{"id":2092,"date":"2020-06-08T17:36:39","date_gmt":"2020-06-08T17:36:39","guid":{"rendered":"http:\/\/cezartridapalli.com.br\/?p=2092"},"modified":"2023-02-19T02:25:42","modified_gmt":"2023-02-19T02:25:42","slug":"revista-continente-cezar-tridapalli-da-a-luz-obra-corajosa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cezartridapalli.com.br\/?p=2092","title":{"rendered":"Revista Continente: &#8216;Cezar Tridapalli d\u00e1 \u00e0 luz obra corajosa&#8217;"},"content":{"rendered":"<p>A revista pernambucana de cultura <span style=\"text-decoration: underline;\"><span style=\"color: #0000ff; text-decoration: underline;\"><a style=\"color: #0000ff; text-decoration: underline;\" href=\"https:\/\/www.revistacontinente.com.br\/\">Continente<\/a><\/span><\/span> traz extensa an\u00e1lise de\u00a0<em>Vertigem do ch\u00e3o<\/em>, escrita pelo\u00a0escritor ga\u00facho Reginaldo Pujol Filho. Trata-se de uma das an\u00e1lises mais exaustivas acerca do romance. Abaixo, o texto na \u00edntegra, cujo <span style=\"text-decoration: underline;\"><span style=\"color: #0000ff; text-decoration: underline;\"><a style=\"color: #0000ff; text-decoration: underline;\" href=\"https:\/\/www.revistacontinente.com.br\/edicoes\/234\/dois-personagens-e-dois-percursos-em--vertigem-do-chao-\">original pode ser lido aqui<\/a><\/span><\/span>.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div class=\"matler-header\">\n<p class=\"matler-header-category border-left\"><a href=\"https:\/\/www.revistacontinente.com.br\/secoes\/critica\">CR\u00cdTICA<\/a><\/p>\n<div class=\"matler-header-container\">\n<h1 class=\"matler-header-title\">DOIS PERSONAGENS E DOIS PERCURSOS EM &#8216;VERTIGEM DO CH\u00c3O&#8217;<\/h1>\n<h2 class=\"matler-header-subtitle\">Cezar Tridapalli d\u00e1 \u00e0 luz obra corajosa, que narra dois percursos em duas vidas<\/h2>\n<p>TEXTO\u00a0<strong>REGINALDO PUJOL FILHO<\/strong><\/p>\n<p class=\"matler-header-data\">29 DE MAIO DE 2020<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<figure class=\"matler-img\"><\/figure>\n<div class=\"matler-content\">\n<div class=\"matler-img-cap\">\n<p>O escritor Cezar Tridapalli \u00e9 autor tamb\u00e9m de &#8216;Pequena biografia de desejos&#8217; e &#8216;O beijo de Schiller&#8217;<\/p>\n<div class=\"figure aligncenter\" style=\"width:1053px;\"><a href=\"https:\/\/cezartridapalli.com.br\/?attachment_id=2095\" rel=\"attachment wp-att-2095\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/cezartridapalli.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Captura-de-Tela-2020-06-08-\u00e0s-14.28.38.png\" alt=\"\" width=\"1053\" height=\"973\" \/><\/a><div>FOTO\u00a0\u00c1GATA SCHMITT\/DIVULGA\u00c7\u00c3O<\/div><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"matler-text\">\n<p><strong>[conte\u00fado na \u00edntegra |\u00a0<a href=\"https:\/\/www.revistacontinente.com.br\/edicoes\/233\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">ed.