{"id":2054,"date":"2020-01-28T19:05:30","date_gmt":"2020-01-28T19:05:30","guid":{"rendered":"http:\/\/cezartridapalli.com.br\/?p=2054"},"modified":"2023-02-19T02:26:56","modified_gmt":"2023-02-19T02:26:56","slug":"as-novas-urgencias-do-corpo-e-da-alma-entrevista-com-cezar-tridapalli","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cezartridapalli.com.br\/?p=2054","title":{"rendered":"&#8220;As novas urg\u00eancias do corpo e da alma&#8221;, entrevista com Cezar Tridapalli"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/cezartridapalli.com.br\/?attachment_id=2055\" rel=\"attachment wp-att-2055\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter\" src=\"https:\/\/cezartridapalli.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/Captura-de-Tela-2020-01-28-\u00e0s-15.55.13.png\" width=\"618\" height=\"547\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Entrevista para a\u00a0Revista Luminares, belo projeto do\u00a0<a class=\"profileLink\" title=\"Douglas Marques\" href=\"https:\/\/www.facebook.com\/douglas.marques87?__tn__=%2CdK-R-R&amp;eid=ARCFT4AuJC4gawpVUJd561QO9x_4BEqqwRObONEFG_1Aha8QriTsaLI0v-DBpMeKOLZk0NHG-vkFDJZu&amp;fref=mentions\" data-hovercard=\"\/ajax\/hovercard\/user.php?id=1580161628&amp;extragetparams=%7B%22__tn__%22%3A%22%2CdK-R-R%22%2C%22eid%22%3A%22ARCFT4AuJC4gawpVUJd561QO9x_4BEqqwRObONEFG_1Aha8QriTsaLI0v-DBpMeKOLZk0NHG-vkFDJZu%22%2C%22fref%22%3A%22mentions%22%7D\" data-hovercard-prefer-more-content-show=\"1\">Douglas Marques<\/a>, sobre o\u00a0romance <em>Vertigem do ch\u00e3o<\/em>\u00a0e outras coisas mais.<\/p>\n<div class=\"text_exposed_show\">\n<p>O conte\u00fado est\u00e1 integralmente abaixo. Caso queira l\u00ea-lo na fonte, basta <span style=\"color: #0000ff;\"><a style=\"color: #0000ff;\" href=\"https:\/\/revistaluminares.wordpress.com\/2020\/01\/20\/as-novas-urgencias-do-corpo-e-da-alma-entrevista-com-cezar-tridapalli\/\">clicar aqui<\/a><\/span>.<\/p>\n<\/div>\n<hr \/>\n<header class=\"entry-header\">\n<h1 class=\"entry-title\">As novas urg\u00eancias do corpo e da alma: uma entrevista com Cezar\u00a0Tridapalli<\/h1>\n<\/header>\n<div class=\"entry-content\">\n<p data-adtags-visited=\"true\">S\u00e9culo XXI: sob o jorro irrefre\u00e1vel de informa\u00e7\u00f5es, mal conseguimos captar a realidade imediata. As grandes quest\u00f5es de \u00e9pocas passadas d\u00e3o lugar a novas urg\u00eancias do corpo e da alma \u2013 identidade, sexualidade, cultura e territorialidade. Nada disso \u00e9 novo, mas a forma como se presentificam e habitam nosso imagin\u00e1rio n\u00e3o possui paralelo na experi\u00eancia humana. Somos constantemente inundados de Hist\u00f3ria.<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">\u00c9 preciso, portanto, um art\u00edfice habilidoso para transformar em fic\u00e7\u00e3o a multiplicidade de sintomas que vertem do cerne do nosso tempo. Nesse sentido, <em>Vertigem do ch\u00e3o<\/em> (editora Moinhos), romance mais recente de Cezar Tridapalli, n\u00e3o \u00e9 um livro monotem\u00e1tico. Em sua intrepidez narrativa, toca e vasculha a complexidade desse tempo.<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">Tomamos um caf\u00e9 com Cezar Tridapalli para falar sobre sua obra mais ousada e os di\u00e1logos poss\u00edveis com a contemporaneidade. O resultado voc\u00ea confere abaixo.<\/p>\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-249\" src=\"https:\/\/revistaluminares.files.wordpress.com\/2019\/11\/capa_vertigem_chao_4.png?w=683\" sizes=\"(max-width: 683px) 100vw, 683px\" srcset=\"https:\/\/revistaluminares.files.wordpress.com\/2019\/11\/capa_vertigem_chao_4.png?w=683 683w, https:\/\/revistaluminares.files.wordpress.com\/2019\/11\/capa_vertigem_chao_4.png?w=1366 1366w, https:\/\/revistaluminares.files.wordpress.com\/2019\/11\/capa_vertigem_chao_4.png?w=100 100w, https:\/\/revistaluminares.files.wordpress.com\/2019\/11\/capa_vertigem_chao_4.png?w=200 200w, https:\/\/revistaluminares.files.wordpress.com\/2019\/11\/capa_vertigem_chao_4.png?w=768 