{"id":2240,"date":"2021-07-17T13:32:20","date_gmt":"2021-07-17T13:32:20","guid":{"rendered":"http:\/\/cezartridapalli.com.br\/?p=2240"},"modified":"2023-02-19T02:21:59","modified_gmt":"2023-02-19T02:21:59","slug":"janelas-para-o-abismo-ensaio-para-o-jornal-estado-de-minas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cezartridapalli.com.br\/?p=2240","title":{"rendered":"Janelas para o abismo: ensaio para o jornal Estado de Minas"},"content":{"rendered":"<div class=\"kvgmc6g5 cxmmr5t8 oygrvhab hcukyx3x c1et5uql ii04i59q\">\n<div dir=\"auto\">O Caderno Pensar, do jornal Estado de Minas, \u00e9 um dos cadernos de cultura mais\u00a0importantes do Brasil e dedicou\u00a0as duas p\u00e1ginas centrais da edi\u00e7\u00e3o de 16\/7\/2021 pra falar de um assunto delicado, at\u00e9 pela supress\u00e3o de toda a delicadeza: fanatismo, fundamentalismo.<\/div>\n<\/div>\n<div dir=\"auto\"><\/div>\n<div dir=\"auto\">O ensaio \u00e9 de Cezar Tridapalli, e pode ser lido abaixo ou direto no link do jornal:\u00a0<a href=\"https:\/\/www.em.com.br\/app\/noticia\/pensar\/2021\/07\/16\/interna_pensar,1287102\/janelas-para-o-abismo.shtml\">https:\/\/www.em.com.br\/app\/noticia\/pensar\/2021\/07\/16\/interna_pensar,1287102\/janelas-para-o-abismo.shtml<\/a><\/div>\n<div dir=\"auto\"><\/div>\n<div dir=\"auto\">&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;-<\/div>\n<div dir=\"auto\">\n<section class=\"bg-gray-extra\">\n<div class=\"container container-full-width\">\n<div class=\"row head-cover\">\n<div class=\"col-sm-10 col-sm-offset-1 head-cover-title\">\n<p class=\"h5 mt-20 mb-0\"><span class=\"label label-theme txt-theme-1 d-inline-block p-0\">ENSAIO<\/span><\/p>\n<h1 class=\"txt-serif center-wall mt-0\">Janelas para o abismo<\/h1>\n<h4 class=\"txt-gray-medium mb-0 center-wall\">Ensaio analisa o risco de o Brasil ser dominado por um fundamentalismo que domina pelo medo<\/h4>\n<\/div>\n<\/div>\n<hr class=\"gray-light mt-25 mb-0\" \/>\n<\/div>\n<\/section>\n<section>\n<div class=\"container container-full-width mt-20 mb-20\">\n<div class=\"row\">\n<div id=\"esquerda_8_12_1\" class=\"col-sm-10 col-sm-offset-1 col-md-6 mb-35 js-tools-fixed-parent\">\n<div class=\"article-content\">\n<article>\n<div class=\"row\">\n<div class=\"col-xs-12 col-sm-6\">\n<div class=\"author mb-xs-5\">\n<div class=\"align-center wrap js-columnist\">\n<p><a class=\"txt-gray author-wrapper text-nowrap align-center mt-10 \" title=\"Cezar Tridapalli* - Esp. para o EM\" href=\"https:\/\/www.em.com.br\/busca?autor=Cezar%2ATridapalli%2A%2A%2A%2AEsp%2A%2Apara%2Ao%2AEM\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><span class=\"hidden-print author-circle d-block h6 mt-0 mb-0 text-center txt-serif\">CT<\/span><\/a><\/p>\n<div class=\"ml-10 \"><span class=\"h6 author-name mb-xs-24 name\">Cezar Tridapalli* &#8211; Esp. para o EM<\/span><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p><small class=\"js-columnist d-block txt-gray-medium ml-30 pl-20 ml-xs-0 mt-xs-30 mb-xs-20 pl-xs-0 text-xs-center\"><strong class=\"txt-gray-base\">16\/07\/2021 04:00\u00a0<\/strong>&#8211; atualizado 16\/07\/2021 18:10<\/small><\/p>\n<\/div>\n<div class=\"col-xs-12 col-sm-6\">\n<div class=\"bg-gray-extra share js-columnist align-center justify-center mt-10\">\n<p><small class=\"txt-gray text-uppercase\"><strong>COMPARTILHE<\/strong><\/small><\/p>\n<div id=\"audimaWidget\"><\/div>\n<div><a href=\"https:\/\/cezartridapalli.com.br\/?attachment_id=2239\" rel=\"attachment wp-att-2239\"><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter\" src=\"https:\/\/cezartridapalli.