\u00a0234<\/a>\u00a0|\u00a0junho de 2020]<br \/>\n<\/strong><br \/>\n<a href=\"http:\/\/www.revistacontinente.com.br\/assine\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><strong>contribua com o jornalismo de qualidade<\/strong><\/a><\/p>\n<p><strong>1) Numa \u00e9poca<\/strong>\u00a0em que a morte do autor passa longe de ser unanimidade e se veem tantos livros exercitando um realismo baseado n\u00e3o exatamente no esfor\u00e7o mim\u00e9tico, mas na verdade ou autenticidade entre o que \u00e9 narrado e quem escreve o que \u00e9 narrado,\u00a0<em>Vertigem do ch\u00e3o,\u00a0<\/em>de Cezar Tridapalli, surge como ponto fora dessa curva. Neste cen\u00e1rio que tem evidenciado obras depoimento, testemunho ou que fazem enfrentamentos frontais de realidades de autoras e autores \u2013 algo que responde a uma urg\u00eancia de nossos tempos, vozes e experi\u00eancias in\u00e9ditas abrindo espa\u00e7o, multiplicando perspectivas, discursos \u2013, Tridapalli arrisca-se num movimento lateral.<\/p>\n<p>Modo diferente de se expor: exponho-me n\u00e3o ao desnudar o que vivi, mas ao imaginar outros t\u00e3o distintos e distantes de mim. \u00c9 o jogo perigoso a que ele se disp\u00f5e e exp\u00f5e ao narrar dois percursos, talvez dois par\u00eanteses, em duas vidas: recortes de seis meses da vida de Leonel, dan\u00e7arino contempor\u00e2neo,\u00a0<em>gay<\/em>, mesti\u00e7o, que vai de Curitiba a Utrecht em busca da realiza\u00e7\u00e3o como artista; e os mesmos seis meses de Stefan, corredor e professor de educa\u00e7\u00e3o f\u00edsica,\u00a0<em>gay<\/em>, que vai de Utrecht a Curitiba para fugir de um trauma. O investimento nesses protagonistas e no entorno que os envolve e tamb\u00e9m expele (a amizade de Stefan com o seguran\u00e7a haitiano Desimond; a de Leonel com a professora marroquina Fadilah, entre tantos encontros e mem\u00f3rias) exige exercitar pontos de vista, linguagens, vis\u00f5es de mundo muito distintas entre si \u2013 e, imagino, do pr\u00f3prio autor.<\/p>\n<p>Ao contrapor discursos e olhares \u2013 em geral muito cr\u00edveis \u2013 sem adotar explicitamente um ou outro,\u00a0<em>Vertigem do ch\u00e3o<\/em>\u00a0nos desloca constantemente e oferece lentes alternativas para o que passa no livro e fora dele. Evidente: n\u00e3o \u00e9 novidade o que faz Tridapalli, mas tem gosto de diferente no cen\u00e1rio atual. Usar literatura, fic\u00e7\u00e3o, imagina\u00e7\u00e3o (e pesquisa, parece haver muita pesquisa na obra) para investigar e tentar sentir outros: corpos, espa\u00e7os, tempos, modos de pensar, estar e ver o mundo. Fazer fic\u00e7\u00e3o e com ela oferecer perspectivas sobre a realidade, assumindo todos os riscos da eterna utopia de tentar colocar-se, mesmo que parcialmente, sob outras peles. Mas fosse essa a marca de\u00a0<em>Vertigem do ch\u00e3o<\/em>\u00a0e talvez eu n\u00e3o estivesse falando dele aqui.<\/p>\n<p><strong>2)<\/strong>\u00a0Interessante notar que a multiplicidade da obra n\u00e3o se d\u00e1 atrav\u00e9s de um mosaico de narradores. Surge numa costura delicada, discurso indireto livre, a voz condutora que se multifaceta orquestrando uma profus\u00e3o de vozes. Em vez de um autor regendo v\u00e1rios narradores, uma esp\u00e9cie de narrador homem-banda ou DJ que vai de uma voz \u00e0 outra ao sabor da narra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Assim como os personagens est\u00e3o em tr\u00e2nsito (de um pa\u00eds a outro, uma realidade a outra, nos mapas das cidades profundamente explorados no texto), transitamos n\u00f3s por diversas consci\u00eancias, \u00e0s vezes com tal sutileza que podemos n\u00e3o perceber o fluir de uma voz a outra, de uma gram\u00e1tica pessoal a outra. Mas est\u00e1 l\u00e1, no \u201cpiaz\u00e3o\u201d surgido numa frase, o emergir da fala curitibana.