dizer que estas duas express\u00f5es t\u00eam sentidos intercambi\u00e1veis.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o os personagens ocupam um lugar de fala? E quem cria os personagens, onde est\u00e1? Se um dos elementos essenciais da narrativa \u00e9 o conflito, o autor criar\u00e1 personagens que apenas espelhem os dissensos internos dele, autor?<\/p>\n<p>O espa\u00e7o da alteridade, a riqueza da fic\u00e7\u00e3o que permite viver o que Ferreira Gullar afirmou \u2014 \u201ca arte existe porque a vida n\u00e3o basta\u201d \u2014, a experimenta\u00e7\u00e3o de, sendo um, ser outro, caracteriza de forma contundente a narrativa liter\u00e1ria. E os embates se espalham desde o personagem em conflito consigo mesmo (com o Outro que habita nele e em quem ele habita) at\u00e9 o outro do lado de fora, seja na forma de outro indiv\u00edduo, sociedade, natureza etc. e tal. \u00c9 trabalho da literatura reivindicar o direito de tomar a voz do outro, n\u00e3o para reproduzi-la de maneira superficial e preconceituosa, e sim para coloc\u00e1-la em sua complexidade na din\u00e2mica das rela\u00e7\u00f5es humanas.<\/p>\n<p>Se o autor n\u00e3o est\u00e1 \u2014 e n\u00e3o tem como estar \u2014 no lugar do outro, como pode querer usar a voz alheia para tecer conflitos? Com que propriedade, com que direito? S\u00f3 um morador de rua pode falar da condi\u00e7\u00e3o de um morador de rua? S\u00f3 um morador de rua homem pode falar da condi\u00e7\u00e3o de um morador de rua homem? S\u00f3 um morador de rua homem idoso pode falar da condi\u00e7\u00e3o de um morador de rua homem idoso? S\u00f3 um morador de rua homem idoso negro pode falar da condi\u00e7\u00e3o de um morador de rua homem idoso negro? No limite, o indiv\u00edduo\u00a0ele-mesmo s\u00f3 pode falar sobre&#8230; ele-mesmo? Esse morador de rua homem idoso negro tem muitos conflitos com a figura do outro, seja a pol\u00edcia, uma moradora de rua, uma madame de cuja casa ele passa sempre em frente, o\u00a0<em>playboy<\/em>\u00a0que amea\u00e7a atear-lhe fogo. Teria ele propriedade para falar do outro provocador de conflito se n\u00e3o est\u00e1 na posi\u00e7\u00e3o desse outro, se na vida real n\u00e3o ocupa seu lugar?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>IMPOSSIBILIDADES<\/strong><br \/>\n\u00c9 certo, criei uma situa\u00e7\u00e3o parox\u00edstica, exagerada, mas que segue certa l\u00f3gica de racioc\u00ednio. Como resolver ent\u00e3o a impossibilidade f\u00edsica e psicol\u00f3gica de um autor estar em v\u00e1rios lugares ao mesmo tempo, ocupando-os a ponto de n\u00e3o reproduzir nem as bland\u00edcies nem os preconceitos t\u00edpicos dos clich\u00eas a respeito de alteridades?<\/p>\n<p>Resposta que julgo boa: antes de se colocar em lugar de fala, ou antes de criar sua rede polif\u00f4nica \u2014 emaranhamento de vozes dissonantes \u2014, \u00e9 fundamental para o autor deslocar-se para um atento lugar de escuta e habit\u00e1-lo, permanecendo ali, mesmo quando come\u00e7ar a falar pelos seus outros \u2014 a\u00ed, nesse deslocamento para a escuta, est\u00e1 outra aproxima\u00e7\u00e3o com o trabalho psicanal\u00edtico. Assim como o psicanalista n\u00e3o \u00e9 comadre conselheira que despeja seu ponto de vista na cabe\u00e7a do analisando, nem compadre julgador que avalia o comportamento alheio conforme o tamanho da pr\u00f3pria cabe\u00e7a, tamb\u00e9m o escritor n\u00e3o cria