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/Estado-de-Minas.jpg\" \/><\/a><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div id=\"rs_read_this2\" class=\"txt-serif js-article-box article-box mt-15 article-box-capitalize p402_premium\">\n<div>\n<div class=\"img-mobile-full mb-20\">\n<figure><picture class=\"img-wrapper-img-responsive img-wrapper-center-block\"><source srcset=\"https:\/\/i.em.com.br\/hWYxeOtp6YZDUIS8Q1zxcUnMF7o=\/360x0\/smart\/imgsapp.em.com.br\/app\/noticia_127983242361\/2021\/07\/16\/1287102\/20210715194234119127i.jpg 360w\" media=\"(max-width: 767px)\" \/><source srcset=\"https:\/\/i.em.com.br\/KXMiUA_OcL3m6dz-Nul728lUteY=\/675x0\/smart\/imgsapp.em.com.br\/app\/noticia_127983242361\/2021\/07\/16\/1287102\/20210715194234119127i.jpg 675w\" media=\"(max-width: 1365px)\" \/><source srcset=\"https:\/\/i.em.com.br\/YoZy1fc4vKM6OkqXsXqVu6290d8=\/820x0\/smart\/imgsapp.em.com.br\/app\/noticia_127983242361\/2021\/07\/16\/1287102\/20210715194234119127i.jpg 820w\" media=\"(min-width: 1366px)\" \/><source srcset=\"https:\/\/i.em.com.br\/lfodJwg-ZaIS2z4ae_uVfDO6DLM=\/332x0\/smart\/imgsapp.em.com.br\/app\/noticia_127983242361\/2021\/07\/16\/1287102\/20210715194234119127i.jpg\" \/><\/picture><\/figure>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Meu lugar de trabalho um dia se chamou \u2018depend\u00eancia de empregada\u2019. \u00c9 um c\u00f4modo pequeno \u2013 portanto, um c\u00f4modo\u00a0<b>inc\u00f4modo\u00a0<\/b>se pensarmos que ali deveriam caber uma cama, um arm\u00e1rio, um banheiro. Para um escrit\u00f3rio, por\u00e9m, o espa\u00e7o \u00e9 bom. Livros ao fundo e, \u00e0 frente, escrivaninha, computador. E uma janela. Ent\u00e3o, duas janelas: a do computador e a que me mostra a cidade. Sou tradutor, passo boa parte dos dias nas duas janelas, ouvindo mundos. Na da tela j\u00e1 fui visitado por muita gente. O neg\u00f3cio \u00e9 movimentado.<\/p>\n<\/div>\n<p>J\u00e1 da janela que me\u00a0<b>mostra\u00a0<\/b>a cidade, do alto e de longe, tudo l\u00e1 fora \u00e9 lento, quase\u00a0<b>parado<\/b>.<\/p>\n<p>Mas no quase cabe muito. Falo de paisagem externa: a casa demolida, o edif\u00edcio que desponta, a ferrugem na prote\u00e7\u00e3o da lumin\u00e1ria \u2013 na dem\u00e3o \u00e0s avessas que o tempo, neur\u00f3tico-obsessivo, insiste em passar nas coisas. E h\u00e1 de se falar tamb\u00e9m da\u00a0<b>paisagem\u00a0<\/b>interna, das mudan\u00e7as na malha da nossa constitui\u00e7\u00e3o, que nos transformam nisso que somos. Eis a experi\u00eancia da travessia. Paisagens, externa e interna, se determinam, \u00edntimas e \u00eaxtimas.<\/p>\n<p>A cidade que me chega, assim como o pa\u00eds a que ela pertence, revela-me o que eu n\u00e3o imaginava poucos anos atr\u00e1s. Conhe\u00e7o os horrores\u00a0<b>hist\u00f3ricos\u00a0<\/b>e dom\u00e9sticos. Entretanto, por n\u00e3o terem sido combatidos, geram horrores novos, filhotes vorazes. Na falta de vacina contra as mazelas sociais do pa\u00eds, eu vislumbro, j\u00e1 a olho nu, muta\u00e7\u00f5es no horizonte.