<\/p>\n<p>E \u201cuma arte n\u00e3o hier\u00e1rquica, todos os membros atores e autores, (&#8230;) n\u00e3o ao virtuosismo t\u00e9cnico e sim \u00e0s quest\u00f5es suscitadas e resolvidas no pr\u00f3prio corpo\u201d evidencia o jarg\u00e3o das artes conceituais e perform\u00e1ticas. Discurso conceitual que pode fluir para \u201cTanto tempo maldizendo o p\u00e9 pronado \u2013 anos fortalecendo o m\u00fasculo vasto medial obl\u00edquo para estabilizar a patela da regi\u00e3o medial da coxa\u201d e a objetividade da prepara\u00e7\u00e3o f\u00edsica, ou para trechos que marcam o pensamento do conservadorismo e racismo holand\u00eas, ou o conflito da desenraizada professora mu\u00e7ulmana, ou a homofobia reinante entre machos alfa brasileiros. Talvez possa se dizer que Tridapalli transita por linguagens para nos oferecer o estranhamento do deslocamento que seus personagens experimentam n\u00e3o s\u00f3 entre lugares, mas entre euforia, medo, ansiedade e desencanto.<\/p>\n<p><strong>3)<\/strong>\u00a0N\u00e3o h\u00e1 s\u00f3 uma met\u00e1fora poss\u00edvel em\u00a0<em>Vertigem do ch\u00e3o.\u00a0<\/em>Deslocamento, sim, \u00e9 uma delas. Pode-se dizer que o livro \u00e9 uma transi\u00e7\u00e3o. Passagem entre dois momentos dos protagonistas.<\/p>\n<p>Mas h\u00e1 tamb\u00e9m o corpo. F\u00edsico e simb\u00f3lico. N\u00e3o \u00e0 toa, os protagonistas vivem intensamente seus corpos na dan\u00e7a e na pr\u00e1tica da corrida. Dualidade na rela\u00e7\u00e3o com o corpo que j\u00e1 nos oferece duas leituras: Leonel reflete incessantemente, investiga \u201co prazer de entender o corpo na dan\u00e7a como a um s\u00f3 tempo objeto e sujeito\u201d. O corpo de Leonel: subjetividade, espa\u00e7o de improviso e descoberta. J\u00e1 Stefan tem no corpo a m\u00e1quina sempre em aperfei\u00e7oamento. O corpo tem fun\u00e7\u00e3o: percorrer e chegar com efici\u00eancia, \u201cse algo podia estragar o humor de Stefan durante uma corrida, era o sinal de GPS perdido. Ca\u00eda por terra a exatid\u00e3o das dist\u00e2ncias e com ela o\u00a0<em>pace\u201d.<\/em><\/p>\n<p>Corpo, por\u00e9m, \u00e9 met\u00e1fora ampla: fala de todos n\u00f3s. Leonel est\u00e1 em um museu de Utrecht com Fadilah.<\/p>\n<p>Discutem imigra\u00e7\u00e3o, fechamento de fronteira, recha\u00e7o ao imigrante. Ela diz que \u201cse o prefeito fosse mesmo t\u00e3o iluminista, poderia, a rigor, perguntar quem disse que o mundo sempre teve fronteiras. T\u00e3o iluministas que eram os holandeses, por que n\u00e3o faziam valer o pensamento de Rousseau, que amaldi\u00e7oou o primeiro sujeito que p\u00f4s uma cerca em volta de um peda\u00e7o de terra\u201d.<\/p>\n<p>Fronteira: muro, parede, cerca<em>.\u00a0<\/em>Fronteiras f\u00edsicas e mentais. O corpo como fronteira \u00e9 imagem que se refor\u00e7a nessa leitura. Cada corpo vai revelando pequenas cercas, defesas, discretos n\u00e3o ultrapasse: Leonel e a vergonha da cicatriz provocada pelo pai homof\u00f3bico; Stefan e o p\u00e2nico e a depress\u00e3o; e os preconceitos \u2013 a mente faz parte do corpo, n\u00e3o est\u00e1 fora dele \u2013 que escapam personagem a personagem. O corpo que \u00e9 cerca e afasta, igualmente nos aprisiona em pequenas