{"id":628,"date":"2011-07-14T22:49:42","date_gmt":"2011-07-14T22:49:42","guid":{"rendered":"http:\/\/pequenabiografiadedesejos.com.br\/?p=628"},"modified":"2023-02-19T02:53:10","modified_gmt":"2023-02-19T02:53:10","slug":"entrevista-para-o-jornale","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cezartridapalli.com.br\/?p=628","title":{"rendered":"Entrevista para o Jornale"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">No in\u00edcio dessa semana, foi realizada longa entrevista sobre o <em>Pequena biografia de desejos<\/em> para o jornal de not\u00edcias on-line <a href=\"http:\/\/www.jornale.com.br\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Jornale<\/a>. A reportagem que foi a p\u00fablico pode ser lida <a href=\"http:\/\/jornale.com.br\/portal\/entretenimento\/71-01-entretenimento\/17164-autor-curitibano-lanca-pequena-biografia-de-desejos.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">clicando aqui<\/a>, com uma reprodu\u00e7\u00e3o parcial da entrevista concedida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Abaixo, coloco a entrevista na \u00edntegra:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">JORNALE \u2013 Como surgiu a ideia de escrever \u201cPequena Biografia de Desejos\u201d?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">TRIDAPALLI \u2013 <strong>Sabe quando o dia-a-dia comezinho te engole? Voc\u00ea acha que tudo \u00e9 prioridade, menos os teus grandes projetos de vida \u2013 esses sempre podem esperar. De repente, ir ao mercado \u00e9 mais importante do que come\u00e7ar a planejar um livro (afinal, \u00e9 preciso comer); a\u00ed os projetos de maior f\u00f4lego e realiza\u00e7\u00e3o pessoal ficam agendados para come\u00e7ar amanh\u00e3. Mas \u00e9 que amanh\u00e3 \u00e9 sempre depois. O amanh\u00e3, quando for hoje, j\u00e1 guardar\u00e1 outros amanh\u00e3s sempre prontos para serem postergados. E com os projetos de vida, que s\u00e3o, digamos, de longo prazo, esse amanh\u00e3 se transforma em m\u00eas que vem, em ano que vem, ou quando nos aposentarmos. E assim nos arrastamos muitas vezes, achando que o presente nos abafa, mas o futuro nos reserva grandes planos. Por\u00e9m, nos esquecemos de que sonhar n\u00e3o basta, \u00e9 preciso trabalhar para tecer futuros mais ou menos control\u00e1veis \u2013 j\u00e1 que o controle total \u00e9 imposs\u00edvel. Ent\u00e3o esse duelo entre a vida sonhada e a vida realizada sempre foi uma coisa que me chamou a aten\u00e7\u00e3o. Anos depois de ter lido <em>O deserto dos t\u00e1rtaros<\/em>, do Dino Buzzati, \u00e9 que eu fui perceber por que eu tinha gostado tanto daquele livro. Sonho e realiza\u00e7\u00e3o podem conviver muito bem quando a segunda completa a primeira e come\u00e7am a se retroalimentar. Mas quando o sonho fica patinando, e n\u00e3o sai disso, e a gente se contenta com ficar projetando, sonhando, imaginando, a\u00ed o imagin\u00e1rio vira pris\u00e3o. Enfim, \u00e9 esse debate todo que foi parar nas p\u00e1ginas do <em>Pequena biografia de desejos<\/em>. O conflito entre sonho e realiza\u00e7\u00e3o \u00e9 que fica se contorcendo por l\u00e1. Essa \u00e9 uma das chaves para se ler a obra. Acredito que haja outras ainda.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">JORNALE \u2013 Quais motivos o levaram a escrever sobre a classe trabalhadora e o que o levou a esta abordagem psicol\u00f3gica?