<\/p>\n<p>Traduzo atualmente \u201cPorti ciascuno la sua colpa: cronache dalle guerre dei nostri tempi\u201d, da jornalista italiana Francesca Mannocchi. Algo como \u201cCada um que\u00a0<b>carregue\u00a0<\/b>sua culpa: cr\u00f4nicas das guerras dos nossos tempos\u201d. O livro faz entrar pela minha outra janela regi\u00f5es onde o Estado Isl\u00e2mico meteu n\u00e3o s\u00f3 o nariz ou o dedo, mas todo o corpo do seu fundamentalismo. E meus olhos ora miram atentos a tela, ora buscam solu\u00e7\u00f5es tradut\u00f3rias \u2013 para o texto e para mim \u2013 mirando a cidade em que vivo, uma cidade brasileira. Vou e volto nesse movimento, voo at\u00e9 as terras do Oriente M\u00e9dio e volto de l\u00e1 trazendo olhos novos, que leem com as lentes n\u00e3o apenas dos\u00a0<b>\u00f3culos\u00a0<\/b>que uso para miopia, mas dos pr\u00f3prios fantasmas, essa cidade que, se ficamos desatentos, parece n\u00e3o mudar.<\/p>\n<div class=\"containerads\"><\/div>\n<p>No in\u00edcio, achei que era a miopia quem fazia as\u00a0<b>janelas\u00a0<\/b>se fundirem.<\/p>\n<p>H\u00e1 pouco tempo eu via o Estado Isl\u00e2mico com um estranhamento dif\u00edcil de assimilar. O exerc\u00edcio de abstra\u00e7\u00e3o era \u00e1rduo demais. O jeito de pensar, agir, sentir n\u00e3o dialogava com meu universo de refer\u00eancias. Lembro-me, na \u00e9poca em que escrevia meu\u00a0<b>romance\u00a0<\/b>\u201cVertigem do ch\u00e3o\u201d, de ter lido \u201cHerege\u201d, de Ayaan Hirsi Ali. A cada p\u00e1gina, o queixo descia um cent\u00edmetro. Era uma mistura de horror e incredulidade \u00c0 certa altura de \u201cVertigem\u201d, meu personagem brasileiro \u2013 Leonel \u2013 se v\u00ea hospedado, em Utrecht, na casa de uma imigrante mu\u00e7ulmana, a respeito de quem n\u00e3o sabe nada al\u00e9m da sopa de estere\u00f3tipos que todos recebemos em por\u00e7\u00f5es variadas. Ele pensa:<\/p>\n<p><i>Aquela mulher n\u00e3o deveria estar ali, mas muito longe, sob um sol que castigava ru\u00ednas, entre explos\u00f5es e escombros, chorando a morte de crian\u00e7as em algum massacre, rodeada por homens com turbantes empunhando metralhadoras,\u00a0<b>pedras<\/b>, paus, em algum lugar quente e empoeirado do mundo.<\/i><\/p>\n<p>O que era t\u00e3o distante em termos de\u00a0<b>geografia\u00a0<\/b>e realidade tem se entranhado na realidade brasileira. Exagero?<\/p>\n<p>Irracionalidade obscurantista<\/p>\n<p>De volta ao presente, o livro de Mannocchi me interroga: o fundamentalismo \u2013 que tratarei aqui sem distingui-lo do fanatismo \u2013, uma vez instalado com sua\u00a0<b>estrutura\u00a0<\/b>monol\u00edtica, pode ser afetado por fissuras que permitam infiltra\u00e7\u00f5es de disson\u00e2ncia, de d\u00favida?<\/p>\n<div class=\"containerads\"><\/div>\n<p>N\u00e3o \u00e9 isso que, incrivelmente, temos tamb\u00e9m nos\u00a0<b>perguntado\u00a0<\/b>no Brasil? H\u00e1 limite, haver\u00e1 um momento em que a irracionalidade obscurantista encontrar\u00e1 um muro onde se deter?