{"id":2194,"date":"2021-04-06T19:51:02","date_gmt":"2021-04-06T19:51:02","guid":{"rendered":"http:\/\/cezartridapalli.com.br\/?p=2194"},"modified":"2023-02-19T02:14:37","modified_gmt":"2023-02-19T02:14:37","slug":"como-eu-escrevo-entrevista-com-cezar-tridapalli","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cezartridapalli.com.br\/?p=2194","title":{"rendered":"Como eu escrevo? Entrevista com Cezar Tridapalli"},"content":{"rendered":"<p>O site \u201cComo eu escrevo\u201d me fez uma s\u00e9rie de perguntas sobre \u2013 ora, ora \u2013 como eu escrevo. Desconfio que seja a entrevista mais longa que j\u00e1 eu dei acerca de processos de escrita e tal. At\u00e9 porque a entrevista abaixo j\u00e1 \u00e9 a segunda que concedo ao site. Voc\u00ea poder\u00e1 ver, <span style=\"color: #000080;\"><a style=\"color: #000080;\" href=\"https:\/\/comoeuescrevo.com\/cezar-tridapalli\/\">nesse link<\/a><\/span>, a primeira parte da entrevista tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>Abaixo, a segunda parte, que pode ser lida na fonte&nbsp;<span style=\"color: #000080;\"><a style=\"color: #000080;\" href=\"https:\/\/comoeuescrevo.com\/cezar-tridapalli-2\/\">aqui<\/a><\/span>.<\/p>\n<header class=\"entry-header\">\n<h1 class=\"entry-title\">Como escreve Cezar Tridapalli<\/h1>\n<\/header>\n<div class=\"entry-content\">\n<p>Cezar Tridapalli&nbsp;\u00e9 escritor e tradutor, autor de \u201c<em>Vertigem do ch\u00e3o\u201d<\/em>&nbsp;(Moinhos, 2019). \u00c9 tradutor.<\/p>\n<div class=\"wp-block-image\">\n<h5 class=\"alignleft size-large is-resized\" style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-14153 aligncenter\" src=\"https:\/\/comoeuescrevo.com\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/Cezar-Tridapalli-682x1024.jpg\" sizes=\"(max-width: 512px) 100vw, 512px\" srcset=\"https:\/\/comoeuescrevo.com\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/Cezar-Tridapalli-682x1024.jpg 682w, https:\/\/comoeuescrevo.com\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/Cezar-Tridapalli-200x300.jpg 200w, https:\/\/comoeuescrevo.com\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/Cezar-Tridapalli-768x1154.jpg 768w, https:\/\/comoeuescrevo.com\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/Cezar-Tridapalli.jpg 800w\" alt=\"\" width=\"512\" height=\"768\">Cr\u00e9dito: \u00c1gata Schmitt<\/h5>\n<\/div>\n<p><strong>Como voc\u00ea organiza sua semana de trabalho? Voc\u00ea prefere ter v\u00e1rios projetos acontecendo ao mesmo tempo?<\/strong><\/p>\n<p>Quando estou escrevendo um romance, procuro criar obriga\u00e7\u00e3o, como se eu tivesse um chefe ou precisasse bater cart\u00e3o, algo do g\u00eanero. Meu primeiro romance,&nbsp;<em>Pequena biografia de desejos<\/em>, me fez ver como as coisas funcionavam para mim. Sem muita disciplina, tive muito mais dificuldade para acab\u00e1-lo, afin\u00e1-lo, deix\u00e1-lo do jeito que me parecesse org\u00e2nico. Como escrevi umas 40 p\u00e1ginas e abandonei-o por mais de dois anos, a retomada foi um sofrimento s\u00f3, eu n\u00e3o encontrava mais o tom de antes. N\u00e3o \u00e0 toa, precisei cortar muito do que j\u00e1 havia escrito, p\u00e1ginas inteiras. Depois da retomada, reservei per\u00edodos fixos do dia para me dedicar ao livro, \u00e0 escrita, sem me permitir muito espa\u00e7o para subterf\u00fagios procrastinadores. Uma tend\u00eancia grande era eu achar que n\u00e3o tinha ainda todos os elementos necess\u00e1rios para escrever o livro e da\u00ed ficava adiando a escrita atr\u00e1s de leituras e pesquisas e elucubra\u00e7\u00f5es. Ou mesmo colocava coisas que poderiam ser feitas em outro momento como prioridade absoluta, coisinhas do dia a dia mesmo, como ir ao mercado, varrer a casa\u2026<\/p>\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 