{"id":1994,"date":"2019-08-26T17:46:45","date_gmt":"2019-08-26T17:46:45","guid":{"rendered":"http:\/\/cezartridapalli.com.br\/?p=1994"},"modified":"2019-08-26T17:46:45","modified_gmt":"2019-08-26T17:46:45","slug":"cezar-tridapalli-traduz-donatella-di-cesare","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cezartridapalli.com.br\/?p=1994","title":{"rendered":"Cezar Tridapalli traduz Donatella Di Cesare"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/cezartridapalli.com.br\/?attachment_id=1995\" rel=\"attachment wp-att-1995\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter\" src=\"https:\/\/cezartridapalli.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/Stranieri.jpg\" width=\"325\" height=\"516\" \/><\/a><\/p>\n<p>A editora \u00c2yin\u00e9 publica em breve no Brasil mais uma\u00a0obra da fil\u00f3sofa italiana Donatella Di Cesare,\u00a0<em>Stranieri residenti: una filosofia della migrazione<\/em>. O livro perpassa, com amplitude e profundidade, a migra\u00e7\u00e3o do ponto de vista da Filosofia, resgatando formas como o tema aparece desde a antiguidade at\u00e9 os tempos atuais. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 de Cezar Tridapalli. Abaixo, um pequeno excerto do livro, que deve sair ainda este ano:<\/p>\n<p><em>Assim, n\u00e3o se trata somente de uma lacuna insuper\u00e1vel, que, apesar de tudo, ainda permanece entre o \u201cn\u00f3s\u201d e o \u201cv\u00f3s\u201d. O que aprofunda o hiato, o que exp\u00f5e ainda mais a fratura, \u00e9 a massa indecifr\u00e1vel dos \u201cn\u00e3o-n\u00f3s\u201d a que o \u201celes\u201d \u00e9 condenado. Fazer para si uma imagem do outro n\u00e3o \u00e9 pouca coisa. J\u00e1 \u00e9 dif\u00edcil com familiares, amigos, conhecidos. Vale para os estranhos, sobretudo para os estrangeiros. A dor dos outros, mesmo quando \u00e9 evidente, flagrante, ineg\u00e1vel, pode ser ignorada por meio da indiferen\u00e7a. Pode-se chegar a caus\u00e1-la \u2013 como \u00e9 o caso da tortura<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>. A longa e complexa tradi\u00e7\u00e3o fenomenol\u00f3gico-hermen\u00eautica, que teve o m\u00e9rito de refletir sobre o \u201coutro\u201d, mostrou o pr\u00f3prio limite assumindo este outro como indiv\u00edduo<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>. A aten\u00e7\u00e3o est\u00e1 focada na sim-patia, na com-paix\u00e3o, em \u201ccolocar-se no lugar do outro\u201d, que muitas vezes \u00e9 considerado um processo imediato e instintivo. Nesse lugar do outro n\u00e3o se consegue jamais entrar e a pretens\u00e3o parece suspeita, porque remete a um sinal de apropria\u00e7\u00e3o. \u00c9 um erro, uma ilus\u00e3o, que recentemente encontrou na palavra m\u00e1gica \u201cempatia\u201d, retomada pelas ci\u00eancias cognitivas, uma nova credibilidade.<\/em><\/p>\n<p><em>Se n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel se colocar no lugar de um outro, h\u00e1 condi\u00e7\u00f5es de, pelo menos, imaginar a dor dos outros, o sofrimento, a ang\u00fastia, o tormento. O trabalho da imagina\u00e7\u00e3o, por\u00e9m, n\u00e3o \u00e9 facilitado pelas imagens correntes, que n\u00e3o revelam os contornos individuais, as caracter\u00edsticas e peculiaridades do indiv\u00edduo. A imagina\u00e7\u00e3o \u00e9 eclipsada pelo n\u00famero, inibida pela massa. Por um \u00e1timo o olhar se fixa sobre uma mulher que, vacilando, desce de um navio. Mas como experimentar alguma sensa\u00e7\u00e3o sem conhecer a hist\u00f3ria dela, sem saber nada dela? O exemplo contr\u00e1rio \u00e9 o da literatura, que transporta al\u00e9m de si, em dire\u00e7\u00e3o ao outro, mesmo que esse outro, como, por exemplo, Anna Karenina, seja fict\u00edcio. Os efeitos pol\u00edticos e \u00e9ticos da generaliza\u00e7\u00e3o s\u00e3o devastadores. Longe das palavras, acompanha-se uma sequ\u00eancia de imagens capazes apenas de bloquear a imagina\u00e7\u00e3o. Quanto mais o bloqueio se repete, mais se \u00e9 levado a identificar-se com o grande \u201cn\u00f3s\u201d, distanciando de si a massa dos m\u00faltiplos \u201celes\u201d. Em tal universo, reduzido \u00e0 fixidez do preto no branco, o \u00f3dio passa a existir.<\/em><\/p>\n<p><em>N\u00e3o \u00e9 um \u00f3dio natural e espont\u00e2neo. \u00c9 mais cultivado, nutrido, alimentado. Segue modelos, implica padr\u00f5es e caminhos: o gesto discriminat\u00f3rio, as ideias de humilha\u00e7\u00e3o, as palavras de zombaria. No centro do rancor coletivo est\u00e1 o indiv\u00edduo finalmente livre para odiar. Mas o \u00f3dio livre tem pouco a ver com a liberdade. Ser livre para odiar \u00e9 uma triste condena\u00e7\u00e3o. E \u00e9 ind\u00edcio de frustra\u00e7\u00e3o existencial, fanatismo identit\u00e1rio, impot\u00eancia pol\u00edtica. De um lado o \u201cn\u00f3s\u201d, de outro o \u201cn\u00e3o-n\u00f3s\u201d, obscuro e monstruoso, repugnante e detest\u00e1vel, culpado pelo \u201cnosso\u201d mal-estar \u2013 n\u00e3o importa como, n\u00e3o importa por qu\u00ea. Mas culpado.