fic\u00e7\u00e3o para, usando express\u00e3o consagrada do senso comum, \u201cexpressar seus mais puros sentimentos\u201d, nem dar serm\u00e3o, nem aula sobre como o mundo e as pessoas deveriam funcionar. Por isso n\u00e3o h\u00e1 escritor que se possa prezar que n\u00e3o seja leitor dos mais argutos, em quantidade e qualidade de leitura. \u00c9 algu\u00e9m que se dedica, se empenha em saber escutar os discursos do entorno. N\u00e3o por ser privilegiado nato, mas por escolher se dedicar a isso, como o matem\u00e1tico que tem mais agilidade para c\u00e1lculos e abstra\u00e7\u00f5es num\u00e9ricas porque, depois da \u201cvoca\u00e7\u00e3o\u201d, se debru\u00e7ou sobre esse trabalho e tem contato com ele o tempo todo, incorporando-o a seu modo de ser e ver. O escritor precisa estar atento \u00e0\u00a0fala do outro para engendrar conflitos humanos em profundidade capazes de mobilizar o leitor e instituir nele fissuras nos s\u00edmbolos consagrados, arejando suas fronteiras (\u00e0s vezes fazendo-as desmoronar). Sim, o autor fala, mas essa fala \u00e9 uma voz, e uma foz, onde desembocam muitas vozes escutadas \u2014 esquizofrenia muito particular. A rigor, todos somos assim, cole\u00e7\u00e3o de discursos vindos do outro desde o nascimento, esteja a palavra envolta em semblantes de serenidade, preocupa\u00e7\u00e3o, agressividade, amor. Tudo isso, em \u00faltima inst\u00e2ncia, \u00e9 afeto. E, como afeto, nos afeta.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/www.helena.pr.gov.br\/arquivos\/Image\/Helena_11\/helena_2.jpg\" alt=\"2\" width=\"600\" height=\"600\" \/><\/p>\n<p>De que modo ent\u00e3o o autor, marcado em sua hist\u00f3ria por condi\u00e7\u00f5es espec\u00edficas, pode se abrir para representar \u2014 artisticamente \u2014 vozes que n\u00e3o s\u00e3o suas?<\/p>\n<p>Outra resposta poss\u00edvel, cont\u00edgua \u00e0 anterior, est\u00e1 na abertura para a experi\u00eancia. Experi\u00eancia, bastante debatida por Walter Benjamin e cujos desdobramentos seguiram por outros autores, \u00e9 a sele\u00e7\u00e3o (consciente ou inconsciente) de afetos que marcaram nossa vida e fizeram dela o que ela \u00e9 no presente. Da\u00ed que, tanto no processo de escrita quanto de leitura, autor e leitor tecem sentidos de modo menos ou mais complexo conforme a experi\u00eancia do j\u00e1-vivido e \u2014 aten\u00e7\u00e3o! \u2014 conforme o grau de disposi\u00e7\u00e3o para se abrir a experi\u00eancias futuras que a leitura e a vida podem dar, j\u00e1 que ambas s\u00e3o espa\u00e7os de susto. Passado e futuro constituem o presente da experi\u00eancia. O leitor \u00e9 sujeito que n\u00e3o apenas retira sentidos do texto, mas tamb\u00e9m coloca sentidos nele. A conversa entre os sentidos propostos pelo autor, pela obra e pelo leitor, nos lugares simult\u00e2neos de fala e de escuta que ocupam, \u00e9 que comp\u00f5e o jogo liter\u00e1rio. De um livro e a um livro, n\u00f3s temos o que ouvir e o que dizer.<\/p>\n<p>O velho ditado lembra: temos duas orelhas e uma boca. Na literatura, como realizar a polifonia se o autor n\u00e3o se colocar em lugar de escuta atenta das vozes do mundo? O romance, como j\u00e1 dissemos com outras palavras, n\u00e3o \u00e9 a defesa de uma tese com ponto de vista \u00fanico de seu autor. Isso se chama ensaio, ou prega\u00e7\u00e3o, ou qualquer coisa que, se quiser se passar por literatura, estar\u00e1 fadada \u00e0 chatice e ao esquecimento.