escrita de romance, quando estou envolvido em um, n\u00e3o tenho outros projetos concorrentes n\u00e3o. \u00c9 foco total. Mal leio outros livros, para n\u00e3o dizer enfaticamente que n\u00e3o leio outros livros. Se eu pudesse viver da escrita que elaboro, talvez pudesse ampliar os focos, mas n\u00e3o \u00e9 o caso e est\u00e1 longe de ser, t\u00e3o longe que eu j\u00e1 sei que nunca vai chegar. Ent\u00e3o, resumindo, \u00e9 isso: quando estou escrevendo um romance, estipulo dias e hor\u00e1rios fixos e naquele tempo eu preciso ir martelando o teclado, sem frescura, sem revis\u00e3o apurada, preciso me confortar vendo as palavras ganhando o espa\u00e7o branco da tela. As revis\u00f5es posteriores ser\u00e3o bem minuciosas \u2013 falarei sobre isso daqui a pouco \u2013, por\u00e9m menos tensas, j\u00e1 que o livro se escreveu, ele existe, a sua materialidade est\u00e1 ali diante dos olhos.<\/p>\n<p><strong>Ao dar in\u00edcio a um novo projeto, voc\u00ea planeja tudo antes ou apenas deixa fluir? Qual o mais dif\u00edcil, escrever a primeira ou a \u00faltima frase?<\/strong><\/p>\n<p>Eu planejo tudo antes, com um rigor que, quando mostro esse planejamento nas minhas oficinas ou bate-papos, acabo impressionando as pessoas. Impressionando para o mal e para o bem, acho eu, pois h\u00e1 quem pense que nem parece um trabalho criativo, geralmente associado \u00e0 liberdade e ao deixar rolar, e sim uma obra de engenharia, ou, bem pior, uma camisa de for\u00e7a, j\u00e1 que tudo \u00e9 muito calculado. Tenho umas fotos de como projeto o livro antes de escrever a primeira linha na tela, elas est\u00e3o&nbsp;<a href=\"https:\/\/comoeuescrevo.com\/cezar-tridapalli\/\">nessa entrevista que j\u00e1 dei para este site<\/a>. Sim, eu projeto com rigor, s\u00f3 que n\u00e3o me obrigo a seguir aquilo de modo t\u00e3o fiel. Permito-me grandes mudan\u00e7as no meio do caminho. O planejamento serve para me dar a primeira seguran\u00e7a: esse livro vai acontecer, \u00e9 vi\u00e1vel, \u00e9 poss\u00edvel. Dizem que o general Eisenhower afirmou certa vez: \u201cnenhuma batalha foi vencida conforme o planejado, mas nenhuma batalha foi vencida sem um plano\u201d. No meu caso, preciso de um plano, e quanto mais detalhado melhor, nem que seja para desviar dele, o que em geral acontece. At\u00e9 poderia ser desafiado a sair escrevendo do nada, abrir o editor de texto e come\u00e7ar. Desconfio que sairia algo, mas o trabalho posterior de corte e costura, a revis\u00e3o da coisa toda \u2013 que j\u00e1 \u00e9 demorada com planejamento \u2013, al\u00e9m do processo em si da escrita, tudo seria mais arrastado. N\u00e3o tenho vontade de experimentar. Gosto de certa organicidade, certa l\u00f3gica. Aprecio frases bem elaboradas, mas tamb\u00e9m o conjunto amarrado dessas frases todas, o corpo que elas v\u00e3o formar. Entendo a fragmenta\u00e7\u00e3o romanesca, e gosto de algumas, mas n\u00e3o me sinto inclinado a fazer isso.<\/p>\n<p>Sobre qual frase \u00e9 mais dif\u00edcil, se a primeira ou a \u00faltima, eu diria que a primeira \u00e9 mais dif\u00edcil quando estou para escrever a primeira, e a \u00faltima \u00e9 mais dif\u00edcil quando estou para escrever a \u00faltima. Vale para as frases do meio; ou seja, a frase seguinte, aquela que est\u00e1 na imin\u00eancia de ser escrita, que nem existe e j\u00e1 parece estar me interrogando, me pressionando, exigindo vir ao mundo, \u00e9 sempre a mais dif\u00edcil. Vou falar uma coisa meio estranha, mas n\u00e3o sinto um grande prazer em escrever. H\u00e1 grandes momentos, sem d\u00favida, mas sou sempre atropelado pela ang\u00fastia.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea segue uma rotina quando est\u00e1 escrevendo um livro? Voc\u00ea precisa de sil\u00eancio e um ambiente em particular para escrever?