<\/p>\n<p>Em uma das\u00a0<b>passagens\u00a0<\/b>do livro-reportagem de Mannocchi, encontramos Abudi, 12 anos, que, enquanto falava,<\/p>\n<p><i>cruzava nervosamente o polegar e o indicador da m\u00e3o esquerda, o movimento dos dedos ficava mais brusco quando contava as viol\u00eancias que havia testemunhado. \u201cA primeira execu\u00e7\u00e3o foi terr\u00edvel. Tr\u00eas rapazes degolados na pra\u00e7a, a golpes de\u00a0<b>espada<\/b>. A segunda tamb\u00e9m foi feia: um rapaz jogado de um pr\u00e9dio, acusado de bruxaria. Mas a terceira que eu vi, a de Mourad, foi a pior. N\u00e3o era a mais violenta, por\u00e9m era a mais pr\u00f3xima de n\u00f3s. Ou foi a pior porque est\u00e1vamos nos acostumando, era o que papai falava. Dizia: \u2018Meu filho, n\u00e3o se acostume\u2019\u201d.<\/i><\/p>\n<p>N\u00e3o se\u00a0<b>acostume<\/b>.<\/p>\n<p>\u00c9 del\u00edrio paranoico ver as duas janelas se aproximando? Minha incredulidade de outrora, que me fazia escrever exclama\u00e7\u00f5es e interroga\u00e7\u00f5es desconfiadas \u00e0 margem do livro de Hirsi Ali, desapareceu. Aproxima-se o tempo em que, no Brasil, teremos\u00a0<b>oficialmente\u00a0<\/b>o fundamentalismo trevoso \u2013 vou manter a redund\u00e2ncia \u2013, que domina pelo medo, que amea\u00e7a o espa\u00e7o subjetivo das pessoas, que se imp\u00f5e pela invas\u00e3o violenta de seus corpos.<\/p>\n<div class=\"containerads\"><\/div>\n<p>A vida de Abudi j\u00e1 foi muito semelhante \u00e0 de algumas\u00a0<b>crian\u00e7as\u00a0<\/b>que conhecemos. Ele conta:<\/p>\n<p><i>Antes da chegada do EI eu estava no quarto ano, o meu\u00a0<b>professor\u00a0<\/b>preferido era o Younes, e eu gostava tamb\u00e9m do diretor Qusai. Os meus melhores amigos eram Khaled, Muhammad, Ahmad e Yussef.\u00a0<\/i><\/p>\n<p><i>(&#8230;)<\/i><\/p>\n<p><i>Da\u00ed chegou o EI. E na escola as letras do alfabeto\u00a0<b>passaram\u00a0<\/b>a ser usadas como exemplos para dar o nome das armas: P para proj\u00e9til, H para howitzer (&#8230;). Em um dos textos que usavam para nos ensinar matem\u00e1tica estava escrito: \u201cse uma crian\u00e7a explode a si mesma em meio a um grupo de vinte pessoas e morrem quinze, quantas pessoas restam vivas?\u201d. E da\u00ed nas escolas havia as crian\u00e7as dos milicianos, os seus filhos, vestidos de soldados como os pais, e\u00a0<b>armados<\/b>. Tentavam convencer as outras crian\u00e7as a jurar fidelidade ao Califa.<\/i><\/p>\n<p>Hoje, consigo o que n\u00e3o conseguia h\u00e1 menos de 10 anos: entrever em um livro did\u00e1tico brasileiro problemas matem\u00e1ticos que falem em explodir\u00a0<b>comunistas\u00a0<\/b>(esses fantasmas incorp\u00f3reos que encarnam em qualquer um que proponha marcos civilizat\u00f3rios de conviv\u00eancia), gays, trans, feministas, negros, pobres, presos. \u00c9 a escola sem ideologia. Consigo ainda ver em boa parte dos meus conterr\u00e2neos a saliva a escorrer no canto da boca.<\/p>\n<p>Mannocchi segue seu relato: depois de ocupar a cidade de Sirte, na L\u00edbia, o Estado Isl\u00e2mico finalmente sai derrotado. Como a liberta\u00e7\u00e3o era recente, marcas da\u00a0<b>presen\u00e7a\u00a0<\/b>do EI ainda se faziam ver. Caminhando pela cidade destru\u00edda:<\/p>\n<div class=\"containerads\"><\/div>\n<p><i>havia ainda dois cartazes do Estado Isl\u00e2mico. O primeiro convidava os jovens a rezar, o segundo mostrava um kalashnikov e um texto que dizia: \u201cse voc\u00ea nos trai, trai a sua fam\u00edlia\u201d (&#8230;). Nos hospitais de campanha chegavam crian\u00e7as desidratadas e\u00a0<b>aterrorizadas<\/b>. Os m\u00e9dicos perguntavam onde estavam os pais. Elas respondiam: \u201cEstavam lutando contra voc\u00eas\u201d. Os mais perturbados gritavam para os m\u00e9dicos e para os enfermeiros que eles eram infi\u00e9is e acabariam no inferno.