<\/p>\n<p>Foi a psicanalista Vera Iaconelli, em artigo para a\u00a0<em>Folha de S.Paulo<\/em>\u00a0em 3\/4\/2018, intitulado \u201cLugar de escuta, lugar de fala\u201d, quem disse: \u201csupor que analista deva ser mulher para atender mulheres \u00e9 confundir lugar de escuta com o de fala\u201d. N\u00e3o precisa ser mulher para atender mulher, n\u00e3o precisa ser homem para atender homem, n\u00e3o precisa ser gay para atender gay. N\u00e3o precisa ter o mesmo lugar de fala. Na literatura, precisa?<\/p>\n<p>O que foi discutido at\u00e9 aqui \u2014 essa \u00e9 minha esperan\u00e7a \u2014 pode explicar por que \u201co grande escritor \u00e9 sempre grande leitor\u201d. Porque, para falar, tem de ser atravessado pelos discursos do outro, tem de escutar. Mesmo assim, recorro \u00e0 Leyla Perrone-Mois\u00e9s em<em>\u00a0In\u00fatil poesia e outros ensaios breves<\/em>\u00a0para me ajudar:<\/p>\n<blockquote><p>Sem Homero, n\u00e3o haveria Virg\u00edlio. Sem Virg\u00edlio n\u00e3o haveria Dante, sem Dante&#8230; etc. Apesar dessa evid\u00eancia, persiste um certo senso comum de origem rom\u00e2ntica pretendendo conectar a palavra \u00e0 coisa, e a literatura \u00e0 vida, sem media\u00e7\u00f5es; e que \u00e9 \u201ccoisa\u201d? E \u201cvida\u201d? \u201cWords, words, words\u201d diria aquele ingl\u00eas, tamb\u00e9m grande leitor, como sua personagem Hamlet, que andava com um livro na m\u00e3o. Ou aquele espanhol que pretendeu ter lido num livro a hist\u00f3ria do triste fidalgo que lera ele mesmo demasiadas novelas de cavalaria.<\/p><\/blockquote>\n<p>A leitura de grandes narrativas, arrisco dizer, nos deixa mais espertos para a leitura do mundo; se estamos mais espertos \u2014 e abertos \u2014 para ler o mundo, arrisco dizer de novo, leremos melhor os livros. \u00c9 escuta o tempo todo. Desde a escuta de si mesmo at\u00e9 a do outro, e bota outro nisso, que potencialmente \u00e9 tudo o que nos circunda. Nesse caminho constante entre o dentro e o fora, entre sujeitos ou entre sujeito e objeto, h\u00e1 sempre um trajeto que, como tal, \u00e9 transitivo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>FATORES MEM\u00c9TICOS<\/strong><br \/>\nDesdobraremos agora a ideia apenas antes sugerida de uma experi\u00eancia que aponta para o passado e outra para o futuro, sendo importante para isso lembrar que a partir daqui o significante \u201cleitor\u201d passa a significar tanto os leitores que n\u00e3o escrevem literatura quanto os que escrevem. Ou seja, quando falarmos de leitor, precisamos pensar no escritor, mantendo a escuta sempre no pano de fundo, costurando tudo.<\/p>\n<p>Por que n\u00e3o \u00e9 raro encontrarmos leitores que odiaram Machado de Assis ou Guimar\u00e3es Rosa ou Clarice Lispector aos 15 anos e que, depois, aos 30, 40, conseguem apreci\u00e1-los? A obra permanece a mesma, emanando suas possibilidades, o texto est\u00e1 l\u00e1, tecido, mas em um primeiro momento n\u00e3o nos \u00e9 significativo (tamb\u00e9m o contr\u00e1rio \u00e9 comum, quando um texto nos diz muito na adolesc\u00eancia e perde seu poder de fogo quando somos mais velhos). Drummond, em \u201cProcura da poesia\u201d, convida e indaga:<\/p>\n<p>Chega mais perto e contempla as palavras.<br \/>\nCada uma<br \/>\ntem mil faces secretas sob a face neutra<br \/>\ne te pergunta, sem interesse pela resposta,<br \/>\npobre ou terr\u00edvel que lhe deres:<br \/>\nTrouxeste a chave?