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">TRIDAPALLI \u2013 <strong>Eu n\u00e3o daria essa \u00eanfase ao fato de o personagem central ser de classe social humilde. <em>Pequena biogr\u00e1fica de desejos<\/em> n\u00e3o \u00e9, definitivamente, um romance pol\u00edtico \u2013 pelo menos n\u00e3o no sentido panflet\u00e1rio ou de luta de classes. As lutas acontecem mais no \u00e2mbito individual, dentro de cada um. Aprendi muito com a literatura a imaginar que as nossas m\u00e1scaras nem sempre correspondem \u00e0quilo que se passa dentro da gente. Isso n\u00e3o quer dizer que sejamos necessariamente falsos, hip\u00f3critas etc, embora tenhamos uma vontade at\u00e1vica de mostrar ao mundo sempre o melhor de n\u00f3s, escondendo pequenas e grandes incoer\u00eancias embaixo do tapete. Desid\u00e9rio, o protagonista, parece que subverte um pouco isso, j\u00e1 que \u00e9 uma pessoa melhor \u201cpor dentro\u201d do que aparenta ser \u201cpor fora\u201d. Ent\u00e3o o que me interessou, mais do que criar um personagem de determinada classe social, foi quebrar alguns estere\u00f3tipos que costumam colar uma identidade fixa a determinadas m\u00e1scaras. Vamos pensar quais estere\u00f3tipos rondam a nossa cabe\u00e7a quando pensamos em um porteiro de edif\u00edcio? \u201cPorteiro de edif\u00edcio\u201d \u00e9 um nome, um t\u00edtulo, uma etiqueta grudada na testa, uma m\u00e1scara, mas isso n\u00e3o diz nada \u2013 ou diz pouco \u2013 sobre o homem que se esconde por tr\u00e1s do r\u00f3tulo. Por que n\u00e3o tentar investigar as profundezas desse homem, essa parte imensa do iceberg que fica submersa e que o distingue de todos os outros homens, porteiros e n\u00e3o porteiros? Desid\u00e9rio poderia ser qualquer r\u00f3tulo, de qualquer classe social. Eu buscaria fazer a mesma coisa, independente de ser ele pobre ou n\u00e3o: trazer \u00e0 tona caracter\u00edsticas que o tornam singular e compartilhar essa experi\u00eancia t\u00e3o \u00edntima dele com o leitor, que, espero, saia enriquecido desse encontro. <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">JORNALE \u2013 Quais s\u00e3o os seus autores preferidos? A obra de algum deles influenciou na escrita de &#8220;Pequena Biografia de Desejos&#8221;?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">TRIDAPALLI \u2013 <strong>Embora se espere originalidade de um escritor, n\u00e3o vou conseguir ser original nessa resposta. Dos autores mais antigos, no Brasil eu ficaria com Machado de Assis; fora do nosso pa\u00eds, eu citaria Dostoievski. A agudeza na forma de prender a respira\u00e7\u00e3o, mergulhar nas personagens e emergir trazendo nuances at\u00e9 ent\u00e3o veladas de comportamentos e modo de ser \u00e9 algo que sempre me impressionou neles. Aliado a isso, existe um humor t\u00e3o sutil, daqueles que a gente nem chega a sorrir externamente, mas que aciona um dispositivo interno que nos diverte. O pr\u00f3prio Dostoievski tem um romance menos conhecido chamado <em>A aldeia de Stiep\u00e2ntchikov e seus habitantes<\/em> que \u00e9 divertid\u00edssimo e faz um desfile de personagens que mostra bem como \u00e9 a tal fauna humana (risos). O <em>Triste fim de Policarpo Quaresma<\/em>, do Lima Barreto, \u00e9 tamb\u00e9m uma obra que me chama aten\u00e7\u00e3o por conter um tipo de humor que, no final, nos deixa constrangidos pelo fato de termos rido. \u00c9 um personagem engra\u00e7ado pelo idealismo tresloucado, mas que, \u00e0 medida que seu triste fim se aproxima (n\u00e3o estou estragando a hist\u00f3ria contando ao leitor que ele tem um triste fim, n\u00e3o \u00e9? O t\u00edtulo do livro j\u00e1 o entrega!), a gente engole seco aquela risada do in\u00edcio. Dalton Trevisan tamb\u00e9m me d\u00e1 a impress\u00e3o de que quer provocar riso e nos deixar mal por isso. Ent\u00e3o, passando para autores mais contempor\u00e2neos, eu tamb\u00e9m n\u00e3o consigo ser original: Ian McEwan, Philip Roth, Enrique Vila-Matas. Recentemente, um amigo meu disse que o meu livro tinha muito a ver com <em>A eleg\u00e2ncia do ouri\u00e7o<\/em>, da francesa Muriel Barbery. Fui ler. Gostei e realmente percebi alguns pontos de contato, principalmente pelo fato de haver uma personagem que desmonta os estere\u00f3tipos que se podem ter em rela\u00e7\u00e3o a ela. Enfim, claro que existem outros autores, mas esses foram o meu <em>top of mind<\/em>. <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">JORNALE \u2013 Algum movimento liter\u00e1rio foi importante para sua forma\u00e7\u00e3o como escritor e decisivo no desenvolvimento de seu estilo pessoal?