{"id":2062,"date":"2020-02-07T12:24:17","date_gmt":"2020-02-07T12:24:17","guid":{"rendered":"http:\/\/cezartridapalli.com.br\/?p=2062"},"modified":"2023-02-19T02:26:36","modified_gmt":"2023-02-19T02:26:36","slug":"corpos-em-transito-vidas-em-transe-o-novo-romance-de-cezar-tridapalli","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cezartridapalli.com.br\/?p=2062","title":{"rendered":"Corpos em tr\u00e2nsito, vidas em transe: o novo romance de Cezar Tridapalli"},"content":{"rendered":"<div class=\"container\">\n<p>RESENHANDO<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"container\">\n<div class=\"row\">\n<section id=\"main-content\" class=\"main-content col-lg-8 col-md-12 col-sm-12\">\n<div class=\"theiaStickySidebar\" style=\"text-align: center;\">\n<article id=\"article-content\" class=\"article__content\">\n<header class=\"container\">\n<div class=\"heading\">\n<h1 style=\"text-align: left;\">Corpos em tr\u00e2nsito, vidas em transe: o novo romance de Cezar Tridapalli<\/h1>\n<\/div>\n<figure class=\"legended\">\n<div class=\"img-responsive\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/uploads.bemparana.com.br\/upload\/image\/blogpost\/blogpost_594624_img1_vertigens.jpg\" alt=\"\" \/><\/div><figcaption class=\"c-article_figcaption\">(Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o)<\/figcaption><\/figure>\n<\/header>\n<div class=\"container\">\n<div class=\"row\">\n<div class=\"content col-lg-12 col-md-12 col-sm-12 col-xs-12\">\n<div class=\"share-buttons addthis_toolbox horizontal\">\u00a0<span style=\"color: #ffffff;\">&#8211;<\/span><\/div>\n<div class=\"by-line \" style=\"text-align: left;\"><span class=\"published-date\">Por\u00a0<\/span><span class=\"author\">Otto Leopoldo Winck, publicado originalmente no blog Quase Cr\u00edtica, do Portal Bem Paran\u00e1. <\/span><\/div>\n<div class=\"by-line \" style=\"text-align: left;\"><span class=\"author\"><span style=\"color: #000080;\"><a style=\"color: #000080;\" href=\"https:\/\/bit.ly\/38hcye8\">Clique aqui para ler\u00a0no ve\u00edculo original<\/a><\/span>.<\/span><\/div>\n<div class=\"by-line \" style=\"text-align: left;\"><span style=\"color: #ffffff;\">&#8211;<\/span><\/div>\n<div id=\"corpo\">\n<p style=\"text-align: left;\">Parece-me que a prosa, da parte do escritor, convida a um certo desleixo, ao automatismo verbal, a trilhar sempre o velho e conhecido caminho: no caso, uma escrita relativamente fluida, relativamente transparente, relativamente insossa. Por que reinventar a roda se o leitor, mesmo o leitor sofisticado, ao fim e ao cabo est\u00e1 interessado mais no desenlace da trama? Por outro lado, h\u00e1 quem desconstrua a prosa, convertendo-a num suced\u00e2neo da poesia, e em poesia herm\u00e9tica. Felizmente s\u00e3o poucos, mas como nem todos s\u00e3o Joyces ou Guimar\u00e3es Rosa, o resultado \u00e9 uma prosa espessa, mas n\u00e3o densa, cujo esfor\u00e7o de percorr\u00ea-la n\u00e3o vale as eventuais pepitas encontradas.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">O curitibano Cezar Tridapalli consegue escapar dessas duas armadilhas. Em seu terceiro romance, Vertigem do ch\u00e3o (Editora Moinhos, 2019), encontramos novamente as virtudes j\u00e1 vis\u00edveis em Pequena biografia de desejos (2011) e O beijo de Schiller (2014): a prosa bem elaborada e uma hist\u00f3ria bem costurada. S\u00f3 que aqui estas qualidades alcan\u00e7am um novo patamar de realiza\u00e7\u00e3o. Com efeito, tanto em termos tem\u00e1ticos quanto formais \u00e9 um romance ousado e muito bem-acabado. A linguagem, sem derrapar nos excessos da prosa po\u00e9tica, foge aos lugares comuns de boa parte das narrativas contempor\u00e2neas (h\u00e1 escritor que acha que ser moderno \u00e9 escrever mal). E o enredo \u00e9 muito bem estruturado, funcionando como engrenagens devidamente azeitadas dentro de um maquin\u00e1rio exato.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">A hist\u00f3ria gira em torno de dois protagonistas que s\u00e3o como que ant\u00edpodas e s\u00f3 se encontram acidentalmente no final do livro: o holand\u00eas Stefan Bisschop e o brasileiro Leonel da Silva. Ambos ent\u00e3o com cerca de 30 anos, o primeiro \u00e9 atleta, obcecado com o condicionamento f\u00edsico; o segundo \u00e9 dan\u00e7arino. Detalhe: os dois s\u00e3o gays mais ou menos bem resolvidos, n\u00e3o obstante os traumas de Leonel com um pai homof\u00f3bico.