768w\" alt=\"\" data-attachment-id=\"249\" data-permalink=\"https:\/\/revistaluminares.wordpress.com\/capa_vertigem_chao_4\/\" data-orig-file=\"https:\/\/revistaluminares.files.wordpress.com\/2019\/11\/capa_vertigem_chao_4.png\" data-orig-size=\"1656,2481\" data-comments-opened=\"1\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"capa_vertigem_chao_4\" data-image-description=\"\" data-medium-file=\"https:\/\/revistaluminares.files.wordpress.com\/2019\/11\/capa_vertigem_chao_4.png?w=200\" data-large-file=\"https:\/\/revistaluminares.files.wordpress.com\/2019\/11\/capa_vertigem_chao_4.png?w=683\" \/><\/figure>\n<\/div>\n<p data-adtags-visited=\"true\"><strong>Recentemente, voc\u00ea traduziu um livro da Donatella Di Cesare que analisa a quest\u00e3o da imigra\u00e7\u00e3o. <em>Vertigem do Ch\u00e3o<\/em> tamb\u00e9m fala sobre deslocamentos. Como se deu o seu encontro com essa quest\u00e3o? <\/strong><\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">Foi curioso. O livro da Donatella foi traduzido neste ano.\u00a0J\u00e1 o <em>Vertigem do ch\u00e3o <\/em>eu comecei a escrever em 2014 e s\u00f3 terminei, depois de todas as revis\u00f5es, ap\u00f3s dois anos. Esse foi certamente o [meu livro] mais demorado, o mais lento. A confec\u00e7\u00e3o do livro, desde a primeira vers\u00e3o at\u00e9 chegar na oitava, levou mais de dois anos. Depois veio a tradu\u00e7\u00e3o da Donatella com o tema de estrangeiros residentes. Algumas outras coisas aconteceram tamb\u00e9m. Eu tinha o desejo de voltar a traduzir e s\u00f3 havia traduzido um livro h\u00e1 muito tempo. Estava querendo retomar isso. Comecei, meio que de brincadeira, a fazer umas legendas de aulas no Facebook.<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\"><strong>Qual foi o primeiro livro que voc\u00ea traduziu?<\/strong><\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">Chama-se <em>O fant\u00e1stico<\/em>. \u00c9 sobre literatura fant\u00e1stica, que foi o tema do meu mestrado. \u00c9 de um italiano (Remo Ceserani), que faleceu faz pouco tempo. Depois eu quis voltar [\u00e0 tradu\u00e7\u00e3o] e achei uns v\u00eddeos de psican\u00e1lise. Uma das legendagens que eu fiz foi para v\u00eddeos de um psicanalista italiano chamado Massimo Recalcati \u2013 quatro v\u00eddeos, quatro legendas. Um deles se chama \u201cFronteiras \u2013 o estrangeiro que bate a nossa porta\u201d, e Massimo fala das nossas fronteiras internas, aquela quest\u00e3o do estranho familiar, que o Freud j\u00e1 falava. Existe o estranho fora de n\u00f3s e existe o estranho dentro de n\u00f3s. Aquilo me chamou muito a aten\u00e7\u00e3o. A\u00ed comecei a fazer pontes com o livro que eu tinha escrito. Eu tamb\u00e9m sou diretor executivo do festival <a href=\"http:\/\/www.litercultura.com.br\/\">Litercultura<\/a>, e o tema da \u00faltima edi\u00e7\u00e3o foi \u201cFronteiras\u201d. N\u00f3s convidamos v\u00e1rios autores, de v\u00e1rios pa\u00edses, e eles tiveram que entregar um ensaio sobre o tema para formarmos um<a href=\"http:\/\/www.litercultura.com.br\/lancamento-do-livro-fronteiras-acontece-durante-a-abertura-do-litercultura-festival-literario-2019\/\"> livro<\/a>, e eu fiz a apresenta\u00e7\u00e3o. Esse foi outro exerc\u00edcio para pensar sobre o assunto. Mas o tema j\u00e1 me chamava a aten\u00e7\u00e3o de outras maneiras, por quest\u00f5es que envolviam o corpo, o territ\u00f3rio e a identidade, afinal de contas, nossa identidade \u00e9 constru\u00edda pelo olhar do outro, pela palavra do outro. Ent\u00e3o quando eu me mudo, quando idealizo um lugar distante onde ningu\u00e9m me conhece e eu n\u00e3o falo a l\u00edngua, o que resta? \u00c9 o caso de um brasileiro bailarino [personagem de <em>Vertigem do ch\u00e3o] <\/em>que idealiza a Holanda, e quando chega no real, o que que ele encontra? Ao mesmo tempo tem um personagem holand\u00eas, insatisfeito com uma s\u00e9rie de quest\u00f5es pessoais e pol\u00edticas, que idealiza o Brasil tamb\u00e9m \u2013 o Brasil do calor e do calor humano, todo esse estere\u00f3tipo. E, ent\u00e3o, ele cai nesta realidade aqui. Eu quis experimentar isso. Como esse deslocamento desterritorializa ou desenraiza o sujeito e como se d\u00e1 esse transplante. \u00c9 poss\u00edvel se replantar nessa outra terra?