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">TRIDAPALLI \u2013 <strong>No in\u00edcio eu pretensiosamente pensava estar escrevendo um romance bem machadiano. Quando eu ia reler, aquilo que eu julgava humor fino se revelava uma patetice imensur\u00e1vel. Desanimei e vi que nem pra copiar eu servia. Fiquei muito tempo sem tocar no livro. Tempo demais, at\u00e9. Quando o retomei, percebi o quanto escrever todo dia era importante e refazer aquela parte j\u00e1 escrita foi muito penoso. Escrever com regularidade \u00e9 que te faz perceber como se desenvolve um estilo. N\u00e3o tem nada de m\u00e1gico no sentido literal do termo, mas \u00e9 uma experi\u00eancia muito singular ir percebendo o jeito como as frases v\u00e3o se moldando e come\u00e7am a esculpir o texto de um jeito quase autom\u00e1tico. N\u00e3o \u00e9 um surto psic\u00f3tico, mas, quando a coisa engrena, \u00e9 como se uma voz interior te mandasse dar determinado ritmo para a frase, fazendo-a curtinha, outras vezes mais longa, te dizendo que n\u00e3o precisa daquela v\u00edrgula \u2013 por mais que a gram\u00e1tica normativa exija \u2013, misturando a voz do narrador com o discurso direto do personagem. \u00c9 algo meio indefinido que come\u00e7a a ditar certa pontua\u00e7\u00e3o, certo ritmo. Algum escritor mais experiente talvez sorria com o canto da boca e pense \u201ceu tamb\u00e9m n\u00e3o conseguia definir isso no in\u00edcio\u201d. \u00c9 isso mesmo, eu n\u00e3o consigo definir muito bem, mas n\u00e3o quero cair nessa de, por n\u00e3o conseguir explicar, acabar dizendo que \u201c\u00e9 algo m\u00e1gico\u201d. Ent\u00e3o, voltando \u00e0 pergunta, acho que n\u00e3o existe um movimento liter\u00e1rio espec\u00edfico que determinou a linguagem, mas todos os autores lidos, de uma forma ou de outra, ficam dan\u00e7ando na cabe\u00e7a da gente at\u00e9 que o movimento dessa dan\u00e7a os fa\u00e7a ficarem borrados, misturados e virarem uma massa informe e imposs\u00edvel de identificar nominalmente, individualmente. S\u00e3o todos ingredientes, mas o prato \u00e9 a gente que faz.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">JORNALE \u2013 Por que voc\u00ea escolheu ambientar a narrativa em Curitiba? Como voc\u00ea v\u00ea a cidade e seus moradores e qual o impacto dessa vis\u00e3o em sua obra?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">TRIDAPALLI \u2013 <strong>Se n\u00e3o me engano, existe aquela hist\u00f3ria do Jos\u00e9 de Alencar, que escreveu <em>O ga\u00facho<\/em> sem nunca ter pisado no Rio Grande do Sul. Como eu escrevo o romance dentro de um registro realista, acho Curitiba uma cidade-personagem muito peculiar (embora ela sirva apenas de cen\u00e1rio ao meu livro), nasci e vivi sempre aqui, n\u00e3o tem por que a hist\u00f3ria se passar em outra cidade. Se a pergunta \u00e9 por que escolher Curitiba, eu respondo com outra pergunta: por que n\u00e3o escolher Curitiba? Como a literatura, do meu ponto de vista, trabalha com a desconstru\u00e7\u00e3o do estere\u00f3tipo, acho dif\u00edcil caracterizar a cidade com uns poucos adjetivos, como se eles representassem o todo. Ah, o curitibano \u00e9 assim, o curitibano \u00e9 assado acaba dando poder muito grande a esse r\u00f3tulo, como se fosse capaz de representar todo o indiv\u00edduo, todas as in\u00fameras subjetividades que est\u00e3o sob o r\u00f3tulo de \u201ccuritibanos\u201d. O que eu sei \u00e9 que gosto da cidade, o que n\u00e3o significa que s\u00f3 tenha elogios a ela. Gosto e tor\u00e7o para que seja melhor, muito melhor, para que n\u00e3o se transforme numa converg\u00eancia dos piores defeitos das col\u00f4nias com os piores v\u00edcios das metr\u00f3poles.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">JORNALE \u2013 Qual \u00e9 o p\u00fablico-alvo ao qual voc\u00ea direcionou a sua obra e por que escolheu dialogar com este determinado p\u00fablico?