{"id":779,"date":"2012-01-23T13:13:29","date_gmt":"2012-01-23T13:13:29","guid":{"rendered":"http:\/\/pequenabiografiadedesejos.com.br\/?p=779"},"modified":"2023-02-19T02:52:31","modified_gmt":"2023-02-19T02:52:31","slug":"779","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cezartridapalli.com.br\/?p=779","title":{"rendered":"A metaliteratura em &#8220;Pequena biografia de desejos&#8221;"},"content":{"rendered":"<div style=\"text-align: center;\">\n<div style=\"text-align: justify;\">\n<div>&#8220;Less alone&#8221; \u00e9 a resenha sobre <em>Pequena biografia de desejos<\/em> escrita por Arthur Tertuliano e originalmente publicada no blog <a href=\"http:\/\/oleitorcomum.blogspot.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">O leitor comum<\/a>.<\/div>\n<div>________________________________________________________________________________<\/div>\n<div><a href=\"http:\/\/www.nytimes.com\/2012\/01\/15\/magazine\/why-write-novels-at-all.html?_r=2&amp;smid=tw-nytimesarts&amp;seid=auto\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Num artigo do TheNew York Times<\/a>, li as seguintes frases: \u201cThink about it: I can love you because I want to feel less alone, or I can love you because I want\u00a0<em>you<\/em> to feel less alone. But only the latter requires me to imagine a consciousness independent of my own, and equally real.\u201d<\/div>\n<div>Ela resumiria, mais ou menos, duas formas de encarar a escrita de romances atualmente. Respectivamente: uma em que o autor deseja se expressar, de forma a se sentir menos sozinho no mundo \u2013 com o devido aux\u00edlio dos leitores que com ele se identificam; e outra em que ele tem a inten\u00e7\u00e3o de que\u00a0<em>seus leitores<\/em> se sintam menos s\u00f3s. Al\u00e9m disso, afirma que s\u00f3 a segunda forma de escrita requer que o escritor se posicione no lugar do outro \u2013 imaginando-o, independente e real.<\/div>\n<div>Voltaremos ao tema mais adiante.<\/div>\n<div style=\"text-align: center;\">* \u00a0*\u00a0 *<\/div>\n<div>No dia 29 de mar\u00e7o de 2011, K. me convidou para o lan\u00e7amento do romance\u00a0<em>Pequena biografia de desejos<\/em>. O autor tinha sido seu professor de literatura no ensino m\u00e9dio. O evento era em uma livraria charmosa daqui de Curitiba. Mas eu mal havia come\u00e7ado o curso de Letras e estava empolgad\u00edssimo com a leitura da Il\u00edada de Homero.\u00a0<em>\u00c9 a minha segunda aula favorita<\/em>, disse no e-mail de resposta. De qualquer forma, sem maior interesse pelo livro, minha presen\u00e7a no evento seria apenas mais uma forma de ajudar a encher de pessoas o lan\u00e7amento de um jovem autor paranaense. Praticamente n\u00e3o houve disputa entre o cl\u00e1ssico e o contempor\u00e2neo.<\/div>\n<div>J\u00e1 no segundo semestre do ano, a disputa pendeu para o outro lado: perdi a primeira semana de aulas para estar presente nos eventos noturnos da Semana Liter\u00e1ria do SESC-PR. No dia de que mais gostei, reencontrei Marcelino Freire (<a href=\"http:\/\/oleitorcomum.blogspot.com\/2011\/11\/literatura-e-perigo.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">e comprei seu \u00faltimo livro para pegar um aut\u00f3grafo<\/a>) e revi muitos amigos. Despedi-me umas quinze vezes, mas sempre encontrava algu\u00e9m novo e engatava uma conversa. Mais ou menos entre a oitava e a nona despedida, uma amiga chamou-me para falar com um escritor \u2013 pouco antes eu confessara que n\u00e3o tinha coragem de tentar a abordagem\u00a0<em>Tenho um blog liter\u00e1rio e gostaria de ganhar um livro para resenhar<\/em>. Ela j\u00e1 o havia convencido a me dar um exemplar de seu romance.<\/div>\n<div>N\u00e3o o reconheci pelo rosto, mas sim pela capa de seu livro. Prometi l\u00ea-lo, resenh\u00e1-lo e, caso n\u00e3o gostasse, enviar meu texto para o\u00a0<a href=\"http:\/\/blog.meiapalavra.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">blog do Meia Palavra<\/a>, ao menos. Publicar a resenha originalmente n\u2019<em>o leitor comum<\/em> j\u00e1 diz alguma coisa.