ideias. Corpos como fronteiras, como cercados que nos impedem de sair na dire\u00e7\u00e3o do outro, do estranho. Reconhecer meu corpo diferente do outro \u00e9 fonte inesgot\u00e1vel de discrimina\u00e7\u00e3o, injusti\u00e7a e opress\u00e3o (de brancos com negros, europeus com mu\u00e7ulmanos, migrantes de pa\u00edses desenvolvidos com migrantes de pa\u00edses perif\u00e9ricos, ricos com pobres) e de recha\u00e7os ao longo do livro. \u201cO corpo<strong>\u00a0\u2013<\/strong>\u00a0real, capaz de afetar outros corpos, perigoso.\u201d Cerca viva.<\/p>\n<p><strong>4)<\/strong>\u00a0\u201cO holand\u00eas Stefan Bisschop e o brasileiro Leonel da Silva est\u00e3o sentados no mesmo banco em frente ao chafariz de \u00e1guas desmaiadas da Pra\u00e7a Santos Andrade, no centro de Curitiba. A dist\u00e2ncia entre eles n\u00e3o pode ser medida em cent\u00edmetros. \u00c9 de seis meses.\u201d Entre tantas imagens e recursos t\u00e9cnicos que trazem pot\u00eancia narrativa e simb\u00f3lica para\u00a0<em>Vertigem do ch\u00e3o<\/em>, talvez o mais inquietante se anuncie nas linhas acima. \u00c9 o in\u00edcio do livro e j\u00e1 sugere uma rela\u00e7\u00e3o constante entre espa\u00e7o e tempo. O tempo assume fun\u00e7\u00e3o de espa\u00e7o no romance. O tempo \u00e9 um lugar desejado ou desprezado.<\/p>\n<p>H\u00e1 um jogo de espelhos invertidos entre Leonel e Stefan. Quase uma troca de lugares. Se, nas primeiras linhas de uma esp\u00e9cie de pr\u00f3logo-ep\u00edlogo (narra o in\u00edcio de uma das jornadas e o fim de outra sem apontar qual \u00e9 qual), lemos que os dois est\u00e3o separados por seis meses \u2013 tempo como r\u00e9gua \u2013; nos cap\u00edtulos seguintes, eles passam a viver em sincronia cronol\u00f3gica: quando Stefan parte da Holanda para o Brasil, Leonel parte do Brasil para a Holanda. Quando Stefan chega no\u00a0<em>hostel<\/em>\u00a0em Curitiba, Leonel chega \u00e0 casa que o abrigar\u00e1 em Utrecht. Concomitantemente, por\u00e9m, em diferentes fusos e momentos. Mas o ponto central \u00e9: ao viajarem, n\u00e3o est\u00e3o deixando um pa\u00eds, uma cidade. Querem \u00e9 sair de um tempo: do presente e do passado onde se sentem estrangeiros. \u201cO futuro era o \u00fanico lugar poss\u00edvel para a fuga.\u201d Embora a 10 mil quil\u00f4metros um do outro, dividem um espa\u00e7o cuja mat\u00e9ria s\u00e3o os segundos, minutos, dias.<\/p>\n<p>Essa estrutura de tempo compartilhado entre personagens em latitudes diferentes traz um desafio para a escrita de Tridapalli: narrar a simultaneidade. A solu\u00e7\u00e3o do autor, mais do que dar conta do problema, cria um novo significante. Converte a estrutura em mais um modo de relacionar tempo e espa\u00e7o.\u00a0<em>Vertigem do ch\u00e3o\u00a0<\/em>estrutura-se sobre um recurso que faz lembrar\u00a0<em>Senhorita Cora<\/em>, de Cort\u00e1zar. Mas, no romance, o recurso assume forma pr\u00f3pria, torna-se poderoso significante que espelha a rela\u00e7\u00e3o dos personagens e refor\u00e7a o que \u00e9 narrado. Se Leonel e Stefan habitam o mesmo local em tempos diferentes e o mesmo tempo em locais diferentes; e se experimentam coincid\u00eancias em suas decis\u00f5es, no n\u00edvel da escrita do texto ocorre o mesmo: habitam a mesma frase em tempos diferentes.