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">TRIDAPALLI \u2013<strong> Acho que qualquer pessoa alfabetizada, que tenha um pouco de intimidade com a l\u00edngua escrita pode ser leitora desse e de outros livros. As leituras ser\u00e3o diversas, claro, uma vez que o leitor, al\u00e9m de <em>retirar<\/em> sentidos do texto, tamb\u00e9m <em>coloca<\/em> sentidos nele por causa do seu repert\u00f3rio de vida e de leitura. Espero que a obra d\u00ea margem a m\u00faltiplas leituras, sinal de que se trata de literatura e n\u00e3o de autoajuda, que precisa ter um sentido mais pronto, uma \u201cmensagem\u201d ou ainda uma moral da hist\u00f3ria. J\u00e1 tive leitor de 14 anos e outro de 65. At\u00e9 onde eu sei, esses foram os extremos. Talvez haja ainda outros mais jovens ou mais velhos, n\u00e3o sei. Tomara.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">JORNALE \u2013 O que voc\u00ea espera despertar nos leitores com sua obra?<strong> <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">TRIDAPALLI \u2013 <strong>Uma mistura paradoxal entre identifica\u00e7\u00e3o e estranheza \u00e9 o que a boa literatura sempre me causou. Quebrar alguns estere\u00f3tipos \u2013 ou us\u00e1-los para subvert\u00ea-los \u2013 \u00e9 um exemplo de estranheza, de ruptura com as expectativas e modelos que trazemos em n\u00f3s. Perceber que esse ser estereotipado ganhou vida interior, vida pr\u00f3pria e que ela \u00e9 cheia de sonhos, de projetos, de rumin\u00e2ncias de sensa\u00e7\u00f5es e pensamentos faz com que cotejemos a vida do personagem com a nossa. Algumas coisas rejeitamos, outras acolhemos. Esse processo \u00e9 o que eu chamo de identifica\u00e7\u00e3o. N\u00f3s temos um mundo de certezas e incertezas dentro da gente. O livro tamb\u00e9m traz isso dentro dele e, desse atrito entre mundos, sa\u00edmos diferentes, modificados de alguma forma justamente por esse jogo de estranhamentos e identifica\u00e7\u00f5es. Se <em>Pequena biografia de desejos<\/em> conseguir isso, ainda que de leve, eu j\u00e1 come\u00e7aria a ficar satisfeito. Se o livro ainda conseguir fazer isso com \u2013 ou por meio de \u2013 alguns requintes de linguagem, melhor ainda.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">JORNALE \u2013 Como voc\u00ea v\u00ea a literatura brasileira contempor\u00e2nea e seus leitores? O que voc\u00ea espera para o futuro desta \u00e1rea art\u00edstica e cultural e como voc\u00ea v\u00ea sua obra inserida neste contexto?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">TRIDAPALLI \u2013 <strong>Tem muita coisa boa, n\u00e9? Quando eu ensinava literatura brasileira, algumas vezes trabalh\u00e1vamos identificando movimentos, tend\u00eancias desde o final do s\u00e9culo XVII, passando por arcadismos, romantismos, realismos e modernismos, engavetando as escolas liter\u00e1rias. Acho que \u00e9 uma simplifica\u00e7\u00e3o fazer esse tipo de classifica\u00e7\u00e3o, mas ajuda em certa medida. Quando penso na literatura contempor\u00e2nea, tenho curiosidade de saber como os historiadores v\u00e3o se referir \u00e0 \u00e9poca atual daqui a cem anos, se eles ter\u00e3o que simplificar e conseguir\u00e3o identificar algum fio condutor tem\u00e1tico\/estil\u00edstico que d\u00ea unidade a tanta diversidade. Pena que n\u00e3o estarei mais aqui pra matar minha curiosidade. Mas \u00e9 um leque t\u00e3o grande de coisas sendo escritas, n\u00e3o? Vamos ver o que sobreviver\u00e1.