\u00a0<\/i><\/p>\n<p>O fan\u00e1tico faz uma troca. Ele abre m\u00e3o de si, afinal, \u00e9 custoso carregar o peso de ser sujeito e abrir-se para a disson\u00e2ncia. Ent\u00e3o deposita a exist\u00eancia nas m\u00e3os de uma for\u00e7a superior \u00e0 qual se liga verticalmente. A chance de se deparar com o desejo errante \u00e9 trocada por um caminho un\u00edvoco \u2013 sem equ\u00edvoco nem err\u00e2ncia \u2013 que d\u00e1 seguran\u00e7a e livra de\u00a0<b>dilemas<\/b>.<\/p>\n<p>Fanatismo e psicose<\/p>\n<p>Se um fan\u00e1tico fundamentalista se sentar no sof\u00e1 de sua casa \u2013 ou deitar-se no div\u00e3 \u2013 e pedir para que voc\u00ea aponte os motivos pelos quais ele deveria mudar, o que voc\u00ea faria? Nascemos todos nus, de roupas e discursos, mas fomos\u00a0<b>agasalhados\u00a0<\/b>com ambos desde muito cedo. Para quem estrutura a vida ps\u00edquica eliminando cis\u00f5es internas, insinuar a d\u00favida \u00e9 perigoso. Em algum sentido, o fanatismo se assemelha \u00e0 psicose: qualquer rasgo no tecido do discurso montado representa a possibilidade de um surto, de uma viol\u00eancia contra si mesmo ou contra o\u00a0<b>interlocutor<\/b>.<\/p>\n<div class=\"containerads\"><\/div>\n<p>Sempre h\u00e1 inimigos no horizonte do fan\u00e1tico, que, diante da incapacidade de dar linguagem \u00e0 d\u00favida, d\u00e1 lugar \u00e0 passagem ao ato, em geral violento. Sendo assim, o hipot\u00e9tico pedido do fan\u00e1tico no sof\u00e1 da sua casa n\u00e3o passa de um exerc\u00edcio bastante irrealista, a menos que ele d\u00ea um tom sarc\u00e1stico, zombeteiro \u00e0 solicita\u00e7\u00e3o que faz. Jamais lan\u00e7ar\u00e1 m\u00e3o de um pedido assim como se estivesse interessado em \u201cbl\u00e1-bl\u00e1-bl\u00e1, entender outra forma de pensar bl\u00e1-bl\u00e1-bl\u00e1 e cotej\u00e1-la com o meu modo pessoal de entender a vida bl\u00e1-bl\u00e1-bl\u00e1 a fim de, por meio de encontros dial\u00e9ticos e dial\u00f3gicos bl\u00e1-bl\u00e1-bl\u00e1, tornar mais rico e complexo o meu ser bl\u00e1-bl\u00e1-bl\u00e1\u201d. Vai \u00e9 gargalhar com os olhos\u00a0<b>estalados<\/b>.<\/p>\n<p>Mannocchi est\u00e1 preocupada com as crian\u00e7as, filhas dos\u00a0<b>soldados\u00a0<\/b>do Estado Isl\u00e2mico, e pergunta a Rodi, um l\u00edbio que a acompanha:<\/p>\n<p><i>\u201cO que voc\u00ea acha que se deve fazer com os\u00a0<b>filhos\u00a0<\/b>do EI, Rodi?\u00a0<\/i><\/p>\n<p><i>\u201cMataremos o m\u00e1ximo poss\u00edvel deles, o que eles v\u00e3o fazer?\u201d, respondeu com tranquilidade. \u201cO Iraque certamente n\u00e3o tem recursos e provavelmente nem vontade de salvar esses meninos. N\u00e3o h\u00e1 projeto a longo prazo para que se livrem da lavagem\u00a0<b>cerebral\u00a0<\/b>que fizeram neles, por isso correm o risco de se tornarem piores do que seus pais, al\u00e9m disso ainda ser\u00e3o estigmatizados e rejeitados por todos\u201d.\u00a0<\/i><\/p>\n<p><i>(&#8230;)<\/i><\/p>\n<p><i>Ele estava me dizendo: \u00e9 f\u00e1cil para voc\u00ea (&#8230;) pensar sobre as categorias de bem e de mal, de perd\u00e3o e de castigo, mas aqui existe a guerra e os julgamentos s\u00e3o mais simples, as diferen\u00e7as perdem a sutileza e quando perdem a sutileza geralmente o mal\u00a0<b>vence<\/b>.