<\/strong><\/p>\n<p>Digamos que eu tenha publicado um romance e agora queira come\u00e7ar outro, do zero, do branco absoluto: come\u00e7o a tomar notas esparsas, totalmente aleat\u00f3rias, sem conex\u00e3o entre elas: pensamentos que acho interessantes, dedu\u00e7\u00f5es, insights, frases ouvidas, inventadas, suposi\u00e7\u00f5es, imagens que julgo po\u00e9ticas, possibilidades de enredo, esbo\u00e7o de personagens etc. Vou acumulando isso. Depois de j\u00e1 ter uma quantidade razo\u00e1vel, penso em uma forma de unir esse monte de brinquedo espalhado pela sala (met\u00e1fora de quem tem filhos pequenos). E come\u00e7o a fazer o resumo de um livro que ainda n\u00e3o foi escrito. Sem preocupa\u00e7\u00e3o com linguagem, apenas o resum\u00e3o tipo apostila de cursinho pr\u00e9-vestibular, ou seja, aquela coisa sem gra\u00e7a, enfadonha, que afasta os adolescentes da leitura. Depois do resumo feito, vou espalhando a s\u00e9rie de notas esparsas onde acho adequado. A\u00ed eu j\u00e1 tenho enredo, personagens e umas coisas legais que vieram das anota\u00e7\u00f5es. Com tudo isso registrado, s\u00f3 ent\u00e3o parto para o editor de texto, arquivo &gt; novo documento, primeira frase e segue o barco, encalhando \u00e0s vezes, mas sempre chegando ao fim, mesmo que o porto n\u00e3o seja aquele que eu havia planejado. Tenho minhas \u00cdndias para alcan\u00e7ar, mas \u00e0s vezes chego a alguma terra surpresa. Ao final da primeira escrita, imprimo tudo j\u00e1 com um bom espa\u00e7amento entre linhas e com margens grandes, pois sei que vou riscar muito e acrescentar muito (a l\u00e1pis), sempre cortando mais do que acrescentando. Depois desse primeiro tratamento (raramente voc\u00ea vai encontrar uma linha sem alguma mudan\u00e7a), passo tudo a limpo, cortando no editor de texto o que havia cortado a l\u00e1pis, assim como digitando o que havia escrito \u00e0 m\u00e3o. Assim que termino, imprimo tudo novamente e recome\u00e7o o mesmo trabalho. Fa\u00e7o entre quatro (<em>Pequena biografia de desejos<\/em>) e nove&nbsp;<em>(Vertigem do ch\u00e3o<\/em>) revis\u00f5es desse tipo.&nbsp;<em>O beijo de Schiller<\/em>&nbsp;teve um n\u00famero intermedi\u00e1rio, seis revis\u00f5es. Depois que o texto come\u00e7a ent\u00e3o a ficar menos rabiscado, e eu percebo que estou trocando seis palavras por meia-d\u00fazia de sin\u00f4nimos, ou voltando a frases que j\u00e1 havia escrito e riscado em vers\u00f5es anteriores, a\u00ed concluo que j\u00e1 n\u00e3o consigo fazer muito mais pelo livro, est\u00e1 na hora de pedir para algu\u00e9m ler. Tenho alguns bons amigos em quem confio e que leem os originais. Pego o&nbsp;<em>feedback<\/em>&nbsp;deles, avalio, mudo algumas coisas, finco o p\u00e9 em outras e da\u00ed, ent\u00e3o, \u00e9 hora de salvar o arquivo e entregar para a agente, que vai atr\u00e1s de publicar.<\/p>\n<p>Preciso de sil\u00eancio sim, o que \u00e9 uma pena. N\u00e3o sou muito de escrever em aeroporto, rodovi\u00e1ria, sala de espera do dentista. Escrevo no meu local de trabalho, em casa, \u00e0s vezes na praia, \u00e0s vezes no lugar onde se passa o romance (fui duas vezes para Utrecht, na Holanda \u2013 uma no ver\u00e3o, outra no inverno \u2013 para escrever e revisar&nbsp;<em>Vertigem do ch\u00e3o<\/em>).<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea desenvolveu t\u00e9cnicas para lidar com a procrastina\u00e7\u00e3o? O que voc\u00ea faz quando se sente travado?