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Quanto aos leitores, hoje tem mais gente alfabetizada, as classes sociais mais pobres est\u00e3o tendo acesso \u00e0 escola, o que \u00e9 bom. Claro, a quantidade est\u00e1 sendo resolvida, mas a qualidade ainda \u00e9 uma tristeza danada. E a literatura tem um qu\u00ea de sofistica\u00e7\u00e3o que demanda certa habilidade do leitor. N\u00e3o quero ser arrogante ao dizer que \u201cs\u00f3 os bons\u201d leem literatura, nada disso, s\u00f3 estou dizendo que, para ler certa literatura, existem recursos de linguagem que precisam ser dominados e pelos quais o leitor deve passear com desenvoltura. E isso, infelizmente, n\u00e3o \u00e9 uma realidade no Brasil. No Brasil de qualquer classe social. Temos uma elite que tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 leitora, que \u00e9 tosca mesmo, que n\u00e3o consegue se pensar em rela\u00e7\u00e3o ao outro e ao seu pa\u00eds. E todos perdem com esse n\u00e3o acesso: os autores, os editores, livreiros, leitores que n\u00e3o s\u00e3o bons leitores etc. Mais uma vez vou usar o recurso do clich\u00ea, sem nenhuma originalidade: \u00e9 a educa\u00e7\u00e3o que pode melhorar esse quadro todo, para que a literatura n\u00e3o seja o privil\u00e9gio de um gueto, de uma igrejinha com poucos seguidores. E a educa\u00e7\u00e3o passa pela escola, mas vai al\u00e9m dela, com a facilita\u00e7\u00e3o do acesso aos bens culturais, inclus\u00e3o digital, essas coisas todas.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Quanto \u00e0 minha obra nesse contexto, que \u00e9 a quarta parte da tua pergunta, eu a vejo com reserva e mod\u00e9stia. Claro que quero ser lido, mas o meu temperamento sempre me conduziu para o caminho que evita deslumbramentos. Sou p\u00e9ssimo marqueteiro da minha obra, n\u00e3o consigo chegar nas livrarias e pedir para organizar bate-papos, sou t\u00edmido pra caramba na hora de falar formalmente sobre qualquer assunto, sempre vou pedir para dar entrevista por escrito (risos), essas coisas todas. Ent\u00e3o, tudo isso faz com que eu nutra a expectativa de que a obra consiga transitar por si pr\u00f3pria, a despeito do seu autor. N\u00e3o \u00e9 charme, n\u00e3o \u00e9 jogo de cena. \u00c9 uma inaptid\u00e3o mesmo, que, de repente, at\u00e9 pode prejudicar a sorte do livro. Mas n\u00e3o vou conseguir mudar meu jeito de ser. Tomara que o Desid\u00e9rio consiga levar o livro adiante. Ou melhor: tomara que o narrador consiga lev\u00e1-lo adiante, j\u00e1 que o Desid\u00e9rio \u00e9 outro t\u00edmido que fala ainda menos do que eu.<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A entrevista foi concedida a C\u00e1ssia Lorenza.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No in\u00edcio dessa semana, foi realizada longa entrevista sobre o Pequena biografia de desejos para o jornal de not\u00edcias on-line [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":662,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0},"categories":[6,61],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/cezartridapalli.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/628"}],"collection":[{"href":"https:\/\/cezartridapalli.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/cezartridapalli.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cezartridapalli.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cezartridapalli.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=628"}],"version-history":[{"count":27,"href":"https:\/\/cezartridapalli.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/628\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2691,"href":"https:\/\/cezartridapalli.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/628\/revisions\/2691"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cezartridapalli.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/662"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/cezartridapalli.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=628"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/cezartridapalli.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=628"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/cezartridapalli.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=628"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}