<\/i><\/p>\n<div class=\"containerads\"><\/div>\n<p>Rodi vai al\u00e9m: depois de dizer que tais crian\u00e7as, se viverem,\u00a0<b>crescer\u00e3o\u00a0<\/b>estigmatizadas, afirma que esse estigma se tornar\u00e1 uma identidade em torno da qual se unir\u00e3o para formar novos grupos cada vez mais embebidos no ressentimento, na revolta, no fanatismo.<\/p>\n<p>No Brasil, termos como supremacia branca, mil\u00edcia, armamentismo-crist\u00e3o, narcopentecostalismo entraram no vocabul\u00e1rio e no imagin\u00e1rio. Trazem consigo \u00f3dio, amea\u00e7a, viol\u00eancia. O fundamentalismo boicota a golpes de palavras e de tiros toda busca por\u00a0<b>discernimento<\/b>, toda tentativa de organizar acordos de conviv\u00eancia em que se possa tecer a vida \u2013 n\u00e3o a morte \u2013 a partir da apropria\u00e7\u00e3o subjetiva do desejo. Mas para lidar com o desejo, \u00e9 preciso se haver com a falta e com a lei que todo desejo implica.<\/p>\n<p>Por isso, a d\u00favida \u00e9 salutar, porque faz se abrirem\u00a0<b>lacunas\u00a0<\/b>no sujeito, e lacunas s\u00e3o espa\u00e7o movente, por onde se pode transitar, mudar, deslocar-se.<\/p>\n<p>A d\u00favida que habita o n\u00e3o fan\u00e1tico \u00e9 fruto da\u00a0<b>tentativa\u00a0<\/b>de n\u00e3o aliena\u00e7\u00e3o irrestrita \u00e0 figura de um Outro. Por mais inevit\u00e1vel que seja carregarmos em n\u00f3s as marcas dos que nos formaram, a separa\u00e7\u00e3o desse Outro nos torna mais propensos a saber qual \u00e9 o nosso desejo e a n\u00e3o fazer eco ao desejo do Outro.<\/p>\n<p>Alienar-se ao Outro significa andar com as\u00a0<b>pernas\u00a0<\/b>dele, ver com os olhos dele, falar com a voz dele. \u00c9 fazer-se integralmente objeto desse Outro.<\/p>\n<div class=\"containerads\"><\/div>\n<p>Do sofrimento \u00e0 viol\u00eancia<\/p>\n<p>No fan\u00e1tico, portanto, a disson\u00e2ncia traz muito\u00a0<b>sofrimento<\/b>. Que pode gerar viol\u00eancia. Se a disson\u00e2ncia for interna (duvidar de si mesmo, ou do discurso que habita esse si mesmo na verdade t\u00e3o Outro!), pode-se gerar autopuni\u00e7\u00e3o, culpa. Se a disson\u00e2ncia for externa, do vizinho, de qualquer outra pessoa, pode-se gerar agressividade verbal e f\u00edsica.<\/p>\n<p>A partir da\u00ed, v\u00eam-me \u00e0 cabe\u00e7a alguns\u00a0<b>silogismos\u00a0<\/b>curiosos, dos quais ficamos ref\u00e9ns algumas vezes.<\/p>\n<p><i>Se:<\/i><\/p>\n<p><i>Toda liberdade de express\u00e3o deve ser respeitada.<\/i><\/p>\n<p><i>Mas:<\/i><\/p>\n<p><i>Fulano se expressa atacando a liberdade de express\u00e3o.\u00a0<\/i><\/p>\n<p><i>Logo:\u00a0<\/i><\/p>\n<p><i>(a) Fulano deve ser respeitado; afinal, est\u00e1 se expressando livremente<\/i><\/p>\n<p><i>(b) Fulano n\u00e3o respeitou a premissa maior, ent\u00e3o n\u00e3o merece ser respeitado<\/i><\/p>\n<p><i>\u00a0<\/i><\/p>\n<p><i>Se:<\/i><\/p>\n<p><i>Precisamos ser sempre tolerantes.\u00a0<\/i><\/p>\n<p><i>Mas:<\/i><\/p>\n<p><i>Fulana foi intolerante.\u00a0<\/i><\/p>\n<p><i>Logo:<\/i><\/p>\n<p><i>(a) fulana precisa ser tolerada; afinal, precisamos ser sempre tolerantes<\/i><\/p>\n<p><i>(b) fulana n\u00e3o precisa ser tolerada, pois infringiu a premissa maior\u00a0<\/i><\/p>\n<p>A resposta do fan\u00e1tico aos\u00a0<b>silogismos\u00a0<\/b>ser\u00e1, sem sutilezas, a que mais lhe interessa, a que mais lhe conv\u00e9m, a que mais agrada ao Outro que fala nele. O fan\u00e1tico n\u00e3o est\u00e1 interessado em implicar-se subjetivamente. Ou n\u00e3o consegue.