<\/strong><\/p>\n<p>A \u201ct\u00e9cnica\u201d \u00e9 empurrar o texto com a barriga, ou seja, fa\u00e7o um trato comigo mesmo, \u201cponha a hist\u00f3ria para andar\u201d. A\u00ed n\u00e3o fico me preocupando em fazer revis\u00e3o e retoque e corte e acr\u00e9scimo logo ap\u00f3s a escrita, nada da suposta beleza da elabora\u00e7\u00e3o. Muita coisa de que gosto vem nesse momento, como se a tal inspira\u00e7\u00e3o estivesse na ponta dos dedos que tocam o teclado (como se), em outras ocasi\u00f5es eu s\u00f3 fa\u00e7o a hist\u00f3ria andar, contando quem fez o qu\u00ea, como aconteceu, de onde veio um, para onde foi o outro (o planejamento de que falei antes ajuda aqui). Isso me desobriga a ter um texto limpo e lindo j\u00e1 de primeira, o que seria um gatilho para a procrastina\u00e7\u00e3o. Fazer isso me d\u00e1 a sensa\u00e7\u00e3o de que o texto est\u00e1 andando. Da tela em branco vou saltando para tr\u00eas p\u00e1ginas preenchidas, depois quarenta, a\u00ed sessenta e sete, quando vejo j\u00e1 estou chegando na cento e tr\u00eas e a coisa vai se desenvolvendo at\u00e9 o fim.<\/p>\n<p>N\u00e3o quero dar a impress\u00e3o de que \u00e9 simples. Pode ser simples para outro escritor, mas para mim n\u00e3o \u00e9. Desanimo na tela em branco, desanimo na p\u00e1gina tr\u00eas, na quarenta, na sessenta e sete, na cento e tr\u00eas, vou tendo crises de des\u00e2nimo at\u00e9 o fim. E n\u00e3o sei se tenho uma boa resposta para a eventual \u2013 e l\u00f3gica \u2013 pergunta \u201cmas ent\u00e3o por que voc\u00ea escreve?\u201d Tenho umas respostas-padr\u00e3o para dar em entrevista, mas nem sei se \u00e9 isso mesmo.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m n\u00e3o sou rom\u00e2ntico e isso pode decepcionar muita gente que gosta de mistifica\u00e7\u00e3o. Nunca vou responder, por exemplo, coisas do tipo escrevo porque sem isso minha vida perderia sentido. Sim, os la\u00e7os s\u00e3o gerados pelo desejo e o desejo d\u00e1 sentido \u00e0 vida, por isso n\u00e3o critico quem diz isso, s\u00f3 n\u00e3o funciona comigo, n\u00e3o \u00e9 assim.<\/p>\n<p>Ainda sobre estrat\u00e9gias para evitar procrastina\u00e7\u00e3o, nunca fiz, talvez fa\u00e7a um dia: acho que era o Hemingway quem dizia para nunca esgotar o texto em um dia de trabalho. Quando voc\u00ea escreveu e percebe que ainda tem o que dizer, deixe isso para o dia seguinte. Como ideia, gosto, mas nunca provei.<\/p>\n<p><strong>Qual dos seus textos deu mais trabalho para ser escrito? E qual voc\u00ea mais se orgulha de ter feito?<\/strong><\/p>\n<p>Sem d\u00favida alguma foi meu terceiro romance,&nbsp;<em>Vertigem do ch\u00e3o<\/em>, pois eu abandonei o circuito fechado, restrito e conhecido de personagens de algum modo envolvidos com livros e literatura e fui buscar atletas, bailarinos, isl\u00e2micos, haitianos, marroquinos, brasileiros, turcos, holandeses, evang\u00e9licos, homens e mulheres muito diferentes, al\u00e9m de ter sa\u00eddo do raio curto de Curitiba e ter ido buscar uma realidade pouco conhecida para mim, que \u00e9 a da Holanda e tudo que envolve quest\u00f5es de corpo, territ\u00f3rio, fronteiras, migra\u00e7\u00e3o, as contradi\u00e7\u00f5es do conservadorismo e a complexidade da toler\u00e2ncia e do acolhimento. A quantidade de notas esparsas (cerca de seiscentas), as viagens, os estudos, tudo isso fez com que eu precisasse de doses muito grandes de organiza\u00e7\u00e3o, sele\u00e7\u00e3o, cuidado para n\u00e3o entrouxar no livro as tantas informa\u00e7\u00f5es s\u00f3 porque eram informa\u00e7\u00f5es relevantes. Trata-se de um livro maior, o que demanda mais controle entre as partes, as escolhas s\u00e3o muitas e mais dif\u00edceis.<\/p>\n<p>\u00c9 tamb\u00e9m&nbsp;<em>Vertigem do ch\u00e3o&nbsp;<\/em>o texto de que mais me orgulho, o que n\u00e3o significa que para o leitor seja meu melhor livro. \u00c9 grande a quantidade de leitores que prefere&nbsp;<em>Pequena biografia de desejos<\/em>, por exemplo, que \u00e9 meu primeiro romance, tamb\u00e9m o mais singelo, e que, na opini\u00e3o dos que o preferem, conta uma hist\u00f3ria muito bonita, do\u00edda e sens\u00edvel.