<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\"><strong>Ent\u00e3o sua rela\u00e7\u00e3o com a quest\u00e3o do deslocamento teve in\u00edcio com a escrita de <em>Vertigem do ch\u00e3o<\/em>. Pouco a pouco outras quest\u00f5es foram surgindo.<\/strong><\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">Fiz alguns ensaios nos meus primeiros livros. S\u00e3o livros bem curitibanos, em termos do espa\u00e7o descrito, mas arrisco um pouco. Tem um pouco da It\u00e1lia no <em>Pequena biografia de desejos<\/em>, um pouco da Fran\u00e7a e de Berlin em <em>O beijo de Schiller<\/em>, mas <em>Vertigem do ch\u00e3o<\/em> vai concomitantemente se passando em Curitiba e na Holanda.<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\"><strong>Voc\u00ea falou dos seus dois primeiros livros. Neles, como agora em <em>Vertigem do ch\u00e3o<\/em>, a categoria do desejo surge. Ela tamb\u00e9m \u00e9 muito importante para a psican\u00e1lise, da qual voc\u00ea \u00e9 um estudioso. A explora\u00e7\u00e3o desse t\u00f3pico \u00e9 deliberada? Ou simplesmente surge?<\/strong><\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">Eu fa\u00e7o esse reconhecimento <em>a posteriori<\/em>. N\u00e3o penso, <em>a priori<\/em>, \u201cvou falar sobre o desejo\u201d. O desejo como falta, que nunca se completa ou nunca se satisfaz, \u00e9 uma quest\u00e3o bem forte em livros meus. Eu fui pra psican\u00e1lise e a cereja do bolo foi um estudo que uma mestranda de Caxias do Sul fez de um conto meu. S\u00f3 a\u00ed fui perceber que esse tema existe de maneira muito forte nos romances e contos. A partir da\u00ed quis saber muito mais sobre psican\u00e1lise.<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\"><strong>A categoria do desejo j\u00e1 estava l\u00e1 antes mesmo de voc\u00ea ter contato com a psican\u00e1lise.<\/strong><\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">Sim. Hoje eu consigo elaborar melhor isso, falando nesses termos, embora <em>O fant\u00e1stico<\/em>, que eu traduzi, trouxesse muito de Freud, por exemplo.<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\"><strong>Voc\u00ea falou da escrita de <em>Vertigem do ch\u00e3o<\/em>, que come\u00e7ou em 2014 e se estendeu por mais de dois anos. Pode falar mais detalhadamente sobre esse processo?<\/strong><\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">Os dois primeiros romances eram circunscritos. Primeiro ao espa\u00e7o curitibano. O raio de rela\u00e7\u00f5es dos personagens era muito menor. Voc\u00ea tinha o protagonista e as pessoas com as quais ele se relacionava proximamente. J\u00e1 no <em>Vertigem do ch\u00e3o<\/em>, eu tive que fazer um deslocamento literal. Por exemplo, tive que ir pra Holanda, pois tive a ideia de escrever um livro em que metade dele se passava em Utrecht depois de estar l\u00e1 apenas um dia. Ent\u00e3o comecei a escrever baseado em mapas. No ver\u00e3o, eu voltei l\u00e1 e fiquei vinte dias, e no inverno tamb\u00e9m, mais uns vinte dias.<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\"><strong>Tem algum conhecimento de holand\u00eas?<\/strong><\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">N\u00e3o, nenhum. Mas tive a sorte de encontrar a Camie Van der Brug, que morava aqui e agora voltou para a Holanda. Pude consult\u00e1-la sobre o uso de alguns termos. Ela generosamente me ajudou e se ofereceu pra ler o livro todo, por isso o dedico a ela. O fato \u00e9 que tudo isso exigiu mais tempo. N\u00e3o s\u00f3 por isso, mas por toda a pesquisa, que foi muito maior. Nele, eu tamb\u00e9m falo de islamofobia. O que eu sabia disso? \u00c0 medida que eu ia pesquisando a Holanda, eu ia entrando nessas quest\u00f5es. Homofobia, islamofobia, xenofobia. Essas v\u00e1rias fobias sociais entram no livro. N\u00e3o de maneira did\u00e1tica nem panflet\u00e1ria. Eu n\u00e3o tomo defesa de uma posi\u00e7\u00e3o ou outra. Acho que isso n\u00e3o \u00e9 papel da literatura. Um ponto de vista que conduz o leitor para uma interpreta\u00e7\u00e3o \u00e9 v\u00e1lido para um ensaio, mas n\u00e3o para minha literatura.