<\/p>\n<p>Fico aqui tentando compor d\u00favidas que me\u00a0<b>assaltam<\/b>, expor posi\u00e7\u00f5es que me preocupam, d\u00e3o medo, angustiam. Trata-se de um convite \u00e0 interlocu\u00e7\u00e3o, um pedido de ajuda para que a elabora\u00e7\u00e3o encontre no outro \u2013 agora em letra min\u00fascula \u2013 peda\u00e7os de discurso que contribuam para algum sentido provisoriamente organizador.<\/p>\n<p>Do fundamentalista, por\u00e9m, n\u00e3o sai convite, n\u00e3o sai\u00a0<b>pedido<\/b>.<\/p>\n<p>No fundamentalista n\u00e3o h\u00e1\u00a0<b>escuta<\/b>.<\/p>\n<p>O fundamentalista n\u00e3o \u00e9 poroso, n\u00e3o absorve, n\u00e3o faz circular sangue in\u00e9dito pelas entranhas. \u00c9 bloco de concreto muito armado. \u00c9 bloco de notas, escritas pelo Outro.<\/p>\n<p>Volto a pensar em Abudi, esse menino que eu sempre preferi acreditar que s\u00f3 existia nos rinc\u00f5es do fim do mundo \u2013 o terraplanista que existe em meus preconceitos me sa\u00fada. Penso ainda na foto j\u00e1 cl\u00e1ssica do urso-polar agarrado a um \u00faltimo\u00a0<b>peda\u00e7o\u00a0<\/b>de gelo que derrete.<\/p>\n<div class=\"containerads\"><\/div>\n<p>E ent\u00e3o penso finalmente nos abudis daqui, mas tamb\u00e9m nas crian\u00e7as que j\u00e1 veneram armas e acompanham os pais em manifesta\u00e7\u00f5es coalhadas de\u00a0<b>s\u00edmbolos\u00a0<\/b>da aliena\u00e7\u00e3o a esse Outro que mostra o suposto Caminho, a pretensa Verdade \u2013 mas n\u00e3o a Vida, para usar uma refer\u00eancia crist\u00e3. Eles t\u00eam um deus, um l\u00edder, uma bandeira: a diversidade lhes \u00e9 intoler\u00e1vel, ela agride e se torna a pista mais evidente de que isso que poderia ser espa\u00e7o de deslocamento, desejo, hip\u00f3tese, encontro, n\u00e3o tem permeabilidade no corpo fan\u00e1tico.<\/p>\n<p>O poeta Ferreira Gullar nos\u00a0<b>deixou<\/b>, entre tantos outros legados, um aforismo cl\u00e1ssico: \u201cA arte existe porque a vida n\u00e3o basta\u201d. Enquanto muitas vidas existem dentro e fora do sujeito de desejo, enquanto precisamos ler literatura para ganhar um pouco mais de vida e novas respira\u00e7\u00f5es, enquanto nos alimentamos de narrativas diversas para tentar simular\u00a0<b>experi\u00eancias\u00a0<\/b>igualmente diversas, o fundamentalismo \u00e9 a antiarte. Ele inveja, na esfera inconsciente, as vidas que n\u00e3o s\u00e3o a sua, por isso quer v\u00ea-las mortas. O j\u00e1 saudoso Contardo Calligaris esclarece: \u201cA vontade de mandar nos outros aparece quando n\u00e3o conseguimos mandar em n\u00f3s mesmos\u201d.<\/p>\n<p>Na esfera da consci\u00eancia, contudo, um\u00a0<b>fundamentalista\u00a0<\/b>que esteja em qualquer uma das minhas janelas transformaria o aforismo de Gullar em \u201ca arte n\u00e3o pode existir porque a minha vida me basta\u201d, ela est\u00e1 em ordem, todas as narrativas fazem sentido do jeito como est\u00e3o, nada pode ser revolvido. E como a vida dele \u00e9 a certa, precisa transformar a vida dos outros na imagem e semelhan\u00e7a da sua. Todos espelhos refletindo a imagem ideal uns dos outros.