&nbsp;<em>O beijo de Schiller<\/em>, que ganhou pr\u00eamio nacional e tal, ficou um pouco no limbo, tenho a impress\u00e3o de que os leitores falam menos a respeito, embora eu goste dele na minha trajet\u00f3ria, foi importante ter criado esses personagens, acho que afinei o humor, o tempero ins\u00f3lito em meio ao registro realista, pude explorar o cinismo e as narrativas cruzadas, algo que vai reaparecer com muito mais for\u00e7a em&nbsp;<em>Vertigem do ch\u00e3o<\/em>&nbsp;(outro motivo para ach\u00e1-lo o mais trabalhoso), j\u00e1 que vai contando sem muita separa\u00e7\u00e3o a vida dos dois protagonistas ao mesmo tempo, chegando ao extremo de uma frase atribu\u00edda a um personagem servir para o outro personagem que come\u00e7a a ser narrado logo na frase seguinte.&nbsp;<em>Vertigem do ch\u00e3o<\/em>&nbsp;me deu mais trabalho e creio que dar\u00e1 um pouco mais de trabalho ao leitor, o que, no entanto, n\u00e3o faz dele um livro dif\u00edcil. Pe\u00e7o ao leitor que d\u00ea uma chance a ele, lendo-o at\u00e9 a p\u00e1gina trinta. Se n\u00e3o gostar, pode largar no caminho, ou, melhor, doar, vender num sebo.<\/p>\n<p><strong>Como voc\u00ea escolhe os temas para seus livros? Voc\u00ea mant\u00e9m um leitor ideal em mente enquanto escreve?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o tenho leitor ideal nenhum, a n\u00e3o ser que seja inconsciente. Ou talvez, respondendo de um jeito meio narcisista, eu seja meu leitor ideal, pois li o que escrevi, entendi tudo e ainda por cima gostei, rs. Outra resposta poss\u00edvel: sou habitado por um Outro que me constitui, que se inscreveu em mim e forjou minha subjetividade, ent\u00e3o talvez eu escreva para esse Outro, que sou eu. H\u00e1 uma extimidade a\u00ed (uma suplementa\u00e7\u00e3o da intimidade), um eu que est\u00e1 espalhado fora de mim, mas que se reuniu em mim, constituindo o que sou. Eu estou dentro e fora de mim, assim como o Outro est\u00e1 fora e dentro. Isso \u00e9 meio psicanalist\u00eas. Mas acho que a psican\u00e1lise ajuda tamb\u00e9m a explicar a escolha dos temas (ela explica, Freud explica, mas eu n\u00e3o sei se consigo). Ser\u00e1 que tem a ver com os temas que eu acabo lendo mais? Mas por que eu leio mais sobre determinados temas? Que tipo de la\u00e7o eles estabelecem comigo para que eu os procure mais? Por que alguns assuntos provocam em mim uma quest\u00e3o e outros n\u00e3o? S\u00f3 sei que isso acontece. \u00c0s vezes n\u00e3o damos bola, deixamos passar algo que nos afetou at\u00e9 ser temporariamente esquecido, s\u00f3 que em algum momento ele reaparece, repete-se, insiste at\u00e9 que voc\u00ea se toca e pensa eis a\u00ed uma boa quest\u00e3o para eu n\u00e3o responder, mas pelo menos para coloc\u00e1-la, virando-a e revirando-a, espalhando-a entre personagens que a abordam de modos diferentes, com vieses distintos, concord\u00e2ncias, discord\u00e2ncias, disson\u00e2ncias, gerando a polifonia t\u00e3o caracter\u00edstica do romance.<\/p>\n<p><strong>Em que ponto voc\u00ea se sente \u00e0 vontade para mostrar seus rascunhos para outras pessoas? Quem s\u00e3o as primeiras pessoas a ler seus manuscritos antes de eles seguirem para publica\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>Serei mais sucinto aqui porque acho que j\u00e1 respondi essa em boas partes na terceira pergunta. S\u00f3 consigo me desgrudar do que escrevi depois de achar que n\u00e3o tenho mais nada a acrescentar ao livro. Portanto, pe\u00e7o para algu\u00e9m ler depois de terminadas todas as minhas for\u00e7as revisoras. Os originais de meus tr\u00eas livros foram lidos por pessoas diferentes, e tenho medo de esquecer algu\u00e9m se nome\u00e1-las. Gosto de entregar a pessoas tanto do meio da literatura quanto de outras \u00e1reas, mas que eu sei que s\u00e3o boas leitoras. Por\u00e9m, h\u00e1 dois amigos para quem eu empurrei os tr\u00eas romances em sua vers\u00e3o n\u00e3o-publicada (isso que \u00e9 amigo!): o jornalista e tradutor Christian Schwartz e o escritor Paulo Venturelli. Foram os dois que mais me aguentaram, lendo os originais dos tr\u00eas romances.