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Stefan, de Utrecht, a quarenta minutos de Amsterd\u00e3, teve o namorado assassinado por um radical isl\u00e2mico e at\u00e9 para buscar novos ares acaba vindo para Curitiba, numa \u00e9poca (Copa do Mundo e Olimp\u00edadas) em que o Brasil estava bombando. Leonel, por sua vez, resolve sair do Brasil porque de uma forma meio vaga est\u00e1 cansado de sua vida no pa\u00eds. No Brasil, Stefan vai trabalhar numa academia de elite e fica amigo de um outro imigrante: o haitiano Desimond, pobre e preto. Em Utrecht, Leonel divide uma resid\u00eancia com Fadilah, igualmente imigrante, marroquina, professora universit\u00e1ria, l\u00e9sbica e mu\u00e7ulmana, algu\u00e9m que tenta conciliar a fidelidade \u00e0s ra\u00edzes com a toler\u00e2ncia da sociedade ocidental moderna. Acontece que a ultraliberal Holanda j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 mais uma ilha de inclus\u00e3o: o ex-namorado de Stefan, por exemplo, militava em movimentos de direita que, com a bandeira de salvaguardar as conquistas da modernidade, combatia a imigra\u00e7\u00e3o sobretudo isl\u00e2mica.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Assim, se Stefan vai sofrer o preconceito de um Brasil que nunca deixou de ser homof\u00f3bico, Leonel ser\u00e1 v\u00edtima de xenofobia numa sociedade que n\u00e3o se escandaliza diante de um beijo gay, desde que n\u00e3o seja interracial&#8230; \u00c9 com esse cen\u00e1rio de encontros e confrontos de identidades desterritorializadas que se desenrola a hist\u00f3ria: corpos estranhos em tr\u00e2nsito e em transe por um mundo globalizado que se estranha. A onda reacion\u00e1ria que ora engolfa o Brasil, trazendo \u00e0 tona espectros que se julgavam superados, \u00e9 um fen\u00f4meno global, que apenas se adapta \u00e0s idiossincrasias de cada pa\u00eds.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Al\u00e9m desse tema atual\u00edssimo, o que chama aten\u00e7\u00e3o no romance de Tridapalli s\u00e3o os procedimentos narrativos: as duas hist\u00f3rias s\u00e3o contadas simultaneamente, mas em vez do m\u00e9todo mais costumeiro de alternar o foco narrativo em cap\u00edtulos ou par\u00e1grafos, aqui a mudan\u00e7a se d\u00e1, com cortes secos, no interior do mesmo par\u00e1grafo, o que exige um leitor extremamente atento. Mas vale a pena esse empenho: da linguagem que foge aos clich\u00eas aos enquadramentos quase cinematogr\u00e1ficos, estamos diante de um bel\u00edssimo e doloroso romance \u2013 um dos melhores lan\u00e7ados no melanc\u00f3lico ano que se findou.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><strong>Otto Leopoldo Winck<\/strong> \u00e9 poeta e romancista, autor de <em>Que fim levaram todas as flores<\/em>, lan\u00e7ado em 2019 pela Kotter editorial.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/article>\n<\/div>\n<\/section>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>RESENHANDO Corpos em tr\u00e2nsito, vidas em transe: o novo romance de Cezar Tridapalli (Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o) \u00a0&#8211; Por\u00a0Otto Leopoldo Winck, publicado [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":2064,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0},"categories":[61],"tags":[15,16,40],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/cezartridapalli.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2062"}],"collection":[{"href":"https:\/\/cezartridapalli.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/cezartridapalli.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cezartridapalli.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cezartridapalli.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=2062"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/cezartridapalli.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2062\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2068,"href":"https:\/\/cezartridapalli.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2062\/revisions\/2068"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cezartridapalli.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/2064"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/cezartridapalli.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=2062"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/cezartridapalli.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=2062"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/cezartridapalli.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=2062"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}