<\/p>\n<div class=\"containerads\"><\/div>\n<p>O problema \u00e9 que esse para\u00edso fundamentalista n\u00e3o se\u00a0<b>apaziguar\u00e1\u00a0<\/b>porque o estrangeiro, o estranho, o diferente, j\u00e1 tantas vezes degolado e esquartejado, come\u00e7ar\u00e1 aos poucos a latejar outra vez. E um inimigo novo, feito de fantasia ou del\u00edrio, ganhar\u00e1 consist\u00eancia. Ele ser\u00e1 visto no bairro ao lado, e o fan\u00e1tico ir\u00e1 at\u00e9 l\u00e1 mat\u00e1-lo. Depois o inimigo ser\u00e1 visto rondando o quarteir\u00e3o. O fan\u00e1tico ficar\u00e1 \u00e0 espreita, far\u00e1 uma emboscada na madrugada e o matar\u00e1. At\u00e9 revelar-se a clara verdade: o inimigo \u00e9 seu vizinho. E ser\u00e1 executado. Duas noites tranquilas de sono depois, a epifania definitiva: o inimigo est\u00e1 dentro de casa. Ser\u00e1 agredido, violentado, morto.<\/p>\n<p>O fan\u00e1tico fez o que precisava ser feito e tomba exausto. Mas n\u00e3o\u00a0<b>descansar\u00e1<\/b>, logo ouvir\u00e1 passos e vozes indistingu\u00edveis. Vai at\u00e9 a janela, nada l\u00e1 fora. Os passos e as vozes indistingu\u00edveis persistem. Mas l\u00e1 fora, s\u00f3 o sil\u00eancio.<\/p>\n<div><\/div>\n<div><\/div>\n<div><b><i>* Especialista em psicologia cl\u00ednica, mestre em estudos liter\u00e1rios (UFPR), tradutor e escritor. Autor dos romances \u201cPequena biografia de desejos\u201d (2011), \u201cO beijo de Schiller\u201d (2014, vencedor do Pr\u00eamio Minas Gerais de Literatura) e \u201cVertigem do ch\u00e3o\u201d (2019)\u00a0<\/i><\/b><\/div>\n<\/div>\n<\/article>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<\/div>\n<div class=\"o9v6fnle cxmmr5t8 oygrvhab hcukyx3x c1et5uql ii04i59q\"><\/div>\n<div class=\"o9v6fnle cxmmr5t8 oygrvhab hcukyx3x c1et5uql ii04i59q\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Caderno Pensar, do jornal Estado de Minas, \u00e9 um dos cadernos de cultura mais\u00a0importantes do Brasil e dedicou\u00a0as duas [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":2239,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0},"categories":[36,31],"tags":[15,49,42,33,50],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/cezartridapalli.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2240"}],"collection":[{"href":"https:\/\/cezartridapalli.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/cezartridapalli.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cezartridapalli.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cezartridapalli.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=2240"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/cezartridapalli.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2240\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2244,"href":"https:\/\/cezartridapalli.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2240\/revisions\/2244"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cezartridapalli.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/2239"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/cezartridapalli.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=2240"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/cezartridapalli.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=2240"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/cezartridapalli.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=2240"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}