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea lembra do momento em que decidiu se dedicar \u00e0 escrita? O que voc\u00ea gostaria de ter ouvido quando come\u00e7ou e ningu\u00e9m te contou?<\/strong><\/p>\n<p>Comecei por teimosia, desafiando a mim mesmo, como se eu dissesse duvido que voc\u00ea escreva um romance. Tive aulas na faculdade de Letras da UFPR com o Paulo Venturelli e ele instigava muito, provocava, era odiado ou amado, com poucos meios-termos. Mas ali eu comecei a ler (tardiamente, acho) os grandes romances, cl\u00e1ssicos e tal. E eu era muito tocado por aquilo que lia. Depois fui ser professor, novamente ficava em contato direto com livros de literatura, tamb\u00e9m poesia, conto. Mas minha escolha fora das aulas era sobretudo a de romances. E percebi que o romance consegue a\u00e7ambarcar muita poesia, consegue requintes de linguagem que se assemelham aos encontrados nos grandes poemas. Ent\u00e3o pensei que, se eu fosse escrever, escreveria aquilo que mais leio, que era tamb\u00e9m o que mais me afetava. Da\u00ed fui para o romance, embora tivesse meus poemas adolescentes e tr\u00eas ou quatro contos nunca publicados.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei sinceramente o que eu gostaria de ouvir, se eu soubesse mais sobre a realidade do mercado editorial, por exemplo, isso poderia at\u00e9 atrapalhar, pois \u00e9 uma parte muito dif\u00edcil (estou falando de encontrar um editor e uma casa editora, n\u00e3o de autopublicar, que hoje anda mais f\u00e1cil), \u00e9 chato demais, a gente sequer recebe resposta, h\u00e1 editores que falam que est\u00e3o avaliando para a ag\u00eancia liter\u00e1ria, mas os anos (sim, anos) passam e nunca vem sequer uma resposta padr\u00e3o pra gente viver o luto. Um pouco de organiza\u00e7\u00e3o e as editoras poderiam ao menos dar uma resposta. Tem ainda o fato de que eu n\u00e3o sei me vender, n\u00e3o sei ficar puxando assunto para fazer amizade e estabelecer algum contato para depois pedir avalia\u00e7\u00e3o. Sou um cara bem desconhecido das grandes editoras, do \u201cmeio\u201d, nunca fiquei batendo na porta de forma insistente. No m\u00e1ximo, bati uma vez, ningu\u00e9m quis abrir, eu fui embora. Isso me atrapalha, dizem. Mesmo com uma grande ag\u00eancia liter\u00e1ria por tr\u00e1s, que leu e apostou nos meus escritos, a dificuldade \u00e9 grande. Minhas redes sociais s\u00e3o muito caseiras, at\u00e9 publico as coisas legais que dizem sobre os meus livros, mas com certa vergonha, a\u00ed logo me calo. N\u00e3o sei se quero mudar. Ou na verdade talvez eu queira, mas como n\u00e3o consigo, digo que n\u00e3o quero.<\/p>\n<p>Acho que tudo bem o autor vender seu peixe, travar amizades com pessoas do meio, \u00e9 o l\u00f3gico a ser feito. Tamb\u00e9m h\u00e1 grandes autores que s\u00e3o mais calad\u00f5es. Tem de tudo, qualquer tentativa de classificar e encerrar todo mundo em caixas vai fracassar e eu nem sei mais do que estou falando.<\/p>\n<p><strong>Que dificuldades voc\u00ea encontrou para desenvolver um estilo pr\u00f3prio? Algum autor influenciou voc\u00ea mais do que outros?<\/strong><\/p>\n<p>Eu nem sei se tenho um estilo pr\u00f3prio, mas como eu tenho uma vida pr\u00f3pria, que \u00e9 s\u00f3 minha, que s\u00f3 \u00e9 vivida por mim, ent\u00e3o tenho um jeito pr\u00f3prio de ver as coisas. Mas um jeito de ver as coisas n\u00e3o \u00e9 um jeito de escrever as coisas. Estou mergulhado no caldo das linguagens.