<\/em><\/p>\n<p>(&#8230;)<\/p>\n<p><em>\u201cN\u00f3s\u201d \u2013 \u201celes\u201d. Os pronomes n\u00e3o s\u00e3o indiferentes. Situam indiv\u00edduos e grupos na fala, delimitam seus pap\u00e9is, endere\u00e7am seu discurso. S\u00e3o as primeiras fronteiras marcantes, as lingu\u00edsticas. Estranhamente n\u00e3o foi ainda escrita uma filosofia dos pronomes<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[3]<\/a>.<\/em><\/p>\n<p><em>O que ent\u00e3o significa dizer \u201cn\u00f3s\u201d? O sentido \u00e9 ambivalente. \u201cN\u00f3s\u201d \u00e9 a primeira forma gramatical da comunidade. Deveria, portanto, incluir. No un\u00edssono do \u201cn\u00f3s\u201d parecem fundir-se o \u201ceu\u201d e o \u201ctu\u201d. N\u00e3o se pode neg\u00e1-lo. No entanto, o \u201cn\u00f3s\u201d tem sempre um tom amargo. Porque inclui ao mesmo tempo que exclui. O \u201cn\u00f3s\u201d remete implicitamente tamb\u00e9m ao \u201cv\u00f3s\u201d, que n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 o resultado de uma cis\u00e3o, mas j\u00e1 tem quase um acento b\u00e9lico. Para n\u00e3o falar do \u201celes\u201d, ou pior, do \u201caqueles\u201d. O que o \u201cn\u00f3s\u201d diferencia de si torna-se o \u201cv\u00f3s\u201d, que ainda tem uma dignidade pessoal, mesmo que marcada pela hostilidade; aquilo que, ao contr\u00e1rio, o \u201cn\u00f3s\u201d n\u00e3o pode alcan\u00e7ar, que n\u00e3o pode enxergar, uma vez que est\u00e1 fora de seu campo luminoso e sonoro, cai no obscuro e mudo \u201celes\u201d.<\/em><\/p>\n<p><em>Apenas pronunciado, o \u201cn\u00f3s\u201d trope\u00e7a o tempo todo nos pr\u00f3prios limites, no \u201cv\u00f3s\u201d que tem diante de si, no \u201celes\u201d que fica em segundo plano. Pode aspirar a incluir. Ou pode se fechar num espasmo identit\u00e1rio \u2013 at\u00e9 tornar-se um \u201cPrimeiro N\u00f3s!\u201d. Nesse caso, o \u201cn\u00f3s\u201d revela-se t\u00e3o pequeno e vazio que, para se sentir mais forte, precisa de um \u201cn\u00e3o-n\u00f3s\u201d. E quem melhor do que \u201cimigrados clandestinos\u201d para que o \u201cn\u00f3s\u201d adquira relev\u00e2ncia e visibilidade?<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Cf. SCARRY, E. \u201cDas schwierige Bild des Anderen\u201d, in BALKE, F., HABERMAS, R., NANZ, P. e SILLEM, P. (org.). <em>Schwierige Fremdheit. \u00dcber Integration und Ausgrenzung in Einwanderungsl\u00e4ndern<\/em>. Fischer, Frankfurt a. M. 1993, pp. 229-63; a respeito do tema, permit-me remeter DI CESARE, D. <em>Tortura<\/em>. Bollati Boringhieri, Torino, 2016.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Para uma vis\u00e3o de conjunto, pode-se tomar como refer\u00eancia THEUNISSEN, M. <em>Der Andere. <\/em><em>Studien zur Sozialontologie der Gegenwart<\/em>, de Gruyter, Berlin, 1977.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[3]<\/a> Passos importantes nessa dire\u00e7\u00e3o foram dados pelo grande fil\u00f3sofo da linguagem Wilhelm von Humboldt, cujas ideias foram retomadas por Franz Rosenzweig na sugestiva gram\u00e1tica teol\u00f3gico-pol\u00edtica inclu\u00edda em seu livro <em>La stella della redenzione<\/em>. Estas s\u00e3o as duas fontes preciosas, muitas vezes desconhecidas e negligenciadas, da reflex\u00e3o de Martin Buber sobre o \u201ctu\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A editora \u00c2yin\u00e9 publica em breve no Brasil mais uma\u00a0obra da fil\u00f3sofa italiana Donatella Di Cesare,\u00a0Stranieri residenti: una filosofia della [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":1995,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0},"categories":[31],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/cezartridapalli.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1994"}],"collection":[{"href":"https:\/\/cezartridapalli.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/cezartridapalli.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cezartridapalli.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cezartridapalli.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=1994"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/cezartridapalli.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1994\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1996,"href":"https:\/\/cezartridapalli.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1994\/revisions\/1996"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cezartridapalli.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/1995"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/cezartridapalli.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=1994"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/cezartridapalli.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=1994"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/cezartridapalli.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=1994"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}