<\/div>\n<div style=\"text-align: center;\">[learn_more caption=&#8221;Leia mais&#8221;]   Ah, a metaliteratura. Costumo am\u00e1-la, ainda que nem sempre funcione comigo. O abuso e o mal uso de certos recursos liter\u00e1rios \u2013 ou a simples falta de um maior exerc\u00edcio da imagina\u00e7\u00e3o para diferenciar a persona (muitas vezes, o narrador) do pr\u00f3prio autor \u2013 me cansam \u00e0s vezes. Sempre tento descobrir a raz\u00e3o para \u201cacreditar\u201d em determinado livro e em outro n\u00e3o, ainda que ambos utilizem expedientes muito parecidos, mas isso \u00e9 bem dif\u00edcil \u00e0s vezes.  Um exemplo. Vejamos o quanto de \u201cmundinho liter\u00e1rio\u201d h\u00e1 em Pequena biografia de desejos (a lista n\u00e3o \u00e9 exaustiva): * Personagem que quer escrever um livro [X] * Personagem que sofre ao escrever [X] * Personagem que \u00e9 leitor voraz [X] * Personagem culto [X] * Cita\u00e7\u00e3o de autores can\u00f4nicos [X] * Cita\u00e7\u00e3o de autores mais obscuros [X] * Cita\u00e7\u00e3o de livro famoso com o qual o livro em quest\u00e3o possa ser comparado [X] * D\u00favida a respeito duma parte do livro poder ter sido escrita por um personagem [X]  Nenhum desses elementos \u00e9 particularmente novo e nenhum deles \u00e9 intrinsecamente um m\u00e9rito ou dem\u00e9rito do romance. Livros que os contenham podem ser brilhantes ou n\u00e3o dizerem nada de novo. Como eu poderia justificar ter gostado desse romance e n\u00e3o de outros muito parecidos? Aqui me remeto \u00e0 cita\u00e7\u00e3o que abriu esse texto. O autor parece escrever para que o leitor se sinta menos s\u00f3 no mundo. E mais do que isso: para que o leitor tenha companhia e veja o \u201coutro\u201d, o autor imagina este (ou o estuda e pesquisa \u2013 n\u00e3o estou interessado exatamente no processo de cria\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria) e o p\u00f5e no papel.  Tentarei explicar o que quis dizer com o par\u00e1grafo anterior. H\u00e1 tr\u00eas personagens principais: um professor de literatura, uma mulher que estudou muito a literatura italiana e um porteiro de pr\u00e9dio \u2013 o protagonista. Este herda uma biblioteca fruto de um inc\u00eandio (ainda leg\u00edvel) no apartamento daquele, possui estranhos h\u00e1bitos com rela\u00e7\u00e3o \u00e0s suas leituras \u2013 uns leem andando; ele anota seus trechos favoritos embaixo do balc\u00e3o da portaria \u2013, se apaixona pela bela mo\u00e7a que fala italiano e quer escrever um livro. Desid\u00e9rio \u00e9 o nome do mo\u00e7o. No pr\u00f3prio romance, vemos certos caminhos mais f\u00e1ceis, devidamente evitados. Para os que adoram um tom confessional \u2013 \u201cah, ele fala disso porque ele viveu isso mesmo\u201d \u2013, o professor de literatura poderia muito bem ser o protagonista da obra. Meio mau-car\u00e1ter e pseudo-intelectual, ele \u00e9 relegado a um segundo plano, no entanto. Al\u00e9m disso, o leitor poderia se identificar mais com a mo\u00e7a bonita, inteligente, viajada e cativante \u2013 e, assim, n\u00e3o sair de sua zona de conforto e distra\u00e7\u00e3o: \u201cUma ratinha de biblioteca. Leitora de literatura desde pequena, teve uma longa fase da vida, da inf\u00e2ncia \u00e0 juventude, na qual se incorporava aos personagens que lia. Durante algum tempo, caminhava pela casa como se fosse Alice; durante outro, como se fosse Em\u00edlia; durante outro, G.H.; ora, Dorian Gray. Era uma esp\u00e9cie de Zelig da literatura. A brincadeira consistia em se fazer passar por personagem durante o maior tempo poss\u00edvel, o que, entre outras coisas, lhe custou a obriga\u00e7\u00e3o de frequentar psic\u00f3logos behavioristas durante quase seis anos\u201d. Mas a mo\u00e7a, al\u00e9m de crescentemente intrigada (e interessada) por Desid\u00e9rio, tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 o foco da narrativa.  Um best-seller apostaria nas outras duas figuras; a adapta\u00e7\u00e3o cinematogr\u00e1fica talvez resgatasse o terceiro elemento a fim de explor\u00e1-lo como al\u00edvio c\u00f4mico. O protagonismo personagem mais simples, em quem n\u00e3o prestar\u00edamos aten\u00e7\u00e3o na cal\u00e7ada ou no \u00f4nibus, causa certa estranheza. Mas, aos poucos, nos permitimos que nos identifiquemos com Desid\u00e9rio: t\u00e3o diferentes e t\u00e3o parecidos. Ele t\u00e1 sozinho na portaria, lendo, enquanto voc\u00ea est\u00e1 sozinho em algum canto, lendo. O personagem, dolorosamente cr\u00edvel e real, faz companhia ao leitor.  