<\/p>\n<p>Existe um momento que \u00e9 meio de jorro, mas h\u00e1 tamb\u00e9m o momento da sobriedade. Dessa conversa entre o \u00e9brio e o s\u00f3brio nasce meu jeito de escrever, que gosta de deixar o texto correr, que enfia voz de personagem no meio da narra\u00e7\u00e3o (novidade nenhuma, claro, o discurso indireto livre est\u00e1 a\u00ed h\u00e1 tempos), que gosta de colocar o infamiliar (termo freudiano,&nbsp;<em>unheimlich<\/em>, que remete a um estranho familiar, a um inquietante) aparecendo como vozes na cabe\u00e7a dos personagens, coisas assim. Parece arrog\u00e2ncia dizer que n\u00e3o tive dificuldades para encontrar um estilo pr\u00f3prio, mas \u00e9 o contr\u00e1rio, pois nunca parei muito pra pensar \u00f3, preciso criar um estilo todo meu, virar um mestre Yoda da literatura, inverter tudo e tal (nem assim eu estaria sendo muito original), ent\u00e3o eu nem sei se tenho um estilo pr\u00f3prio. Uso a linguagem e minha tentativa \u00e9 de us\u00e1-la de um modo que ela fa\u00e7a ver algo diferente do senso comum. Melhor do que dizer que a conversa de uma personagem n\u00e3o vai pra frente \u00e9 dizer que \u201cas conversas que ela come\u00e7ava pareciam madeira verde, soltavam fuma\u00e7a mas n\u00e3o pegavam fogo\u201d, como faz o Truman Capote. \u00c9 isso que eu tento. Nem toda a frase precisa ser uma revela\u00e7\u00e3o exuberante e inovadora do mundo (talvez no verso do poema sim), mas que ao menos o conjunto de um romance proporcione isso ao leitor, que ele feche o livro e fique com alguma coisa, que ele sinta que fez uma travessia, grande ou pequena, que o livro afetou seus modos de estar no mundo. Que ele termine o livro at\u00e9 meio cansado. Isso \u00e0s vezes a gente consegue colocar em palavras, \u00e0s vezes n\u00e3o. H\u00e1 um monte de livros (a maioria) que eu li e n\u00e3o consigo sequer contar o enredo b\u00e1sico, mas eu sei com uma certeza que at\u00e9 me espanta \u2013 pois sou um sujeito de poucas certezas \u2013 que muitos desses livros hoje me constituem.<\/p>\n<p><strong>Que livro voc\u00ea mais tem recomendado para as outras pessoas?<\/strong><\/p>\n<p>Desgra\u00e7adamente, estou lendo pouqu\u00edssimo durante a pandemia, nada de fic\u00e7\u00e3o, somente livros de psican\u00e1lise (fa\u00e7o a forma\u00e7\u00e3o permanente e pretendo come\u00e7ar a atender no p\u00f3s-pandemia, caso venha a existir esse per\u00edodo), mas estou traduzindo bastantes livros e, felizmente, livros muito bons. Ent\u00e3o, minhas dicas levam a tr\u00eas autoras italianas, duas delas in\u00e9ditas at\u00e9 ent\u00e3o (as duas primeiras):<\/p>\n<p><em>Onde voc\u00ea vai encontrar um outro pai como o meu<\/em><\/p>\n<p>Rossana Campo<\/p>\n<p>Editora \u00c2yin\u00e9<\/p>\n<p>Um romance desconcertante pela mistura de humor e como\u00e7\u00e3o, de riqueza e simplicidade narrativa, em que a autora fala de um jeito muito lindo e louco sobre a rela\u00e7\u00e3o da protagonista (tem autobiografia a\u00ed no meio) com o pai, que \u00e9 uma figura\u00e7a, para o bem e para o mal. Recomendo muit\u00edssimo.<\/p>\n<p><em>Li\u00e7\u00f5es de felicidade<\/em><\/p>\n<p>Ilaria Gaspari<\/p>\n<p>Editora \u00c2yin\u00e9<\/p>\n<p>O t\u00edtulo sugere at\u00e9 que seja autoajuda. Mas se trata da experi\u00eancia da autora, que, depois de levar um p\u00e9 na bunda e estar vivendo \u2013 alerta de clich\u00ea \u2013 a \u201cdor da separa\u00e7\u00e3o\u201d, resolve viver seis semanas de acordo com seis escolas filos\u00f3ficas pr\u00e9-socr\u00e1ticas. Vai ent\u00e3o experimentando, semana a semana, viver conforme os pitag\u00f3ricos, os ele\u00e1ticos, os c\u00e9ticos, os estoicos, os epicuristas e os c\u00ednicos. Sabe aquele assunto de filosofia que um dia voc\u00ea prometeu a si mesmo que estudaria, mas nunca leu de verdade? \u00d3timo jeito de finalmente come\u00e7ar a cumprir a promessa.