<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\"><strong>Tamb\u00e9m h\u00e1 uma quest\u00e3o de identidade de g\u00eanero no livro, com personagens homossexuais. Voc\u00ea est\u00e1 falando de identidade e alteridade o tempo inteiro.<\/strong><\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">A princ\u00edpio, quando eu crio um personagem homem n\u00e3o fico pensando na vida sexual desse homem. Com uma mulher \u00e9 a mesma coisa. S\u00e3o personagens homossexuais, mas n\u00e3o necessariamente para que eu possa explorar essa sexualidade. S\u00e3o pessoas e esse \u00e9 um elemento que as constitui.<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\"><strong>Quando voc\u00ea pensa em literatura contempor\u00e2nea e coloca personagens negros ou homossexuais, tende-se a esperar que isso seja explorado. Voc\u00ea acaba indo contra a corrente. \u00a0<\/strong><\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">Exatamente. O personagem \u00e9 uma pessoa que sonha, que odeia, que pode ser mal car\u00e1ter, que pode ter um bom car\u00e1ter. N\u00e3o vou dar spoiler, mas te digo que \u00e9 uma narrativa espelhada, paralela.<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\"><strong>O tema do deslocamento \u00e9 algo pouco explorado na literatura brasileira contempor\u00e2nea, especialmente ao se levar em conta que o mundo nunca teve tantas pessoas fora de seus lugares de origem como hoje. O Brasil parece um pouco alheio a essa realidade. Nesse sentido, <em>Vertigem do ch\u00e3o <\/em>preenche uma lacuna.<\/strong><\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">Eu espero que ele cumpra o papel de ser uma voz a pensar essa quest\u00e3o contempor\u00e2nea t\u00e3o premente. Crise migrat\u00f3ria, desde o in\u00edcio da hist\u00f3ria da humanidade, sempre teve. Mas hoje, com a globaliza\u00e7\u00e3o da mercadoria, \u00e9 outra coisa. \u00c9 algo bem forte. \u00c9 curioso, porque eu, como curitibano, n\u00e3o abandonei Curitiba, mas queria tentar enxergar minha pr\u00f3pria cidade com um olhar estrangeiro. De tanto ver, de tanto morar aqui, a coisa se amortece. A gente n\u00e3o tem mais um frescor no olhar. Ent\u00e3o como \u00e9 olhar o seu espa\u00e7o com olhos estrangeiros? E, ao mesmo tempo, no personagem brasileiro que vai para a Holanda, pergunto: como \u00e9 conhecer um lugar totalmente diferente? \u00c9 uma cultura diferente, com seus conflitos, muito diversa da dos brasileiros. Eles t\u00eam uma crise migrat\u00f3ria, t\u00eam uma leva de marroquinos que sofrem com o preconceito. H\u00e1, de fato, fan\u00e1ticos \u2013 tempos depois que escrevi o livro, uma bomba estourou numa esta\u00e7\u00e3o de Utrecht. O trineto do Van Gogh fez um filme sobre a situa\u00e7\u00e3o da mulher isl\u00e2mica e foi assassinado. Ao mesmo tempo, aqui tamb\u00e9m tivemos aquela leva de Haitianos. Tem um personagem haitiano no livro, e tem personagens marroquinos, turcos, portugueses etc nos dois eixos da narrativa. \u00c9 como uma Babel. Tanto que o personagem brasileiro visita um museu, na Holanda, e v\u00ea a Torre de Babel, pintura de Bruegel. H\u00e1 uma passagem do livro em que o brasileiro, em sua viagem de avi\u00e3o, vai abandoando o Brasil aos poucos: ele chega em Portugal, que ainda fala portugu\u00eas, depois atravessa a Espanha, a Fran\u00e7a, a B\u00e9lgica \u2013 e a\u00ed o portugu\u00eas vai sumindo. Acho que \u00e9 uma imagem bonita.<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\"><strong>O fil\u00f3sofo Mikhail Bakthin trabalha com a ideia de olhar exot\u00f3pico, que fala justamente sobre o olhar do outro sobre mim e o que ele diz a meu respeito. Em outras palavras, o olhar exot\u00f3pico devolve a mim aquilo que eu mesmo n\u00e3o posso ver, pois n\u00e3o tenho acesso a tudo que sou, \u00e0 forma como o outro me v\u00ea. Nesse sentido, pergunto: como voc\u00ea construiu esse olhar estrangeiro em rela\u00e7\u00e3o a Curitiba?