<\/p>\n<p>Uma explicita\u00e7\u00e3o disso \u00e9 o trecho em que Leonel, perdido em Utrecht, procura a casa onde se hospedar\u00e1, e para onde Stefan mandou suas malas de t\u00e1xi e vai correndo do aeroporto ao\u00a0<em>hostel<\/em>\u00a0em Curitiba: \u201cTirou a mochila e tocou as palmas das m\u00e3os no ch\u00e3o, depois cruzou-a nas costas. O mundo acontecia diante dos olhos de Leonel, o alien\u00edgena. Demorou-se ali, esquecido do frio agora sem neve, at\u00e9 as orelhas come\u00e7aram a doer demais. O suor escorria, calor e frio, enjoo, barriga vazia e o cora\u00e7\u00e3o acelerado. Da corrida, era claro. Um estranhamento completo de tudo, o que estava fazendo l\u00e1, que lugar era aquele, n\u00e3o via um rosto desde o aeroporto\u201d. Veja:\u00a0<em>O suor escorria, calor e frio, enjoo, barriga vazia e o cora\u00e7\u00e3o acelerado<\/em>\u00a0\u00e9 uma frase-passagem ocupada simultaneamente pelos dois personagens, mas em tempos distintos em seus enredos. O que \u00e9 fim, na cena de Leonel, \u00e9 in\u00edcio, na de Stefan. Assim como Curitiba \u00e9 o que fica para tr\u00e1s, para um, e o horizonte que se abre, para o outro. Em seus pr\u00f3prios tempos, ambos habitam o mesmo espa\u00e7o da p\u00e1gina, mesmas palavras, manchas de tinta. Est\u00e3o no mesmo tempo da leitura, em latitudes diferentes.<\/p>\n<p>Frases-passagem como essa estruturam o texto e potencializam significados. E convivem com outro recurso que refor\u00e7a o projeto est\u00e9tico. Em vez de coabitar uma frase, \u00e0s vezes Leonel e Stefan se fundem numa pessoa: a terceira do plural: \u201cUma voz do outro lado do interfone disse algo que Stefan n\u00e3o entendeu, Leonel tampouco. Algu\u00e9m no mundo que n\u00e3o fossem carimbos, pedintes, fantasmas ou portas com sensores daria a eles a garantia de que existiam. Interpelados pela pergunta-ru\u00eddo, fariam sair algum fio de voz, som minimamente articulado que desencadeasse a a\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>O tempo \u00e9 um dos grandes eixos articuladores do livro. Ambos os personagens est\u00e3o em crise com a passagem dos anos, a paralisia da vida em um tempo. \u201cEm breve chegariam aos trinta anos e a maioria dos manuais dizia: come\u00e7ariam a perder massa muscular e ganhar gordura. Os quarenta cent\u00edmetros da panturrilha de Stefan se transformariam em qu\u00ea? Os oitenta cent\u00edmetros enxutos da circunfer\u00eancia abdominal de Leonel? Tantos anos de cuidado com o corpo para que o corpo os levasse aonde mesmo? Quem eram na ordem do dia, no estado das coisas, na hierarquia do mundo?\u201d Desejam fugir do passado e ir para o futuro. Mas, se poss\u00edvel, sem avan\u00e7ar demais no tempo do calend\u00e1rio. Ir para o futuro sem envelhecer muito. Mudar de geografia para fugir de um tempo.<\/p>\n<p><strong>5)<\/strong>\u00a0Ainda sobre o tempo: N\u00e3o h\u00e1 como voltar para casa, lembran\u00e7a que o livro nos coloca. N\u00e3o h\u00e1 como sair e retornar para o mesmo lugar, pois o lugar tamb\u00e9m \u00e9 o tempo em que l\u00e1 se estava. O tempo \u00e9 um mapa, sugere-nos\u00a0<em>Vertigem do ch\u00e3o<\/em>. Curitiba e Utrecht n\u00e3o mudaram de latitude e longitude. O Marrocos de Fadilah e o Haiti de Desimond permanecem nos pontos do globo. Mas mudaram de tempo. J\u00e1 n\u00e3o s\u00e3o os lugares abandonados, ser\u00e3o espa\u00e7os por reinaugurar, se houver a tentativa (frustrada) do regresso.