<\/p>\n<p><em>Estrangeiros residentes: uma filosofia da migra\u00e7\u00e3o<\/em><\/p>\n<p>Donatella di Cesare<\/p>\n<p>Editora \u00c2yin\u00e9<\/p>\n<p>Esse \u00e9 o livro mais denso da lista, para ler devagar. No entanto, apesar de ser uma obra complexa, \u00e9 muito clara. Leitura fundamental para quem quer entender o movimento das migra\u00e7\u00f5es, hoje e ao longo dos tempos. Entendendo a hist\u00f3ria das migra\u00e7\u00f5es, entendemos boa parte da hist\u00f3ria do mundo.<\/p>\n<p>S\u00e3o tradu\u00e7\u00f5es minhas, mas s\u00f3 sugeri porque realmente gostei.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"Reverso-Context__FullTextTranslation\" class=\"reverso-right reverso-bottom reverso-light\" data-oneclick=\"false\">\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div id=\"Reverso-Context__FullTextTranslation_buttons\" data-oneclick=\"false\">\n<div id=\"Reverso-Context__FullTextTranslation_button-transl\" data-oneclick=\"false\">Translate<\/div>\n<div id=\"Reverso-Context__FullTextTranslation_button-stop\" data-oneclick=\"false\">stop<\/div>\n<div id=\"Reverso-Context__FullTextTranslation_button-back\" data-oneclick=\"false\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div id=\"Reverso-Context__FullTextTranslation\" class=\"reverso-right reverso-bottom reverso-light\" data-oneclick=\"false\"><a id=\"Reverso-Context__FullTextTranslation_icon\" title=\"Reverso Translation\" href=\"http:\/\/www.reverso.net\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-oneclick=\"false\"><\/a><\/p>\n<div id=\"Reverso-Context__FullTextTranslation_buttons\" data-oneclick=\"false\">\n<div id=\"Reverso-Context__FullTextTranslation_button-transl\" data-oneclick=\"false\">Translate<\/div>\n<div id=\"Reverso-Context__FullTextTranslation_button-stop\" data-oneclick=\"false\">stop<\/div>\n<div id=\"Reverso-Context__FullTextTranslation_button-back\" data-oneclick=\"false\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O site \u201cComo eu escrevo\u201d me fez uma s\u00e9rie de perguntas sobre \u2013 ora, ora \u2013 como eu escrevo. Desconfio [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":2192,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0},"categories":[61],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/cezartridapalli.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2194"}],"collection":[{"href":"https:\/\/cezartridapalli.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/cezartridapalli.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cezartridapalli.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cezartridapalli.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=2194"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/cezartridapalli.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2194\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2614,"href":"https:\/\/cezartridapalli.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2194\/revisions\/2614"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cezartridapalli.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/2192"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/cezartridapalli.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=2194"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/cezartridapalli.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=2194"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/cezartridapalli.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=2194"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}