<\/p>\n<p>Somos o que somos um bom tanto por fatores gen\u00e9ticos, e outro bom tanto \u00e9 devido aos encontros que nos afetaram na cultura \u2014 os tais fatores mem\u00e9ticos. Podemos, como vimos, chamar isso de experi\u00eancia<\/p>\n<p>Assim, onde mora o sentido? \u00c9 tanta coisa que se passa no mundo, basta abrir um portal de variedades ou a<em>\u00a0timeline\u00a0<\/em>das redes sociais e ver atentados e massacres, resultados da \u00faltima rodada do campeonato, o novo modelo de carro, a nova namorada do gal\u00e3, a entrevista da cientista social, a propaganda do\u00a0pol\u00edtico, entre muitos outros et ceteras. Livros de Hist\u00f3ria contam fatos que, aproveitando a for\u00e7a do chav\u00e3o, marcaram a humanidade. Sim, muita coisa se passa no mundo. Experi\u00eancia, no entanto, \u00e9 aquilo que se passa em n\u00f3s e afeta o nosso mundo a ponto de nos modificar (etimologicamente, veja s\u00f3, experi\u00eancia flerta com perigo, travessia, pirata, estranho, passagem mais al\u00e9m). Para ficarmos em apenas um exemplo da literatura, Michel Laub, em\u00a0<em>Di\u00e1rio da queda<\/em>, conta a vida de um menino judeu que carrega o peso do holocausto na hist\u00f3ria familiar, mas o que marca para valer sua consci\u00eancia \u00e9 a cena cruel de\u00a0<em>bullying<\/em>, que ele n\u00e3o s\u00f3 viu como participou, contra um colega n\u00e3o judeu e pobre. Podemos nos comover com trag\u00e9dias e centenas de mortos do outro lado do planeta, no entanto sofremos mais se nosso amigo querido sofreu um acidente, est\u00e1 no hospital, e passa bem. Vou repetir, no estilo copia e cola: sim, muita coisa se passa no mundo. Experi\u00eancia, no entanto, \u00e9 aquilo que se passa em n\u00f3s e afeta o nosso mundo a ponto de nos modificar.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/www.helena.pr.gov.br\/arquivos\/Image\/Helena_11\/helena_3.jpg\" alt=\"3\" width=\"600\" height=\"600\" \/><\/p>\n<p>Desde que nascemos, quanto n\u00e3o nos transformamos? Por que somos menos ou mais inseguros, menos ou mais extrovertidos, menos ou mais generosos? Quantos ganhos, quantas perdas, quantas experi\u00eancias nos atravessaram e nos fizeram ser o que somos? O tempo est\u00e1 sempre forjando a chave de que falava Drummond, e nos torna capazes de abrir um poema e nos abrir para o turbilh\u00e3o de sentidos em que estamos enredados. Ent\u00e3o, e de novo, onde mora o sentido quando falamos de um texto liter\u00e1rio? No texto somente? Todos retiramos dele a mesma significa\u00e7\u00e3o? N\u00e3o, pelo menos n\u00e3o em camadas mais profundas de leitura. Quanto maior a experi\u00eancia e a escuta do leitor (autor inclu\u00eddo, lembra?), mais esse texto tem a dizer. Embora n\u00e3o seja regra, talvez isso explique por que obras cl\u00e1ssicas sejam consideradas dif\u00edceis \u2014 logo, chatas \u2014 quando temos 15 anos e depois, mais velhos, tornam-se admir\u00e1veis. Podemos dar raz\u00e3o a Mario Quintana: \u201cum bom poema \u00e9 aquele que nos d\u00e1 a impress\u00e3o de que est\u00e1 lendo a gente&#8230; e n\u00e3o a gente a ele\u201d. Mais repert\u00f3rio e experi\u00eancia nos abrem o texto e o tornam mais capaz de nos dar\u00a0tamb\u00e9m mais repert\u00f3rio e experi\u00eancia para ver e ouvir, num processo de alimenta\u00e7\u00e3o m\u00fatua que torna os sentidos mais ricos. Sob esse aspecto, envelhecer \u00e9 