<\/p>\n<p><strong>6)<\/strong>\u00a0E essa vertigem, a\u00a0<em>Vertigem do ch\u00e3o<\/em>? A ep\u00edgrafe de Terry Pratchett sugere uma chave: \u201c\u2018Eu n\u00e3o vou montar em um tapete m\u00e1gico!\u2019, ele sussurrou. \u2018Tenho medo do ch\u00e3o\u2019. \u2018Voc\u00ea quer dizer de altura\u2019, disse Conina [&#8230;] \u2018Eu sei o que quero dizer! \u00c9 o ch\u00e3o que nos mata!\u2019\u201d<\/p>\n<p>Mas \u00e9 imposs\u00edvel n\u00e3o fazer outras leituras. Leonel e Stefan, a dan\u00e7a e a corrida, recordam que nossa rela\u00e7\u00e3o com o ch\u00e3o \u00e9 de constante desequil\u00edbrio. \u201cCorrer \u00e9 alternar equil\u00edbrio e desequil\u00edbrio, um p\u00e9 brevemente plantado lan\u00e7a o corpo para o voo enquanto o outro se joga para a frente em busca de sustenta\u00e7\u00e3o\u201d e \u201ca dan\u00e7a lidava com a rela\u00e7\u00e3o dial\u00f3gica entre equil\u00edbrio e desequil\u00edbrio\u201d. Dan\u00e7ar, correr, o simples caminhar: s\u00f3 existimos em desequil\u00edbrio. Equil\u00edbrio \u00e9 estar parado, est\u00e1vel. Intervalo entre dois desequil\u00edbrios? Nossa rela\u00e7\u00e3o com o ch\u00e3o e o mundo seria a constante vertigem, eterno desequil\u00edbrio. O \u00fanico corpo em perfeito equil\u00edbrio ser\u00e1 o corpo morto, onde o movimento cessou, nada se desloca, o ar n\u00e3o vai e vem, o sangue n\u00e3o pulsa? Talvez a grande ilus\u00e3o (vertigem) dos protagonistas, mesmo vivendo o desequil\u00edbrio como pr\u00e1tica di\u00e1ria, seja buscar um equil\u00edbrio permanente.<\/p>\n<p>Outro ch\u00e3o, outras vertigens: a inevit\u00e1vel rela\u00e7\u00e3o com o ch\u00e3o a que n\u00e3o perten\u00e7o: a casa alheia, o pa\u00eds desconhecido, a cal\u00e7ada esburacada a 10 mil quil\u00f4metros do cal\u00e7amento perfeito de Utrecht. Como pisar um ch\u00e3o que me deixa inseguro sem ser notado. Quando piso o solo desconhecido, \u00e9 inevit\u00e1vel a pergunta: por que \u00e9 t\u00e3o f\u00e1cil perceber que sou estrangeiro? Ser\u00e1 o modo como me desloco em constante vertigem, aprendendo a pisar este ch\u00e3o?<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/cezartridapalli.com.br\/?attachment_id=2153\" rel=\"attachment wp-att-2153\"><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter\" src=\"https:\/\/cezartridapalli.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/Captura-de-Tela-2020-11-18-\u00e0s-16.36.09.png\" \/><\/a><\/p>\n<p><strong>7)<\/strong>\u00a0Uma \u00faltima \u2013 mas n\u00e3o a \u00faltima \u2013 proposi\u00e7\u00e3o entre tempo, espa\u00e7o, ch\u00e3o, vertigens: em um parque, Leonel dan\u00e7a um espet\u00e1culo solo, de olhos vendados. N\u00e3o sabe se \u00e9 visto. A pergunta: se ningu\u00e9m viu, o espet\u00e1culo existiu? O livro nunca lido existe? O filme nunca visto? H\u00e1 todo um clich\u00ea a\u00ed sobre a inevit\u00e1vel rela\u00e7\u00e3o arte-p\u00fablico acontecer no outro. H\u00e1 tamb\u00e9m uma discuss\u00e3o que lembra ideias conceitualistas colocadas nos anos 1960 por artistas como Lawrence Wiener e Sol LeWitt: em um resumo grosseiro, a obra de arte, para existir, bastaria ser pensada. A execu\u00e7\u00e3o seria uma etapa dispens\u00e1vel. Nesse prisma, a\u00a0<em>performance\u00a0<\/em>de Leonel existiu. Se discordamos da no\u00e7\u00e3o conceitualista, a\u00a0<em>performance<\/em>\u00a0pode nunca ter havido.