Vejamos, por exemplo, uma cena em que Desid\u00e9rio pega um livro: \u201cO primeiro livro do novo acervo, que Desid\u00e9rio, depois de muito tempo, escolheu, foi O deserto dos t\u00e1rtaros, de Dino Buzzati. Chamou a aten\u00e7\u00e3o, mais do que o t\u00edtulo e a curiosidade de saber o que poderia ser um t\u00e1rtaro \u2013 j\u00e1 ouvira a palavra, presente em propagandas de pasta de dente, mas n\u00e3o conseguia imaginar a hist\u00f3ria \u2013, o fato de, no alto da capa de sua edi\u00e7\u00e3o, estar escrito, em letras mai\u00fasculas, GRANDES SUCESSOS DA LITERATURA INTERNACIONAL. Acima, ainda, o \u00edcone de uma m\u00e1quina de escrever, respons\u00e1vel por plantar de modo muito sutil, impercept\u00edvel, as primeiras ideias de tamb\u00e9m ele ser escritos, mas lan\u00e7ou-se em uma aventura imagin\u00e1ria e difusa. Ficava admirado por algu\u00e9m conseguir tirar da cabe\u00e7a \u2013 essa caixa min\u00fascula \u2013 tanto assunto. Desid\u00e9rio n\u00e3o tinha nenhuma no\u00e7\u00e3o de enredo, personagens, trama. Eram palavras que j\u00e1 poderiam ter sido ouvidas, mas n\u00e3o faziam parte, nem de longe, do card\u00e1pio dispon\u00edvel para ele. A capa tinha fundo rosa e, debuxado, o desenho que mostrava uma montanha, em cima da qual havia um castelo. Abaixo da montanha imensa, no primeiro plano, um cavaleiro, montado, seguindo caminho. Se a capa j\u00e1 havia sido respons\u00e1vel por tantas digress\u00f5es, Desid\u00e9rio ficou faminto pela hist\u00f3ria que a capa prometeu revelar, linha ap\u00f3s linha, p\u00e1gina depois de p\u00e1gina. Se o cavaleiro da capa precisava de for\u00e7as para subir a montanha e chegar ao castelo, tamb\u00e9m ele investira suas for\u00e7as para singrar o mar de letras, imagem que Desid\u00e9rio adorava evocar, desde quando viu pela primeira vez o oceano de livros da Biblioteca P\u00fablica.\u201d  Talvez isso seja pouco para justificar que eu tenha curtido a leitura: um protagonista at\u00edpico no mundinho liter\u00e1rio, essa vontade de conhecer a vida dos outros, que tamb\u00e9m podem se encantar com capas de livros e com o oceano de uma biblioteca. O livro \u00e9 bem escrito, algo unanimemente apontado pelas cr\u00edticas, a representa\u00e7\u00e3o de Curitiba \u00e9 t\u00e3o boa quanto a de outro grande t\u00edtulo paranaense que li no ano passado (N\u00f3s passaremos em branco, de Lu\u00eds Henrique Pellanda) e \u00e9 um bom romance de estreia \u2013 bom o suficiente para que fiquemos curiosos acerca do que o autor poder\u00e1 escrever no futuro. E isso \u00e9 o bastante para mim.  Arthur Tertuliano [\/learn_more]<\/div>\n<table cellspacing=\"0\" cellpadding=\"0\" align=\"center\">\n<tbody>\n<tr>\n<td><a href=\"http:\/\/4.bp.blogspot.com\/-7llbRQmOtDQ\/TxiuG2EmJyI\/AAAAAAAAAj0\/380Saoydf_0\/s1600\/bpp3.JPG\"><\/a><\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Less alone&#8221; \u00e9 a resenha sobre Pequena biografia de desejos escrita por Arthur Tertuliano e originalmente publicada no blog O [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":785,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0},"categories":[9,61],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/cezartridapalli.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/779"}],"collection":[{"href":"https:\/\/cezartridapalli.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/cezartridapalli.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cezartridapalli.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cezartridapalli.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=779"}],"version-history":[{"count":18,"href":"https:\/\/cezartridapalli.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/779\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2686,"href":"https:\/\/cezartridapalli.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/779\/revisions\/2686"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cezartridapalli.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/785"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/cezartridapalli.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=779"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/cezartridapalli.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=779"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/cezartridapalli.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=779"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}