bom, sofrer \u00e9 bom \u2014 cabe resgatar a proximidade etimol\u00f3gica entre as palavras \u201csofrimento\u201d e \u201cpaix\u00e3o\u201d, ligadas a sofrer uma a\u00e7\u00e3o, deixar-se impactar por ela, deixar-se afetar, o que em \u00faltima inst\u00e2ncia \u00e9 se colocar em lugar de escuta, em posi\u00e7\u00e3o de relativa passividade, de\u00a0<em>passion, passione<\/em>. \u201cEu recomendo aos jovens: envelhe\u00e7am depressa, deixem de ser jovens o mais depressa poss\u00edvel, isto \u00e9 um azar, uma infelicidade\u201d, teria dito Nelson Rodrigues.<\/p>\n<p>Mas se a experi\u00eancia pode nos tornar mais receptivos \u00e0s obras porque temos mais chaves para abrir as palavras e tran\u00e7ar com elas significa\u00e7\u00f5es complexas, curiosamente pode acontecer o contr\u00e1rio, quando ficamos, \u00e0 medida que os anos passam, mais casmurros, ranzinzas, mais fechados \u00e0 experi\u00eancia futura e com menos escuta para a voz da diferen\u00e7a. N\u00e3o \u00e0 toa, muitos poetas buscam resgatar o olhar infantil e, podemos dizer, todos os artistas buscam n\u00e3o o tema novo, e sim modos diferentes de falar sobre o real que se manifesta todo o tempo em n\u00f3s:<\/p>\n<p><strong>Arnaldo Antunes<\/strong><br \/>\nO escuro \u00e9 a metade da zebra<\/p>\n<p><strong>Guimar\u00e3es Rosa<\/strong><br \/>\nO nada \u00e9 uma faca sem cabo da qual se tirou a l\u00e2mina<\/p>\n<p><strong>Jos\u00e9 Paulo Paes<\/strong><br \/>\nCaveira: a cara da gente quando a gente n\u00e3o for mais gente<br \/>\nExcelente: lente muito boa<br \/>\nForro: o lado de fora do lado de dentro<br \/>\nIsca: Cavalo de Troia para peixe<br \/>\nRei: cara que ganhou coroa<br \/>\nZebra: bicho que tomou sol atr\u00e1s das grades<\/p>\n<p>As defini\u00e7\u00f5es acima, que brincam de dicion\u00e1rio, pulam o muro das conven\u00e7\u00f5es para romper vis\u00f5es de mundo \u00e1ridas e un\u00edvocas. Se a literatura \u00e9 um modo de simbolizar o real, isto \u00e9, de tentar vestir o susto com palavras, de transformar o aspecto inef\u00e1vel do real em linguagem, ela tamb\u00e9m pode ressimbolizar o j\u00e1 simbolizado, que no entanto se cristalizou como verdade \u2014 eis aqui mais uma aproxima\u00e7\u00e3o da literatura com a psican\u00e1lise<\/p>\n<p>Se primeiro valorizei o universo \u201cadulto\u201d, com as feridas e os grandes encontros do passado transformados em experi\u00eancia, valorizei em suma a dor e a del\u00edcia do que nos fez ser o que somos, agora \u00e9 a vez de recuperar a outra ponta, o olhar infantil, ainda desautomatizado, com um qu\u00ea de inaugural. E a literatura passa a ser um modo muito potente de nos dar novos olhos para enxergarmos o tantas vezes visto \u2014 ou novos ouvidos para ouvir o tantas vezes ouvido, pois interessa-nos desde o in\u00edcio o \u201clugar de fala e de escuta\u201d no autor. Quem aceita o jogo l\u00fadico pode manter ou restaurar a porosidade no jeito de ver e ser, deixando entrar e sair outra respira\u00e7\u00e3o. Trata-se de uma ingenuidade informada, que acolhe a novidade e a inven\u00e7\u00e3o, pondo para dan\u00e7arem padr\u00f5es enrijecidos com os frescores da reproposi\u00e7\u00e3o. Quem n\u00e3o aceita a dan\u00e7a, fecha o livro e se fecha. Para o mundo, para a linguagem, para si mesmo. Quantos, ao lerem o \u201cdicion\u00e1rio\u201d acima, n\u00e3o afirmariam: \u201cquanta bobagem\u201d?