<\/strong><\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">Eu li bastante. Entrevista de jornal, artigos, livros te\u00f3ricos. Quando comecei a escrever o livro eu tinha cerca de 200 notas tomadas sobre v\u00e1rios temas. Eu as organizei por se\u00e7\u00f5es. Quando fui pra Holanda, continuei com as anota\u00e7\u00f5es durante o processo de escrita. Terminei com 600 notas. Outro motivo pelo qual o livro demorou tanto para ser escrito. E quanto maior o livro, maior a revis\u00e3o.<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\"><strong>\u00c9 o seu livro mais longo<\/strong>.<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">\u00c9. O livro saiu com 296 p\u00e1ginas, se n\u00e3o me engano. Nos outros a pesquisa foi pela alma humana, os conflitos internos, pessoais. Agora, quando voc\u00ea vai pesquisar um pa\u00eds que voc\u00ea n\u00e3o conhece \u00e9 outra hist\u00f3ria. Voc\u00ea entra em quest\u00f5es muito delicadas sem necessariamente se tornar um especialista.<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\"><strong>Voc\u00ea citou a Torre de Babel, de Bruegel. Sabemos que voc\u00ea tem uma proximidade com a arte, de modo geral, e com a pintura, principalmente. O aspecto visual influencia na maneira como voc\u00ea escreve?<\/strong><\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">Em <em>O beijo de Schiller<\/em> j\u00e1 havia um quadro bem importante para a narrativa, no qual Santa Irene est\u00e1 ajudando S\u00e3o Sebasti\u00e3o depois que ele foi atravessado por flechas. \u00c9 ao mesmo tempo sagrado e profano, a paix\u00e3o do sofrimento e a paix\u00e3o er\u00f3tica. No <em>Vertigem do ch\u00e3o<\/em> eu fiz quest\u00e3o de criar cenas em que o personagem brasileiro visitasse museus. A\u00ed foi um pepino (risos) porque muitas obras funcionariam como ganchos, e eu n\u00e3o queria algo artificial. Acho que eu consegui fazer uma emenda boa, em que os quadros aparecem de maneira org\u00e2nica. Sou professor de experi\u00eancia est\u00e9tica, mas meu estudo de artes visuais \u00e9 diletante. Eu n\u00e3o tenho forma\u00e7\u00e3o nisso, mas gosto muito.<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\"><strong>O romance \u00e9 o principal formato no qual voc\u00ea trabalha, mas j\u00e1 escreveu contos tamb\u00e9m.<\/strong><\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">Sim. Os contos que eu tenho n\u00e3o dariam um livro.<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\"><strong>Por que o romance \u00e9 o formato que voc\u00ea escolheu para trabalhar?<\/strong><\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">Quando eu come\u00e7o a escrever um conto, come\u00e7o a pensar em desdobramentos. Eu n\u00e3o possuo poder de concis\u00e3o, que \u00e9 uma qualidade do conto. No romance voc\u00ea tem um campo grande, sem limita\u00e7\u00e3o de espa\u00e7o, ent\u00e3o voc\u00ea consegue explorar mais, para o bem e para o mal. Ele tem caracter\u00edsticas e especificidades pr\u00f3prias. \u00c9 preciso ter uma disciplina autoimposta, afinal voc\u00ea n\u00e3o tem patr\u00e3o, n\u00e3o bate ponto. Impor essa disciplina \u00e9 fundamental.<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\"><strong>O que te faz querer escrever romances? Para que escrever?<\/strong><\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">Tem v\u00e1rias respostas, das mais vaidosas \u00e0s mais psicanal\u00edticas. \u00c9 uma grande mistura de coisas, talvez pela minha estrutura neur\u00f3tica obsessiva, de pensar muito, sempre me contra-argumentando. Sempre que tenho uma convic\u00e7\u00e3o muito forte eu preciso contra-argumentar para ver se ela se confirma ou desmorona. Isso me ajuda na constru\u00e7\u00e3o dos personagens, para criar v\u00e1rias vozes e para que n\u00e3o haja uma voz preponderante, que vai ditar uma verdade. <em>O beijo de Schiller <\/em>tem v\u00e1rios di\u00e1logos entre o personagem principal e a mulher \u2013 