<\/p>\n<p>Mas quero crer que essa discuss\u00e3o e a cena do livro trazem algo mais para pensar: parece que o livro subitamente se hiperpresentifica ao discutir a exist\u00eancia em rela\u00e7\u00e3o. Embora lan\u00e7ado em 2019,\u00a0<em>Vertigem do ch\u00e3o<\/em>\u00a0pensa sobre 2020: nessa cena e nos encontros e rejei\u00e7\u00f5es entre seres sempre estrangeiros uns aos outros, sublinha o bicho relacional que \u00e9 a esp\u00e9cie humana \u2013 para bem e para mal.<\/p>\n<p>Escrevo este texto em pleno isolamento social. Popula\u00e7\u00f5es inteiras de pa\u00edses como It\u00e1lia e Espanha proibidas de sair de casa. Momento que decreta: mesmo quando n\u00e3o nos olhamos, falamos, reparamos e simplesmente nos aglomeramos em centros urbanos, estamos em rela\u00e7\u00e3o. Sempre nos influenciamos. N\u00e3o acabamos em nossos corpos. Nossos corpos, na obra de Tridapalli e na realidade, talvez sejam fronteiras maltra\u00e7adas e malprotegidas, facilmente invadidas por amor, medo, v\u00edrus. Ou talvez desejem ser invadidas pelo olhar, pensamento, curiosidade de um qualquer, como no caso de Leonel.<img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/revistacontinente.com.br\/public\/uploads\/data\/files\/c-continente.jpg\" alt=\"\" width=\"13\" height=\"18\" \/><\/p>\n<p><strong>REGINALDO PUJOL FILHO<\/strong>, escritor ga\u00facho, autor de\u00a0<em>N\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 bem isso e S\u00f3 faltou o t\u00edtulo<\/em>.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A revista pernambucana de cultura Continente traz extensa an\u00e1lise de\u00a0Vertigem do ch\u00e3o, escrita pelo\u00a0escritor ga\u00facho Reginaldo Pujol Filho. Trata-se de [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":2095,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0},"categories":[61],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/cezartridapalli.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2092"}],"collection":[{"href":"https:\/\/cezartridapalli.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/cezartridapalli.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cezartridapalli.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cezartridapalli.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=2092"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/cezartridapalli.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2092\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2185,"href":"https:\/\/cezartridapalli.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2092\/revisions\/2185"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cezartridapalli.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/2095"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/cezartridapalli.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=2092"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/cezartridapalli.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=2092"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/cezartridapalli.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=2092"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}