<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/www.helena.pr.gov.br\/arquivos\/Image\/Helena_11\/helena_4.jpg\" alt=\"4\" width=\"600\" height=\"600\" \/><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>DISPOSI\u00c7\u00c3O PARA O MOVIMENTO<\/strong><br \/>\nExistem formas e contextos de linguagem que querem nos conduzir: \u201co \u00e1lcool faz mal \u00e0 sa\u00fade\u201d, por exemplo, nos conduz a um entendimento mais un\u00edvoco. O manual de instru\u00e7\u00e3o ou a bula de rem\u00e9dio tamb\u00e9m busca nos conduzir a um sentido \u2014 ainda bem. Por\u00e9m:<\/p>\n<p>A tarde talvez fosse azul<br \/>\nN\u00e3o houvesse tantos desejos<br \/>\n(&#8230;)<br \/>\nEu n\u00e3o devia te dizer<br \/>\nMas essa lua<br \/>\nMas esse conhaque<br \/>\nBotam a gente comovido como o diabo<\/p>\n<p>\u00c9 um excerto do \u201cPoema de sete faces\u201d, de Drummond, que, ali\u00e1s, fala de \u00e1lcool, s\u00f3 que nele a condu\u00e7\u00e3o abre espa\u00e7o para a sedu\u00e7\u00e3o, e sedu\u00e7\u00e3o \u00e9 desvio, \u00e9 propor outros caminhos que n\u00e3o o da condu\u00e7\u00e3o. Sem buscar entendimento \u00fanico, deixa o leitor navegando por veredas inusuais e construindo os pr\u00f3prios portos de sentido.<\/p>\n<p>O escritor portugu\u00eas Jos\u00e9 Saramago, em entrevista para o document\u00e1rio\u00a0<em>Janela da alma<\/em>, conta que sempre ia ao Teatro de Lisboa e se sentava na mesma poltrona, de onde admirava a beleza do palco. Certa vez, convidado a ir at\u00e9 o camarim, viu o mesmo palco de outra perspectiva e descobriu poeira e teias de aranha atr\u00e1s da boca de cena. E conclui: \u201cpara se conhecer as coisas, \u00e9 preciso dar-lhes a volta, dar-lhes a volta toda\u201d.<\/p>\n<p>A disposi\u00e7\u00e3o para o movimento (dar a volta nas coisas e mover-se com elas, isto \u00e9, comover-se) \u00e9 criadora de sentidos insuspeitados. A Est\u00e9tica, como disciplina da Filosofia que trata da beleza na arte, vem da\u00ed: da capacidade que algumas obras t\u00eam de nos despertar os sentidos, a estesia: que vai gerar est\u00e9tica. A aus\u00eancia de estesia, ou seja, o desmaio dos sentidos, transforma-se em anestesia, em amortecimento.<\/p>\n<p>Se esse \u201cMas essa lua \/ Mas esse conhaque \/ Botam a gente comovido como o diabo\u201d j\u00e1 tem potencial sedutor, mesmo usando linguagem mais direta (talvez quem j\u00e1 tenha olhado a lua com um copo de qualquer coisa alco\u00f3lica na m\u00e3o consiga montar um cen\u00e1rio bem seu), h\u00e1 obras que propositalmente buscam imagens novas para avivar os sentidos. Veja a diferen\u00e7a entre \u201cEla era tagarela e chata\u201d para \u201cAs conversas que ela come\u00e7ava pareciam madeira verde, soltavam fuma\u00e7a mas n\u00e3o pegavam fogo\u201d (Truman Capote, em\u00a0<em>Bonequinha de luxo<\/em>).<\/p>\n<p>\u201cEla estava plenamente satisfeita com o dia que teve\u201d ter\u00e1 muito mais for\u00e7a se escrito assim: \u201cEu, por mim, poderia partir deste mundo com o dia de hoje nos olhos\u201d (Truman Capote, em \u201cMem\u00f3ria de um Natal\u201d).<\/p>\n<p>O texto sedutor espera sempre pela interven\u00e7\u00e3o criativa do leitor, para que se desvie junto com ele. O texto liter\u00e1rio \u2014 e isso \u00e9 elogio, n\u00e3o cr\u00edtica \u2014 \u00e9 a \u201cm\u00e1quina pregui\u00e7osa\u201d (termo de Umberto Eco nos\u00a0<em>Seis passeios pelos bosques da fic\u00e7\u00e3o<\/em>), que precisa do trabalho do leitor (lembremo-nos outra vez: o escritor est\u00e1 aqui tamb\u00e9m). Por isso h\u00e1 di\u00e1logo: porque existe texto provocador, que n\u00e3o encerra significa\u00e7\u00e3o \u00fanica.