sobre religi\u00e3o, sobre Deus, sobre muita coisa. Claro que sempre pensando na t\u00e9cnica liter\u00e1ria tamb\u00e9m. Existe a cren\u00e7a de que a literatura \u00e9 express\u00e3o de sentimentos. \u00c9. Mas existe algo posterior \u00e0 essa express\u00e3o, que \u00e9 a linguagem. Se voc\u00ea pega os grandes cl\u00e1ssicos da literatura e espreme ver\u00e1 que muitas vezes as hist\u00f3ria s\u00e3o simples, frequentemente sobre rela\u00e7\u00f5es amorosas. \u00c9 mais interessante uma hist\u00f3ria qualquer muito bem contada do que uma hist\u00f3ria excelente, mas mal contada. Literatura se faz de linguagem, que precisa ser trabalhada e poder levar para o leitor uma fissura no seu universo simb\u00f3lico. Se ele ler s\u00f3 clich\u00eas, frases feitas, que tipo de novidade voc\u00ea vai levar para ele?<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\"><strong>Vamos nos encaminhando para o fim. Qual foi a \u00faltima leitura que lhe causou uma forte impress\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">Eu gosto muito de Dostoievski, dos cl\u00e1ssicos. Estou lendo <em>O duplo<\/em> e achando muito interessante a maneira como o personagem encontra a si mesmo. Outro que terminei h\u00e1 algum tempo foi o <em>M\u00e1quinas como eu<\/em>, do Ian McEwan. Ele sempre me choca muito, tem a qualidade de te deixar de boca aberta. Nesse livro ele constr\u00f3i devagar a narrativa. O final me impactou muito, a forma como prop\u00f5e pensar no futuro e na cibern\u00e9tica, mesmo se passando na d\u00e9cada de 80, na Inglaterra.<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\"><strong>H\u00e1 algo que voc\u00ea queira comentar?<\/strong><\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">Tenho uma expectativa em rela\u00e7\u00e3o ao <em>Vertigem do ch\u00e3o<\/em>. \u00c9 meu livro mais ousado, estou satisfeito com o resultado. Como eu terminei em 2017, faz muito tempo que eu n\u00e3o o leio (risos).<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\"><strong>Est\u00e1 trabalhando em alguma coisa nova?<\/strong><\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">Eu tenho uma primeira vers\u00e3o de outro livro escrito, que \u00e9 o menor dos quatro, mas ainda n\u00e3o trabalhei em nenhuma revis\u00e3o. \u00c9 um livro pesado, toca em umas quest\u00f5es pesadas. Sumiu o humor nesse (risos).<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; &nbsp; Entrevista para a\u00a0Revista Luminares, belo projeto do\u00a0Douglas Marques, sobre o\u00a0romance Vertigem do ch\u00e3o\u00a0e outras coisas mais. O conte\u00fado [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":2055,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0},"categories":[61],"tags":[15,16,40],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/cezartridapalli.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2054"}],"collection":[{"href":"https:\/\/cezartridapalli.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/cezartridapalli.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cezartridapalli.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cezartridapalli.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=2054"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/cezartridapalli.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2054\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2056,"href":"https:\/\/cezartridapalli.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2054\/revisions\/2056"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cezartridapalli.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/2055"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/cezartridapalli.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=2054"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/cezartridapalli.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=2054"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/cezartridapalli.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=2054"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}