<\/p>\n<p>[Uma inser\u00e7\u00e3o bem particular: lembro-me do fasc\u00ednio que senti ao ler S\u00e1bado, de Ian McEwan, quando o protagonista Henry Perowne, neurocirurgi\u00e3o renomado, passava de sala de cirurgia em sala de cirurgia realizando seus intrincados procedimentos neurol\u00f3gicos, que me convenceram admiravelmente, mesmo sabendo (ou talvez por isso mesmo) que o autor n\u00e3o entendia tanto do assunto quanto o personagem. Pode ser um pensamento de l\u00f3gica fr\u00e1gil, mas estou propenso a afirmar que muitas vezes o personagem sabe bem mais do que o autor, como foi o caso do neurocirurgi\u00e3o de McEwan. Nada de mistifica\u00e7\u00e3o aqui, apenas manuseio de linguagem.]<\/p>\n<p>\u00c9 por tudo isso que leitura e literatura s\u00e3o jogos de sedu\u00e7\u00e3o que n\u00e3o se realizam se n\u00e3o forem tecidos por falas inundadas de escuta. Convocam-nos para a simboliza\u00e7\u00e3o do real ou para deslocamentos e fissuras no universo simb\u00f3lico j\u00e1 instaurado. Ou ainda, nas palavras de Jacques Ranci\u00e8re, a arte (e, claro, tamb\u00e9m a literatura) consegue \u201cmodificar as balizas do que \u00e9 vis\u00edvel e enunci\u00e1vel e fazer ver o que n\u00e3o era visto (&#8230;) com o objetivo de produzir rupturas no tecido sens\u00edvel das percep\u00e7\u00f5es e na din\u00e2mica dos afetos\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Cezar Tridapalli<\/strong>\u00a0\u00e9 tradutor e escritor. Publicou os romances\u00a0<em>Pequena biografia de desejos<\/em>\u00a0e\u00a0<em>O beijo de Schiller<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O n\u00famero 11 da Revista Helena, publica\u00e7\u00e3o da Biblioteca P\u00fablica do Paran\u00e1, traz, entre outros, o extenso ensaio de Cezar [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":1979,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0},"categories":[36],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/cezartridapalli.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1977"}],"collection":[{"href":"https:\/\/cezartridapalli.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/cezartridapalli.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cezartridapalli.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cezartridapalli.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=1977"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/cezartridapalli.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1977\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2013,"href":"https:\/\/cezartridapalli.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1977\/revisions\/2013"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cezartridapalli.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/1979"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/cezartridapalli.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=1977"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/cezartridapalli.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=1977"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/cezartridapalli.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=1977"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}